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O MELHOR LUGAR QUE EU MOREI

No documento OS MAIO RES (páginas 89-93)

1995 foi outro ano de transição para mim. Tivemos que entregar a sala que alugávamos para a videolocadora – devido a uma reforma no prédio. Os donos venderam o Cine Glória para um grupo de Porto Alegre, que pretendiam instalar um bingo; mas parece que o tal bingo não saiu por causa de questões legais, e o antigo cinema acabou virando uma igreja evangélica – cinema, videolocadora, e outras atrações culturais não dão tanto dinheiro como bingos e igrejas evangélicas. O resultado é que fomos despejados...

Decidi então concluir o curso de Engenharia – que já havia trancado alguns semestres por causa da videolocadora – mas perdi a minha fonte de renda. E acabei indo morar na Casa do Estudante Universitário – próximo do centro de Santa Maria.

As coisas não pareciam muito bem, mas foi aí que eu percebi que tinha mudado para o melhor lugar que eu poderia morar em Santa Maria. Na Casa do Estudante eu conheci, e convivi com muita gente boa. O clima era de: muitas idéias, ideais, idealistas e sonhadores – como eu. E foi neste ambiente que eu conheci uns dos meus melhores amigos...

Acho que todos os anos tinha uma eleição para escolher a nova diretoria da Casa. Como eu não sou de me meter em política (mesmo que seja estudantil), em princípio, eu não ia participar. Mas tinha uns amigos (recém conhecidos) que estavam querendo compor uma chapa para disputar a eleição e me convidaram para participar de uma reunião. Um dos cargos da diretoria era de Promotor Cultural (¿quê tal o nome?) e foi aí que me ocorreu uma idéia: como eu tinha deixado de trabalhar há pouco tempo com filmes, eu propus que a gente poderia criar uma sessão de cinema semanal com vídeo debates – que seria não só para ver os filmes, como também fazer uma discussão sobre os mesmos...

A nossa chapa ganhou a eleição – cujo presidente era o Minêro (grande figura!) – e eu fiquei de promover o tal de Vídeo Debate.

Não lembro se foi na primeira sessão, ou numa das primeiras, que apareceu uma menina e sentou do meu lado para ver o filme; e a gente começou uma conversa que quase esquecemos do filme (“El Cid” que eu já tinha visto). A nossa conversa estava tão boa que já tinha gente reclamando: silêncio que eu quero ver o filme...

No final da sessão, eu fiz alguns comentários sobre o filme – assim como tinha feito no início, para fazer uma introdução – e depois o pessoal levantou e foram cada um para o seu quarto (que é como a gente chamava os apartamentos da Casa). Mas eu e a Joci (a tal menina) ficamos por ali e continuamos a nossa conversa.

A Joci foi a primeira grande amiga que eu conheci na Casa. A gente costumava almoçar e jantar junto no RU (restaurante universitário) – pelo menos quando a gente se encontrava por acaso no RU; já que ela fazia outro curso (educação especial). Mas a gente sempre acabava se encontrando nos RUs da vida... Na verdade tinha uma galera que quase sempre almoçava e/ou jantava junto. Dificilmente eu comia sozinho nas mesas do RU, e, como a gente ficava de conversa, eu, que sempre comi devagar, era quase sempre o último a sair da mesa.

Nas noites das sextas-feiras sempre tinha a boate do DCE para a gente ir – que era outro ponto de encontro da galera...

E assim a gente ia passando os dias: filmes, festas, jantas, conversas, músicas – a Joci, como quase todos os meus melhores amigos, também tinha muito bom-gosto para a música: era fã, particularmente, da Janis Joplin, mas também gostava do Pink Floyd, blues e até de MPB e música nativista.

Uma vez a gente foi acampar num festival em Nova Esperança do Sul (o Gruta em Canto) – neste também estavam a Soelge e a Silvana. A gente foi de carona (como manda o ‘figurino’ dos aventureiros) e passamos um fim-de-semana no paraíso: entre belezas naturais, grutas, cascatas, boa música e bons amigos – que é o que mais vale.

Teve um ano que a gente foi para Laguna, no carnaval. Alugamos uma van para uma galera de umas 16 pessoas. A Joci, que nunca foi muito fã de carnaval, naquele ano acabou gostando – como todo mundo que vai a Laguna no carnaval...

Mesmo depois que a Joci se formou e foi morar em Porto Alegre, a gente não perdeu o contato. A gente se encontrou num dos Fórum Social Mundial – que ocorreu em Porto Alegre e onde eu estava acampado. E foi um encontro por puro acaso (imagina a festa!). Ela estava com o Leonel – outro grande amigo da Casa do Estudante – e a gente passou alguns dias se vendo por lá e matando um pouco a saudades de quem há muito não se via...

Outro grande encontro que a gente teve foi numa das Rebeliões do Terríveis.

Desta vez a gente combinou tudo e nos reunimos no apartamento da Silvana, antes de irmos para o sítio dos Terríveis.

Foi nesta ocasião que eu conheci o companheiro da Joci: um cara super gente-fina de Passo Fundo – fã do Bob Dylan e etc.

Depois a gente se encontrou uma vez em Santa Maria, e nos desencontramos numa excursão para um festival de rock que aconteceria na serra – eu acabei não indo por causa de um engano na data do tal festival (uma lástima!).

Mas as nossas histórias não vão se apagar assim tão fácil, e eu não tenho dúvida de que qualquer hora dessas a gente vai se encontrar de novo para lembrar dos bons momentos que vivemos; e, quem sabe, viver outros ainda melhores...

Recentemente, eu consegui fazer contato com a Joci por e-mail e ela me escreveu o que está abaixo:

---Oi, oi! Teu e-mail chegou... Muito legal! Depois de tantos anos, pude relembrar de alguns episódios da nossa história... Pra ser sincera eu não lembrava exatamente como a gente tinha se conhecido (foi legal saber que foi assistindo a um filme). A recíproca da amizade, apesar de falta de contato, é verdadeira. Mesmo sem contato, eu sei que você está sempre em meu coração. As lembranças que mais me marcaram, foram aquelas que a gente saia aos finais de semana para subir o morro do Cechella (acho que era esse o nome). Foram passeios maravilhosos!

O tempo da Casa do Estudante, as nossas conversas... Isso não tem como descrever...

Também teve aquela vez em que a gente acampou junto na tua barraquinha e eu comecei a sentir falta de ar... Só me parei quieta quando tu me disse que se eu não ‘fechasse a porta’ as cobras iam entrar... kkkk

Outro episódio ‘marcante’ foi no Fórum Social Mundial, em que eu invadi a tua barraca na madrugada, pensando que tu não estava, e tu, pensando que eu fosse um ladrão, me ligou uma lanterna na cara e disse que se eu entrasse ia levar chumbo. Não sei quem é que ficou mais assuntado naquela – rsrsrsrsrs. Depois tu não parava de me xingar: como é que tu vai entrando na minha barraca e não pergunta se tem gente ‘em casa’?!!

Adorei essas lembranças e espero que tenhamos muito mais histórias num futuro próximo. Super beijo!

No documento OS MAIO RES (páginas 89-93)