O ano de 1991 foi, para mim, um ano de transição. Eu estava saindo da Força Aérea; mudei de apartamento; fundamos o Clube dos Aventureiros; eu estava namorando a Luciana, mas ainda tinha um relacionamento (amizade) com a Rosana (minha ex)... Isso tudo estava acontecendo em Santa Maria – onde eu morava.
Em alguns fins-de-semana eu ia a São Sepé ver a minha família. E foi numa destas idas que eu fui num baile de debutantes e acabei conhecendo a Adriana – uma morena linda, quase da minha altura. Ela era irmã da esposa de um amigo meu – o Flávio Henrique – e morava em Caçapava.
Depois daquele baile, que a gente ficou junto, eu passei a ter um motivo a mais para ir a São Sepé.
E a gente passou a namorar, eventualmente, nos finais de semana. Foi a primeira vez que eu estava com duas namoradas ‘oficiais’ ao mesmo tempo – sem problemas, porque uma morava em Santa Maria e a outra em Caçapava. O problema é que eu não estava a fim de ir a São Sepé todos os fins-de-semana. Mas, quando eu ia era quase só por causa da Adriana. Eu já sabia, desde o início, que aquilo não ia durar muito. Azar o meu, porque a Adriana, além de ser uma gata ainda era super inteligente e de muito bom gosto.
No meu quarto, em São Sepé – que ficava separado da casa e onde eu tinha a minha coleção de discos – a gente ficava escutando só coisa boa... Na verdade a Adriana ficava garimpando pérolas entre os meus discos e a gente curtia tudo numa muito boa...
Foi numa dessas que a Adriana declamou para mim, e depois escreveu num papel, a poesia “Diamante” – foi a primeira poesia que eu decorei na vida e que lembro até hoje, como se estivesse saindo da boca, e da voz suave, da Adriana. Vejam só o que ela me disse:
Toda vez que saio do planeta te percebo entre as estrelas
E vôo ao tempo exato dos segundos que é pra estar em cada mundo onde tua luz possa alcançar. E espero que um dia, não distante, o teu olhar de diamante
me convide pra ficar.
Então, serei teu pássaro cativo teu estado de espírito
teu motivo de brilhar.
Às vezes eu me pergunto: como é que eu não casei com uma mulher dessas?!
Mas, como eu disse antes, eu estava num período de transição, e manter um relacionamento a distância não seria muito fácil. Além disso, eu também estava namorando a Luciana (na foto ao lado – de 2004), que também era inteligente e de bom gosto – e que tinha uns belos olhos verdes...
Das poucas vezes em que eu e a Adriana nos encontramos em São Sepé, eu também lembro de uma em que a gente fez um passeio ecológico de bicicleta...
A gente também trocou algumas cartas neste período; até que eu tive que escrever a última carta – onde eu pretendia deixar claro que o nosso caso não tinha futuro...
Abaixo estão alguns trechos de cartas que eu mandei pra ela: Junho de 1991
Adriana, pensando em você me sinto sozinho, pois sei que a distância nos separa. Mas se a distância nos separa, o pensamento nos une...
Não costumo escrever cartas deste jeito, mas é a melhor maneira de não perdermos contato, pois escrevendo pensamos; e se pensamos sentimos e nos aproximamos.
É pena que não podemos conviver mais próximos, para que possamos nos conhecer melhor, pois creio que temos muito a descobrir e ensinar um para o outro...
Quanto às flores que você me pediu, prefiro te levar ao jardim... Finalizo esta com uma canção do Sá & Guarabyra, que diz:
Quero que você me faça um favor
Já que a gente não vai mais se encontrar Cante uma canção que fale de amor E seja bem fácil de se guardar Meu amor
O que sou
Todo mundo vê... Me perdi, me esqueci, Dentro do seu mundo
Procurando a vida com você...
Na minha última carta, escrita para a Adriana eu escrevi: Agosto de 1991
Adriana, queria te dizer algumas coisas sobre o tempo: você tem razão quanto ao “achar tempo”, mas se você pudesse conviver comigo aqui em Santa Maria iria entender que todo o meu tempo é ocupado por coisas que eu gosto e que talvez não ‘abra mão’; é que além dos compromissos (trabalho/estudo) eu tenho uma porção de amigos e amigas, além de outras atividades – como: shows, cinema, vídeos, festas, etc., que preenchem meu tempo quase que integralmente e nesta situação, eu estou me sentindo muito bem; sem perder, com isso, o meu direito a minha própria liberdade...
Eu sinto muito se isso pode te ferir um pouco, mas eu não quero me envolver contigo para estar sempre atrás de ti e nem quero que tu faças o mesmo por mim.
Temos que viver nossas vidas e deixar as coisas acontecer... Você sabe que eu gosto muito de ti, mas não posso abandonar a minha vida por tua causa; ainda mais que nem eu nem você sabemos o quanto realmente gostamos um do outro. Acho que só o tempo e uma possível convivência – mais adiante e sem que percamos nossas identidades – é que pode nos dizer até onde nosso relacionamento tem futuro.
Só posso te dizer, agora, que façamos as coisas mais devagar – talvez já tenhamos nos precipitado. Vamos recomeçar como uma amizade sem compromissos; nos escreveremos e nos encontraremos, sempre que possível, e vamos deixar as coisas acontecer...
Eu sei que para você isso talvez seja mais difícil, mas não me culpe por isso; estou fazendo isso por você. Não quero que amanhã você venha a se decepcionar comigo ou se achar com algum direito sobre mim. Eu me considero uma pessoa livre e sempre vou ser livre; e quem quiser ficar comigo, terá a mesma liberdade.
Espero que entendas o que eu quis dizer e que não se esqueça de mim...
Peço desculpas por qualquer coisa que possa ter te magoado. Você sabe que esta não foi a minha intenção.
Beijos e até a próxima...
---Mesmo tentando usar ‘palavras macias’, a Adriana não gostou nada do que eu disse (fiquei sabendo disso pela irmã dela) e nunca mais me escreveu.
Anos depois, em 1994, numa ocasião em que eu fui a Caçapava escalar a Pedra do Segredo, eu dei um jeito de passar na casa da Adriana. Ela não chegou a demonstrar que estava braba comigo, mas também não demonstrou que ainda estivesse afim...
Acho que este foi o ponto final da nossa história; que foi muito breve mas que me marcou muito.
Às vezes, em noites sem Lua, eu saio do planeta procurando a Adriana entre as estrelas; e consigo ver o seu olhar de diamante que ficou muito bem guardado “in deep inside from my heart”.