PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.1 OBSERVAÇÃO DA REALIDADE
3.1.2 O Caminho Percorrido
Passadas essas duas semanas, começamos a desenvolver a primeira etapa da Metodologia da Problematização com o Arco de Maguerez.
O primeiro contato de Otto (Apêndice F) continha sua breve apresentação e retomava as atividades anteriores (‘Explorando os cinco sentidos’ e ‘Como trabalham os cientistas?’), relacionando-as com orientações pertinentes à realização da Observação da Realidade que estavam prestes a iniciar.
Apesar de ter ocorrido em dias diferentes, as duas turmas tiveram a oportunidade de observar os mesmos locais nas proximidades da escola. O Quadro 03 sintetiza, então, os principais aspectos descritos pelos alunos durante a realização dessa atividade.
Os dados apresentados no referido Quadro evidenciam grande similaridade entre os aspectos observados pelos alunos de quinta e sexta séries e permite-nos caracterizar uma desarmonia na relação do homem com o meio ambiente analisado, pois tudo o que foi encontrado disperso nas proximidades do Rio Mogi-Guaçu é decorrente de atitudes desprovidas de responsabilidade e cidadania.
Podemos ressaltar, ainda, que houve o predomínio do sentido da visão para que os alunos pudessem elaborar a lista com os vestígios de que o ambiente no entorno da escola estava em estado de degradação. Mas, em ambas as salas, o olfato foi utilizado para que pudessem, posteriormente, relatar o cheiro desagradável – e bem evidente – próximo ao rio.
5ª série 6ª série
Garrafas plásticas de refrigerante Sacolas plásticas
Canudinho de plástico Fralda descartável
Sabão em pedra na margem do rio
Cheiro desagradável (fezes)
Cueca Copos descartáveis Luvas descartáveis Garrafas de vidro Palitos e embalagens de picolé Óleo na vegetação da margem do rio
Fogueiras / fumaça Linha de pescar com anzol
Sacos com lixo Coco Fralda descartável Roupa rasgada Embalagem de sorvete Latinha de alumínio Garrafa plástica
Cheiro desagradável próximo ao rio Cheiro de lixo
Sacola plástica
Cheiro de esgoto próximo à barragem
Cano que joga água suja no rio Copo descartável
Palito de sorvete Preservativo Garrafas de vidro
Canudinho Pneu nas margens do rio
Colher plástica Papel de bala e chiclete Sacos de lixo acumulados
Espigas de milho Maço de cigarros Vidro de esmalte Papel higiênico Entulho Latas de alumínio Cheiro de ‘carniça’ Resto de comida ‘Potinhos’ com água acumulada
Chinelo
Cocos jogados no chão
Quadro 03 – Síntese das observações realizadas no entorno da escola pelos alunos de quinta e sexta séries.
Na semana seguinte à observação, iniciamos com a releitura do primeiro contato de Otto, para lembrar aos alunos que deveriam escrever uma mensagem a ele contando sobre os aspectos observados. Como o projeto da oficina ‘Hora da Leitura’ abordava o tema ‘cartas’, essa atividade foi desenvolvida em conjunto com a professora Mô. Entretanto, orientamos que no conteúdo da mensagem os alunos deveriam abordar, entre outras, as seguintes ideias:
Quais são os sinais de que o meio ambiente está sendo degradado? O que você observou que mais te chamou a atenção?
Quem são os responsáveis pelas cenas observadas? Qual a sua opinião sobre a situação presenciada?
Analisando essa atividade, percebemos que os alunos escreveram as mensagens seguindo a estrutura de uma carta e, realmente, mantiveram uma interação com
Otto, respondendo aos questionamentos formulados por ele e, também, formulando algumas perguntas. Quando se referiam a este nosso personagem, geralmente:
• pediam ajuda: “[...] Otto, você que é nosso amigo nos ajude, ajude o planeta Terra a sair dessa [...]” (Ta); “[...] Eu esqueci de te dizer, tente mudar o meio ambiente porque ele está precisando” (Cris);
• faziam convites para que viesse até a Terra: “Otto, vem aqui para falar com as pessoas, porque elas poluem o rio pensando que é bonito, por isso estou falando para você vir aqui na Terra [...]” (Fer);
• questionavam sobre o desenvolvimento tecnológico do planeta XYZ: “O nosso planeta está ficando doente, porque você não faz uma máquina que tira a poluição dos rios? Me responda” (B).
Além desses aspectos, de maneira geral, os alunos elaboraram suas cartas tendo como foco as questões que sugerimos quanto aos fatores que seriam relevantes de abordagem durante essa atividade. E, portanto, não diferiram muito quanto ao conteúdo. Todos os alunos relataram situações que alteravam as condições naturais do meio ambiente e, a partir dessas, escolhiam aquela que mais teria lhe chamado a atenção. Em relação à atribuição de responsabilidade sobre as cenas que observaram no entorno da escola, a grande maioria reconheceu que o ser humano não se preocupa com o meio ambiente e, ao emitir uma opinião sobre isso, utilizaram palavras que evidenciavam preocupação com o futuro do Rio Mogi-Guaçu, da Cachoeira de Emas e, também, das próximas gerações.
Ainda em relação à integração com a disciplina de português e, considerando que durante os primeiros quarenta dias letivos, todas as escolas públicas de São Paulo trabalharam alguns conteúdos relativos às disciplinas do currículo básico por meio de um Jornal preparado exclusivamente para esse fim, abordamos a composição da primeira página desse meio de comunicação, destacando as chamadas para as matérias. Então, em busca de um maior envolvimento dos alunos com os aspectos observados ‘in loco’, propusemos a seguinte situação:
Imaginem que vocês são repórteres e terão que fazer uma chamada para o ‘Jornal Extraterrestre’ que circula no planeta em que Otto vive. Como será essa chamada para ressaltar os fatores observados por vocês e que demonstram a degradação do meio ambiente?
Os alunos elaboraram as chamadas abordando diversos fatores relacionados à Cachoeira como, por exemplo:
• “Garrafas plásticas jogadas no Rio Mogi-Guaçu bóiam até a ‘prainha’ onde, infelizmente, ficam acumuladas” (Fer);
• “Fim de semana complicado em Cachoeira de Emas: visitantes sujam o bairro e poluem ainda mais o Rio Mogi” (Gui);
• “Cachoeira de Emas: 100% poluição” (B);
• “Rio que passa por Cachoeira de Emas acaba poluído por ação de turistas” (Tay); • “Acompanhe: Rio Mogi-Guaçu em Cachoeira de Emas pede socorro” (Cris);
• “Professores levam alunos da escola Eloi Chaves para observar de perto os problemas de Cachoeira de Emas” (A).
A partir desses exemplos, percebemos que os alunos tentaram abordar de forma sucinta e interessante os problemas que estão relacionados ao meio onde realizaram a observação e, por isso, ressaltaram os objetos jogados no rio; a ação do turismo; o aumento do lixo aos finais de semana e, até mesmo, a própria atividade que empreendemos para que detectassem os problemas ambientais. Vale destacar, entretanto, que muitos alunos elaboraram, simplesmente, frases relacionadas ao tema: “Ajude a mudar a Cachoeira de Emas, salve a natureza”; “O Rio Mogi-Guaçu está se acabando”; “Ajude o meio ambiente, não jogue garrafa no rio”; entre outras.
Considerando que todos os alunos leram as suas produções e, em conjunto, discutimos sobre quais tinham o perfil de uma chamada que pudesse ser inserida em um jornal, julgamos que a atividade atingiu seu objetivo de estimular a criatividade dos alunos; envolvê-los, ainda mais, com os problemas presentes no meio ambiente observado e, indiretamente, criar mais um espaço para que escrevessem e expressassem a própria opinião, buscando tornar essas práticas mais próximas do dia a dia desses alunos para, assim, diminuir a resistência de realizá-las.
Concluído o primeiro momento da Observação da Realidade, passamos, ainda nessa etapa do Arco de Maguerez, à formulação do problema. Nesse sentido, a atividade inicial – que denominamos ‘Primeiro Passo’, uma vez que seria utilizada, também, no início de outras etapas – teve como objetivo retomar a definição de problema (a atividade ‘Como trabalham os cientistas?’ já havia abordado esse assunto) e permitir que os alunos exercitassem a elaboração de uma questão de investigação a partir de notícias (Apêndice G) veiculadas em um jornal de circulação nacional – que faziam, ou não, referência à temática ambiental.
A partir da leitura das notícias, definíamos, primeiramente, o assunto tratado por ela e, depois, buscávamos, com as sugestões dos alunos, problematizar10 essa situação identificada, sugerindo assim, os passos que os alunos deveriam seguir na semana seguinte – formular um problema ambiental em posse dos aspectos observados na realidade. No Quadro
10
Apoiados em Berbel (1995) utilizamos, nesse trabalho, problematizar como sinônimo de formular um problema ou uma questão.
04, apresentamos os problemas formulados por ambas as turmas a partir de duas notícias analisadas durante a execução da atividade ‘Primeiro Passo’.
5ª série 6ª série
Notícia – ‘Trânsito: SP tem recorde de lentidão pela manhã’ Assunto principal: Trânsito
Problema Formulado: Por que acontecem congestionamentos nas
grandes cidades?
Por que a cidade de São Paulo apresenta
engarrafamento todos os dias?
Notícia – ‘Homem tenta salvar filho de assalto em Diadema e é morto’ Assunto principal: Assalto / Violência
Problema Formulado: Por que acontecem assaltos tanto em
Pirassununga como nas grandes cidades?
Quais fatores levam à violência nas grandes cidades?
Quadro 04 – Exemplos de notícias problematizadas na atividade ‘Primeiro Passo’.
Para a concretização dessa atividade, primeiramente, os alunos elaboraram questões que consideravam pertinentes a cada reportagem e, então, em lousa, buscamos sintetizar suas ideias em um único problema, sugerindo os procedimentos que seriam adotados em seguida, quando a problematização teria como foco a parcela da realidade observada.
Na semana subsequente, uma nova mensagem de Otto foi entregue para os alunos (Apêndice H). Além de comentar sobre a Observação da Realidade, ela orientava quanto à formulação do problema, sugerindo uma revisão desse assunto e solicitando que escrevessem um bilhete contanto a respeito da situação problematizada.
Após a leitura dessa mensagem, revisamos os problemas detectados no entorno da escola, a definição, propriamente dita, de problema, e as questões formuladas a partir das notícias de jornal. Propusemos que iniciassem, individualmente, a problematização da situação que puderam observar ‘in loco’ e, ao mesmo tempo, que julgavam ser a mais relevante para nortear nosso trabalho. Não foi possível, nesse dia, ir além dessa atividade, pois os alunos demonstraram, como será discutido a seguir, muita dificuldade em sua execução.
Com o material produzido individualmente, sugerimos que os alunos se reunissem em grupos para discutirem sobre suas próprias formulações, buscando diminuir o número de problemas da sala (que até então era igual ao número de alunos) para apenas um
por equipe. Após esse primeiro momento, passamos todos os problemas (tanto os individuais como aqueles formulados após a discussão em grupo) na lousa e juntos buscamos semelhanças, diferenças e delimitamos, ao longo da aula, os assuntos que demandavam maior interesse, até chegarmos à elaboração de um único problema, que, a partir de então, passaria a ser representativo da sala.