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ESTRATÉGIAS DE MORADIA NA CIDADE INFORMAL

FAIXAS DE RENDA MENSAL FAMILIAR (EM SALÁRIOS-MÍNIMOS)

3.2. A PRÁTICA DA AUTOCONSTRUÇÃO NAS ZEIS DO RECIFE.

3.2.1. Metodologia e Instrumentos da Pesquisa de Campo.

O principal instrumento utilizado na pesquisa de campo foi um questionário semi- estruturado - apresentado no anexo 1 – com a maioria das questões de respostas fechadas, onde algumas questões permitem complementação da resposta (alternativa não listada). Este questionário compreende 42 questões, que além de caracterizar o público e a moradia pesquisada, busca levantar os recursos humanos e financeiros investidos pela população na conquista da moradia (em geral autoconstruídas), além das pretensões da população para investir recursos em melhorias habitacionais da sua casa. O processo de seleção das ZEIS onde realizamos a pesquisa de campo foi baseado em dois tipos de critérios principais. Um critério preliminar, mas importante, se refere ao nosso contato pessoal com pessoas das comunidades a serem pesquisadas, para

122 viabilizar apoio operacional local, ou seja, condições de acesso, segurança e um nível aceitável de receptividade das famílias para a pesquisa domiciliar. Neste ponto, a vivência anterior em trabalhos realizados em algumas ZEIS do Recife foi um trunfo importante para definição das localidades pesquisadas.

O outro critério se referia às características das localidades que pudessem evidenciar a prática da autoconstrução em assentamentos informais, conforme definição deste trabalho. Nesse sentido buscamos ZEIS já consolidadas, com longo tempo de ocupação, possuindo nível razoável de infra-estrutura e avanços em relação à regularização fundiária. Foi importante também buscar ZEIS com evidências de investimentos recentes da população na construção ou reforma das suas moradias.

Sobre a evidência de ocorrência de autoconstrução, buscamos identificar nos dados secundários disponíveis, os territórios da cidade informal (ZEIS ou bairros dentro de ZEIS) que apresentassem um incremento expressivo no número de domicílios entre as últimas pesquisas do Censo (1991 e 2000), supondo que este incremento de moradias tenha sido promovido por autoconstrução (já que estavam inseridos na cidade informal). Neste momento da pesquisa, pudemos observar um fato bastante interessante para nossa reflexão: algumas ZEIS apresentaram um incremento forte no número de domicílios, e ao mesmo tempo, uma estabilização da população (ver quadro 3.8 abaixo). Ou seja, houve um incremento de domicílios que não corresponde ao incremento de população.

123 Este incremento de moradias nas ZEIS (que de forma geral não sofreram ampliação nas suas áreas) indica que foram construídas novas unidades no interior destes assentamentos, pelo menos ao longo da década passada (1991 a 2000). Neste sentido, identificamos que as ZEIS Casa Amarela, Mangueira e Mustardinha (selecionadas para aplicação da pesquisa de campo), apresentaram crescimento populacional negativo na década de 1990 (-1,7%, -3.2% e -0,5%, respectivamente), enquanto o crescimento de domicílios alcançou valores próximos a 40% (44,2%, 37,4% e 45,2%, respectivamente).

Estes dados foram interpretados aqui como indício da presença de autoconstrução nestas ZEIS, como nas demais que apresentam um incremento de moradias significativo, seja da autoconstrução promovida pelo poder público – uma vez que esse incremento de moradias na década de 1990, pode ser reflexo da Política Estadual de Habitação (com o Banco de Materiais de Construção descrito em capítulo anterior), seja da autoconstrução

Quadro 3.8 - Evolução da População, Domicílios e Densidade Habitacional em algumas ZEIS e Bairros Selecionados do Recife.

ZEIS / Bairro

População Total Total de domicílios

particulares permanentes Média de moradores / domicílio 1991 2000 Diferença % 1991/2000 1991 2000 Diferença % 1991/2000 1991 2000

Zeis Brasília Teimosa 18.584 20.464 10,1 3.197 5.168 61,7 5,8 3,95 Zeis Caçote 4.755 7.672 61,3 860 1.988 131,2 5,46 3,86 Zeis Campo do Banco 2.490 2.546 2,2 425 613 44,2 5,82 4,14 Zeis Campo Grande 17.955 20.556 14,5 3.284 5.354 63,0 5,46 3,84 Zeis Casa Amarela 200.680 197.292 -1,7 33.883 48.872 44,2 5,91 4,03 - Brejo da Guabiraba 10.273 11.362 10,6 1.738 2.711 56,0 5,91 4,18 - Nova Descoberta 36.697 34.676 -5,5 6.302 8.813 39,8 5,82 3,93 Zeis Coelhos 5.345 5.485 2,6 991 1.468 48,1 5,39 3,72 Zeis Coque 13.826 16.013 15,8 2.514 4.146 64,9 5,47 3,84 Zeis Coronel Fabriciano 1.161 1.280 10,2 203 341 68,0 5,7 3,75 Zeis Entra-Apulso 1.426 2.488 74,5 272 676 148,5 5,23 3,66 Zeis Ilha do Joaneiro 6.300 7.027 11,5 1.001 1.655 65,3 6,24 4,24 Zeis Jardim Uchôa 2.870 3.461 20,6 491 845 72,1 5,8 4,09 Zeis Mangueira 17.670 17.100 -3,2 3.222 4.427 37,4 5,48 3,85 Zeis Mustardinha 18.871 18.782 -0,5 3.310 4.807 45,2 5,7 3,91 Zeis Santo Amaro 13.730 15.642 13,9 2.398 3.733 55,7 5,72 4,13

Total ZEIS Recife 547.603 583.724 6,6 95.769 147.157 53,7 5,71 3,96

Total Recife 1.310.259 1.422.905 8,6 243.033 376.022 54,7 4,22 3,76

124 promovida de forma autônoma pela população. Estes novos domicílios podem significar inclusive o “desdobramento” de moradias para abrigar famílias que viviam em coabitação, reforçando uma das hipóteses analisadas neste texto.

Outra informação importante contida no quadro 3.8, que reforça hipótese de redução da coabitação nas ZEIS, é que houve uma redução na média de moradores por domicílio nestas ZEIS, o que nos leva a deduzir que provavelmente estes novas habitações foram produzidas para (e pela) população que já vivia neste território, provavelmente buscando reduzir a densidade nos seus domicílios (em coabitação, por exemplo).

Observando estes dados acima, e baseado nos demais critérios descritos, as ZEIS definidas para a pesquisa de campo foram: Mustardinha, Mangueira, e Casa Amarela. Considerando, porém que a ZEIS Casa Amarela possui uma área extremamente grande, contendo em seu interior cerca de 17 bairros e uma população superior a 190 mil habitantes, focamos a pesquisa em apenas um dos bairros que integram o território desta ZEIS: Brejo da Guabiraba, onde havia contato com técnicos de um projeto social, que puderam colaborar na aplicação dos questionários.

Em cada uma das localidades selecionadas, contamos com a colaboração de moradores locais - jovens com estudos de nível médio - que receberam treinamento básico para aplicar os questionários, sendo acompanhados parcialmente pelo autor durante o trabalho de campo, ou por um supervisor treinado por este. O apoio de pesquisadores locais foi importante para conseguir penetração e distribuição da coleta de dados no interior das comunidades, além de favorecer a receptividade das famílias para responderem ao longo questionário. Neste ponto, tomou-se o cuidado de não identificar o pesquisador com o poder público, nem com as organizações que desenvolvem projetos sociais, pois isso poderia interferir nas respostas do questionário, especialmente sobre renda familiar e investimentos na moradia.

Sobre o número e distribuição de questionários aplicados, é importante fazer aqui algumas considerações. Tratava-se de buscar elementos para nos aproximar de uma interpretação qualitativa e quantitativa sobre a dinâmica da autoconstrução no universo formado pelos domicílios existentes nas ZEIS do Recife, cujos dados do ano 2000, indicavam um total de 147.157, conforme indicado no quadro 3.8.

125 No entanto, as limitações operacionais da nossa pesquisa de campo apontaram para adotar uma amostragem de caráter não-probabilística, o que significa que ela não pode ser generalizada de forma geral para todas as ZEIS. No entanto, a amostragem adotada também define um número de unidades segundo critérios de similaridade em relação aos demais domicílios das ZEIS do Recife.

Para compor os elementos da amostra foram definidas 100 unidades domiciliares. A espacialização nas ZEIS do Recife buscou diferenciá-las em segmentos de Morros e Planícies. Assim, foi eleito o quantitativo de 60 domicílios para as áreas de morros (Brejo da Guabiraba) e 40 para as áreas de planície (ZEIS Mangueira e Mustardinha). Desse modo, a dimensão da amostra atende às expectativas da convergência para a normalidade das variáveis a serem pesquisadas, que são requisitos indispensáveis para a obtenção de resultados confiáveis. Como regra prática, segundo Bussab (1987, p.199), “[...] aceita-se que para amostras com mais de 30 elementos a aproximação para uma distribuição normal já pode ser considerada muito boa”. Isto significa que as pesquisas utilizando amostras pequenas podem obter resultados confiáveis.

Os números e percentuais apresentados nos gráficos desta seção não devem então ser interpretados de forma conclusiva sobre o universo em análise. Trata-se apenas de uma aproximação das características de parte deste universo, buscando reproduzir a dinâmica das ZEIS de forma mais ampla.

Vale relembrar também que (conforme anunciado na introdução) a pesquisa empírica desta dissertação ainda envolve um processo de observação mais geral sobre o objeto de estudo, que foram realizadas de forma menos sistemáticas ao longo da vivência neste contexto, com objetivo diferente, mas com foco no mesmo objeto.

Apresentamos a seguir, na figura 3.1, o mapa com a localização no território do Recife, das comunidades que foram objeto desta pesquisa domiciliar, e em seguida algumas informações gerais para contextualização de cada localidade, antes de analisar de forma mais detalhada os resultados obtidos na pesquisa de campo.

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Figura 3.1 – Mapa de Localização das ZEIS do Recife e da Pesquisa de Campo.

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