• Nenhum resultado encontrado

Resende (2000), em sua dissertação de mestrado estudou os testes de padrão de duração (TPD) e frequência (TPF) na versão com sons melódicos e propôs critérios de referência a partir de 9 anos de idade para esses testes. Para 3 sons melódicos espera-se no TPD 100% de acertos e no TPF 70 % de acertos. Para 4 sons melódicos espera-se no TPD 90% de acertos e no TPF, 60% de acertos.

Ainda nesse evento, foram discutidos os métodos utilizados para avaliar indivíduos expostos a substâncias químicas, destacando que, diferentemente do ruído, que acomete principalmente a cóclea, essas substâncias afetam essencialmente o sistema auditivo central. Recomenda-se além da avaliação audiológica básica a realização de audiometria tonal liminar incluindo altas frequências, teste do reflexo acústico, emissões otoacústicas, potencias auditivos evocados de tronco encefálico e testes que avaliam habilidades do processamento auditivo central, como, por exemplo, teste de fala com ruído e teste de padrão de frequência e duração. A ASHA (2006) sugere uma bateria de teste semelhante para o monitoramento do sistema auditivo e vestibular antes, durante ou após a exposição a agentes tóxicos como os metais pesados.

Souza e Bernardini (2001), a partir de levantamento bibliográfico sobre ototoxicidade dos produtos químicos com enfoque ocupacional, descreveram que podem ocorrer alterações centrais no sistema auditivo e sugere a realização de testes audiológicos capazes de detectar não só danos periféricos como também os danos centrais. Relata também a evidência de perda auditiva periférica em trabalhadores expostos ao mercúrio, mas que não foram encontrados ainda relatos sobre seu efeito no processamento auditivo central.

Dutra, Cavadas-Monteiro e Câmara (2010) avaliaram o desempenho nos testes de processamento auditivo central de adolescentes expostos ao mercúrio metálico. Foram avaliados 52 adolescentes de ambos os sexos, idade entre 13 e 16 anos e limiares auditivos dentro dos padrões de normalidade, que constituíram dois grupos, 21 adolescentes expostos ao mercúrio metálico e 31 adolescentes que não apresentaram história de exposição ao mercúrio. Os procedimentos realizados incluíram um questionário sobre a história clínica, laboral e da exposição ao

mercúrio, audiometria tonal liminar, e bateria de testes para avaliação do PAC. Os dois grupos apresentaram limiares auditivos normais, mas o grupo exposto apresentou um limiar auditivo inferior ao do grupo não-exposto. As diferenças de desempenho na avaliação do processamento auditivo central entre o GE e o GC foram estatisticamente significantes para o teste de memória sequencial para sons não verbais (p=0,001), para os testes de padrão de frequência (p=0,000) e de duração (p=0,000) e para o SSW em português (p=0,006). Os adolescentes expostos ao mercúrio metálico apresentaram desempenho significativamente inferior aos não expostos para a maioria dos testes do processamento auditivo central e a principal alteração encontrada nessa população foi no processamento de sons breves e sucessivos.

Não foram encontradas na literatura pesquisas que avaliassem o processamento auditivo central com testes comportamentais em pessoas expostas ao metilmercúrio, entretanto, foram encontrados, e serão relatados a seguir, estudos sobre os efeitos da exposição ao mercúrio nos sistemas auditivos periférico e central utilizando outros métodos de avaliação.

Counter (2003) realizou um estudo com o objetivo de avaliar os efeitos neurofisiológicos da exposição ao Hg através do potencial auditivo evocado de tronco encefálico. Foram avaliadas 31 crianças residentes em uma mineração de ouro na Nambija, Equador, e 21 crianças moradoras de outra cidade foram selecionadas para formar o grupo de comparação. A análise estatística sugere associação entre a exposição ao Hg e o atraso ou prolongamento do tempo de condução neural no potencial auditivo evocado de tronco encefálico nas crianças do grupo de estudo.

Bamiou, Musiek e Luxon (2001) citam que baixos níveis de exposição a metais pesados em crianças podem afetar regiões do sistema nervoso auditivo central e descreve a correlação entre níveis de mercúrio no sangue e alteração potencial auditivo evocado de tronco encefálico e alterações em habilidades do processamento auditivo central.

Mizukoshi et al (2002) realizou um estudo longitudinal sobre a influência da intoxicação por metilmercúrio nos achados audiológicos e do equilíbrio após acompanhamento de 36 pacientes, entre os períodos de 1980-1987 e 1991-2000 no Japão. Dentre os indivíduos acompanhados, 33% apresentou leve deterioração da audição e 47% apresentou deterioração na prova calórica na avaliação vestibular.

Embora esse resultado possa também ser atribuído ao processo de envelhecimento, os resultados foram expressivos, o que sugere possível efeito da intoxicação.

Murata et al (2004) realizaram estudo longitudinal em 878 crianças expostas a metilmercúrio. A concentração de mercúrio foi determinada pelo sangue do cordão umbilical e cabelo da mãe e pelo cabelo das crianças nas idades de 7 e 14 anos.

Foram realizados a audiometria tonal liminar e potencial auditivo evocado de tronco encefálico das crianças também nas idades de 7 e 14 anos. Os limiares auditivos observados na audiometria estavam dentro do padrão de normalidade e foi observada alteração no potencial auditivo evocado de tronco encefálico, com aumento de latência entre os picos das ondas III e V nas duas avaliações, indicando que o efeito neurotóxico do mercúrio é irreversível.

O Quadro 1 apresentada um resumo dos principais estudos dos efeitos do mercúrio no sistema auditivo.

Quadro 1 - Estudos sobre efeitos do mercúrio no sistema auditivo

Tipo de

Mercúrio Procedimentos Tipo de Estudo Resultados Referência Mercúrio

metálico

Audiometria

PAC Seccional Limiares auditivos nomais e alteração no PAC

Dutra, Cavadas-Monteiro e Câmara, 2010

Brasil

Metilmercúrio BERA Hg no sangue

Estudo longitudinal (878 indivíduos de 7 a

14 anos)

Persistência do aumento da latência entre os picos das ondas no BERA

Murata et al, 2004 Japão Mercúrio

metálico e Metilmercúrio

BERA

Hg no sangue Seccional

Maior latência entre os picos das ondas no BERA no grupo exposto

Couter, 2003 Equador

Metilmercúrio Audiometria Exame vestibular

Estudo longitudinal (1980-1987 / 1991-2000)

Leve deterioração da audição e alteração significativa na prova calórica.

Mizukoshi, 2002 Japão

Dimetilmercúrio

Audiometria EOA BERA

Estudo de caso (1 caso fatal de exposição aguda)

Audiometria tonal e EOA sem

alterações relevantes, incapacidade de realizar IPRF

e BERA alterado bilateralmente

Musiek e Halon, 1999

EUA