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3. A REVIRAVOLTA QUÂNTICA: A POTENTIA DE HEISENBERG E A

3.1. Uma Ideia preliminar: a dualidade onda-partícula

Conhecer a natureza da luz sempre foi uma curiosidade humana. Anton Zeilinger

(2005, p. 37) destaca que, já na Antiguidade grega, os atomistas procuravam explicar como a

imagem de um objeto é capaz de se formar na nossa mente. A sua explicação consistia no fato

de que os objetos emitem partículas muito pequenas que se assemelham exatamente a eles

próprios. Essas pequenas partículas atingem o olho humano, permitindo que ele forme a

imagem dos objetos que são vistos.

Com o advento da física moderna, relembra ainda Zeilinger, iniciou-se uma discussão

para saber se a luz consistia em partículas ou se ela se propagava em ondas. Essa discussão

opunha dois pontos de vista diferentes e antagônicos. Isaac Newton adotou a teoria

corpuscular da luz, influenciando a grande maioria dos físicos.

No entanto, a partir de 1802, quando o médico inglês Thomas Young realizou o

experimento da dupla fenda, a teoria ondulatória da luz voltou a fazer parte da ordem do dia

das questões físicas. Este experimento simples

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serviu de estímulo para que os físicos do

século XIX elaborassem uma teoria ondulatória da luz bastante abrangente. James Clerk

Maxwell, nos anos 1860, finalmente associou a luz às ondas eletromagnéticas. Assim, o ponto

de vista corpuscular de Newton parecia ameaçado.

Mas pouco tempo depois, em 1900, ao estudar a radiação da energia dos corpos

negros, Max Planck introduziu a ideia de que a energia só poderia ser irradiada em pequenos

“pacotes”, aos quais chamou de quanta. Em 1905

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, Albert Einstein seguindo a ideia inicial de

Planck, defendeu a corpuscularidade da luz. Desde então, a luz passou a ser considerada como

possuindo uma natureza dual, segundo a qual pode ser concebida como uma onda ou como

uma partícula.

É muito embaraçoso para uma mentalidade formada na metafísica clássica lidar com

essa característica inerente à luz. A noção de substância parece não ser mais satisfatória para

dar-se conta do fenômeno luminoso, uma vez que ela pressupõe um suporte material único

para as coisas. O materialismo clássico parece sofrer um grande abalo diante da dualidade

onda-partícula da luz.

Contudo, um abalo ainda maior estaria por vir com a proposição do físico francês

Louis de Broglie, em 1924, na sua tese de doutoramento intitulada Recherches sur la théorie

16 Para maiores detalhes desse experimento Cf. ZEILINGER, 2005, p. 37-45.

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Sobre um ponto de vista heurístico relativo à geração e à transformação da luz, publicado nos Annalen der Physik, em 7 de junho de 1905.

des quanta, de que a dualidade onda-partícula poderia ser estendida aos elétrons. Sabia-se,

àquela altura, que os elétrons eram partículas de carga negativa que orbitavam os núcleos

atômicos e eram responsáveis pela criação de campos elétricos e magnéticos. Mas de Broglie

estava propondo algo realmente inusitado: a dualidade onda-partícula não seria apenas uma

característica da luz, mas de toda a matéria.

Em 1925, o físico austríaco Erwin Schrödinger apresentou uma equação de onda que

poderia muito bem ser aplicada à ideia de de Broglie. Shimon Malin assim descreve o feito de

Schrödinger:

Schrödinger chegou à sua equação colocando juntas uma equação de onda conhecida que era usada na óptica, onde o comportamento ondulatório da luz havia sido descrito matematicamente havia décadas, e uma formulação da mecânica que foi introduzida por Sir William Rowan Hamilton nos anos 1830. A conquista de Schrödinger era nada menos do que a conversão da ideia de de Broglie do estado de uma sedutora possibilidade para uma teoria completamente articulada (MALIN, 2003, p. 42).

Mais espantosa ainda foi a constatação de que os cálculos feitos por Schrödinger,

usando a sua equação de onda, a respeito das propriedades dos átomos de hidrogênio,

concordaram não só com os dados experimentais, como também coincidiram com os

resultados produzidos pela nova mecânica quântica de Heisenberg, Born e Jordan.

Entre 1924 e 1925, Werner Heisenberg, Max Born e Pascual Jordan haviam lançado as

bases matemáticas da nova mecânica quântica

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, contrapondo-se à antiga mecânica quântica

que continha as teorias formuladas principalmente por Planck, Einstein e Bohr, nas duas

décadas anteriores.

Embora a nova mecânica quântica apresentasse um formalismo matemático eficaz

para calcular os resultados experimentais, ela falhava na hora de descrever conceitualmente o

que estava acontecendo realmente. O mesmo se deu em relação à equação de onda de

Schrödinger. As ondas que descreviam um elétron livre, vagando no espaço, espalhavam-se

por uma região do espaço muito maior do que aquelas que podem ser associadas a ele (Ibid.,

p. 42).

Schrödinger era realista e acreditava que a sua função de onda descrevia uma onda de

matéria que se propagava continuamente no espaço. Entretanto, essa crença do físico

austríaco não concordava com o que Niels Bohr havia previsto para as mudanças de órbitas

que um elétron pode realizar. De acordo com Bohr essas mudanças eram realizadas através de

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Heisenberg desenvolveu uma complexa mecânica baseada em matrizes que continham todas as características observáveis do sistema quântico na forma de tabela. cf. Kallio-Tamminen, 2004, p.

“saltos quânticos”, sem que os elétrons percorressem o caminho entre as órbitas. Mas a

equação de onda de Schrödinger não previa esses saltos entre as órbitas. Segundo ela, o

elétron se propagaria como uma onda, indo de uma órbita a outra.

Foi Max Born quem, em 1926, forneceu uma interpretação probabilística da função de

onda de Schrödinger. A sua sugestão era a de que se fosse elevada ao quadrado, a função de

onda passaria a indicar as probabilidades de se encontrar uma partícula em certas regiões do

espaço.

Portanto, a teoria quântica passou a ter duas formulações matemáticas: a mecânica

matricial de Heisenberg e a mecânica ondulatória de Schrödinger, com sua interpretação

probabilística elaborada por Max Born. Niels Bohr as acolheria, posteriormente, na sua

concepção de complementaridade.

Bohr considerava a mecânica matricial de Heisenberg e a mecânica ondulatória de Schrödinger como descrições simbólicas complementares dentro da teoria quântica. Elas adaptaram-se à natureza da teoria quântica porque ambas tinham sido capazes de deixar para trás a descrição clássica do movimento. De acordo com Bohr, a descrição do espaço-tempo clássico não poderia ter sucesso, porque a manipulação dos fenômenos do mundo microscópico exigia o uso do princípio da superposição. A interação entre as partículas individuais era diferente em comparação com os pressupostos da física clássica (KALLIO-TAMMINEN, 2004, p. 184, tradução nossa).

Em 1927, Heisenberg enuncia o princípio de incerteza

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. O físico alemão percebeu que

era impossível medir simultaneamente e com precisão a posição e o momento de uma

partícula. Ou seja, a precisão na medição de uma dessas variáveis implicava a imprecisão da

outra.

O problema da interpretação da mecânica quântica colocava Heisenberg e Bohr em

posições diferentes: “[...] a posição de Heisenberg seria a de que tanto a linguagem

corpuscular quanto a linguagem ondulatória seriam satisfatórias para descrever os objetos

quânticos, enquanto que Bohr insistia que ambas eram necessárias” (PESSOA JR., 2003, p.

91)

Os esforços empreendidos por Niels Bohr e Werner Heisenberg, entre outros, na

tentativa de apresentar uma abordagem interpretativa consistente para os fenômenos quânticos

acabou produzindo o que se convencionou chamar de a Interpretação de Copenhague. Essa

interpretação tornou-se a explicação padrão adotada pela maioria dos físicos.

Cabe ressaltar que a Interpretação de Copenhague não é a única interpretação existente

da mecânica quântica. Podemos citar entre outras, a teoria de de Broglie-Bohm; a

interpretação de vários mundos, de Everett; a teoria do colapso espontâneo e a interpretação

de histórias consistentes

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