Capítulo 2 – TEMPOS, TERRA E LUTA
2.2 Memórias da luta
noto como sua fala enfatiza o engajamento dos Xakriabá com o trabalho mesmo (na terra), sem deixar de mencionar, por outro lado, modos indígenas de engajamento com a mesma terra caçando e pescando.
A terra aparece como algo central para os Xakriabá, muito por causa do trabalho, mas também porque define seus moradores: os do lugar, do local, os nascido e criado.
Estes, também chamados como filhos da terra, eram denominados pelas pessoas que não moravam nas terras doadas como caboclos, por isso a menção ao seu território como Terreno dos Caboclos. Essa denominação se deu principalmente por conta da chegada e dos casamentos dos herdeiros ou sucessores dos índios da Missão de São João com imigrantes vindos da Bahia (SANTOS, 1997).
Em minha pesquisa de campo, quando conversava com alguns Xakriabá com idade superior a 60 anos sobre a história da terra que lhes fora doada, ganhou destaque em suas narrativas a movimentação de pessoas pela região à procura de terras para trabalhar. Assim como Santos (1997, p. 44), pude ouvir algumas histórias sobre famílias originárias da Bahia que, fugindo da seca, andaram de lugar a lugar até chegar ao território indígena. Senhor Valdemar Fernandes me contou o seguinte sobre a chegada de sua família materna à reserva:
Eles vieram, para num ponto, para em outro e assim veio. Até conseguir parar num vale aqui, pra cá da vila Virgínio. Aí eles viveram lá um tempo. E aí vieram para cá, dentro da reserva. E aqui eles viveram uns anos, casaram os filhos tudo com pessoas daqui e por aí eles morreram (...).
Eles vieram pra cá porque de primeira existia assim, e, às vezes, a pessoa, porque já tinha um lugar aqui por nome Brejo do Mata Fome.
É aqui na Imbaúba que esses trata, esses trata de Brejo do Mata Fome. Porque as pessoas vinha de lá, como vêm esses refugiado hoje, que vêm dos outros países por conta da inconstância do lugar. E as pessoas vinha, chegava aí, já pegava e arrumava com eles pra plantar roça, já melhorava as condições. Quando chegava um certo tempo, esses já mandava, os donos índios, os mais velhos, a pessoa sair. Já estava melhor, passava melhor. Aqueles que herdava mais certo, ficava. Às vezes, gostava mais, ficava. Aí arrumava lugar pra morar, ficava. Outros já entravam como grileiros, às vezes, tinha uma situaçãozinha melhor, já começava a comprar de um e de outro e aí aposseava. (Senhor Valdemar Fernandes, aldeia Barreiro Preto, agosto de 2018).
Como fica perceptível na fala de senhor Valdemar, os Xakriabá estabeleceram vários tipos de relações com os de fora ou baianos. Relações de troca, de venda, de amizade e de parentesco. No entanto, havia regras no que diz respeito à ocupação da
terra. Na fala de interlocutores xakriabá de Santos (idem, p.48 e 49), os chefes só cediam terras aos chegantes na localidade chamada Traíras, pois “o lugar deles, dos baiano, quando chegava e arranchava, era pra acolá de lá do riacho...” (Deraldo.
Aldeia Embaúba, 1995). Outro modo de fixação de pessoas de fora na área foi a venda de capoeiras de algodão e mamona por parte dos chefes: “Vendia a capoeira de algodão e mamona. Agora quando eles vendia aqueles caroço, baiano acabava de colher, aquilo passeava de posse” (Manoel Cabral. Aldeia São Domingos, 1995).
Desse modo, pessoas de fora que chegaram e respeitaram as regras determinadas pelos indígenas em relação ao seu território - ocupar um pedaço de terra por meio de trabalho - ou que vieram para contribuir com o grupo - como o pai de dona Olava, que os ensinou a trabalhar a terra - foram aceitos e passaram a fazer parte desse coletivo.
Contudo, aqueles (do lugar ou de fora) que viram a terra apenas como uma propriedade privada e colocaram-se a comprar e cercar grandes extensões de terras passaram a ser vistos como grileiros. À medida que esses grileiros foram aumentando suas propriedades e colocando famílias que se consideravam indígenas para fora de suas casas, criou-se um clima de revolta, o que contribuiu para desencadear o período que os Xakriabá chamam de luta pela terra. Vejamos o relato de senhor Emílio:
É, mas nesse tempo a gente andava... o povo, o índio tinha essa terra lá, em Traíra, mas era um lugar que a gente só ia lá assim..., ocasião de pescada, ocasião de caçada, essas coisa nessa época, né.. Aí eles foram pedindo, morando ali daquele lado, o chefe foi adeixando eles arranchar, né. E isso, com dó deles... Daí a pouco suprou lá de gente, e aí já veio apertando pra cá. Aí adonde eles chegou a ponto deles adquirir dessa pessoa assim, pra recorrer com nós daqui, né. Assim que começou a luta da terra. (Emílio. Embaúba, 1995, apud Santos, idem, p.46).
A luta pela terra, como dito no capítulo anterior, caracterizou-se, entre outras coisas, pela divisão dos moradores da área, que se viram obrigados a fazer cadastro como indígena ou cadastrar-se como posseiro, assinando contrato com a Ruralminas.
Sobre essa divisão, senhor Zé do Rolo expõe o seguinte:
Depois chegou um cadastramento de direito de posse aí na cidade de Itacarambi. Fez cada um fazer um documento de posse e pagar imposto. Pagar imposto para a Ruralminas. E com isso começou a fazendeiro chegar aqui. Começou a comprar direito de posse de uma pessoa, uma casa, e cercava tudo que estava desocupado. E foi
apertando o povo. E foi até uma altura assim que lá adiante eles veio querer a divisão da terra. E que os que não comprassem tinha que sair, mesmo o povo. E aí foi fazendo a cabeça de alguns, aqueles alguns começaram a acreditar neles e aí quer dizer que as coisa ficaram mais difícil. (...) Eles começaram a comprar um tanto de gente daqui, e não queria ser índio mais, queria ser posseiro.
Posseiro uniu com fazendeiro isso que deu maior trabalho. Gente da terra. Se fosse só os fazendeiros não tinha dado o trabalho que deu não. Mas os da terra, porque ele tinha o direito de ser nativo da terra, isso aí que deu força para os fazendeiros romper mais tempo. (...) [Por que o senhor acha que eles passaram pro lado dos posseiros?]
Interesse de enricar. Esses que ficou não teve interesse de enricar não. Eles queria permanecer no lugar. Aí quando as coisas começou a ficar muito difícil, eles pensou: vamos unir as força, vamos unir as forças porque a gente não tem pra onde ir. O lugar nosso é aqui (Zé do Rolo, aldeia Barreiro Preto, fevereiro de 2018).
Por causa das grilagens, os Xakriabá foram obrigados a conviver com a progressiva escassez de áreas para roças e criações, e parentes tiveram que se separar.
Laureano, que atualmente é morador da aldeia Barreiro Preto, relatou-me suas vivências e de sua família no período em que ocorreu a invasão de posseiros no Sapé e como eram as ações destes:
Eu nasci no Sapé. Vivi lá até a faixa dos quinze anos por aí. Depois dos quinze anos, foi a época dos posseiros, né? Aí os posseiros chegaram, foram comprando ao redor e nós ficamos lá no meio. Eles compravam dois alqueire e marcavam três. E ficamos assim, a família nossa espalhou tudo. Uns saiu foi morar na cidade. Pouco tempo, nós teve que sair de lá, não teve como nois ficar lá. Os que estavam lá também que era meu cunhado, teve que sair de lá também por causa dos posseiros, né? Foi aquela época que teve aquela revolução que eles tomaram a terra nossa. (...) Naquela época da luta, as coisas eram apertadas, tinha que correr. (Laureano, aldeia Barreiro Preto, dezembro de 2018).
Mesmo desestabilizados por conta de violências físicas e emocionais, os Xakriabá se organizaram e tomaram algumas medidas para retomar suas terras e evitar a invasão das mesmas. Dona Faustina me contou que “o povo tudinho do Barreiro, mais o finado Rosa e o finado Rodrigo, colocava gado em um cercado na aldeia Sapé” para evitar que houvesse nova invasão daquele lugar. A escolha do Sapé para colocar o gado não era aleatória, pois, como pude ouvir de duas lideranças que participaram do período de luta da década de 1980, “foi no Sapé que aconteceu a luta” (senhor Valdinho, falecida liderança da aldeia Barreiro Preto), “foi aqui no Sapé que a coisa foi maior”
(senhor Zé Fiúza, liderança da aldeia Itapicuru). Foi na “parte de baixo”, na região leste
e sul da Terra Indígena, que os grileiros mais atuaram (Santos, 1997, p.217), ganhando destaque nas lembranças dos Xakriabá com quem conversei a presença da grande fazenda do prefeito Zé de Paula, que tinha sua sede na aldeia Sapé, mas se expandia para outras áreas do território:
Apareceu o prefeito. O prefeito é o cargo chefe da cidade. E que queria manter uma fazenda dele aqui, grande. Com escritura, com tudo. (...) Pegando de lá do tabuleiro naquele cruzamento de estrada que vai, que atravessa pro Sapé. Ali eles tinham uma cancelona [porteira grande]. Aquele meio ali. E pegava pra lá e descia na Barra até no riacho, e cortava por cima até chegando próximo de Itacarambi. Chegando na serra lá. Encontrava com a Cauê. Esse terreno deles aí. Então era muito espaço. (Senhor Valdinho, aldeia Barreiro Preto, fevereiro de 2018).
Além de colocar gado em áreas cobiçadas pelos grileiros, outra medida que os Xakriabá tomaram para parar o crescimento das propriedades de Zé de Paula e de tantos outros fazendeiros e retomar as terras que lhes pertenciam foi a realização de mutirões para plantar roças, como mencionado no Capítulo 1.
A turma da luta - como se refere senhor Valdinho àqueles que se uniram para retomar as terras – fez a primeira tentativa de colocar roças na região do Peruaçu, grilada por Paulo Roque, em 1984. Também em 1984, um mutirão assentou 21 famílias no Morro Falhado, área grilada por Aécio (Santos, 1997, p. 214) e vizinha da aldeia Sapé. Em 1985, os mutirões ganham mais força, tendo ocorrido um grande mutirão na aldeia Sapé, na fazenda de Zé de Paula, que mobilizou cerca 600 pessoas. Esse mutirão é o mais lembrado pelos Xakriabá quando falam da luta pela terra:
Tem uns posseiros ali e tá batendo contra nós. O que vamos fazer?
Vamos botar uma roça lá no lugar dele lá, ele tem uma mata lá, vamos pôr uma roça lá. Quem quer uma roça lá? Aí tinha alguém que tinha um terreninho fraco e o posseiro já tinha tomado, aí pedia a roça. E você ia lá botava roça e a roça tinha um dono. Então já saía dali e marcava um mutirão pra tal terra de posseiro e perguntava quem ia querer roça lá. Trabalhamos com mutirão de 100, 200, 300 pessoas, o maior foi com 600 pessoas lá no Sapé. Cada lugar que você botava roça era para que a justiça se aproximasse para resolver nosso problema. Por isso que a gente fazia os mutirão. (Senhor Valdinho, aldeia Barreiro Preto, fevereiro de 2018).
Então nós fizemos uma grande reunião e foi fazer a retomada da terra. Que se a gente não faz isso, a terra até hoje tava nas mãos dos fazendeiro. Porque a Funai não vinha aqui fazer a retomada. Porque
o Cimi também não vinha, ele lidera a própria ação, mas em primeiro lugar quem fez foi nós. Hoje eles inda fala que se não fosse a Funai não tinha terra. Mas quem fez foi nós, se não fosse nós, agradeça a nós, que lutamos junto, na união, por que se fosse o Cimi e a Funai não tinha nada. Porque essas autoridade é desconhecido de uma parte, que num foi eles que deram a terra pra nós. Eles não têm terra aqui pra dar pra índio não, a terra já era nossa de muitos anos, onde nós nasceu e criou, avô, bisavô. Então quem fez a retomada foi nós, o Cimi e a Funai só protegeu. Mas que a Funai e o Cimi não deu a terra pra nós, não deu não (Raimundo Gomes de Oliveira, São Domingos, 1995, apud Santos, 1997, p. 245)
Os mutirões aparecem nas lembranças dos Xakriabá como união que reunia o pessoal em atos para impedir as invasões. A união liga-se, por outro lado, à memória do sofrimento: esse foi o período da luta pela terra em que os indígenas mais sofreram, pois, quando os mutirões ganharam força e os Xakriabá estavam conseguindo retomar suas terras, os atos violentos dos grileiros tornaram-se mais intensos e constantes. O cenário que se delineia a partir das memórias Xakriabá sobre esse período é de medo, de indígenas assassinados e baleados, famílias obrigadas a largar suas casas e se esconder no mato, passar fome, sono e outras privações:
Valdir: - Ele [Alfredo Ferreira Leite, ou Alfredão] tinha uma posse lá na Grota de Pedra. Só que ele era jagunço, ele era jagunço dos fazendeiros. (...) Que ele era matador, então os fazendeiros contratou ele. Eles era contratado pelos fazendeiros, como jagunço. Tanto que esse dia que ele atirou no Zé de Benvindo, ele atirou no tio Manoel Fiúza também, (...) e matou um outro índio também, que é um primo nosso, o Zezão e... esse dia, ele tava acompanhado com os Vidoca [família de posseiros].
Sendo que ele [Zé de Benvindo] levou 6 tiros, 6 tiros de 38. (...) Mas Deus pôs a mão na frente, que todo tiro que ele atirava nele, ele virava. Então, as balas pegou tudo lá nele assim, ó, e entrando só de lado assim, ó.... num atingiu por dentro não. (...) Porque se pegasse de frente ele morria.
D. Elisa: - Meu irmão [Manuel Fiúza] quase morreu, dessa vez (...) Então daí começou a perseguição, nós dormindo no mato, mais de ano nós dormimos no mato. Quando começou as perseguição, e eles só perseguindo dentro de casa, era dia e noite. Tinha dia que vinha anté a noite, perseguindo nós. Então quando entrava, o correr do dia, eu ficava em casa, fazia uma comidinha ali na carrera, pra ele, tinha dias que comia, tinha dia que não comia. Outra hora eu fazia uma marmitinha e levava pro mato, Rosalino comia no mato. Inté a hora que ele queria, assim, descansar o corpo um pouco - de dia assim, que de noite nós num dormia, nas muriçoca, tudo murdido de muriçoca lá, dentro das capoeira. Tinha dia assim de dia que ele ia lá, por dentro das capoeira assim, já tinha uma caminha dele ponhá no mato, pra descansar o corpo. E à noite, nós ia tudo pro mato.
Valdir: - A gente não podia nem acender um fogo lá também no mato!
Passamos muita fome, mesmo, dessa vez.
D. Elisa: - Mais de ano. Passamos fome e sono...” (D. Elisa e Valdir Nunes de Oliveira. Brejo do Mata-Fome, 1995, Idem, p.224 e 225).
As agressões por fazendeiros são apenas um tipo de violência que aparece nos relatos dos Xakriabá sobre os conflitos de terras com os fazendeiros. Eles também tiveram que lidar com as perseguições da polícia, que estava do lado dos latifundiários.
Como frisa senhor Valdinho, nesse tempo, também “não [se] podia usar nada da cultura”:
Quando fala nisso até a Igreja Católica naquela época perseguia os índios. E se a Igreja perseguia nós, imagina a polícia que naquela época era comandada pelos ditador forte. É uma prova tanto que até na nossa luta, quando a polícia vinha aqui, vinha a favor dos fazendeiros. (...) Mais quando a polícia vinha aqui, com certeza, a gente tinha que ter cuidado com eles. E aí por isso que acabou. Você não podia usar nada da cultura. Ela chegou a ser tão perseguida que até entre nós ela desapareceu. Porque quem tinha não podia falar.
Ainda mais com medo de descobrir que tinha alguém que tinha o segredo da cultura guardado ali. Então hoje a gente fala assim, hoje nós ranquemo os instrumentos. (Senhor Valdinho, aldeia Barreiro Preto, fevereiro de 2018).
Outro ponto que se destaca quando os Xakriabá relembram das invasões/roubos de suas terras é o fato de pessoas do lugar estarem ajudando fazendeiros e posseiros em suas ações de grilagem, como anteriormente frisou senhor Zé do Rolo quando falava da chegada da Ruralminas ao território. Dona Faustina me contou o seguinte sobre o dia que um posseiro chamado Gonga e seus capangas invadiram o curral e a casa que era de seu falecido pai na aldeia Sapé:
Eu sentei lá no curral da casa de pai e falei para as meninas fechar as portas. E fiquei lá olhando. O povo desceu assim ó. De onde Chicão tá morando, pra baixo, cheio de casa. Esse povo atirava, saltava fogos, e atirava, derrubava as casas, matava gado, matava cachorro, arrastava os trem do povo comer e botava lá no meio da estrada e botava os cachorros por riba. Foi o Gonga. Uma tribuzana.
Aí juntou gado, cavalo e tudo e veio tocando pro curral. Aquela boiada. (...) Quando eles vieram pro rumo de cá, quando eles tava perto pra chegar no curral, eu desapie, falei para as meninas fechar as portas e fui-me embora. E esse povo atirando, soltando fogos. Eu chamei as meninas e fomos pra minha casa. A casa minha para essa outra casa, era como daqui [casa de dona Faustina em Missões] até lá na igreja [Matriz de São João Batista]. (...) Aí Domingão veio falou:
“É Faustina vim falar pra você que você fosse pegar suas coisa lá, que o povo quebrou a casa, invadiu, e querem o lugar”. Então eu falei: “O dono tá lá?. Ele disse: “Tá!”. Aí eu chamei as meninas para ir lá pegar as coisas. Aí quando chegou na casa eu disse: “Cadê o dono, Domingos?” Aí ele: “Tá lá no curral! Aí eu olhei pra lá e não via pau no curral não, era só gente sentado em riba”. Aí eu pedi o Domingão pra ir chamar ele. O Domingão falou para eu ir lá. (...) Quando o homem chegou, ele falou: “A senhora que é a dona daqui?” Eu disse: “Sou eu mesma”. Esse homem falou: “Ah a senhora que é a dona daqui é que nós compramos e tudo”. Aí eu disse: “Aqui, é porque diz que foi vendido. Mas isso aqui é herança de pai, a minha casa é ali, mas o meu lugar eu não vendi, eu não vendi meu lugar não. Mas isso aqui diz que foi vendido, eu entrego, eu só não quero é prejuízo, que nem as coisas das meninas, tá tudo aí ó”.
Ele disse: “Não, não, pode pegar”. Quando esse homem chegou assim, aquele povão só foi rodeando, rodeando, e só cê ver, eu não gosto de ficar encarando não, então de vez em quando eu corria o olho assim, a maior parte do povo era tudo daqui. (Dona Faustina, São João das Missões, novembro de 2018).
Percebendo que os grileiros tornavam-se cada vez mais violentos e que a justiça estava demorando a agir em prol de seus direitos, os Xakriabá passaram a retirar por conta própria os invasores de suas terras.
Porque, ele quem tinha que conversar, igual ele [Rosalino] sempre falava. Porque às vezes tinha um que não queria sair das casas, aí meu pai chegava e ‘ó, cê é posseiro, então nós vão dar um prazo pra você sair, porque, às vezes, quando eu tô acompanhado, eu não deixo nada acontecer, mas se não tiver no meu acompanhamento, eu não sei, pode acontecer uma coisa pior...’ Porque, sabe como é que é, índio é meio sem juízo mesmo, não é, não todos, porque tem uns que têm a ideia mais firme, mas não todos. (...) Então às vezes reunia — que ele não ia sozinho, porque eles tava com raiva dele — 30, 40 índio: ‘nós vamos na casa de fulano, que já passou do prazo pra ele sair, já teve a orde, a autorização pra ele sair, e ele não vai sair, agora nós vai reunir 40, 50, mas ninguém vai falar nada, quem vai falar sou eu’. Chegava lá conversava, explicava certinho como é que era, e eles concordava, né. Muitos queria até revoltar, e ele acalmava, pra não acontecer nada. Avisava, dava o prazo. Às vezes, muitos não podia sair na hora, tinha as criação, as coisa pra carregar, da casa.
Muitos queria que saísse logo, já com meu pai não, ele tinha calma:
‘Com quantos dia cê pode fazer tudo?’ ‘Ah, três, quatro dias’. ‘Então se arruma, porque eu não sei o que pode acontecer se eu não tiver junto’. (Valdir Nunes de Oliveira. Brejo do Mata-Fome, 1995, apud Santos, 1997, p.229 ).
O estopim da reação dos Xakriabá à violência dos grileiros ocorreu com o assassinato do sobrinho do fazendeiro Francisco Assis Amaro, o que fez com que a
Funai e a Ruralminas providenciassem a saída imediata dos posseiros da área (SANTOS, 1997, p.230). Tal acontecimento marcou a memória de alguns Xakriabá, como pude perceber no relato que ouvi de Isabel, atualmente moradora do centro da aldeia Barreiro Preto, mas que nasceu na localidade dos Olhos D’Água:
A situação aqui tava quente. Aí o povo nosso encontrou com uns posseiros e já tinha pedido pra saí. Ali perto de onde André irmão meu mora no Olho D’Água. Eu era criança, tava em casa, quando ouvi aquela tiraiada. Eu fiquei quietinha dentro de casa, assustada.
Escutei o gemido de um homem que tinha sido baleado, depois fiquei sabendo que um morreu. Na época, eu não sabia quem era, mas depois de uns anos chegou no meu ouvido que era parente do seu Amaro. (Isabel, aldeia Barreiro Preto, julho de 2018).
Como mencionado no Capítulo 1, depois de negociações com os Xakriabá, os posseiros estariam de volta ao território indígena um mês após a determinação da justiça para que saíssem do mesmo. Nesse retorno, as lideranças xakriabá, por meio do cacique Rodrigo, tentaram ainda fazer com que remanescentes que se cadastraram como posseiros se juntassem novamente ao grupo, mas não obtiveram sucesso, como relata senhor Manoel Bezerra.
Ele foi lá, deu noventa dias, o finado Rodrigo. Deu noventa dias para essas pessoas que era nascida e criado aqui que tava no barraco voltar para suas casas e entrar no grupo. Minha mãe mesmo foi uma.
Ninguém quis. Ele deu noventa dias, ninguém quis. Aí venceu os noventa dias ficaram aí. Não tinha liberado nada lá. O prefeito quando perdeu a causa nem quis saber deles também. Quando foi na época que aconteceu isso, aí foi obrigado a sair mesmo. (Senhor Manoel Bezerra, aldeia Barreiro Preto, agosto de 2018).
O acontecimento ao qual se refere senhor Manoel Bezerra no final de sua fala é a chacina do Sapé, na qual a liderança Rosalino e mais dois Xakriabá foram assassinados pelo fazendeiro Francisco Amaro e seus comparsas em 12 de fevereiro de 1987. As consequências desses assassinatos foi a retirada imediata e definitiva de fazendeiros e posseiros da área e a homologação da Terra Indígena Xakriabá. Escutei vários Xakriabá se remeterem a esse momento como término da luta.
Senhor Valdinho, refletindo sobre esse ocorrido, disse-me que foi só depois que derramou sangue dos nossos que a justiça resolveu nossa questão e ficamos sossegados. O doar a vida pela terra, o derramar sangue são ideias que aparecem com
frequência nos discursos atuais dos Xakriabá quando falam sobre a defesa de seu território. Pessoas que morreram durante a retomada da terra são referidas como guerreiros que morreram lutando ou como mártires que doaram sua vida em defesa da terra.
Tive a oportunidade de assistir a duas edições da Romaria dos Mártires ou Romaria do dia 12 de Fevereiro, um evento anual que os Xakriabá passaram a realizar desde 2007, em articulação com o Conselho Indígena Missionário, o Cimi, em que relembram o período de luta pela terra e homenageiam aqueles que lutaram e morreram durante o conflito. Nas romarias, são prestadas homenagens principalmente aos Xakriabá que foram assassinados na madrugada de 12 de fevereiro de 1987 na casa do principal líder do movimento de retomada da terra, Rosalino Gomes de Oliveira. Elas se configuram também como momento para os Xakriabá refletirem sobre questões que envolvem a vida no seu território demarcado e por demarcar.