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Muito tarde, na noite seguinte da nave, Shevek estava no jardim da Davenant. As luzes estavam apagadas, e o jardim estava iluminado apenas pelas estrelas. O ar estava bastante frio. Uma planta de florescimento no- turno, proveniente de um qualquer mundo inimaginável, tinha aberto entre as folhas negras e exalava o seu perfume como uma doçura paciente e fútil, para atrair uma qualquer borboleta a trilhões de quilómetros de distância, no jardim de um mundo que orbitava outra estrela. As luzes do sol variam, mas há só uma escuridão. Os despojados [1974] (2017: 320) (1)

Ursula Kroeber Le Guin deixou-nos universos atravessados pelo perfume de uma flor noc- turna cujo aroma percorre triliões de quilómetros. Universos conectados por borboletas viajantes espalhando pólen e palavras. Por um lado, trata-se do universo onde vivemos. Aquele que a viu nascer em Berkeley em 1929 e o de Portland em 2018, onde, se Shevek [personagem do livro Os despojados]aqui estivesse, diria que Ursula perdeu o eu e voltou a juntar-se ao resto (Os despojados, 2017: 21). Uma vida cheia que nasceu na grande depressão; viu a Segunda Guerra Mundial, as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki, as guerras frias, e a repetição colo- nial no Médio Oriente devorar corpos; sentiu as guerras colonialistas ao ponto de escrever Floresta é o nome do mundo [1972]; viu o fim da URSS, as ingerências humanitárias, o neo-colo- nialismo e a globalização com as suas ramificações digitais. Um universo que Ursula identifi- cava e de que percebia que os remendos lucrativos das soluções a curto prazo têm um efeito pernicioso sobre as nossas vidas e consequências devastadoras nos nossos espaços de vida. Neste sentido podemos dizer que Do outro lado do Sonho [1971] foi uma ficção visionária. Mas a lucidez das palavras da autora, num discurso de 2014, também nos ensinam que pode haver outra forma de viver “Nós vivemos no capitalismo. Seu poder parece inevitável. O mesmo fez o direito divino dos reis. Qualquer poder humano pode ser enfrentado e mudado por seres humanos. Resistência e mudança geralmente começam na arte, e muitas vezes na nossa arte – a arte das palavras.” (2) Por outro lado, temos todos os outros universos inscritos na arte das palavras, que a autora nos deixou. Espaços de fantasia, onde a imaginação criativa transporta questionamentos. Espaços de ficção, onde se perfilam mundos possíveis, mais de 80 planetas ainda por explorar, entre narrativas longas e curtas. Também podemos estancar a sede de leitura nos universos de um caminho poético e de um pensamento ensaístico e até de tradução. São estes universos, que vivem e respiram um no outro, que possibilitam a existência de um jardim num mundo orbitando outra estrela.

Uma arte da palavra que procura encontrar-se naquilo que é, sem o peso dos códigos esta- belecidos, tacteando o seu lugar com as suas palavras, sintaxe, forma e ritmo, rompendo com as circunstâncias históricas impostas por uma sociedade ocidental predominantemente mas- culina e quebrando as categorias teóricas que enquadram e hierarquizam os géneros literários (3). Ursula Kroeber Le Guin não escrevia apenas ficção científica, nem apenas fantasia, nem apenas poesia, nem apenas ensaios. Mas no mundo das editoras, da Google e da Amazon, o livro é objecto de lucro e a classificação em categorias serve o universo do marketing, no rol de vendas. Ursula é aquela

voz fa

zendo eco à voz de Virginia Woolf nas palestras que deu nos Colégios de Newnham e Girton em 1928 e que constituíram Um quarto que seja seu [1928]. Uma arte da palavra feminina consciente do lugar que lhe é reservado, porque no mundo literário ainda prevalece a voz masculina, mas pronta para furar muros. Assim, em 1986, a

autora anuncia de forma irónica num discurso em Portland (4): Se quer que sua escrita seja levada a sério, não se case e tenha filhos, e acima de tudo, não morra. Mas se tiver que morrer, cometa suicídio. Isso, eles aprovam. Entre uma escrita feminina, progressivamente assumida como o carácter andrógino de Estraven em A mão esquerda das trevas [1969], ou que surge como uma incógnita, quando a meio da narrativa de Expulsos da terra [1978] o herói morre e é Luz, uma mulher, que se torna o centro da narrativa, há todo o trabalho de pesquisa, leituras e traduções. O processo criativo da escrita de Ursula K. Le Guin passa também pelo ouvir as vozes das personagens que falam com ela. Personagens cheias ou redondas, como se diz, que não definem a acção, mas que se constroem com a acção à medida que as coisas acontecem, dando-nos uma sensa- ção de liberdade, e acreditamos nas palavras de Shevek quando nos diz que em Anarres: Não temos nada, a não ser a nossa liberdade. Não temos nada para vos dar a não ser a vossa própria liberdade. Não temos lei além do princípio único de ajuda mútua entre os indivíduos. Não temos go- verno, além do princípio único da livre associação. Não temos Estados, nações, presidentes, primeiros- ministros, chefes, generais, patrões, banqueiros, senhorios, salários, caridade, polícia, soldados, guer- ras. E também não temos muito mais. Somos partilhadores, não proprietários. Não somos prósperos. Nenhum de nós é rico. Nenhum de nós é poderoso. (...) (Os despojados, 2017: 253-254)

Do pormenor ao gigantesco, são universos de leitura ainda por descobrir. A leitura é isso, alargar as experiências, representar-se mundos e pessoas diferentes de nós e vir a conhecê- las, assim como ficar a conhecer-se. A leitura permite-nos viver “numa grande casa, com mui- tos quartos e janelas e portas e nenhuma delas fechadas” (5). Então, sim, ler e reler Ursula Kroeber Le Guin, não só porque perdi a página onde Shevek nos diz que uma mulher não precisa de aprender a ser anarquista, mas também porque há muito mais portas e janelas abertas para explorar.

Notas:

1) Todas as datas indicadas entre parêntesis rectas correspondem às datas das primeiras publicações na língua original. 2) Vídeo do discurso de aceitação do prémio da “National Book Foundation” a 19-11-2014. Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=Et9Nf-rsALk 3) Uma noção que herdámos de Platão e Aristóteles na teoria da literatura. 4) Calla Wahlquist, “Life in quotes: UrsulaLeGuin”, The Guardian 24- 01-2018: https://www.theguardian.com/books/2018/ jan/24/ a-life-in-quotes-ursula-k-le-guin 5) Entrevista com Bryan Hood, The Guardian 18-10-2016: https://www.theguardian.com/books/2016/oct/18/ursula-k-le- guin-interview-complete-orsinia Ur su la L e G ui n (d es en h o de N oa h V an S ci ve r)