PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
2.8 A METODOLOGIA DE PESQUISA E A COLETA DE DADOS
Nossa coleta de dados esteve centrada, essencialmente, nos registros escritos produzidos pelos alunos e em gravações em áudio – estas realizadas com auxílio de aparelhos de MP3 – de todas as intervenções estabelecidas com eles. Dessa forma, nos diversos momentos em que estávamos junto aos alunos, quer em sala de aula quer em trabalhos de campo, tínhamos um gravador de áudio para registrar as falas estabelecidas.
Sendo assim, adotamos que durante o desenvolvimento das etapas da MP com o Arco de Maguerez, o primeiro momento era destinado ao trabalho individual, ou seja, ao relatar os aspectos observados na realidade, formular um problema, determinar seus pontos-chave e elaborar possíveis hipóteses de solução, os alunos produziram registros escritos a partir de suas próprias percepções, sem a ajuda dos colegas. Esse material era, então, recolhido e analisado.
Em um segundo momento, e em posse das produções individuais, os alunos se reuniam em grupos para discutir suas respostas, ampliar seus posicionamentos e produzir um segundo registro escrito, que a partir de então deveria conter as percepções do grupo acerca dos aspectos debatidos e compartilhados. Nesse caso, sobre as carteiras de cada uma das equipes colocávamos um aparelho de MP3 para gravar as interações estabelecidas. Além do áudio, analisávamos os registros escritos que eram entregues.
Finalmente, discutíamos no grupo-classe todos os posicionamentos apresentados pelos alunos, ou seja, a partir de ambos os registros elaborados, buscávamos questionar em relação à relevância e coerência dos aspectos apontados por eles a fim de construirmos, em conjunto, a síntese da etapa trabalhada, como, por exemplo, a elaboração do problema que seria investigado por toda a turma a partir das similaridades provenientes das questões formuladas pelos grupos.
Nessas ocasiões de debate com toda a sala, além do MP3 que sempre trazíamos em nosso poder (pendurado no pescoço), estrategicamente colocávamos parte de nosso material – que incluía um segundo MP3 – nas últimas carteiras, visando, assim, ampliar as chances de coletar o maior número de falas possíveis no decorrer das interações com os alunos.
Contudo, para conduzir essas interações, que além do objetivo educacional para com esses estudantes, apresentava um cunho investigativo, foi necessária a utilização de algumas estratégias para aumentar a qualidade do áudio que era gravado com o aparelho que permanecia conosco – movimentávamo-nos constantemente pela sala para nos aproximar dos alunos quando esses falavam; reafirmávamos os comentários elaborados por eles para que confirmassem ou não nossa compreensão acerca de suas ideias e, finalmente, sintetizávamos em lousa os posicionamentos apresentados, lendo, para isso, os tópicos registrados a medida que eram escritos. Dessa maneira, os alunos tinham, também, a possibilidade de anotar no caderno as discussões de aula.
Vale destacar que, por meio dessas estratégias, conseguimos transcrever quase a totalidade das falas dos alunos, pois quando alguma dúvida surgia no MP3 principal (aquele que ficava constantemente junto de nós) era possível recorrer às gravações do segundo, que permanecia durante todo o tempo no fundo da classe. Apesar de empregarmos essa mesma forma de coleta de dados em ambas as turmas, na quinta série, devido ao menor número de alunos e da própria dimensão da sala, um único gravador já permitia acesso a registros de qualidade.
Quanto à coleta dos dados, utilizamos ainda o diário de pesquisa. Como o nome sugere, registrávamos nele, a cada dia de permanência na escola, todas as nossas percepções, inferências, reflexões, comentários e observações a respeito de tudo que acontecia, tanto em sala de aula e nos trabalhos de campo, como nas conversas informais com os alunos e professores. Portanto, consideramos o diário de pesquisa como um conjunto de notas de campo, que para Bogdan e Biklen (1994, p.150) constituem “o relato escrito daquilo que o investigador ouve, vê, experiencia e pensa no decurso da recolha [...]” dos dados, logo,
além de apresentar a função descritiva ao “captar uma imagem com palavras do local, pessoas, ações e conversas observadas”, deve ser reflexiva, ao considerar as ideias e reflexões do pesquisador (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p.152).
Sempre que possível, recorríamos ao diário assim que os ‘fatos’ ocorriam para evitar que informações relevantes fossem perdidas, pois como sugere Bogdan e Biklen (1994, p.170), “vá direto à tarefa. Não adie. Quanto mais tempo passar entre a observação e o registro das notas, pior é a lembrança e menos provável se torna que se faça o registro”. Contudo, em razão da dinamicidade do contexto escolar, nem sempre isso era viável. Então, após cada dia de trabalho no campo de atuação, ouvíamos a gravação da aula, como uma forma de nos reportar ao contexto da sala, e anotávamos todas as nossas impressões, descrevendo tudo aquilo que havia ocorrido.
Buscando acompanhar com mais proximidade as percepções dos alunos em relação às atividades desenvolvidas em cada uma das etapas do Arco de Maguerez, consideramos ser importante interagir com alguns deles, fora de sala de aula. Por isso, optamos pela realização de entrevistas ao término de cada uma das cinco etapas do trabalho. Previamente, em nosso plano de ação, tínhamos definido que a seleção desses alunos seria aleatória. Contudo, após algumas semanas no campo de investigação e de observação direta das turmas, pudemos perceber que, em ambas, era nítida a presença de três grupos de alunos:
• os que demonstravam grande espontaneidade para falar e participar das atividades que propúnhamos: sempre que possível faziam questão de apresentar, para a sala, suas respostas e seus posicionamentos;
• aqueles que participavam: porém, quando comparados aos do grupo anterior, eram mais reticentes, observadores e atentos aos comentários dos colegas;
• alunos que evidenciavam certa resistência quanto ao desenvolvimento das atividades propostas: ou seja, participavam esporadicamente das discussões no grupo-classe, conversavam em momentos inoportunos, realizavam exercícios de outras matérias, enfim, mostravam-se alheios ao trabalho.
Diante disso, avaliamos que seria conveniente ter entre os entrevistados representantes desses três supostos grupos, pois, dessa forma, acompanharíamos alunos que – a partir desse envolvimento inicial – concebiam de diferentes maneiras o trabalho desenvolvido e, assim, teríamos a oportunidade de discutir como a nossa proposta, utilizando a Metodologia da Problematização com o Arco de Maguerez, atenderia a essa heterogeneidade que caracteriza, de maneira geral, uma sala de aula do Ensino Fundamental.
Então, após esse ‘mapeamento’ das turmas, selecionamos aleatoriamente, na quinta série, alunos que julgávamos apresentar perfis característicos de cada um desses supostos grupos. Na sexta, por sua vez, dada a diferença no número de estudantes em relação à sala anterior, escolhemos dois representantes de cada grupo, totalizando seis alunos.
Deixamos bem claro a todos os alunos que sortearíamos alguns deles para que, periodicamente, pudéssemos conversar sobre o encaminhamento do trabalho. Ao apresentar essa estratégia, que seria implementada para coleta de dados, tínhamos como objetivo deixá-los cientes da realização das entrevistas e exaurir qualquer indício de segregação quanto à escolha dos entrevistados. Não houve qualquer interposição por parte deles, apenas um dos alunos da quinta série, no dia em que realizamos a primeira entrevista, procurou-nos e disse que gostaria de participar para nos contar sua opinião. E, por isso, o inserimos dentre os alunos entrevistados da quinta série. Portanto, passamos a acompanhar, até a finalização do trabalho, um total de dez alunos.
Vale destacar que essa subdivisão das turmas, em três supostos grupos, esteve baseada em nossas observações iniciais, pois, com o decorrer do trabalho – como será possível perceber por meio dos fragmentos que apresentam falas dos alunos – foi possível acompanhar que alguns estudantes, ainda que mantivessem uma postura mais reservada e discreta, passaram a expressar com maior frequência seus posicionamentos para o grupo-classe, assim como outros que se comportavam conforme a descrição do terceiro grupo, adquiriram um vínculo com as atividades desenvolvidas que os estimularam à maior participação.
À vista disso, ao término de cada uma das cinco etapas do Arco de Maguerez, reuníamo-nos individualmente com os alunos selecionados para a realização de uma entrevista, pois, de acordo com Bogdan e Biklen (1994, p.134), ela:
[...] é utilizada para recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito, permitindo ao investigador desenvolver intuitivamente uma ideia sobre a maneira como os sujeitos interpretam aspectos do mundo.
Essas entrevistas seguiam um roteiro previamente elaborado com perguntas que deveriam ser feitas a todos os alunos, ou seja, permitiria obter dados comparáveis entre os vários sujeitos da pesquisa. Dessa forma, posteriormente, seria possível analisar como cada um deles concebeu as mesmas particularidades das atividades desenvolvidas. Mas, além disso, existia certa flexibilidade na condução desse roteiro, pois procuramos interagir com os alunos a partir de suas respostas, inclusive ao reunir ou fragmentar as questões elaboradas de
acordo com as circunstâncias e opiniões apresentadas. Também era fornecido um espaço para que o entrevistado nos apresentasse suas observações em relação a qualquer aspecto que julgasse necessário.
Portanto, por incluir essa dupla dimensão, avaliamos que nossas entrevistas estavam condizentes com o que Lüdke e André (1986, p.34) denominam entrevista semiestruturada, pois “[...] se desenrola a partir de um esquema básico, porém não aplicado rigidamente, permitindo que o entrevistador faça as necessárias adaptações”.
Para a realização dessas entrevistas, procuramos, ao longo de todo o trabalho, adequar-nos às oportunidades que surgiam no dia a dia da escola, assim aproveitamos das aulas vagas que os alunos possuíam eventualmente, em decorrência da ausência de professor e, também, do período em que ficavam ociosos após o horário de almoço aguardando o reinício das atividades vespertinas. Algumas entrevistas foram realizadas durante o horário de recreio, seguindo a solicitação dos próprios alunos, pois sempre os consultávamos previamente sobre o horário de preferência, e seguíamos a opção deles. Quanto ao local, adaptamo-nos às circunstâncias, revezando entre a sala dos professores, o refeitório e o laboratório de informática, de acordo com o momento em que a entrevista era realizada, buscando o local que não estava sendo utilizado, a fim de que o aluno tivesse privacidade para expor suas ideias.
De maneira similar ao que acabamos de descrever, ao término de cada etapa do Arco de Maguerez realizamos entrevistas semiestruturadas com o professor Nil. Essas seguiam, essencialmente, o mesmo eixo norteador daquelas desenvolvidas com os alunos, pois buscávamos com elas as percepções do professor sobre tudo aquilo que havia sido desenvolvido na referida etapa. Vale ressaltar que, durante as aulas destinadas à execução de nosso projeto, Nil permanecia em sala observando a implementação das atividades, mas não intervinha nas nossas colocações, como também naquelas fornecidas pelos alunos. Dessa forma, ele pôde acompanhar tudo diretamente, o que possibilitava omitir opiniões em relação aos aspectos observados.
Todas as vezes que precisávamos conversar com o professor por um tempo mais prolongado – para realizar as entrevistas ou planejar alguma atividade – utilizamos as quintas-feiras, uma vez que ele possuía duas aulas livres e sucessivas no período da manhã (o que, no cotidiano escolar, habitualmente chamamos de ‘janela’). Por esse motivo, as entrevistas foram realizadas na sala dos professores e gravadas com um aparelho de MP3.
Logo, estabelecemos no decorrer de todo o trabalho uma triangulação8 entre os dados obtidos por meio dos registros do diário de pesquisa e das transcrições provenientes das entrevistas dos alunos e do professor. Por isso, para cada aspecto discutido no decorrer das cinco etapas, relacionamos os comentários fornecidos pelos alunos, as considerações do professor Nil, nossas próprias ponderações e, quando pertinente, o embasamento da literatura de referência. Visamos, assim, ampliar as chances de discutirmos com maior riqueza de detalhes os limites e possibilidades da utilização da Metodologia da Problematização com o Arco de Maguerez no desenvolvimento da temática ambiental no Ensino Fundamental, a partir dos principais atores do processo construído, ou seja, alunos, professor e professor-pesquisador.
Desse modo, entendemos a triangulação não como uma forma clássica de validação dos dados, ou seja, como a busca da essência do fenômeno ou da verdade objetiva, mas sim como uma estratégia de enriquecimento da pesquisa (PAULILO, 1999) e de aprofundamento da análise (ADORNO; CASTRO, 1994), que passou a ter caráter multidimensional ao possibilitar o estabelecimento de ligações entre descobertas obtidas por diferentes fontes, tornando-as mais compreensíveis. Sendo assim, a partir da interrelação entre os posicionamentos de alunos, professor e pesquisador, consideramos ser possível alcançar um entendimento mais abrangente a respeito de cada uma das ações empreendidas ao longo das etapas do Arco de Maguerez, na busca de respostas ao nosso problema de pesquisa.
Portanto, em síntese:
• estivemos ‘imersos’, durante um semestre letivo, na escola e no seu entorno que, por sua vez, constituíram a realidade de interesse na investigação;
• coletamos dados a partir do contato direto com alunos, professores e o próprio ambiente no qual a escola estava inserida;
• as informações obtidas na unidade escolar foram registradas em notas de campo e complementadas por transcrições de entrevistas e das interações estabelecidas com os alunos, assim como suas próprias produções escritas;
• adotamos a apresentação descritiva dos dados para, assim, recriar o contexto no qual foram coletados;
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De acordo com Paulilo (1999, p.139), o “método da triangulação tem em DENZIM (1970, 1989) um de seus maiores defensores e consiste em uma estratégia de combinação e cruzamento de múltiplos pontos de vista através do trabalho conjunto de vários pesquisadores, de múltiplos informantes e múltiplas técnicas de coleta de dados”.
• mais do que o produto, nosso interesse maior estava no processo proposto e desenvolvido pelos alunos em cada uma das cinco etapas do Arco de Maguerez, por meio de suas sugestões, suposições e interações;
• nossas análises enfatizaram a perspectiva dos alunos e do professor acerca de cada atividade desenvolvida, bem como a relação delas com a Metodologia da Problematização e com a Educação Ambiental.
Fundamentados nessas características e apoiados em Bogdan e Biklen (1994), consideramos que a presente investigação apresenta cunho qualitativo e abordagem interpretativa, uma vez que, para atingir nosso principal objetivo, buscamos compreender as percepções e os significados atribuídos por alunos e professor a cada uma das cinco etapas do Arco de Maguerez, comparando-as, também, com aquelas provenientes da literatura e do próprio pesquisador.
Quanto à apresentação dos dados, é importante ressaltar que as falas, dos alunos e do professor, inseridas no trabalho, correspondem à transcrição fiel do áudio proveniente das gravações. Apenas suprimimos vícios de linguagem, de modo a empregar a norma culta da língua portuguesa. Dessa maneira, traços de oralidade como, por exemplo, ‘tava’, ‘tá’, ‘tô’ e ‘né’ foram substituídos, respectivamente por ‘estava’, ‘está’, ‘estou’ e ‘não é’, pois consideramos que a fidedignidade dos dados não se encontrava na manutenção dos coloquialismos e dos deslizes gramaticais dos entrevistados, mas na manutenção de suas ideias.
Além disso, nessas transcrições, utilizamos, de acordo com as normas estabelecidas pela ABNT9, os colchetes com duas finalidades – elementos inseridos ‘entre colchetes’ representavam acréscimos, por nós elaborados, visando tornar a transcrição mais compreensível ao leitor. Por sua vez, o uso de ‘reticências entre colchetes’ configurava a supressão de partes da fala do entrevistado, desnecessárias para o contexto analisado. Vale destacar que, também nas transcrições, empregamos as reticências para representar a interrupção momentânea de um pensamento ou ideia.
Optamos por apresentar o texto, em cada uma das cinco etapas do Arco de Maguerez, subdividido em duas seções. Na primeira, intitulada ‘O Caminho Percorrido’, descrevemos, baseados em uma ordem cronológica, as intervenções realizadas junto às duas turmas. Buscamos, também, inserir, de acordo com cada caso, dados provenientes das produções escritas dos alunos ou trechos de suas falas, visando justificar a relevância das
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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10520: apresentação de citações em documentos. Rio de Janeiro, ago.2002.
referidas atividades para o desenvolvimento daquela etapa do Arco de Maguerez, bem como para a Educação Ambiental. Essa parte do texto reúne, portanto, os procedimentos de ensino utilizados.
Posteriormente, na seção ‘Analisando o Caminho Percorrido’, apresentamos segmentos das entrevistas realizadas e, então, por meio da triangulação entre as nossas concepções, as dos alunos e a do professor Nil, examinamos as atividades, procurando esclarecer o problema norteador da presente investigação. Logo, sintetiza, propriamente dito, as estratégias de pesquisa adotadas.
Imagens que retratam a realidade observada pelos alunos. RESULTADOS e DISCUSSÃO A seguir, aprestamos, analisamos e discutimos os dados coletados. Para isso,
como eixo orientador do capítulo, adotamos as próprias etapas do Arco de Maguerez.