Em 2015 e 2016 foram publicados dois livros sobre Agostinho da Silva que revolucionaram o seu campo de estudos: em 2015, O Estranhíssimo Colosso. Biografia de Agostinho da Silva (1), de António Cândido Franco, e A Liberdade Guiando o Povo. Uma Aproximação a Agostinho da Silva (2), de Pedro Martins, publicado em 2016, que iluminaram de um outro modo a compreensão da filosofia de Agos- tinho da Silva. No caso deste último, Pedro Martins defende, em síntese, que a obra do filósofo, sendo una, norteada pelos três princípios emblemáticos da Revolução Francesa de 1789, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, encontrando-se presente em todos os períodos da vida de Agostinho da Silva, desdobram-se, porém, em três momentos sucessivos temáticos e temporais: a fase “seareira”, dominada pela Igualdade, a fase brasileira dominada pela Fraternidade (1944-1969, regresso a Portu- gal) e, na fase final da vida, a partir de Educação de Portugal (1970), predomina o valor da Liberdade.
Este artigo, embora composto a partir de textos escritos antes de 2016, intenta de certo modo en- fatizar a leitura de Pedro Martins, sobretudo a identificação feita entre a fase “seareira de Agostinho da Silva e o primado atribuído ao valor filosófico, político, social e religioso da “Igualdade”.
Desde A Religião Grega, de 1930, se não desde os seus artigos na Acção Académica enquanto jovem estudante, existe em Agostinho da Silva uma pulsão de repulsa e desconformidade com o estado geral da sociedade portuguesa que o força a nunca se encontrar do lado do Poder (da República, em primeiro lugar; depois, do Estado Novo). Em 1944, em Conversação com Diotima, Agostinho da Silva confessa que, mais do que os grandes problemas da filosofia, lhe interessa o problema social e gnose- ológico da profunda desigualdade dos homens no acesso ao pensamento e à cultura: “… o que me preocupa investigar é a razão por que tantos homens surgem no mundo com o estreito espírito que os não deixa chegar às essências superiores” (3). A confissão do “Estrangeiro” espanta Diotima, que comenta: “Tu é o primeiro [homem] que me pergunta por que ordem do mundo se explicam os que não podem melhorar, porque a natureza os dotou mal” (4). Com efeito, esta confissão de Agostinho da Silva por via da personagem “Estrangeiro” evidencia a pulsão de desconformidade do autor com uma organização social que bloqueava o acesso da maioria dos cidadãos ao conhecimento (e, conse- quentemente, à liberdade de uma escolha lúcida), condenando-a à ignorância e, portanto, ao afasta- mento involuntário da comunhão com a divindade.
No acesso de todos a todos os bens, inclusive e sobretudo aos culturais, reside o permanente pro- jecto social e filosófico de Agostinho da Silva, que preconiza a existência futura de uma sociedade igualitária, dotada de amplo conhecimento e abundância.
Agostinho da Silva defende o retorno a uma sociedade diferente da actual, uma sociedade iguali- tária regida pela Beleza e pelo Amor, harmonizando mística sagrada e razão matemática na unidade existencial da vida de cada homem. Numa palavra, Agostinho da Silva entende a Grécia segundo a perspectiva humanista clássica de uma sociedade mediada pelo Espírito e regida pela conformidade da razão com a natureza, permitindo o usufruto de uma “vida plena” empenhada e quotidiana. Uma espécie de Grécia mítica ao modo da poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen. Com efeito, na poesia de Sophia, iniciada com o livro Poesia, de 1944, não por acaso o mesmo ano de publicação Conversação com Diotima, a Grécia clássica figura-se como a guardiã do segredo e do tesouro do úl- timo momento histórico em que homem e natureza teriam vivido em fusão, experimentando aquele a inteireza exemplar da vida e a verticalidade solar de, transcendente e imanentemente, se sagrar
filho dos deuses. Neste sentido, a poesia de Sophia intenta resgatar esse momento auroral anterior à consciência da clivagem entre homem e natureza e entre homem e deuses, pecado mortal da civi- lização ocidental: “a civilização em que estamos é tão errada que / Nela o pensamento se desligou da mão” (“O Rei de Ítaca”, in O Nome das Coisas). Face à nossa civilização, esquecida do sentido do sagrado, resta à poesia, como consciência suprema do homem, invocar reminiscentemente os tempos aurorais, as coisas simples e principiais, anteriores à complexidade viciante da nossa civilização. So- phia e Agostinho – o mesmo projecto, mais do que social, civilizacional.
Como Romana Valente Pinho conclui admiravelmente, “a procura deste paradigma [civilizacional, cultural, social e político] vai acompanhar Agostinho da Silva durante sessenta anos” (5). “Vida plena” significa, em 1930, o que o autor designará, dez anos mais tarde, analogicamente, por “comu- nidade cristã”, e, já na década de 50, por Império do Espírito Santo: fusão homem-Deus, corpo- alma, sujeito-objecto, espírito-natureza, eu-outro, liberdade-destino por via da experiência vivencial e iluminante da igualdade entre todos os homens como Filhos de Deus, ou, o que é o mesmo, Irmãos em Cristo. Em 1930, esta fusão existencial no caminho da plenitude era então evidenciada pelos “mistérios” gregos. Com efeito, a expressão “vida plena”, ou, melhor, o seu símile “plenitude de vida”, encontra-se igualmente no artigo [caderno cultural de 1942] Cristianismo (“Cristianismo”, in Tex- tos e Ensaios Filosóficos I, ed. cit., p. 77), resgatando a genuinidade dos textos do Novo Testamento que apontariam, segundo o autor, para a realização do Reino de Deus na Terra (idem, ibidem, pp. 77-8): os textos são bem explícitos: é a terra o que os bons possuirão, não o céu, é a nós que há-de vir o Reino e não os homens que terão de ir ao Reino; Reino dos Céus ou Reino de Deus quer dizer Reino divino, isto é, realização na terra do pensamento de Deus; parece que se interpretaria facilmente o que pensava Jesus substituindo-se Reino de Deus por plenitude de vida; o Reino é um momento do mundo, uma fase final de uma longa evolução em que os homens, sem necessidades materiais por satisfazer, se sentirão plenamente de acordo consigo e de acordo com o universo; estarão utilizadas todas as suas possibilidades numa actividade harmónica e bela; o problema de discutir se, realizado o progresso material, a Humanidade será feliz, se não haverá outras aspi- rações, já é outro problema e Jesus não o põe, o que acentua bem o carácter social da sua pregação; a questão urgente é a do material, como base indispensável para uma liberdade de espírito; Jesus entende que é absolu- tamente necessário que o homem não tenha de pensar, com uma preocupação angustiada e absorvente, nos cuidados do corpo….
Neste texto, absolutamente revolucionário face à propaganda situacionista de uma Igreja Católica social e espiritualmente dominante (a “Concordata” com o Estado Novo acabara de ser assinada em 1940), uma Igreja totalmente dependente do Estado e que o justifica, Agostinho da Silva regista toda a sua doutrina social, aliás, concordante, não com a letra, mas com a sua interpretação do espírito grego. Escreve o autor, evidenciando o seu igualitarismo filosófico (idem, ibidem, p. 78): …no Reino [de Deus na Terra] não haverá problemas económicos, todos hão-de ser como as flores que não fiam nem tecem e andam com os vestuários mais belos do que os de Salomão ou como as aves ligeiras que sempre encon- tram alimento e lugar para um ninho; no Reino, que se abrirá a todos, sem distinção de nações, de raças, de classes ou de castas, não haverá violências, mesmo as de defesa, nem juramentos, nem posse de bens materiais, nem o homem terá de ser previdente, no contínuo temor da velhice, da doença, da morte; no Reino ninguém terá que trabalhar, o que significa certamente que ninguém terá de se sujeitar a tarefas que vão contra as suas tendências íntimas, ou abatem a saúde ou são puras formas de escravatura; no Reino se poderá ter o desprezo pelo dinheiro, dado que exista; no reino não haverá a menor ideia de organização familiar, que Jesus liga, decididamente, a um certo estádio de evolução económica e moral; no Reino não haverá Estado, com príncipes que oprimam os cidadãos; antes cada um será, voluntariamente, por amor e interesse do espírito, o servidor dos outros; no Reino não haverá processos, nem tribunais, nem juízes; no Reino não haverá senão bondade, amor, fervor espiritual, contemplação das ideias, profunda, segura, inabalável felicidade.
Inexistência de trabalho, categorizado como expressão permanente do pecado original; inexistência de Estado; de dinheiro ou de economia mercantilista; de família institucionalizada; inexistência de justiça humana, sempre parcial, de crimes; de divisão entre nações, raças, classes ou castas, ou seja, retorno, no futuro, à “idade de ouro” ou ao paraíso primitivo (idem, ibidem, p. 79). “Reino de Deus” na Terra, “vida plena”, “idade de ouro”, expressões sinónimas de 1942 que, em 1946/47, Agostinho da
Silva sintetizará neste último termo, “idade de ouro”, no seu primeiro texto escrito no Brasil, A Co- média Latina, postulando a sua existência actual em comunidades primitivas do interior do Brasil e sugerindo que a totalidade das sociedades actuais teriam evoluído, degradativamente, decadente- mente, a partir de semelhante estádio social primitivo. Porém, já em 1942, em Cristianismo, Agostinho da Silva defendera ser a evolução exponencial da ciência e da técnica a alavanca social que permitirá a transformação de uma sociedade classista numa sociedade comunitarista, postulando a possibili- dade da existência futura de uma “abastança geral” (idem, ibidem)e equitativa. Porém, caso o “rico” e o “poderoso” não o consintam, Agostinho da Silva prevê a aplicação das palavras de Jesus segundo as quais viera trazer a guerra e não a paz – e o final do texto de Agostinho da Silva torna-se profun- damente violento, ameaçando o Estado e a Igreja.
Verdadeiramente, se nos ativermos ao quadro configurador da cultura portuguesa na década de 1940, estabelecedor de uma sociedade passiva e acrítica, o opúsculo Cristianismo constitui-se como um autêntico soco na barriga do poder eclesiástico, universitário e político, relembrando a todos que Deus não pactua com a miséria e a ignorância e, sobretudo, que criara o homem, todos iguais, como um ser livre.
Em 1943, Agostinho da Silva insiste no seu apostolado cívico e edita A Doutrina Cristã. O primeiro parágrafo é avassalador – Deus é Tudo, Tudo é Deus, Deus é o Universo, o Espírito, a Matéria, todas as religiões são boas, todos os homens são religiosos, não é consentido que o homem persiga o homem em nome de Deus, o homem é um ser livre. O segundo parágrafo do texto postula que os únicos pecados contra Deus nascem das limitações da inteligência e do amor de cada homem. Novo soco na barriga do estado acrítico da cultura portuguesa, agora directamente apontado ao ventre pançudo da Igreja – “Deus não exige de nós nenhum culto” (¶3), “um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus” (ibidem): “uma escola é um templo de Deus; uma oficina é um templo de Deus; um homem é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidade de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito” (A Doutrina Cristã”, in Textos e Ensaios Filosóficos I, org. Paulo Borges, ed. cit., p. 82). Três são as liberdades essenciais: a liberdade cultural, a liberdade de organização social e a liberdade económica (¶4): “No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma res- trição de cultura, nenhuma coação de governo, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos” (idem, ibidem).
Meu Deus!, já não é um soco, é uma rajada de socos: a propriedade, a família e a moral, que não se discutiam, segundo o discurso de Oliveira Salazar em 1936, em Braga, são por Agostinho da Silva discutidos na via pública, concentrando a sua “doutrina cristã” na palavra mais temida pelo Estado Novo – liberdade –, que, na visão de Salazar, deveria ser substituída por outra, “hierarquia”. Não havia dúvidas: Agostinho da Silva merecia ser preso!
No seu primeiro texto escrito no Brasil, A Comédia Latina, Agostinho da Silva, perfazendo uma breve história do teatro, e porventura inspirado pelo testemunho da antropologia brasileira da exis- tência de pequenas tribos vivendo pacificamente em comunidades primitivas, identifica o modo de vida destas com a “idade de ouro” da mitologia europeia clássica e o paraíso (6) adâmico da Bíblia judaico-cristã. Nas comunidades índias todos os homens seriam iguais, não existiria propriedade privada, bem como “nenhum vestígio de religião organizada” (7). Devido à rarefacção de alimentos naturais, o homem primitivo teria sido forçado, em todo o mundo, a caçar e a pescar, a praticar a agricultura e a pecuária. Quebrara-se, assim, a fusão natural e espontânea entre o homem e a natu- reza; esta, de sujeito de comunhão com o homem, tornava-se objecto de domínio, posse e conheci- mento, a violência do sangue e da carne interrompera o ciclo da absoluta e perfeita união dos homens entre si, nascendo, assim, por via de um pecado contra a natureza, que é idêntico pecado contra Deus, a civilização. Com esta nascem, simultaneamente, a ideia da existência de um Deus transcen- dente, totalmente separado do homem, e as ideias de propriedade privada e de Estado. O teatro grego, nascido em honra de Dionísio, deus dissoluto da entificação ou individualização do eu, res- suscitaria a irrupção instintual e a alegria báquica da festa, momento principial de reintegração do
homem na natureza, que é o mesmo que dizer, em Deus, revivendo por instantes, na história, a eternidade da existência em “vida plena”.
Em A Comédia Latina, Agostinho da Silva opera a teoria de um retorno a este estádio primitivo da humanidade, que doravante designará, apontando para o futuro, como Idade do Espírito Santo, época de plena comunitarização dos bens e de absoluta igualitarização dos homens.
Notas: 1) Cf. António Cândido Franco, O Estranhíssimo Colosso. Uma biografia de Agostinho da Silva, Lisboa, Quetzal Editores, 2015. 2) Cf. Pedro Martins, A Liberdade Guiando o Povo, Sintra, Zéfiro, 2016. 3) Agostinho da Silva, “Conversação com Diotima”, in Textos e Ensaios Filosóficos I, (org. Paulo Borges), Lisboa, Âncora Editora, 1999, p. 128. 4) Idem, ibidem. 5) Romana Valente Pinho, Religião e Metafísica no Pensar de Agostinho da Silva, Lisboa, Imprensa nacional – Casa da Moeda, 2006, p. 53. 6) Agostinho da Silva, “A Comédia Latina”, in Agos- tinho da Silva, Dispersos (org. Paulo Borges), Lisboa, Icalp, 1988, p. 178. 7) Idem, ibidem.
Agostinho, o Gato (pormenor), desenho de Almerinda Pereira, 2018