3. Parte II: Design como Processo
4.1. Metodologia aplicada ao projeto
Tendo em consideração os conhecimentos adquiridos nas partes anteriores, terá lugar a sua aplicação prática, tendo como objetivo principal a resposta à questão de investigação: O Design com uma metodologia suportada nos pressupostos da sustentabilidade aliados ao conceito de Biónica pode efetivamente melhorar as condições de vida de indivíduos em situação de risco ou conflito, promovendo o seu desenvolvimento?
Verifica-se que qualquer projeto de Design tem como fase preliminar a seleção e adaptação de uma metodologia do processo de Design. Após uma análise de diversas abordagens metodológicas no processo de Design, a autora desta investigação considera pertinente a adaptação da metodologia de Bernhard E. Bürdek, no sentido de aplicar a retroatividade sugerida, de modo a que a solução final seja progressivamente trabalhada mediante a passagem por fases anteriores diversas vezes para que resulte numa solução viável para o problema identificado, com uma delimitação de cada fase o mais completa possível.
Uma vez que é denotada uma semelhança entre os modelos metodológicos propostos pelos autores estudados, as fases processuais terão a mesma base do modelo de Bürdek, diferindo apenas na sua repartição, em direção à aproximação do modelo metodológico de Bruno Munari, no sentido de adaptação das características de cada fase por si sugeridas, uma vez que demonstram ser mais repartidas, tornando-se mais específicas.
Para além desta estrutura metodológica a adotar, o processo será fundamentado no conceito de Biónica, adquirindo conhecimentos relativos a soluções funcionais e formais biológicas que sejam pertinentes para a resolução do problema identificado, de modo a serem adaptados à aplicação prática presentemente proposta. Os pontos seguintes correspondem a cada fase projetual.
4.2. Definição do problema
Tal como foi mencionado nos capítulos anteriores, em muitos locais do mundo, sobretudo devido à seca, escassez de alimentos ou guerras civis, e em situações de catástrofe, milhares de indivíduos são obrigados a deslocar-se em busca de segurança social, política e ao nível da saúde, sendo esta uma realidade anual. A maioria desses indivíduos é auxiliada por ONG e instituições de ajuda humanitária, que disponibilizam condições mínimas de segurança e saúde,
nomeadamente abrigos provisórios, água e alimentação.
As organizações cuja missão se centra no auxílio a populações deslocadas, nomeadamente o ACNUR, têm como objetivos principais o repatriamento voluntário, a incorporação local de indivíduos no país de asilo e reinstalação num país terceiro a partir do país de asilo. Considerando esta informação, pode-se concluir que o alojamento disponibilizado por estas organizações é de caráter temporário, pelo qual só deste modo é possível os indivíduos em situação de risco ou conflito alcançarem uma autonomia direcionada para o seu próprio desenvolvimento.
Os abrigos que atualmente são distribuídos por ONG e instituições de ajuda humanitária para populações deslocadas são, no geral, de preços elevados, pesados, pelo qual a sua montagem é difícil e demorada. Estes fatores podem dificultar o regresso autónomo ao local de origem dos indivíduos auxiliados, uma vez que se mostram com um caráter permanente. No momento de uma segunda deslocação, quer seja para uma mudança de local de asilo ou para a auto-instalação assistida, é praticamente impossível que os abrigos anteriormente dispensados acompanhem o percurso dos utilizadores.
Para além da questão dos abrigos temporários, também se verificou que as populações deslocadas são dependentes das organizações de ajuda humanitária no que respeita a água potável. Segundo a Organização Mundial para a Saúde, cerca de 2.6 bilhões de pessoas no mundo não tem acesso a água potável, o que se refere a metade dos países em vias de desenvolvimento e de populações deslocadas494. Neste sentido, um relatório publicado pelo ACNUR revela que mais de metade dos campos de refugiados no mundo não tem acesso a água potável, provocando inúmeras doenças e até a morte495.
494
WHO (2013). Disponível em: http://www.who.int/water_sanitation_health/mdg1/en/. 495
Identificando e delineando este problema, o presente projeto presume o desenvolvimento de um abrigo para refugiados e deslocados internos, onde a possibilidade de mudança de local é constante. Para tal, serão tidos em consideração os elementos sociais, económicos e ambientais que sustentam os pressupostos da sustentabilidade, aliando aplicações de conhecimentos adquiridos a partir de estudos ao nível da Biónica, procurando adaptar soluções biológicas para problemas semelhantes em sistemas da Natureza.
Palavras-Chave aplicadas ao projeto
Risco,Abrigo, Autonomia, Design para a Sustentabilidade, Biónica.
4.3. Componentes do problema
De modo a compreender o contexto a explorar, procedeu-se à elaboração de uma análise PEST da situação de populações deslocadas, com base nos conhecimentos adquiridos nos capítulos anteriores, a fim de considerar os seus limites e capacidades para procurar uma solução mais adequada ao problema identificado. Uma vez que o Design para assistência humanitária atua perante grandes incertezas ao nível geográfico, temporal e motivacional, esta análise foi elaborada de modo a englobar fatores de risco generalizados.
FATORES POLÍTCOS
FATORES ECONÓMICOS
- Governos dos países em risco com poucas capacidades ou relutância para auxiliar as suas populações
- Na maioria dos casos de deslocação maciça de indivíduos por violação de direitos humanos, o responsável é o próprio governo
- Países afetados com economias fragilizadas - Dependência de apoio externo (saúde, segurança)
-Apoio voluntário mediante ONG e instituições de assistência humanitária
- Populações de países em vias de
desenvolvimento na maioria enfrentam a crise do endividamento (ciclo vicioso de
alimentação)
FATORES SOCIAIS
FATORES TECNOLÓGICOS
- Indivíduos deslocados perdem a sua identidade na sociedade
- Pouca autonomia social
- Tecnologias apropriadas demonstram ser as mais adequadas
-Pouco acesso a tecnologias avançadas - Pouco acesso a pilhas ou outros
componentes equivalentes de manutenção de aparelhos eletrónicos