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Sumário ISBN 978-85-463-0494-3

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Academic year: 2022

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VIDAS CRUZADAS

&

VIDROS QUEBRADOS

ADÍLIO JUNIOR DE SOUZA

Ideia – João Pessoa – 2019

(3)

Capa/Diagramação Magno Nicolau

Revisão

Cícero Émerson do Nascimento Cardoso

Ilustração da capa

https://www.istockphoto.com/br/foto/amor-cora%C3%A7%C3%A3o-de-fundo-gm621373622-108500141 (Muenz) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD

____________________________________________________________________________

S729v Souza, Adílio Júnior de.

Vidas cruzadas & vidros quebrados. / Adílio Júnior de Souza. – João Pessoa:

Ideia, 2019.

75p.

ISBN 978-85-463-0494-3

1. Literatura brasileira - Contos. 2. Contos brasileiros I. Título.

CDU 81-34

__________________________________________________________________________

Ficha Catalográfica elaborada pela Bibliotecária Gilvanedja Mendes, CRB 15/810

EDITORA www.ideiaeditora.com.br

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Aos meus sinceros e verdadeiros amigos, com muito carinho.

A. J. S.

(5)

PREFÁCIO DA 1ª EDIÇÃO - 6 -

PREFÁCIO DA VERSÃO EM EBOOK - 8 - V I D A S C R U Z A D A S

SEM BALAS - 10 -

DE VOLTA AO PASSADO - 12 - VERDADES - 14 -

MENTIRAS - 16 - TORTURAS - 19 -

MALDITA APOSTA - 21 - O PLANO DE ROUBO - 23 - A FUGA - 25 -

A DESPEDIDA - 27 - O ROUBO - 28 -

PRESOS NA CABANA - 30 - SEM SAÍDA - 32 -

V I D R O S Q U E B R A D O S

MEIA NOITE - 36 - A CARTA - 39 - NOSSO FILHO - 41 -

A MORTE EMINENTE - 43 - PROPOSTA INFERNAL - 45 - NO METRÔ - 48 -

A RUIVA - 51 - O RECOMEÇO - 55 - A CORDA - 59 -

O DEDO DE DEUS - 64 - O ÚLTIMO BEIJO - 66 - VIDROS QUEBRADOS - 69 - POSFÁCIO - 72 -

SOBRE O AUTOR - 74 -

(6)

Prefácio da 1ª edição

Por muito tempo me perguntei o que poderia escrever aqui.

Talves não faça nenhum sentido imaginar como agradar a você que nesse momento lê esse emaranhado de palavras. Não sei se é a arte da loucura ou a paixão pela ficção. O que sei não faz o menor sentido nem para mim e, provavelmente, não fará sentido para você também. Passei noites imaginado o que escrever e ainda não sei ao certo. O que sei é que as palavras fluem como águas cristalinas, sem direção. É como se nenhuma dificuldade houvesse em retratar em poucas linhas o quanto o texto me seduziu, mas seria preciso dizer muito mais.

Isso mesmo, falo da obra Vidas Cruzadas & Vidros Quebrados, escrita por Adílio Souza (URCA/UFPB), um professor que, em poucas páginas, de forma simples e objetiva, conseguiu escrever duas narrativas muito interessantes, as quais estão presentes neste livro.

Vale mensionar que durante o primeiro contato com a obra, quando ainda olhava com fixação para a capa, me questionei várias vezes: Caminhos Cruzados? Vidros Quebrados? Como assim?

Preciso descobrir imediatamente do que trata esse livro! E foi com essa inquietação que iniciei a leitura.

É, querido(a) leitor(a), uma grande aventura te espera. Cada página desta obra é única e extraordinária, além de instigante, é imprevisível. Talves você esteja pensando que é exagero meu.

Porém, nunca falei tão sério.

Durante a leitura da primeira narrativa intitulada Caminhos Cruzados, prepare-se para viajar longe, em tempos remotos, com herança de servidão. O enredo gira em torno, principalmente, de dois personagens centrais: Demétrius e Adrian. Dois rapazes que, coincidentimente, se encontram e descobrem uma amizade sincera.

O dois viverão fantasticas experiências juntos e Adrian descobrirá o quanto pode ser bom viver perigosamente.

As narrativas são curtas, porém trazem um conteúdo forte,

com cenas de infidelidade, violência e crueldade que despertam um

misto de emoções e nos deixam fixados na leitura, uma vez que

apesar de forte, a leitura é bastante prazerosa. Existem também

momentos de descontração (que eu particularmente dei muitas

gargalhadas) e de romantismo, capaz de tornar ainda mais

emocionante a saga.

(7)

Adrenalina não vai faltar! A descrição de detalhes trazida pelo autor nos faz esperimentar profundamente a trama e se indignar com a perversidade humana e com a herança machista e conservadora, que violenta o direito da mulher e a trata, muitas vezes, como objeto sexual, alvo inclusive de torturas. Vale mensionar que este livro apenas revela como as mulheres eram tratadas, mas não se tem a pretensão de justificar as formas de violências ou discultí-las enquanto questão social.

Na segunda parte, a narrativa Vidros Quebrados traz um relato do personagem Márcio, mostrando como sua vida é embalada por momentos de supense, tensão e, muitas vezes, dramáticos, que envolvem principalmente sua esposa Melissa, mulher por quem fora extremamente apaixonado.

O conteúdo é igualmente imprevisível! O que parece ser um casal comum, ao longo dos capítulos, torna-se totalmente incomum. O autor consegue ser dramático e, ao mesmo tempo, enaltecer o sentimentalismo e o amor. Quando tudo parece melhorar, Márcio vivência mais momentos de tristeza e aflição com experiências fortes que envolvem a religiosidade com o dualismo entre o sagrado e o profano, uma proposta infernal e a ações demoníacas sobre sua vida e das pessoas que o cercam. As trevas parecem reinar. A vida não fazia mais sentido e a partir disso um desfecho surpreendente acontece.

O livro Vidas Cruzadas & Vidros Quebrados pode ser considerado uma fantástica obra para quem aprecia contos de ficção, cheios de ação, emoção e suspense. A obra retrata sentimentos, tais como: amizade, companheirismo, amor, ternura e compaixão, assim como infidelidade, raiva, desilusão, tristeza, crueldade, revolta, frieza e ódio. Sentimentos esses que são difíceis de serem explicados em palavras, mas capazes de serem despertados com uma simples leitura.

Então, preparem-se para grandes emoções.

Desejo a todos uma excelente aventura! E que aventura!

Juazeiro do Norte, 10 de setembro de 2016

Maria Dálete Alves Lima

(Esposa e companheira)

(8)

Prefácio da versão em ebook

A primeira edição do livro Vidas Cruzadas & Vidros Quebrados foi publicada originalmente no final de novembro de 2016 (VirtualBooks Editora, 2016), em papel. Todos os exemplares esgotaram-se rapidamente!

Passados esses quase três anos, o professor Adílio dicidiu novamente trazer ao público uma versão em ebook, inteiramente revista pelo professor Cícero Émerson do Nascimento Cardoso, mestre e doutorando em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), autor de livros e artigos sobre literatura e áreas afins.

Salvo alguns pormenores revisados, esta nova versão, agora editada e publicada pela Ideia Editora, contém também um posfácio no qual prof. Émerson Cardoso faz uma análise crítica da obra a partir de seu olhar sagaz.

Desejo, assim, aos novos e antigos leitores(as) uma leitura prazerosa!

Missão Velha, 11 de setembro de 2019 Maria Dálete Alves Lima

(Esposa e companheira)

(9)

V I D A S C R U Z A D A S

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SEM BALAS

Não havia mais saída: só a morte. A certeza de que Demétrius e Adrian sentiam naquele momento angustiante era algo preocupante, mas ao mesmo tempo, um momento para refletirem nas causas de tudo aquilo.

― Quantas balas você tem, Demétrius? ― indagou Adrian, sentindo na boca o gosto amargo do sangue que escorria pela ferida na testa ainda aberta.

― Cinco! ― respondeu asperamente. Notava-se pelo tom de voz que não havia tantas balas assim, talvez no máximo três. Ele voltou-se para o amigo e fez a mesma pergunta, com mais sinceridade:

― Velho amigo, você tem ao menos duas balas aí?

― Eu? Tenho cinco também.

Adrian fez uma conta rápida e percebeu que oito balas não eram suficientes para tantos homens que estavam no lado de fora da cabana, na qual eles haviam entrado.

― Demétrius, eles são muitos! De onde estou posso ver dez e, daí de onde você está, sei que deve ter uns dez também, pois esta cabana tem lados iguais a um maldito retângulo! Não há como escapar, vamos morrer aqui como animais indo em direção ao abatedouro.

Cada palavra saía da boca de Adrian com esforço. Ele estava já muito machucado por causa das quedas e dos espinhos que o feriram no campo, momentos antes. Seus olhos verdes não eram tão belos quanto antes, o sangue da ferida na testa teimava em cair por cima deles indo até o lado direito da boca.

Demétrius, por outro lado, parecia não se importar muito com a situação na qual estavam. Começou a ter certeza de que era justo a sentença de morrer ali dentro, furado de balas, mas em nenhum momento se questionava se a presença do amigo era necessária, uma vez que foi ele quem roubou os diamantes da mulher do fazendeiro da cidade.

A fama de mulherengo dele já havia se espalhado por toda a região e não havia uma mulher, casada ou não, que ele já não tivesse seduzido. Ele era arrogante, sabia lidar com muito dinheiro, era um grande apostador e, principalmente, tinha dotes físicos desejados intensamente por quaisquer mulheres.

De uma forma totalmente oposta, Adrian não gostava de fazer galanteios a uma mulher desconhecida, não bebia e nem fumava;

era um bom homem, honesto e muito dedicado ao trabalho. Nunca

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fez ou tentou fazer mal a ninguém, no entanto, por algum motivo, também estava ali, talvez pelo que havia feito dias antes. Estavam cercados pelos homens do fazendeiro Cavalo do Cão, cujo nome ressalta o terror e o medo.

Cavalo do Cão era um nome bem apropriado para um ser tão inescrupuloso que ordenava aos seus empregados para tirarem o leite das vacas ainda pela madrugada para que os bezerros não o tomassem pela manhã. Na maioria das vezes, ordenava que matassem os que estivessem mais velhos e misturassem aos gados adultos, de forma que não se percebia se a carne era nova ou velha.

Então, este era o homem que horas antes havia convidado os dois rapazes, que agora estavam encurralados, a passar uma noite em suas terras. Os dois tolos mal sabiam que Cavalo do Cão já havia descoberto o romance entre Demétrius e Alexandra, sua esposa.

Balas e mais balas recomeçaram a cair sobre a cabana.

Parecia que o tiroteio só vinha de fora e os homens também perceberam isso. Aproximaram-se e quatro deles caíram mortos cada um com um tiro na testa. Em meio a uma gargalhada, Demétrius gritou:

― Vocês acham mesmo que vamos morrer assim?

― Cala a boca, Demétrius, eles podem identificar a nossa posição, tolo!

― Adrian, me passa a arma!

― Não, ficou maluco?! O que farei eu sem nada?

― Shihhh! Eu sei. Não se preocupe, mas me passa logo!

Adrian entregou a arma meio sem entender nada. Demétrius a pegou e levantou-se, disse em seguida:

― Eu sei como sairemos daqui. Prepare-se!

(12)

DE VOLTA AO PASSADO

Antes de vermos o que se passou após este momento, voltemos ao passado e entendamos como os dois amigos se conheceram.

Era uma tarde de domingo e o céu estava claro, sem nuvens, ventava um pouco. No bar, próximo a uma ferrovia, um homem de chapéu preto bebia de maneira compulsiva. Os goles eram cada vez maiores, ele parecia querer acabar com uma mágoa do peito. Ele usava uma roupa meio suja, sapatos marrons e um cinturão com uma fivela feita de couro de cobra. Sua barba estava crescida, suas mãos cheias de calos das cordas do arreio de cavalo.

Outro homem se aproximou dele e, batendo em suas costas falou calmamente:

― Demétrius! Você já bebeu demais, vá embora que não vendo mais nenhum copo enquanto você não me der o dinheiro que me deves!

― Qual é? Só devo cem moedas! ― falou em meio aos goles.

― São cem, sim! Com os cinquenta de hoje: são cento e cinquenta!

― Tá bom! Já vou!

Demétrius saiu do bar ainda cambaleando. Logo mais adiante viu uma loira, usando um vestido vermelho curto, justo e muito sexy. Ela estava tão perfumada que ele sentiu aquele cheiro mesmo estando muito bêbado.

― A moça aceita companhia?

― Só se vier junto de beijos quentes!

― Nossa! Assim você vai me deixar mais louco do que já estou!

Vem comigo ao lugar onde moro que vou te mostrar como é grande o meu coração. Qual é o teu nome?

― Amanda!

― Adorei o nome. Vamos?

Os dois entraram em um hotel sujo, muito escuro e com as portas entreabertas. Não havia mais do que cinco luzes acesas. As pessoas que ali estavam não falaram nada e nem mesmo olharam para uma moça tão bela, que fazia um contraste entre sua beleza e a sujeira daquele lugar fétido.

Ao entrarem no quarto, ela o olhou como se estivesse com nojo e deitou-se na cama. Tirou o vestido, mas nem precisou tirar as roupas de baixo, pois nada mais havia o que tirar.

Demétrius tirou suas vestes fétidas. Deitou-se perto daquela

linda donzela e a beijou, lambendo-a da boca ao pescoço. Ela

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parecia não gostar de estar ali, porém mesmo assim permaneceu, retribuiu os beijos e finalmente transaram.

Ao nascer do dia, ele notou que ela havia sumido, sem deixar rastros. A cama ainda exalava o perfume daquela linda flor que deitara ali horas antes. Balbuciou:

― Que noite maravilhosa!

Levantou-se e foi banhar-se. Quando ele tomava café, ouviu duas batidas na porta:

― Quem é?

― Adrian!

― E daí? Eu não conheço nenhum idiota com este nome.

― Eu sei que não, mas sei também que vai adorar me conhecer.

Demétrius abriu a porta e viu um jovem de olhos verdes, bem vestido. Trajava uma roupa clara e muito limpa. Era de estatura média, forte, de sorriso simples e simpático.

― Quem é você e o que faz aqui tão cedo? Fale de uma vez!

― Eu me chamo Adrian e estou aqui para salvá-lo.

― Que estória é esta?

― Sabe a loira com quem você saiu ontem?

― Que loira? Não vi nenhuma loira!

― Não se faça de mal entendido, senhor...

― Demétrius... Idiota!

― Ontem, senhor Demétrius, no meio da noite eu estava seguindo a esposa de meu patrão e segui vocês dois até esta espelunca.

― Olha lá como fala de minha casa!

― Perdão, eu os segui até este lindo hotel. Então, passei a noite lá fora, em meu carro, esperando o dia nascer. Quando notei que ela já havia ido, decidi vir aqui te falar.

― E o que você ganha com tudo isso?

― Duas ótimas oportunidades: você vai ficar me devendo esta e ela vai ter que fazer algo por mim, entendeu?

― Garoto, você acaba de ganhar um amigo, vamos ao bar beber para comemorar!

― Eu não bebo!

― Tudo bem, eu bebo e você me segue.

(14)

VERDADES

Os dois recém-amigos saíram do bar e prosseguiram em uma conversa alegre. Eles foram a um lugar que até então não era algo comum para Adrian: uma casa de massagem.

Este era um ambiente perfumado, com as janelas abertas, salões claros, com sofás e camas arrumadas. Havia uma porta iluminada em frente ao centro da entrada principal.

Ao entrar, Adrian falou:

― Que lugar é este?

― Um lugar ótimo para relaxar e esquecer dos problemas...

Vamos escolher uma...

― Escolher o quê?

― Garoto, você precisa sair mais: uma mulher! Idiota!

― Como assim?

― Você é uma besta mesmo!

Dito isto, Demétrius tocou uma campainha e de repente saíram seis mulheres lindas, todas vestidas com roupas sensuais.

Adrian não conseguia esconder o espanto, eram todas lindas. Ele olhou fixamente para aqueles corpos esculturais e disse:

― Posso escolher uma?

― Você não tem imaginação, não? Eu pego três e você as outras três: meio a meio.

― É sério mesmo?!

― Claro!

Tudo isso era novidade para Adrian. Uma casa de massagem, cheia de mulheres lindas, prontas para realizarem quaisquer desejos. Parecia um sonho do qual ele não queria ser despertado.

Eles foram levados para um dos quartos. Todos os quartos eram confortáveis e aquele, em especial, tinha pouca luz. Tinha duas camas enormes e redondas. Deitaram-se. As moças tiraram primeiramente as roupas deles e, em seguida, despiram-se.

Iniciaram uma massagem muito sensual em seus corpos. Adrian não se continha de alegria e prazer, porém estava nervoso por dentro. Então, falou baixinho aos ouvidos de uma moça ruiva:

― Preciso te falar uma coisa!

― Fala, meu benzinho! ― disse a linda ruiva que com ele estava.

― Eu nunca fiz amor com uma mulher...

― Você deve estar zombando de mim, não é? Você ainda é

virgem? Com quantos anos?

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― É verdade, tenho vinte e cinco ― falou Adrian, fazendo um sinal para que Demétrius não risse dele diante das moças.

Demétrius percebendo que o que ele dissera era realmente verdade, chamou uma das moças e falou algumas coisas em seu ouvido, apontando para o amigo. Ela sorriu e veio em sua direção, dizendo:

― Venha, eu vou te fazer outro tipo de massagem em meu quarto.

Ele a acompanhou, mostrando um sorriso de regozijo que saía do canto da boca.

A moça se mostrava experiente e realizou todos os desejos ocultos dele. Foi a primeira vez em que fez amor com uma mulher.

Não havia feito isso antes, não porque nunca havia tentado, mas por causa de sua timidez exagerada.

Uma hora depois, ele saiu do quarto e ficou parado diante do amigo. Demétrius o indagou:

― Foi bom?

― Maravilhoso!

― Sempre que venho aqui só faço com ela!

― Com ela? Você já ficou com ela? Diz! ― o amigo apenas

sorriu e fez um sinal de positivo. Os dois saíram dali e foram a um

barzinho um pouco mais adiante.

(16)

MENTIRAS

Alguns dias se passaram e a amizade entre Demétrius e Adrian se tornava cada vez mais forte. Eles agora andavam juntos, buscando diversão. Em meio a esta nova vida, Adrian começava a se comportar diferente, ora bebendo, ora se deitando com mulheres desconhecidas.

Em uma noite dessas, ao retornar a sua residência, Adrian fez algo que, provavelmente, o faria se arrepender dias depois. Ele entrou no quarto de seu patrão e encontrou Amanda. Contou-lhe que sabia que ela havia ido ao hotel juntamente com Demétrius e, portanto, tinham passado a noite fazendo amor.

Ela o olhou e, com arrogância nos olhos, perguntou:

― Você vai me entregar?

― Depende de você!

― De mim? O que quer em troca?

― Huuum... O que você me daria?

― Não sei.

― Pense melhor...

― Já entendi... Passe aqui novamente em meia hora, meu marido só volta amanhã.

Ouvindo isto, Adrian sorriu e retirou-se do quarto do patrão e foi direto banhar-se. Ele estava muito feliz, pois sabia que tinha a chance de ficar com a mulher mais atraente que já conhecera. No entanto, em nenhum momento ele se questionou se o que estava prestes a fazer era certo ou não. O fato é que esperou ansioso e até mesmo contou os minutos. Voltou ao quarto e sentia que havia um perfume delicioso no ar, os lençóis foram trocados e tudo mais tinha sido preparado.

Amanda usava uma camisola transparente, branca, cheia de desenhos de flores. Havia prendido os cachos dourados de seus cabelos, pôs um batom vermelho e, por baixo da camisola, via-se uma cinta-liga de cor vermelha, bastante apertada.

Vendo aquilo, Adrian soltou um sorriso de satisfação. Ela o olhou fixamente e disse, deitando-se na cama:

― Vem logo, que eu estou derretendo de desejo! Vamos fazer de tudo um pouco. Quero sentir prazer, muito prazer!

― Eu sonhava com este momento!

Os dois uniram-se em momentos de loucuras. Ambos estavam insaciáveis.

Aquela noite deveria ter sido perfeita, não fosse o que

aconteceu em seguida. Adrian estava tão completamente exausto

(17)

que nem havia percebido que o carro do esposo de Amanda tinha regressado.

Agenor, esposo de Amanda, era um homem de meia idade, saudável, trabalhador, adorava levar a esposa para passear nos finais de semana e, até aquele dia, não se ouvia falar mal dele em nenhum lugar das redondezas. É certo que as pessoas que ali moravam também nunca souberam exatamente de onde ele veio, sabiam apenas que ele sempre foi fazendeiro.

Ele havia estado fora como sempre e, por mais que escondesse bem, sabia que a mulher deitava-se com outros homens. Muitos não entendiam porque ele nunca fazia nada. Ele chegou a confessar a um amigo:

― Ela vai mudar, eu creio nisso! Eu amo aquela pequena mesmo assim!

Um homem assim, aparentemente, não merecia ser traído, mas era isto que estava acontecendo. Agenor entrou caminhando devagar e, ao aproximar-se do quarto, viu aquela cena grotesca: sua esposa deitada por cima daquele homenzinho que ele havia acolhido em sua casa.

Encheu-se de ódio e gritou:

― Canalha maldito!

O casal tentou vestir-se, mas, antes disso, Agenor pegou Amanda pelos cabelos e a jogou no chão, com a outra mão deu um soco muito forte no rosto de Adrian, que desmaiou em seguida.

― Hoje, vocês dois saberão quem realmente eu sou.

Agenor os amarrou e os levou para o final da casa. Lá havia um quarto que sempre esteve trancando. Era um lugar muito escuro, porém dava para ver algumas cadeiras, correntes, arames, pregos derramados no chão e muitos sacos. Havia também muita sujeira acumulada perto da parede.

Algumas horas depois, Adrian acordou e viu Amanda pendurada de cabeça para baixo, completamente nua.

― Solte ela, por favor! Ela não te fez nada!

― Nada? E me trair não é nada? ― e então deu um soco no rosto de Adrian que o sangue espirrou.

― Vocês dois pensaram que podiam me fazer de tolo, transando pelas minhas costas.

― Me solta, seu desgraçado!

― Eu vou soltar, sim, mas antes eu vou te fazer sofrer um pouquinho... ― ele aproximou-se da moça e, com uma faca muito afiada, arrancou-lhe um dos seios. Ela gritava desesperada e, ao lado, Adrian mordia os lábios e suplicava que a soltasse.

― Calado! Eu vou mostrar a esta vadia como é que eu fazia

com os escravos da fazenda de meu pai. Ah! Eu nunca te contei?

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Eu era o feitor na fazenda de meu avô e depois na de meu pai. Só parei de matar depois que te conheci, cadela! ― em seguida, cortou o outro seio e o levou para Adrian.

Adrian chorava muito. Amanda gritava, sem conseguir articular uma palavra. Foi então que Agenor enfiou os pedaços dos seios dela na boca de Adrian que não resistiu e vomitou bastante, enjoado de tanto sangue.

O feitor voltou para junto da mulher e mais uma vez pegou a faca e cortou por inteiro a genitália dela, deixando-a completamente apavorada e desesperada de dor. Vendo aquilo, Adrian implorou para que o feitor o matasse e deixasse-a ir.

― Ir aonde? Esta vaca vai morrer logo! Agora é sua vez! ―

Adrian desmaiou outra vez.

(19)

TORTURAS

Ao recobrar os sentidos, Adrian sabia que não havia como escapar daquela cadeira. Fechou os olhos novamente e ficou pensando na sua infância. Pensou em todos os momentos bons que havia passado naquele tempo. Lembrou-se da primeira vez que deu um beijo, da escola e da igreja.

― Quantas coisas boas! ― pensou.

Depois desta viagem, voltou e sentiu um cheiro forte vindo de seu corpo, um cheiro forte de gasolina.

― Que é isto?

― Um pouquinho de gasolina para queimar uma praga!

―Não faça isso, por favor, não me mate!

― Que é que eu posso fazer? Você pegou minha mulher, mas não se preocupe, vamos brincar um pouco, ou melhor, eu vou brincar um pouco...

Ele saiu e trouxe um martelo. Adrian tentou em vão sair da cadeira. Gritou uma, duas, três vezes e nada. Ninguém aparecia.

Agenor abaixou-se e bateu com força em um dos dedos dele. A dor foi intensa. Bateu no segundo, no terceiro e assim fez até o décimo dedo do pé de Adrian.

Os gritos eram fortes, mas a casa em que estavam era distante de todas as outras e de nada adiantaria gritar.

Ouviu-se uma voz muito baixa que dizia:

― Perdão, meu amor! ― era Amanda que ainda estava respirando, muito forçosamente.

Ao ouvir isto, Agenor enfurecido pegou um machado e correu na direção dela, partindo-a quase ao meio. Havia tanto sangue e carnes abertas que se viam a suas vísceras espalhadas pelo chão.

O pior estava guardado para Adrian que, ao ter visto tal cena, chorava amargamente, ao mesmo tempo em que vomitava e urinava-se.

― Socorro! ― ele gritou.

― Não adianta gritar, você vai morrer! Fique aí que eu vou pegar um brinquedinho para você! ― e, ao passar por ele, cortou um dos seus dedos.

Aquela tortura parecia não ter fim, mas, de repente, como se fosse por um milagre, Adrian ouviu uma voz e exclamou consigo:

― Demétrius!

De fato, era mesmo Demétrius que o procurava. Poucos

sabiam de suas habilidades, entretanto Demétrius sabia manejar

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muito bem facas de todos os tipos e, naquele momento, este conhecimento seria vital.

― Onde você está? Oh, meu garoto!

― Aqui ― gritou Adrian, meio sem forças.

Demétrius entrou por trás da casa e viu apenas uma luz por entre uma das brechas da porta. Ao entrar, começou a caminhar pisando nas poças de sangue, porém não notou o que de fato era aquilo. Continuou andando e viu o seu amigo amarrado em uma cadeira velha, com uma das mãos escorrendo sangue. Viu muito sangue em cima dele. Não ficou parado pensando no que havia acontecido, nem mesmo fez qualquer pergunta, correu e soltou o amigo.

Demétrius não reparou no corpo aberto à frente dele, talvez por causa da escuridão. Tomou o amigo pelos braços e quando já estava na porta ouviu algo:

― Quem é você?

― Ninguém! ― respondeu Demétrius.

― Nem pensem que sairão daqui! ― Demétrius pôs o amigo no chão e correu em direção ao feitor. A luta entre os dois não foi rápida e nem limpa, ambos saíram feridos, mas Demétrius empurrou Agenor que caiu por cima de um dos sacos. Ao notar que havia uma faca próxima aos seus pés, ele tentou cortar Demétrius, porém este a tomou e desferiu três facadas no peito do agressor.

Vendo-o caído, Agenor balbuciou:

― Nem eu nem vocês dois a teremos novamente!

― Quem? De quem você está falando? Demétrius o sacudiu interrogando-o. No entanto, ele já estava morto.

― Diga-me, de quem ele falava?

― Veja você mesmo! ― e apontou para o corpo aberto de Amanda.

Demétrius aproximou dos pedaços e reparou nos cabelos loiros ensanguentados.

― Amanda!

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MALDITA APOSTA

Alguns dias depois, Adrian acordou ainda dolorido das pancadas que recebera na face. Olhou e viu a mão direita enfaixada, viu que um dos dedos não mais estava nela, então entendeu que tudo o que passou foi verdade e não um sonho como ele tinha desejado.

― E aí, meu garoto? Dormiu bem?

― Não!

― Nem eu.

― Onde estamos?

― Na casa de minha irmã mais nova.

― E onde fica isso?

― Nós estamos na Fazenda Matas Virgens.

― Por que este nome?

― Por causa das muitas mulheres que vivem aqui...

Precisamos esquecer o que passou.

Era impossível esquecer aquelas torturas e ambos sabiam disso. E muito mais difícil era esquecer-se de Amanda. A imagem daquela jovem sendo torturada iria permanecer para sempre nas lembranças de Adrian.

― Eu nunca mais irei me apaixonar por outra mulher! ― disse Demétrius, levantando-se da cadeira.

― Não acredito nisso! ― falou Adrian com desdém.

― Quer apostar nisso?

― O que você quiser!

― Aposto que se eu me apaixonar por outra mulher ainda nesta vida, prometo trocar a minha vida pela sua ou até mesmo levar uma bala no peito por você. O que me diz?

Adrian hesitou um pouco. Pensou e nada falou. Fechou um dos punhos e bateu em cima da mesa em sinal afirmativo.

― E caso você não se apaixonar novamente, eu farei o mesmo por ti! ― retrucou.

A sentença de um daqueles homens havia sido ali firmada.

Nenhum deles sabia, todavia a vida lhes proporcionaria ainda outras aventuras que, por certo, incluiriam mulheres.

Neste momento, uma moça de pele rosada, de aparência angelical e meiga, entrou e disse suavemente:

― Bom dia, mano! ― e olhando atentamente para o rosto de Adrian, falou:

― Bom dia, rapaz! Como se sente?

Adrian, gaguejando retrucou:

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― Bem... Obrigado por tudo!

― Esta é Elisabeth, minha irmã! ― exclamou Demétrius.

Adrian não se continha de admiração da beleza de Elisabeth.

Uma jovem educada, gentil, bem diferente do rude irmão. Ela tinha vinte anos, mas a aparência era de quinze. Tinha uns olhos castanhos, cabelos pretos e longos. Não se via o seu corpo, pois o vestido solto e bem costurado não permitia. Era uma mulher de família, com dotes de princesa.

Percebendo o encanto que a irmã causara no amigo, falou sarcasticamente:

― Parece-me que já ganhei a nossa aposta!

― Como assim?

― Não pense que não vejo que a minha irmã te agradou!

― Quê? Qual? Só estava sendo educado.

De nada valia a defesa. Por mais que o coração dele estivesse dolorido pelos acontecimentos passados, algo dentro do peito ainda batia forte, ele não estava morto, apenas adormecido. E, neste mesmo coração, uma sensação muito boa surgia ao ter visto aquela beleza, ao mesmo tempo em que a sua mente lhe dizia:

― Maldita aposta! Logo agora que a vi!

Não é preciso descrever o quanto lamentou a aposta ― é certo

que pensou em voltar atrás.

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O PLANO DE ROUBO

Deitada na cama ainda nua, suada e exausta após o sexo, Alexandra respirou um pouco e perguntou a Demétrius:

― Você me ama?

― Sim!

― Faria de tudo por mim?

― Claro que sim! ― ele saiu do banheiro e foi deitar-se novamente ao lado da amante. Abraçaram-se e ficaram assim por algum tempo.

Esta mulher, de nome Alexandra, que agora estava nos braços dele, era, como se viu antes, a esposa de Cavalo do Cão. E este romance que acontecia às escondidas, do qual Adrian não tinha o conhecimento, tornou-se frequente.

Alexandra era uma mulher de cerca de trinta e oito anos, de uma beleza inquestionável, mesmo após dois filhos. Tinha os cabelos curtos, ruivos e sempre perfumados.

Tinha desejos exóticos e práticas sexuais questionáveis:

adorava participar de cultos a divindades greco-romanas, especialmente ao deus Baco ou Dionísio, como também era conhecido. Era devota do sexo sadomasoquista e seus prazeres não ficavam apenas nisso, sentia prazer na dor e violência. A prova disso era ter casado com o violento Cavalo do Cão.

Este romance estava fadado ao fracasso, pois as intenções de Demétrius nunca tinham sido outras, senão roubar-lhe os bens, na forma de joias e diamantes.

A amante nem imaginava aquelas maldosas intenções e fez uma proposta ao homem realizador de suas fantasias amorosas:

― Vou convencer meu marido a empregar você.

― Eu aceito, porém com uma condição...

― Aceito qualquer uma, fale!

― Eu vou se meu amigo também puder ir!

― Tudo bem, eu vou falar com ele ainda hoje! ― dizendo isto, saltou nos braços de Demétrius, que a recebeu aos beijos e carícias.

Saindo dali, ele foi até seu amigo e contou-lhe a meia verdade, isto é, contou apenas à parte que envolvia o emprego e a futura morada deles. Adrian soltou um grito de alegria:

― Que bom! Você nos arrumou um emprego?!

― Isto mesmo!

― Isso é uma boa notícia! ― e correu e abraçou o amigo, que

nem mesmo assim comoveu-se.

(24)

O plano já estava arquitetado: dar prazer a Alexandra,

enganá-la e depois roubá-la. Fazia parte do plano, também,

enganar Cavalo do Cão, mentir para Adrian e despedir-se de

Elisabeth. Além disso, planejava roubar as joias e diamantes e, por

fim, fugir. Parecia um plano perfeito, no entanto havia algumas

incertezas: como seria a fuga? Para onde ir? Como ir?

(25)

A FUGA

O plano para ficar rico à custa de um roubo estava quase pronto, faltando apenas definir a fuga.

Talvez esta parte fosse a mais difícil, pois Demétrius sabia que teria que levar junto consigo o amigo, porém sem revelar a ele seus planos.

Tomou o seu cavalo e saiu em direção à ferrovia. Lá chegando, fez uma varredura em todos os vagões, buscando evidentemente um que estivesse completamente vazio.

― Este serve.

Era um vagão pequeno, porém confortável. Havia dois bancos de madeira nele, duas janelas reforçadas com ferro maciço e grades de aço. Um armário encaixado na parede e no chão havia um tapete vermelho. Tinha também uma cama que ficava dentro de uma das laterais à direita. Foi até o guichê e indagou à vendedora:

― Quanto custa um ticket só de ida ao Sul do país?

― 200 moedas! ― respondeu a moça, sem olhar para o dinheiro.

― Tudo isso?

― Sim, senhor! ― disse secamente.

Havia esquecido que estava sem dinheiro. Aquela quantia era um pouco alta, no entanto ele sabia que valeria a pena. Todavia, teria que ser duas vezes aquele valor. Por um minuto pensou apenas em si, cogitou em deixar Adrian. Não podia fazer isso, eram como irmãos. Sentiu-se triste por ter tido tal pensamento. Os dois iriam fugir. Juntos. Estava decidido a levar seu amigo, fosse aonde fosse.

Voltou à casa da irmã e foi recebido por uma corja de homens vestidos de preto. Para ser exato, eram vinte e dois, todos montados em cavalos preparados para longas viagens. Estavam armados até os dentes. Ele os olhou fixamente e estes fizeram o mesmo.

― Você é Demétrius? ― perguntou um deles.

― Sim! ― respondeu abaixando os olhos.

― Sabe quem somos?

― Não.

― Somos os legionários de Cavalo do Cão! ― ao ouvir este último nome, Demétrius estremeceu e pensou até em fugir dali, no entanto viu que já estava cercado.

― Viemos buscá-lo! Cavalo do Cão quer conhecer você e seu

amigo. Ele quer contratar os seus serviços. O coração de Demétrius

(26)

estava acelerado, mas sentiu-se aliviado ao saber que não estavam

ali para executá-lo.

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A DESPEDIDA

Cavalo do Cão recebeu os dois rapazes. Não parecia um homem mal, pelo contrário, mostrou-se um bom e adorável senhor de quarenta anos, cuja barba meio grisalha lhe pareceu de um tio ou avô.

O nome de sua origem nunca foi revelado, pois segundo ele:

― Um nome só serve se parecer com o dono e o meu verdadeiro não se parece comigo em nada!

Ao vê-lo, Demétrius acreditou que ele era inofensivo e que provavelmente nem se importaria com a perda de alguns diamantes ou joias de sua esposa. Era nisso em que ele se agarrava para cometer o futuro delito.

― Parece um bom homem ― pensou Demétrius.

― Sintam-se em casa! ― falou mansamente, Cavalo do Cão.

― Obrigado! ― falaram ao mesmo tempo os dois bons amigos.

― O serviço de vocês será cuidar de nossos cavalos, de dia e de noite, em qualquer ocasião. Combinado?

― Sim, senhor! ― responderam juntos.

Os dois rapazes estavam tranquilos ao saírem dali. Eles se mudaram para a fazenda de Cavalo do Cão no dia seguinte. Antes de partir, Adrian aproximou-se de Elisabeth e falou-lhe ao ouvido:

― Vou voltar para levar você comigo! Vamos ficar juntos: só você e eu, meu amor! ― e a beijou na face.

― Eu estarei te esperando... Custe o tempo que custar, eu serei só tua, meu bem! ― e então o abraçou e o beijou na testa.

Sentindo que aquele momento parecia o fim de tudo, Adrian a tomou novamente e deu-lhe muitos beijos na boca. Ficaram assim por um longo tempo, abraçados. Ela despediu-se dele em lágrimas.

― Volta logo, amor! ― disse ela em meio aos prantos.

― Voltarei! ― falou enquanto montava no cavalo.

― Vamos, garoto! O chefe não vai gostar se nos atrasarmos no primeiro dia.

No caminho até a fazenda, ambos estavam calados. Demétrius quebrou o silêncio:

― Nós dois quebramos nossa aposta.

― Verdade!

― Lembre-se de uma coisa, se machucar minha irmã eu te

mato e dou teus testículos aos cachorros!

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O ROUBO

O trabalho na fazenda não era uma tarefa árdua. Os dois amigos podiam, ao final do dia, banhar-se no rio próximo da floresta. Tudo parecia bem, todavia à medida de os dias passavam, Adrian ficava cada vez mais triste. Ele caminhava e vez ou outra chorava pelos cantos, relembrando sua amada. Demétrius, por outro lado, encontrava-se com mais frequência com a amante.

O romance entre ele e Alexandra acontecia embaixo dos olhos de Cavalo do Cão. Isto não poderia acabar bem, ele sabia disso, mas prosseguia.

― Preciso fugir daqui o quanto antes! ― pensou consigo.

Demétrius procurou Adrian para lhe fazer uma proposta nestes termos:

― Eu vou fazer uma viagem e quero que você e minha irmã venham comigo. O que me diz?

― Seria ótimo! Quando seria isto, no próximo ano?

― Não.

― Quando então?

― Em dez dias.

― Ficou doido, temos muito trabalho por aqui e acredito que Cavalo do Cão não vai permitir sairmos tão cedo.

― Quem disse que diremos a ele?

― Como não, ele é nosso chefe agora!

― Nada disso, vamos sumir sem dizer nada a ninguém!

― Demétrius, o que fez desta vez? Eu te conheço um pouco e sei que, quando você apronta alguma, pensa logo em fugir. Com quem saiu desta vez?

― Que mania de achar que tem uma mulher na jogada... ― gritou secamente.

― Como não? Vai! Diz quem é ela.

Demétrius pensou melhor e percebeu que não conseguiria mentir por muito tempo, então resolveu contar a metade da verdade.

― Está bem. É a Alexandra.

― Alexandra... Ah, que Alexandra? Só se... Não! Não me diz que você e a mulher do chefe, já? Homem, que é que você tem nas pernas, cola? Prego? Ou fogo?

― Nem sei. Só sei que ela está em cima de mim e preciso dar um tempo nisso antes que alguém descubra.

― Desta vez você foi longe, sabia?

― Cala a boca e vamos pensar em como faremos isto.

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Adrian pôs as mãos em cima dos olhos e fez uma expressão de quem não sabia nem por onde começar. Demétrius ficou pensando por algum tempo, então teve uma ideia.

― Vamos sair pela madrugada, antes do café das cinco?

― Tudo bem ― Adrian falou tristemente ―, mas nem pense em me deixar aqui sozinho ― continuou.

Demétrius o olhou e por um minuto refletiu na possibilidade de dizer o que realmente iria fazer, porém sabia que se o dissesse, ele não conseguiria guardar o segredo e poderia pôr tudo por água abaixo.

Os dias se passavam e Adrian ficava cada vez mais preocupado com o que poderia acontecer. Nada acontecia e isto atormentava seus pensamentos.

Dia após dia, Demétrius se dirigia ao quarto de Alexandra, fazia amor com ela e ao final a roubava. Joias e mais joias, até que no nono dia ele encontrou um diamante cor-de-rosa no meio das roupas dela. Ficou encantado com a beleza daquele diamante.

― Isto deve valer uma grana preta! ― sorriu consigo mesmo.

E saiu dali e foi até o lado de fora, já era noite. Continuou andando em direção a Adrian. Ele estava sentado perto de uma fogueira.

― Que faz aí? ― perguntou o amigo que se aproximava.

― Eu estava aqui pensando em uma coisa.

― Em que, seu sacripanta?

― Quero casar com tua irmã e não tenho dinheiro suficiente para isso.

― Deixa de ser tolo, ela te ama. E, por mais que você seja um pobretão, ela te quer mesmo assim.

― Pode ser. Mas o que faremos depois? Para onde eu vou levar ela? Não tenho quase nada para vestir e muito menos para comer!

Amigo, me diz uma coisa...

― Fala!

― Quando você tiver muito dinheiro, você me empresta para eu comprar um anel de ouro para Elisabeth?

― Claro que sim. Agora vai dormir que iremos sair bem cedo.

Já preparou tudo?

― Sim. Ainda acho uma ideia de louco fazermos isso!

― Fecha a matraca e vai se deitar, moleque!

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PRESOS NA CABANA

No meio da noite, ouviram-se algumas vozes sussurrando e, no meio desta algazarra, Demétrius acordou e percebeu que era dele que falavam.

― Vamos acabar com a raça destes dois idiotas ainda esta noite! ― falava um deles.

― Não, o chefe disse que ele mesmo se encarregaria de meter uma bala na cabeça de cada um... ― retrucou um segundo.

Demétrius levantou-se atônito e dirigiu-se até Adrian que ainda roncava como um porco.

― Acorda, sua besta! Eles vão nos matar!

― Quem vai matar quem? De que é que você está falando?

― Nós. Eles vão nos matar. Acho que descobriram o roubo...

― Qual roubo?

― O que eu fiz... Desculpa não ter falado antes.

― Que porcaria! Como você pôde fazer isto comigo? O que foi que você roubou?

― Muitas joias e um diamante deste tamanho ― ele falou isto mostrando o diamante na mão direita.

― Deus! De onde foi que você roubou isso?

― No quarto de Alexandra!

― E eu pensei que você gostava dela... Esquece!

― Vamos fugir por trás da casa...

Os dois saíram se arrastando por baixo dos tijolos de um buraco na parede do estábulo, passaram pela cerca e fugiram por entre a mata cautelosamente para não serem vistos.

O dia já estava nascendo quando eles alcançaram as margens do rio. Lá chegando, Adrian hesitou em mergulhar. Ele estava com muito medo.

― Você não vem?

― Não.

― Ficou maluco?

― É a você que eles querem, e não a mim!

― Você acredita mesmo que eles não vão te matar depois de te interrogarem sobre mim? Vamos, sua besta! Tira esta roupa e vem logo!

― Não temos armas para lutar. Vamos apanhar até morrer e

não poderei ver Elisabeth novamente e a culpa de tudo isto é tua,

que além de cafajeste é um mau caráter e, ainda por cima, um

maldito ladrão.

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― Não, nada disso! Quem disse tal coisa? Eu precisava de dinheiro, assim como você! Depois falamos sobre isto, tudo bem?

Tenho dois revólveres cheios até a tampa e, se eles tentarem alguma coisa, vão levar bala nos peitos. Agora pula aqui!

Não muito distante, os legionários do Cavalo do Cão já haviam percebido a ausência deles e estavam em seu encalço. Eram muitos homens, armados de facas, facões e muitas armas, rifles, pistolas, revólveres e espingardas.

Eles os seguiram de longe até o momento em que eles mergulharam e, posteriormente, atravessaram o rio. Algum tempo depois, o fazendeiro chegou e juntou-se com o bando.

― Vamos caçá-los!

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SEM SAÍDA

Os legionários, juntamente com Cavalo do Cão, perseguiram os dois fujões até o outro lado do rio. Nem precisaram andar muito, bastou atravessar uma velha ponte que se achava a alguns metros.

Os dois amigos, no entanto, continuaram fugindo.

Durante todo o trajeto, Cavalo do Cão permaneceu calado. Por algum tempo ele ficou imóvel, ali em cima de seu cavalo, só observando de longe os dois inimigos nadando desesperadamente.

Quebrou o silêncio:

― Estes dois não valem nada! Nem mesmo duas balas de uma arma vagabunda! Eu quero os dois encurralados, mas não o matem!

Eu quero ter o prazer de enfiar duas balas em cada um. Uma bala na testa e outra no rabo deles.

Cada uma destas palavras saiu da boca deste homem com um pouco de saliva. O bafo quente expelido exalava um fedor horrível.

O mau hálito era insuportável e quem ali estivesse teria que fazer um doloroso sacrifício para não vomitar.

Na outra margem, Demétrius gritava:

― Anda logo, sua besta! ― e movia os braços freneticamente.

― Calma, eu nunca nadei tanto! ― falou Adrian.

Os dois saíram dali correndo. Avistaram logo em seguida uma velha cabana. Era uma cabana pequena, de proporções retangulares, mas muito bem construída. Quase toda ela era de madeira firme. Ao entrarem nela, viram que estava completamente empoeirada. Móveis velhos e rústicos. Livros rasgados pelo chão, quadro antigos nas paredes e muitas caixas de madeiras espalhadas em um dos cantos.

― O que faremos agora? ― interrogou Adrian.

― Vamos matá-los e depois fugiremos!

― Para onde?

― Para qualquer lugar! ― finalizou Demétrius.

Não tiveram tempo de conversar mais, pois Cavalo do Cão e os legionários se aproximaram da cabana e gritaram aos berros:

― Estão presos!

Esta era uma verdade que nenhum dos dois queria aceitar.

Mas não havia saída, exceto a morte de ambos, ali presos e sem direito à defesa. Seria uma carnificina. Então, agora voltemos ao início de nossa narrativa, quando deixamos os dois em meio a uma decisão:

― Iremos morrer assim! ― exclamou Adrian.

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Demétrius sacou as duas armas e passou uma delas para o amigo.

― Iremos morrer, sim, mas não sem lutar! ― gritou enquanto se posicionava.

A primeira bala de Demétrius foi parar no peito de um dos homens de Cavalo do Cão. A partir daí, começou uma chuva de bala que mais parecia uma queima de fogos de artifícios. Balas e mais balas atravessavam a cabana, derrubando tudo que ali se encontrava.

Por algum tempo, os dois encurralados resistiram bravamente, porém era evidente que aquela quantidade de balas era insuficiente para darem de conta de tantos homens. Vendo então que era uma situação impossível, Demétrius, após receber a arma de Adrian, disse:

― Não há como sairmos daqui vivos, pelos menos não nós dois! Nós faremos o seguinte: eu sairei antes e irei matar a todos que eu encontrar pela frente, enquanto isso você vai para trás e foge na direção oposta. Pule pela janela e vá embora. Irei distraí-los. Não olhe para trás.

― Que loucura é esta? ― indagou Adrian meio atônito.

― Não é nenhuma loucura. Apenas decidi pôr um fim em meus erros. Agora, vá! Não temos tempo a perder!

― Não vou deixá-lo fazer isso!

― Sua besta! Vá antes que eu mude de ideia. Prometa que vai cuidar bem de Elisabeth!

― Prometo! ― Adrian respondeu gaguejando.

Demétrius fez conforme havia planejado: abriu a porta e saiu atirando e cada um dos tiros acertava ou o peito ou a testa dos legionários, mas alguns deles conseguiram acertá-lo, deixando-o meio desiquilibrado. No entanto, antes de cair, deu o último tiro que atingiu somente a perna de Cavalo do Cão.

― Onde está o seu amigo? ― perguntou o fazendeiro.

― Que amigo?

― Adrian.

― Ele nunca foi meu amigo. E o deixei lá depois do rio mesmo.

Ele estava fugindo comigo porque menti para ele.

― Mentiu?

― Sim. Eu disse a ele que você queria matá-lo por causa de um cavalo que ele deixou ir embora...

― Onde estão os diamantes?

― Caíram no rio...

― Você vai morrer, miserável!

― Ah... Grande novidade! ― e tossiu, derramando um pouco

de sangue pela boca ― Mas antes saiba de uma coisa: já se

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perguntou por que é que tua mulher procurava outros homens? Teu pinto é pequeno! ― e caiu na gargalhada, misturada com tosse.

Cavalo do Cão atirou em sua cabeça. Sentiu-se profundamente irado. Um ódio encheu o seu coração. Não se sabe o motivo ao certo, mas ele não quis ir atrás de Adrian. Subiu em seu cavalo e foi embora com os legionários sobreviventes, deixando os corpos dos outros para trás.

Enquanto isso, bem distante dali, Adrian já se aproximava da Fazenda Matas Virgens e, lá chegando, percebeu que Elisabeth estava sentada ao lado de uma árvore. Aproximou-se calmamente e pôde ouvir estas palavras:

― Meu Deus, que eles voltem em segurança!

― Aqui estou! ― exclamou Adrian esbaforido.

Elisabeth virou-se e então o viu. Ele estava muito machucado.

Abraçaram-se e ficaram assim por algum tempo. Beijaram-se. Foi

aí que Adrian sentiu que havia algo em um de seus bolsos. Meteu a

mão direita e tirou-o: era o diamante de cor-de-rosa que pertencera

a Alexandra.

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V I D R O S Q U E B R A D O S

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MEIA NOITE

(01/09/2010)

Ao abrir meus olhos, ainda meio sonolento, reparei que o despertador mostrava exatamente meia noite. Vi que minha esposa não estava ao meu lado, mas imaginei que ela havia trabalhado demais naquela noite e, então, preferiu ficar em um hotel na cidade.

Levantei-me e fui ao banheiro. Algo me incomodava, pois fiquei me perguntando como ela havia se esquecido tão facilmente de que eu não gostava de dormir sozinho. Não suporto solidão, especialmente quando é noite de lua cheia.

Decidi sair do Duplex e ir ao barzinho que ficava próximo dali para comprar cigarros ou tomar goles de uma bebida quente.

Desci as escadas, vagarosamente, como se desejasse vê-la no próximo degrau. Nada. Quase desisti. Lembrei-me de que não havia fechado a porta, então retornei ao quarto. Desci outra vez, porém desci rápido. Não queria encontrar ninguém ali a não ser ela.

Olhei o relógio e fiquei triste. Mesmo tendo demorado tanto neste sobe e desce, não havia passado nem mesmo um minuto.

Continuei a caminhada. Ao atravessar a rua, reparei que nela não havia movimento. Nada. E eu acreditava que em uma capital as pessoas não dormiam!

Ao me aproximar do barzinho, comecei a ter uma faísca de raiva. Tudo estava fechado. Fiquei meio sem ação. Saí caminhando sem direção. Percebi que os outros bares também não estavam abertos. Decidi continuar.

Por algum tempo esqueci que havia prometido a mim mesmo que iria parar de beber, porém pensei em encher a cara com uns drinques em uma boate.

Também fechada! Fui a um ponto de ônibus e pensei em ir à praia. Esperei, esperei muito mesmo e o ônibus não passou.

Continuei andando e por mais que eu andasse não havia ninguém na rua. Achei isso estranho, então tentei ligar para minha esposa.

O celular estava sem área.

Fiquei preocupado e comecei a ir em direção ao bairro que eu morava antes, acreditando que talvez pudesse encontrar um amigo.

Ninguém. Bati na porta da casa de três amigos e nada. Tentei relaxar, todavia estava triste por ter ficado sozinho em casa.

Prossegui em minha caminhada. Olhei mais uma vez para o relógio,

ainda era meia noite. Notei que isso não fazia o menor sentido, o

tempo não passava, então joguei o relógio fora.

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Após algumas horas perambulando, vi que o dia já estava nascendo. A luz do sol veio até mim e me deu certa tranquilidade.

Pensei em tomar um banho de mar.

A água estava muito fria e, por isto, preferi apenas andar um pouco mais. Não via ninguém em nenhuma das partes da praia.

Tudo isto era estranho. Falei comigo mesmo:

― Mas onde estão as pessoas? ― falei em voz alta.

Irritado, comecei a pensar em retornar ao Duplex caminhando, porém não aguentava andar como antes. Meus pés já estavam cansados e doloridos. Respirei fundo e fui ao ponto de ônibus. Nada. Nem ao menos um. Andei mais.

Ao ver que eu havia percorrido todo o trajeto de volta ao Duplex, notei que as ruas permaneciam vazias.

Tudo estava fechado. Olhei em um relógio velho em frente a uma loja e ele mostrava meia noite. Tudo está com defeito? Que é isso? Minha cabeça estava quase explodindo.

Comecei a imaginar muitas coisas: será que todos foram raptados por ETs? Ou foram levados por uma nave espacial? Será que a terra se abriu e todos caíram na cratera? Será que há uma guerra e as pessoas tiveram que fugir rapidamente? Foram arrebatados? Ou deve ser uma “pegadinha” criada por uma emissora de TV? Nada disso, todos sumiram.

Tentei me acalmar e então me lembrei de uma canção do Raul Seixas: “O dia em que a terra parou”. Teria sido isso? Não era uma canção, mas uma Profecia. Talvez o Apocalipse de João?

Ao entrar em meu quarto vi que tudo estava do mesmo jeito.

Eu estava com muito sono. Deitei-me na cama ainda desforrada.

Não demorou para eu pegar no sono. De repente, abri meus olhos e vi que tudo estava sombrio. Dei um grito:

― Socorro!

Ao meu lado, uma luz pequena se ascendeu lentamente e, depois, ficou maior. Tremi na cama ao ver isso. Ouvi uma voz suave que me perguntou:

― Que tem?

― Medo! Onde estão as pessoas do mundo? ― perguntei sem olhar para a luz.

― Nos seus devidos lugares! ― respondeu-me a voz suavemente.

― E que lugar é este? ― continuei.

― Você saberá quando perguntar a elas! ― disse-me secamente.

― Não, por favor, não me leve! ― supliquei.

― Que raio de conversa é esta! Outra vez? Sou eu, Melissa.

Ficou com medo do escuro? A luz acabou depois da chuva. Você

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teve outro pesadelo. Agora, vá dormir que ainda é meia noite.

Lembre-se de que amanhã é dia primeiro e você precisa acordar

cedo. Boa noite! Tenta não fazer mais barulho!

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A CARTA

(05/09/2010)

Alguns dias depois de noites mal dormidas, estava eu na redação do jornal onde trabalho, quando Williams James mostrou- me a notícia que ele havia escolhido para a manchete:

Havia na cidade uma moça chamada

Sara. Uma moça mimada que sempre

tinha tudo o que queria e mandava em

todos de sua casa. Ela era a

personificação da meiguice para os de

fora, mas desagradabilíssima para os de

casa. Então, em uma manhã de segunda-

feira, ela chegou da escola, entrou no

quarto, fechou a porta e apagou a luz. As

pessoas da casa estranharam esta

atitude, pois sempre que ela chegava da

escola dava ordens para prepararem seu

lanche. Neste dia, ela entrou calada e

triste. Entretanto concordaram que era

apenas uma coisa da idade. “Estes

jovens de hoje andam com os nervos à

flor da pele”, pensou sua mãe. Durante

três dias, a porta do quarto de Sara

permaneceu fechada. Depois de muita

insistência, seu pai, o senhor Cláudio,

chegou ao auge da preocupação com a

filha e resolveu pedir para que ela

abrisse a porta – desta vez, de forma

desesperadora. Seus esforços foram em

vão, a porta não se abriu. Ele, em uma

ação agressiva, arrombou a porta e, ao

olhar para o teto do quarto da moça,

tomou um terrível susto: ela estava

pendurada em uma corda. Sara tinha se

suicidado. Ela ainda usava as mesmas

roupas que tinha regressado da escola

três dias antes.

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Ao ler isto, não posso negar que aquilo me doeu. Não falei nada. Pedi permissão e saí da sala sem fazer comentários. Meu chefe estranhou aquela atitude, pois sabia que eu estava acostumado a ler e até mesmo a relatar fatos bem mais duros que aquele.

Tentei almoçar – a comida me parecia úmida demais. Nem aceitei o café. Saí dali meio enjoado e sem a menor vontade de retornar ao trabalho naquele dia. Tudo ficou sombrio e desprezível.

Não senti interesse em nada mais pelo restante da tarde. Fui para casa.

Melissa estava sentada como de costume na sacada do Duplex. Ela usava um vestidinho vermelho, com detalhes pretos.

Suas curvas suaves e sua aparência física ainda eram a mesma de outrora. Dez anos casados e nada de filhos. Isto me fez lembrar daquela moça. Sara – este era o nome de uma jovem que teve sua vida interrompida, ceifada!

Eu sentia que precisava esquecer essa história. Olhei para os olhos de minha esposa, que sempre me fizeram feliz. Por muitos momentos eles foram reconfortantes – ainda são.

Melissa me conhecia bem, deve ter percebido meu olhar introspectivo. Ela, no entanto, não me perguntou nada. Olhou para mim insinuante e apontou para o quarto. Eu a segui resignado. Ao aproximar-se da cama, ela começou a tirar o vestido e tocou-me com excitação. Eu deixei a tristeza de lado e a envolvi em um abraço caloroso. Ela tirou o restante da roupa e, antes de deitar, também tirou a minha. Passamos horas e horas nos amando.

Adormeci. Despertei algum tempo depois e vi que a minha amada chorava e soluçava. Não entendi o que se passava com ela.

Foi aí que notei que ela segurava um papel em suas mãos. Pensei que fosse a manchete do jornal ou qualquer outra coisa. Tentei acalmá-la, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Ela não parava de lamentar. Pedi o papel e li o que havia sido escrito e tomei o maior susto ao ler essas palavras:

Melissa você é como uma mãe para mim e por isso eu preciso te escrever essa carta amanhã quando eu voltar para casa eu me matar pois não aguento mais viver assim o meu pai minha madrasta minha tia meus irmãos e irmãs não ligam para mim e acho até que eles nem irão notar minha ausência por um dia inteiro eu te amo professora não chore ore por mim

Sara (02/09/2010)

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NOSSO FILHO

(10/09/2010)

― Não estou grávida! Desista, pois isto não vai acontecer. Sou uma figueira seca! Você pode me deixar, se quiser... Não vou te julgar por isso.

Estas foram algumas das últimas palavras de Melissa após uma longa conversa comigo sobre nosso filho. Antes de nos casarmos, nós havíamos falado sobre isto: eu queria filhos e ela também. No entanto, os anos passaram e nada. Dez anos! Era algo que nós dois falávamos um ao outro.

Tentamos todos os métodos naturais e científicos, mas o resultado era o mesmo: negativo. Isto atrapalhava a nossa relação a ponto de cogitarmos divórcio. Um de nós recuava e desistia dessa loucura, afinal nós nos amávamos. Neste dia, no entanto, ela me pareceu bem diferente, se mostrou decidida e saiu em busca de uma advogada para dar entrada nos papéis do divórcio. Fiquei sem chão.

Ao final da tarde, retornei ao Duplex e vi que ela já estava com uma montanha de documentos, que só precisavam de minha assinatura. Eu não tinha interesse em fazer isso, eu a amava muito.

Foi então que tive uma ideia e comecei o assunto:

― Tenho uma proposta para você...

― Fale.

― Você me ama?

― Eternamente.

― Quer uma saída?

― Sim.

― Vamos transar!

― Quê?

― Vamos fazer isto de forma diferente.

― Como assim?

― Dez dias, dez posições!

― Que ideia é essa?

― Quantos anos nós estamos casados?

― Dez anos!

― Então, eu só quero dez chances de mostrar o quanto te amo!

― Só isso? Mas eu nunca duvidei de teu amor. Não precisa.

― Mas eu quero assim mesmo, aceita?

― Tudo bem, mas com uma condição...

― Combinado!

― Não quer nem saber que condição?

(42)

― Confio em você! ― finalizei a conversa já tirando os sapatos.

Fizemos amor ali mesmo na sacada à luz do luar. Repetimos isso durante os dez dias combinados. Minha esposa nem imaginava o que eu tinha em mente. Logo pela manhã saí cedo. Na hora do almoço, fui ao hospital fazer uma consulta com um urologista. Algo em minha mente começou a me dizer que talvez o problema fosse eu e não ela. Esta poderia ser a última chance de recuperar a mulher de minha vida.

Fiz os exames e cheguei a uma triste constatação: negativo.

Eu não tinha nada. Saí do consultório e fui à praia. Chorei amargamente.

― Que farei? Não posso perdê-la!

Ideias e mais ideias iam surgindo em minha cabeça, mas todas elas tinham um ponto fraco e nada iria resolver. Pensei até em adotar uma criança.

Vaguei por algum tempo pela praia. Eu não sabia o que fazer e nem a quem recorrer. Voltei para casa e tentei descansar, porém a com o passar dos dias mais a minha angustia aumentava.

Dias depois, no décimo dia, ao retornar do trabalho vi um bilhete em cima da mesa, li o texto e lamentei muito. Dizia apenas:

O combinado era que eu te daria dez dias de muito amor e depois iria embora ao décimo dia pela manhã.

Adeus, meu amor. Eu estarei em teus sonhos. Nunca te esquecerei.

Melissa (20/09/2010)

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A MORTE EMINENTE

(20/09/2010)

A partida de Melissa desmoronou minha vida completamente.

E nestes últimos dez anos eu não havia ficado tão longe de seus braços. Logo pela manhã, não sentia desejo de ir trabalhar, então preferi ficar em casa. Williams James me ligou furioso e gritou histericamente comigo. Disse-me que eu só tinha trinta minutos para aparecer na redação do jornal, caso contrário seria demitido e não teria direito a nada. O que aconteceu? Não fui e pronto.

Por telefone ouvi um grito:

― Você está fora!

Não sei o motivo, mas não senti nada ao escutar isto. Na verdade, fiquei meio satisfeito, uma vez que eu ganhava muito mal e nunca mudei de cargo, apesar de trabalhar na redação do jornal há 12 anos.

Desempregado e sem mulher: poderia acontecer algo pior? Foi exatamente o que aconteceu. No outro dia, precisei ir ao banco para retirar o meu salário do mês, na verdade o meu único dinheiro, pois o meu saldo bancário estava no vermelho com as despesas de medicamentos para tratamento de minha companheira.

Ao entrar no banco notei que havia muitas pessoas sentadas, outras em pé na fila e outra parte ao lado tentando formar mais uma fila. Vi que meu dia iria ser muito cansativo. Pouco tempo depois ouvi uma voz dura e imperativa:

― Levantem as mãos, isto é um assalto!

― Isto só podia ser uma brincadeira! ― falei comigo mesmo.

Eu já estava esgotado com os problemas e ainda teria que suportar ficar sem nenhum real em meu bolso. Três ladrões, sem vendas, estavam roubando o banco e eu ali estático. Não sei de onde veio tal ideia, mas peguei o meu celular para fazer uma ligação secreta e, em seguida, falei em alto tom:

― Caros colegas, o que vocês pensam que estão fazendo?

― Quem é você? ― perguntou-me o de aparência mais jovem.

― Eu? Um simples jornalista. ― respondi sem piscar os olhos.

― Qual é o teu nome, cadáver? ― perguntou-me o mais forte engatilhando a arma.

― Márcio do Jornal Ponto X.

― Tudo bem “Márcio”, qual é o teu pedido final?

― Saiam daqui agora!

― Tá maluco, meu! Que é isso?

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