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Romaria: lembrar e fazer a luta

Capítulo 2 – TEMPOS, TERRA E LUTA

2.5 Romaria: lembrar e fazer a luta

Como mencionei anteriormente, um dos objetivos das lideranças ao rememorarem e refletirem sobre o período da luta tem sido procurar engajar a juventude xakriabá na luta atual do povo, pois, ao contarem sua história trazendo à tona questões relacionadas ao seu território, buscam desenvolver nos jovens sentimentos de valorização e de comprometimento pelos direitos já conquistados e por conquistar, estimulando-os assim a se juntarem a elas tanto no cuidado de sua Terra Indígena e das pessoas do povo, quanto nos movimentos de retomada de terra em curso. Desse modo, as homenagens em torno da luta da década de 1980 apresentam-se como um instrumento de luta para os Xakriabá.

Destarte, na busca por tal engajamento afetivo da juventude xakriabá, ganha destaque, nos discursos e no fazer dos líderes, a união. Relembrar o que já se viveu, como se faz nas romarias, fortalece a luta atual, une o grupo, o qual se preciso for irá doar sua vida para defender seu território como outros guerreiros fizeram no passado, destaca a jovem liderança espiritual Déda.

O tempo da luta tornou-se, portanto, uma marca coletiva no fazer a luta na atualidade. Nesse sentido, a construção da memória coletiva situou esse tempo como emblema da luta que nunca vai acabar e que irá se transformar constantemente. Assim sendo, cabe aos Xakriabá se atentarem às características ou ao modo como se apresenta cada luta para saberem com quais instrumentos vão lutar.

Rememorar a história da luta pela terra para os Xakriabá, mesmo estando presentes em suas memórias as tantas violências que sofreram, é então, como salienta Veena Das (2011) para o contexto indiano, um modo que eles encontraram para habitar seu cotidiano. E nessa luta por um habitar seu território propício à boa convivência entre todos, os líderes, sejam eles jovens ou mais velhos, possuem um lugar e papel fundamental. No próximo capítulo, dedicarei mais atenção às lideranças xakriabá.

destaca que os estudos antropológicos sobre peregrinação podem ser agrupados em três grandes correntes: a perspectiva funcionalista, que vê as peregrinações como unificador do social e regenerador moral do grupo; o paradigma turneriano, que acentua as similaridades nas experiências de peregrinação, vendo-as como um fenômeno fechado e universal; e a corrente teórica que, ao contrário de Turner, dá ênfase para as particularidades de cada peregrinação, sem, no entanto, deixar de reconhecer que estas também possuem elementos em comum. Eade e Sallnow (1991), como frisa Steil, são os principais representantes desse paradigma e é inspirada pelas ideias deles que analiso o ritual das romarias Xakriabá.

Sobre as semelhanças entre as peregrinações, esses autores explanam que, nesses eventos, combinam-se três coordenadas que se apresentam como recorrentes e constitutivas desses rituais religiosos: “pessoas”, “textos” e “lugares”. Carlos Steil (2003, p.47) diz o seguinte sobre essas coordenadas:

Espaços e objetos que são focos de peregrinação geralmente têm um texto (escrito) ou um mito (oral) sagrado de referência que lhes confere força de autoridade. Do mesmo modo, a relação entre pessoas, lugares e eventos sagrados levanta questões importantes para a análise comparativa de qualquer peregrinação. Túmulos, relíquias, espaços que foram habitados por pessoas reconhecidas como santas, como grutas ou montanhas, podem se tornar, de diferentes modos, encarnações do sagrado em sua forma material.

Além dessas três coordenadas enfatizadas por Eade e Sallnow (1991), Steil (2003, p. 48) chama a atenção para o ato do deslocamento. Segundo ele, rituais de circulação em torno de objetos, de lugares sagrados ou profanos, têm uma longa tradição nos eventos de peregrinação, sendo este, portanto, um elemento constitutivo e comum desse encontro religioso.

Nas romarias xakriabá, também identifiquei esses quatro elementos constituindo as mesmas. Como podemos observar na descrição etnográfica feita acima, indígenas e não indígenas, em homenagem àqueles que morreram na luta pela terra, saem dos lugares onde vivem para se encontrarem na aldeia Itapicuru e caminharem até o cruzeiro onde estão sepultados os Xakriabá assassinados na chacina de 1987.

Durante as homenagens dos eventos que participei, alguns “textos” ganharam destaque. Na romaria de 2017, por exemplo, no momento da caminhada, havia uma faixa em agradecimento aos Xakriabá que lutaram pela demarcação e homologação da

terra e banners com o rosto do cacique Rodrigão e com o rosto de Rosalino, entre outras mensagens fixadas em cartazes carregados por membros de comunidades tradicionais.

No banner dedicado a Rosalino, havia uma frase desse líder que retrata a disposição que este tinha em dar a própria vida em defesa de seu povo. Fazia parte da romaria também os cânticos que foram distribuídos em panfletos pelos membros do Cimi. Tais cânticos exaltam a luta dos povos do campo e a fé dos romeiros.

Foram lidas pelo cacique Domingos partes de cartas escritas por Rosalino, que traziam denúncias dos conflitos na área e as violências que os indígenas sofreram na luta pela terra. Essas cartas retratam a dramaticidade dos fatos e a memória dos desafios concretos vividos, as impressões de Rosalino sobre a luta e o diálogo deste com o Cimi.

Além das cartas, planfletos e cartazes, outros objetos fizeram parte da caminhada, como as bordunas e chocalhos empunhados por homens e mulheres xakriabá, cocares, saiotes de palha, vestidos pintados a mão por artesãs xakriabá, calções com o nome “Xakriabá” impresso48, a estola e batina vermelhas do padre, e a cruz de madeira carregada pelos jovens xakriabá. A cruz e a cor vermelha simbolizam o martírio, como informou padre Gilsônio durante a missa realizada próximo ao cruzeiro onde estão enterrados Rosalino, Manoel e José.

Todo o espaço onde se situa tal cruzeiro - os túmulos, a tapera de Rosalino, a mata ao redor destes, as ruínas das casas onde moravam as três vítimas49 - é considerado sagrado pelos Xakriabá, como relatou cacique Domingos quando comunicou aos romeiros que as lideranças haviam recusado a proposta de transformar o lugar em um memorial. A liderança Zé de Benvindo (aldeia Pindaíba) e a liderança Rosalvo Fiúza (aldeia Sapé) me apontaram com orgulho as árvores, que ficam próximas ao cruzeiro, onde junto com Rosalino participaram de reuniões para organizar os mutirões de retomada de terra na década de 1980.

Sobre as “pessoas” que participaram dessa romaria, estavam presentes Xakriabá de diferentes aldeias do território demarcado e das áreas de retomada, representantes de outros povos tradicionais e membros de instituições como o Cimi, a CPT, o CAA e universidades federais. Como chama a atenção Carlos Steil (1996, 2003), inspirado

48 Vestimenta masculina marcante na presença atual dos Xakriabá em suas participações em movimentos como a Romaria dos Mártires Xakriabá, ATLs, eventos nas área de retomada, etc.

49 Segundo informação presente no livro escrito por professores xakriabá, intitulado “O tempo passa e a história fica” (1997), Rosalino, Manoel e José foram sepultados próximo de onde moravam porque “Segundo a tradição xacriabá... Um Xacriabá assassinado não pode ser enterrado muito longe de sua casa” (XACRIABÁ, 1997, p.39).

pelas ideias de Eade e Sallnow (1991), quando pessoas de diferentes origens e vinculadas a diferentes instituições se reúnem em uma peregrinação, é preciso se atentar aos diferentes discursos e sentidos que estas elaboram, pois estes constituem as particularidades do evento religioso.

No que diz respeito à romaria xakriabá, presenciei uma diversidade de discursos tecidos pelas diferentes “pessoas” que mencionei acima. Enquanto as comunidades tradicionais se dedicaram a falar de sua história e dos contextos econômicos e políticos que vivenciam, o discurso da representante do Cimi focou-se sobre a união dos povos, pois todos são companheiros de luta, sobre os mártires de cada povo e a gratidão e consideração que se deve ter a cada líder que morreu defendendo os direitos de seu povo, e o compromisso de enfrentamento aos opressores que as novas gerações herdam.

Já o padre Gilsônio destacou que todos os povos reunidos ali eram irmãos porque lutavam pela mesma causa e porque professavam a mesma fé, em Deus e em Jesus Cristo. Discursou também contra a violência e a vingança, e o compromisso que cada romeiro teria com a verdade e com Deus. Um tema em comum que perpassou o discurso de ambos foram as palavras em defesa ao meio ambiente e a proteção dos territórios das comunidades tradicionais.

Na romaria de 2018, os discursos foram das lideranças mais experientes, das jovens lideranças e do padre. Como vimos na descrição desse evento, as exposições dos líderes mais velhos versavam sobre a história da luta pela terra, a dificuldade de se manter o povo unido, a necessidade de participação da juventude na luta atual e a necessidade de se atentar a questões como o suicídio e a presença de igrejas evangélicas na Terra Indígena. As jovens lideranças discursaram enfatizando que estavam unidas aos mais velhos no enfrentamento da luta, que estão cientes que esta é contínua e que se preciso for darão suas vidas para protegerem os direitos de seu povo, assim como fizeram outros guerreiros no passado. Já o padre, ao discursar sobre o martírio de Rosalino, José e Manoel, proferiu palavras contra os atos violentos, ressaltando que ainda hoje os Xakriabá sofrem e perdem entes queridos em consequência da violência.

Diferentemente da romaria de 2017, na qual os discursos foram feitos contando com a ajuda de microfones e carro de som, em 2018, os romeiros não contaram com esses objetos. Bem como não houve cruz e nem cartazes durante a caminhada. Além dos adereços de homens e mulheres xakriabá - como saiotes de palhas, os calções com o nome “Xakriabá”, cocares, as bordunas e chocalhos -, o padre usava batina vermelha, os

foliões portavam seus instrumentos musicais, como sanfona, triângulo, violão e pandeiro, e muitos romeiros, principalmente as rezadeiras, protegiam-se do sol escaldante com sombrinhas.

Conforme relatei anteriormente, o cacique Domingos carregava em suas mãos folhas que continham denúncias da situação de conflito e violência vivenciada pelos Xakriabá no período de luta pela terra, a visão do ex-prefeito e fazendeiro José de Paula sobre esses indígenas e o Termo de Doação de suas terras elaborado pelo mestre de campo Januário Cardoso. Ele leu partes desses “textos” aos romeiros, exceto o Termo de Doação. De acordo com palavras do próprio cacique, seu propósito ao ler esses documentos era de, por meio deles, contar um pouco da história da luta pela terra aos romeiros, de modo especial aos jovens xakriabá.

O trajeto da caminhada dessa romaria foi igual ao do ano anterior, do posto de saúde da aldeia Itapicuru até o cruzeiro que fica bem próximo ao limite com a aldeia Sapé. No entanto, no que tange aos “lugares” importantes para os Xakriabá dentro desse contexto, ganharam destaque os lugares onde se situavam a casa de Rosalino e Manoel, e o banco que se quebrou no momento em que os foliões cantavam próximo ao cruzeiro, acontecimento tomado como indicativo da presença de Rosalino naquele local.

A última parada da caminhada foi exatamente em frente ao terreno onde Rosalino e Manoel moravam. Cacique Domingos passou entre os arames da cerca que faz divisa com a estrada de chão na qual passava a romaria e apontou o lugar em que ficava a casa de seu tio Manoel. Após falar sobre a vida e morte de seu tio, indicou com a mão que a casa de sua família, local onde ocorrera a tragédia, ficava um pouco depois desta.

As paradas na caminhada, ao mesmo tempo que me fizeram lembrar o rito católico da via-crúcis, chamaram-me a atenção também para a vivência do caminho.

Tim Ingold, no primeiro capítulo do livro “The Perception of Enviroment” (2000), fala sobre a iniciação de jovens no Ártico que são levados pelos mais velhos para uma caminhada em buracos que são lugares de origem de seu povo. Na caminhada e na chegada aos lugares de origem, os mais velhos contam histórias aos jovens. No caso das romarias xakriabá, o que ocorre é muito parecido com o que acontece nessas caminhadas do Ártico. Os mais velhos contam a história da luta pela terra aos jovens descrevendo as cenas in loco.

Por fim, vale dizer que, nos dois eventos, pudemos notar a presença de formas expressivas múltiplas, como o Toré, batuque, folia, ladainhas e benditos. Se em 2017 havia um número considerável de romeiros não Xakriabá, em 2018, quase não havia pessoas de fora no ritual da romaria, apenas o padre Gilsônio, Bill, que trabalha no escritório do Cimi na cidade de Itacarambi, e pesquisadores da UFMG e UNIMONTES.

União e a luta foram as questões que se destacaram no discurso e diálogo entre jovens líderes e lideranças mais velhas.