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5. A MECÂNICA QUÂNTICA E A FILOSOFIA DE WHITEHEAD

5.4. Michael Epperson: descoerência e Whitehead

Michael Epperson, filósofo e professor da California State University Sacramento,

defende que a ontologia whiteheadiana é consistente com relação à teoria quântica, e em

particular com as teorias da descoerência de Zurek, Gell-Mann, Omnès, e outros.

Em primeiro lugar, Epperson discorda da ideia defendida por Shimony, de que é

preciso estabelecer um whiteheadianismo modificado para dar conta da “nova” mecânica

Reality, a termos matemáticos e conceitos usados pela “nova” teoria quântica, tais como

“teoria da probabilidade”, “teoria dos tensores” e “teoria das matrizes” (2004, p.223). O que

pode ser um indício de que Whitehead estava atento às transformações da física do seu tempo,

e não se referia apenas às origens da mecânica quântica.

Ademais, segundo Epperson o esquema cosmológico de Whitehead é passível de se

ajustar à teoria quântica de maneira coerente, lógica, aplicável e adequada, pela sua

capacidade de reduzir as diferenças entre as concepções clássica e quântica da natureza. Mas

para isso é preciso que se ajuste às cinco inovações conceituais que, de acordo com Abner

Shimony, a teoria quântica implica: a indefinição objetiva; o acaso objetivo; a probabilidade

não epistêmica objetiva; o emaranhamento objetivo; e a não-localidade quântica.

De acordo com Epperson, a tentativa de interpretar coerentemente essas inovações

conceituais acabou produzindo duas estratégias distintas, as quais renunciam a uma

interpretação ontológica que aproxime a física clássica da física quântica. A primeira, a

interpretação estatística ou instrumental é “[...] capaz de explicar a indefinição; o acaso; a

probabilidade; e o emaranhamento; tornando estes conceitos apenas epistemicamente

significativos, em oposição à ontologicamente significativos” (Ibid., p. 224, tradução nossa).

A segunda estratégia parte da restrição da caracterização do significado ontológico da

mecânica quântica. Para ela, a realidade objetiva encontra-se velada e só se pode aceder às

coordenações subjetivas das nossas experiências da realidade subjacente e necessariamente

velada. A objetividade das leis físicas é apenas aparente, já que se baseia nas coordenações

subjetivas comuns de um grande número de pessoas. Portanto, nada impede que surjam

algumas coordenações subjetivas incompatíveis com as primeiras. O Princípio de

Complementaridade de Bohr representaria bem essa outra estratégia, pois “[...] considera as

incompatibilidades conceituais que separam a caracterização fundamental da natureza descrita

pelas mecânicas quântica e clássica como evidência deste único princípio ontológico” (Ibid.,

p. 224-225, tradução nossa). Assim, não é preciso apelar para uma interpretação ontológica

que possa acomodar as concepções clássica e quântica, pois cada uma é atinente ao seu

próprio domínio. Epperson considera essas estratégias como exemplos do que Whitehead

chamava de ciladas da aplicação do método de generalização filosófica às ciências naturais,

isto é, “[...] a utilização de noções específicas, aplicando-se a um grupo restrito de fatos, para

a adivinhação das noções genéricas que se aplicam a todos os fatos” (WHITEHEAD, 1985, p.

5, tradução nossa).

Contrastando com essas estratégias, Epperson aponta para as “[...] interpretações da

mecânica quântica que tentaram abarcar a validade dos princípios da mecânica clássica,

propondo, ao mesmo tempo, uma caracterização mais fundamental desses princípios e a sua

aplicação ao mundo natural” (EPPERSON, 2004, p. 225, tradução nossa). Entre essas

interpretações ele relaciona a interpretação do estado relativo, de Everett; a interpretação da

localização espontânea, de Ghirardi, Rimini, Weber e Pearle; e as teorias baseadas na

descoerência, de Zurek, Gell-Mann, Omnès, e outros

32

.

Para Epperson, as teorias baseadas na descoerência “[...] podem ser caracterizadas

como uma detalhada e fundamental exemplificação da filosofia do organismo de Whitehead

no que se refere às ciências físicas” (Ibid., p. 226, tradução nossa). São muitos os pontos de

contato entre o esquema ontológico de Whitehead e as teorias baseadas na descoerência, de

acordo com Epperson. Talvez o principal seja o que vincula a seleção negativa dos estados de

um sistema pelo efeito de descoerência com a noção whitehediana de preensão negativa, que

trata da maneira pela qual os objetos eternos são preendidos por uma entidade atual em

concreção. Ou seja, a preensão negativa elimina os seus dados, de forma que esses dados não

contribuem para o processo de concrescência da entidade atual. Portanto, o efeito de

descoerência e a preensão negativa encontram-se no cerne do problema da atualização das

potencialidades, fornecendo uma compreensão ontológica para a constituição do mundo real.

Os esforços de Epperson em pensar uma ontologia whiteheadiana em consonância

com a interpretação da descoerência ainda estão em curso. Atualmente ele desenvolve, em

parceria com pesquisadores associados e consultores, uma pesquisa no Center for Philosophy

and the Natural Sciences, na California State University Sacramento, intitulada “Foundations

of Relational Realism: Logical Causality, Intrinsic Decoherence, and a Category-Theoretic

Mereotopological Model of Quantum Spacetime”

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. No detalhamento de seu projeto de

pesquisa Epperson explica que a questão fundamental a ser explorada pelo grupo consiste em

saber “[...] se há fontes intrínsecas de descoerência na natureza, ou seja, fontes que não podem

ser contabilizadas, em um ambiente experimental, unicamente através de qualquer dos

mecanismos de descoerência conhecidos” (Tradução nossa).

Nesse contexto, Epperson sugere que a filosofia do organismo de Whitehead é capaz

de fornecer uma descrição ontológica, baseada em processos relacionais fundamentais, que

podem ser perfeitamente integrados às modernas interpretações da mecânica quântica,

baseadas nos efeitos de descoerência.

32 Cf. NETO, N. P. Teorias e interpretações da mecânica quântica. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2010.

33Encontram-se essas informações na página web do professor Epperson: