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Tempos e modos de engajamento

Capítulo 2 – TEMPOS, TERRA E LUTA

2.1 Tempos e modos de engajamento

De acordo com Célia, este é um momento posterior a 1987, em que os Xakriabá se reunificam enquanto povo e articulam novas posturas de luta e resistência com enfoque na cultura e na afirmação identitária de reconquistas e retomadas territoriais (SANTA ROSA, 2017, p. 48).

Se o tempo d’agora é o tempo do Novo Toré, o tempo dos antigos é o tempo do Toré Particular, do Toré realizado na mata, com participação apenas de indígenas, conforme Santa Rosa. É nessa temporalidade em que se configura o segredo, categoria xakriabá que compreende toda a dimensão cosmológica, envolvida em torno das relações com o Toré e os Encantos. Célia Xakriabá definiu esse tempo como sendo o tempo lento da sabedoria, onde o conhecimento era baseado na observação da natureza e maturação dos pensamentos, diferente do tempo d’agora que é o tempo rápido das respostas, da luta e dos projetos (IDEM, p. 39).

Assim como Costa e Santos (2010), essa pesquisadora considera que o Tempo dos Antigos é marcado pelo processo de colonização do médio São Francisco.

Entretanto, se, para o primeiro, o tempo dos antigos é todo o período anterior à retomada da terra nos anos de 1980, Santa Rosa (2017), em conversa com senhor Valdemar, liderança da aldeia Prata, chama a atenção para uma categoria temporal que aparece na narrativa deste que, de acordo com ela, remeteria à origem do povo, o tempo Dantes Era.

A diferença que nós acha que tem, não era assim não. Os velhos nossos falavam coisa muito antiga. Falavam, diziam assim: isso aqui tem muitos anos. É dos antepassados, muitos anos, antigo, dantes era, uma coisa que tem muitos anos, igual o cara disse do parque de 12 mil anos é dantes era. (Senhor Valdemar, Aldeia Prata, janeiro de 2017 apud Santa Rosa, 2017, p. 26).

A autora chega à conclusão de que a expressão Dantes Era falaria da percepção Xakriabá sobre sua origem, porque, conforme lhe disse senhor Valdemar, as lapas, que guardam os registros dos índios velhos e que eram as moradas dos mesmos, é uma origem que nós temos, a segurança nossa, onde guarda os Encantos, as coisas espiritual (IDEM, p.31). Segundo o mesmo senhor Valdemar, existe uma semelhança muito grande entre as pinturas rupestres encontradas na Caverna Poço Zé da Prata (Aldeia Prata) e as pinturas presentes nas lapas do Parque do Peruaçu, do qual não

apenas os Xakriabá, mas também os Kaiapó e os Guarani seriam originários (IDEM, p.

29 e 39).

Durante meu trabalho de campo, escutei os Xakriabá falarem no tempo dos antigos, no tempo d’agora, no período da luta ou época da luta, e também num tempo ou vida antes e depois dos conflitos pela terra. Fato é que, assim como Costa e Santos (2010) e Santa Rosa (2017) bem como outros estudiosos dos Xakriabá, percebi que a luta pela terra na década de 1980 é um marco temporal importante para esses indígenas.

Em conversa com senhor Valdinho, ele me expôs sua opinião sobre o motivo da invasão à terra dos índios de São João ou ao terreno dos Caboclos que desencadeou na retomada da terra em 1987, ao mesmo tempo que me falava sobre aspectos do território e da vida neste antes e depois da chegada dos fazendeiros.

Eu acho que a invasão aqui foi porque tinha pouca gente. Mas tinha dono. Talvez se não fossem os fazendeiros, que lá naquela época, em 87, que saiu, a gente contava com 70 fazendeiros. Então imagina 70 fazendeiros que devastamento eles num faz (...) O fazendeiro como se diz, ele quer ver é fazenda de gado, então viu um pedaço, tomou de conta (...) Então, isso é um motivo porque tinha muita mata. E o povo, era um aqui, outro, era um longe do outro. E tinha muito espaço. E aí a pessoa que vem lá de fora ele via tanta mata assim. Ele até chegava ali como amigo, o índio recebia ele. Ali ele começava a conviver e começava a pagar um dia de serviço pra um e pra outro, ninguém aqui sabia o que era bem dinheiro. Dinheiro aqui era muito difícil naquele tempo. Porque a pessoa dependia muito pouco da cidade.

Mais ou menos da roupa assim mesmo ninguém usava muita roupa.

Às vezes, você comprava mercadoria e vinha com um saco, valência, e aquilo ali já servia de roupa. Num tinha luxo com roupa. Dependia da roupa, do que mais, do sal, muita gente nem gostava muito de sal também. O sal que não sabia fazer e as outras coisa. Remédio nós tinha aqui. É só essas coisinha mesmo. Café muitas vezes comprava mais num era lá essas coisa. Por exemplo, aqui tem o fedegoso, tem o milho preto. E você comprava um quilo de café e o café rendia muito.

Rendia porque você pegava o milho preto, fedegoso e a rapadura e fazia um queimado pra completar com o café, e aí misturava com o café e aí ele ficava forte. Então qualquer pouquinho que você ponhava [punha] na água ele já tava completo. E aquilo ali aturava [durava] muito né. Então as pessoas não preocupava muito. E não era todo mundo que tomava café não. A juventude não tomava café, era chá e rapadura. Então cereais essas coisa assim tudo produzia aqui na roça, arroz, feijão, milho. Caça tinha muita caça, abelha tinha muita abelha. Caça vinha no terreiro. Tinha tatu, tinha paca, tinha cotia, tinha veado, bandeira, meleta, ouriço-cacheiro, e por aí vai.

(Senhor Valdinho, aldeia Barreiro Preto, fevereiro de 2018).

A reflexão de senhor Valdinho aponta para um cenário pós-luta composto por um território completamente devastado, tomado por pastos para o gado, com desaparecimento de boa parte de sua flora e fauna. O desmatamento contribuiu para o aumento do período da seca em um clima que nunca foi muito propício à chuva. Em outra conversa que tive com senhor Valdinho, em junho de 2018, ele me disse que antes dos fazendeiros se sabia que o tempo das chuvas ou tempo das águas durava de outubro a março, mas atualmente isso não é mais certo, mesmo com toda dedicação dos Xakriabá em relação à gestão de seu território, pois tem ano que chove bem, mas tem ano que o tempo da seca alonga e judia da gente, das roças e das criação. A água fica pouca e as plantas da roça não vingam.

Além do desmatamento pelos fazendeiros e o prolongamento do tempo da seca que judia da vida na Terra Indígena Xakriabá até os dias atuais, os fazendeiros são lembrados pela violência física e emocional que causaram a esses indígenas. A luta foi vencida pelos Xakriabá, mas deixou inúmeras lembranças de sofrimento em suas memórias.

No próximo tópico, apresentarei narrativas dos Xakriabá, colhidas por mim e por outros pesquisadores, que falam sobre suas vivências no período da luta pela terra. Em tais narrativas, aparecem lugares importantes para os Xakriabá, que foram marcados por todo processo da luta, desde a chegada das primeiras pessoas de fora ao seu território até a saída dos grileiros; bem como sentimentos causados pela perda do local de morada, pela separação da família e pela opção de alguns indígenas de ficar do lado dos posseiros.

Nesse cenário que sucede a presença dos fazendeiros, os mutirões xakriabá de retomada da terra produziram o que é referido como união, tida como um dos principais motivos da vitória na luta pelo território. Atualmente é da mesma forma o termo união fomentado pelas lideranças Xakriabá, principalmente em falas dirigidas aos jovens. Um evento que assume lugar central na construção da memória e narrativa da história da luta pela terra para a juventude e na exortação da união são as romarias em homenagem aos Xakriabá mortos em fevereiro de 1987. Elas serão apresentadas na terceira parte deste capítulo através de minha etnografia de dois desses eventos (em 2017 e 2018) que considero funcionar como espécies de rituais de memória praticados pelo povo Xakriabá. Antes das romarias, contudo, reúno a seguir relatos colhidos em minha pesquisa de campo sobre dimensões da luta e de seu tempo.