especializada e amplamente utilizado mesmo nas publicações mais recentes, e ser o termo utilizado em instituições da área como a ASHA (ASHA, 2005).
De acordo com Boothroyd (1986), o sistema auditivo detecta e interpreta as vibrações sonoras por meio de três componentes: condutivo, sensorial e neural. Os componentes condutivo e sensorial encontram-se desenvolvidos e com funcionalidade ao nascimento enquanto o componente neural passa por um processo de maturação ao longo dos primeiros anos de vida. O autor definiu processamento auditivo como percepção auditiva via sentido da audição, e descreve a detecção do som, a sensação, o reconhecimento, a atenção, a localização sonora a compreensão e a memória como etapas desse processamento.
Cavadas, Pereira e Mattos (2007) citam que o processamento auditivo central constitui uma série de processos envolvidos na detecção e interpretação de eventos sonoros. O PAC é caracterizado por um conjunto de habilidades auditivas específicas, incluindo atenção, memória, detecção do som, localização, figura-fundo, entre outras (ASHA, 1996, 2005; PEREIRA, 1997).
A principal manifestação comportamental de indivíduos com desordem de processamento auditivo central é a dificuldade em escutar e compreender em ambiente ruidoso (DAWES et al, 2008).
Esses indivíduos podem apresentar uma ou mais manifestações comportamentais, entre elas (PEREIRA e CAVADAS, 2003; BAMIOU, MUSIEK e LUXON, 2001; ASHA, 2005):
• atenção ao som prejudicada;
• dificuldade em escutar e compreender em ambiente ruidoso;
• problemas na produção de fala envolvendo principalmente os fonemas /r/
e /l/;
• problemas de linguagem expressiva envolvendo regras da língua;
• dificuldade de compreender palavras de duplo sentido;
• problemas de escrita quanto a inversões de letras e orientação direita/esquerda;
• disgrafias;
• dificuldade em compreender o que lê;
• são tidos como distraídos, agitados, hiperativos ou muito quietos, desajustados;
• tendência ao isolamento;
• desempenho escolar inferior em leitura, gramática, ortografia e matemática; e
• desempenho escolar pode ser melhorado ou agravado dependendo da posição do aluno na sala de aula, do tamanho da classe, do nível de ruído ambiental, do nível de intensidade da voz e clareza da fala do professor.
Entre as manifestações clínicas de alteração do processamento auditivo estão (PEREIRA e CAVADAS, 2003; BAMIOU, MUSIEK e LUXON, 2001; ASHA, 2005):
• dificuldade de localização sonora;
• alteração na memória auditiva para sons em sequência;
• dificuldade na identificação de palavras decompostas acusticamente;
• dificuldade na identificação de sons verbais na presença de uma mensagem competitiva;
• prejuízo de um canal auditivo em relação ao outro.
Bamiou, Musiek e Luxon (2001) publicaram uma revisão sobre as etiologias das alterações de PAC e as principais manifestações clínicas. Segundo esses autores, as alterações do PAC podem ser resultado de uma ruptura de processos
auditivos específicos, ou apresentar-se como uma manifestação de déficits mais globais. Essas alterações podem ocorrer na presença de condições neurológicas, como tumores do sistema nervoso auditivo central, prematuridade e baixo peso ao nascimento, alterações cérebro-vasculares, alterações metabólicas, atraso na maturação de vias auditivas centrais, distúrbios de desenvolvimento e, finalmente, por doenças adquiridas como meningite bacteriana, herpes simples e exposição a baixos níveis de exposição a metais pesados na infância. Os autores destacam a necessidade de mais estudos que correlacionem as alterações do PAC a diversas condições neurológicas e do desenvolvimento.
A avaliação do PAC com testes comportamentais padronizados tem sido realizada no Brasil desde 1993, e tem trazido contribuições importantes para a terapia fonoaudiológica (CAVADAS, PEREIRA e MATTOS, 2007), direcionando a terapia fonoaudiológica para o desenvolvimento da inabilidade auditiva. Além disso, o conhecimento aprofundado do problema poderá contribuir para a elaboração de estratégias preventivas.
Pereira e Schochat (1997) publicaram um manual de avaliação do processamento auditivo central, onde são apresentados os procedimentos para a realização diversos testes que avaliam o processamento auditivo central, assim como os resultados esperados, a classificação quanto ao grau de severidade e tipo de alteração. Esse manual tem sido utilizado desde então tanto na prática clínica quanto para o desenvolvimento de pesquisas. A literatura atual tem acrescentado aos testes já descritos procedimentos que avaliam outras habilidades auditivas, principalmente testes relacionados ao processamento auditivo temporal.
Shinn (2003) define processamento auditivo temporal como a percepção do som dentro de um período restrito e definido de tempo e destaca que
processamento temporal é um componente fundamental na maioria das habilidades do processamento auditivo. O processamento temporal é dividido em quatro categorias: ordenação ou sequencialização temporal; integração ou somação temporal; mascaramento temporal e resolução temporal, mas os testes para investigar esses componentes do processamento temporal ainda são limitados. Na prática clínica, os mais utilizados são os testes de padrão de frequência e duração, que avaliam apenas a ordenação temporal.
Musiek (2002) descreveu um guia com dez etapas para a realização do teste de padrão de frequência e apresentou a referência de normalidade utilizada de acordo com a idade. Para crianças com 8 anos a porcentagem de acertos esperada é de 40%, de 9 anos é de 65%, de 10 anos é de 72% e a para pessoas com 11 anos ou mais, a porcentagem de acertos esperada é de 75%.
Schochat e Musiek (2006), em estudo sobre o efeito da maturação no comportamento dos testes de padrão de frequência e duração, avaliaram 150 indivíduos entre 7 e 16 anos e observaram melhora significativa de performance nos testes até 12 anos, as diferenças entre os percentuais obtidos nas idades de 12 a 16 anos não foram significativas. Os percentuais encontrados no teste de padrão de frequência para 7 - 8 anos foram 47,49% para orelha direita e 48,97% para a esquerda e para 9 - 10 anos foram 63,30% para orelha direita e 62,34% para a esquerda. No teste de padrão de duração os percentuais encontrados para 7 - 8 anos foram 43,02% para orelha direita e 44,25% para a esquerda e para 9 - 10 anos foram 57,29% para orelha direita e 56,32% para a esquerda.
No Brasil, Taborga Lizarro (1997) elaborou uma versão dos testes TPF e TPD com estímulos melódicos, sons produzido por um instrumento musical denominado de flauta transversa.
Resende (2000), em sua dissertação de mestrado estudou os testes de padrão de duração (TPD) e frequência (TPF) na versão com sons melódicos e propôs critérios de referência a partir de 9 anos de idade para esses testes. Para 3 sons melódicos espera-se no TPD 100% de acertos e no TPF 70 % de acertos. Para 4 sons melódicos espera-se no TPD 90% de acertos e no TPF, 60% de acertos.