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Não é fácil compreender os desenvolvimentos recentes da situação no Rojava – região do Curdistão, ao norte da Síria, dividida entre as imposições da guerra e a tentativa de auto-organização segundo os princípios do confederalismo democrático, dividida ainda entre a mitificação de Öcalan e a luta contra o islamismo jihadista e a opressão turca. Isto se percebe na conversa que de seguida se apresenta com Pinar Selek, socióloga turca, militante feminista, pacifista e ecologista, há anos exilada em França, e o activista franco-italiano Mimmo Pucciarelli. Nela se procura manter uma perspectiva lúcida e crítica que deixe de lado as mistificações fáceis. Esta entrevista nasceu depois da leitura duma reportagem de Isabelle Hachey, “La presse en Syrie. La révolution du Rojava” (in La Presse in Canada, Montreal) e por mediação de Dimitri Roussopoulos (Black Rose Books, Canada). Foi inicialmente publicada na Rivista Anarchica (n.º 421, Dezembro 2107/Janeiro 2018).

Fala-me por favor do Rojava, Pinar.

Sei que nos meios libertários o Rojava se tor- nou hoje um lugar mítico. Na verdade é preciso reconhecer que no Rojava acontecem coisas in- teressantes, em especial um movimento pro- gressivo que tenta dar voz às populações e con- cretizar sistemas de organização social mais ho- rizontais. É também verdade que Abdulah Öcalan mostrou interesse pelos livros do anar- quista e ecologista Murray Bookchin. Não obs- tante, o partido de que é presidente, o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), or- ganiza-se segundo uma muito rígida hierarquia e no que diz respeito às mulheres não é nem libertário nem feminista. No Rojava as mulhe- res obtiveram uma igualdade nominal aos ho- mens e ganharam de facto alguma visibilidade, mas tudo isso dentro de organismos patriarcais, assentes no culto do chefe, cujas regras devem aceitar se quiserem ser aceites. O que se passa no Rojava é distinto dos hábitos da esquerda clássica. Por exemplo, exige-se que as mulheres vivam separadas dos homens, em espaços pró- prios, para evitar qualquer promiscuidade. É verdade que se trata dum contexto bélico. Como quer que seja, estão proibidas as rela- ções sexuais entre os guerrilheiros e as trans- gressões são severamente punidas. As penas podem ir desde a exclusão até à pena de morte.

vistas não. Também eu sou contrária ao casa- mento. Mas neste caso é proibido fazer amor. Dizes que não podem fazer amor. Que queres di- zer?

Quero dizer que na guerra não é permitido. Öcalan defende que o amor diz respeito à liber- dade da nação e que é nosso dever lutar pela sua obtenção. Até ganharmos a guerra, o amor será visto como algo de porco, um comporta- mento animal. Esta concepção recorda a rela- ção que o catolicismo tem com o corpo, consi- derado coisa sacralizada. Hoje no Rojava imbri- cam-se muitos elementos progressivos, uma verdadeira resistência e grandes interrogações sobre a liberdade. Também Estalinegrado deu lugar a uma forte resistência. Até mesmo du- rante a revolução russa se criaram sovietes e es- paços de participação que tiveram lugar há cem anos. O actual movimento curdo foi muito in- fluenciado pelo movimento feminista libertá- rio. Contudo, em clima de guerra, confronta- dos no dia-a-dia com a morte, com o isola- mento e as dificuldades de relacionamento in- ternacional – as armas dos Estados Unidos e da Rússia e as trocas com a Síria e o Irão –, torna- -se muito difícil concretizar um projecto anar- quista ou feminista, mesmo existindo um forte potencial. Não esqueçamos ainda que as ideias de Bookchin, que influenciam o movimento Em suma, os civis podem casar-se mas os acti-

curdo, estavam já traduzidas em turco desde há algum tempo e tiveram algum eco. Existem na Turquia pelo menos há vinte e cinco anos pe- quenos grupos muito activos, embora sem fun- dos nem recursos, como os das feministas, cuja referência é a ecologia social. Foram esses gru- pos a inspirarem o PKK e não o contrário. Öca- lan iniciou a leitura dos livros de Bookchin na prisão. Pareceram-lhe ricos e propôs ao partido retomar uma parte destas teorias e o mesmo aconteceu com o feminismo, ao qual de início era contrário. Eis aqui um dos potenciais dinâ- micos do Rojava. Desde há vinte anos preso numa pequena ilha, Öcalan é uma pessoa inte- ligente e partilha alguns dos princípios herda- dos da ecologia social. Desafortunadamente o seu “novo projecto” constrói-se num clima bé- lico e a vida que daí resulta não pode ser to- mada como libertária.

Estás em contacto com pessoas activas no Rojava e no Curdistão?

Sim, mas do lado turco do Curdistão. O Rojava fica no lado Sírio. Não estou em permanente contacto directo com o Rojava mas conheço pessoas que lá estiveram e que me relataram o que viram e viveram. Demais leio tudo o que se publica sobre o assunto na Turquia. Em re- sumo, não estou em contacto directo perma- nente mas sigo de perto tudo o que acontece no Rojava e no Curdistão.

Diz-me mais sobre o PKK.

É um movimento construído no clima revolu- cionário dos anos 70, numa época em que mui- tas organizações eram influenciadas por perso- nalidades como Che Guevara. De seguida os militantes do PKK separaram-se dos outros grupos, afirmando que no Curdistão era neces- sário outro tipo de luta. Para eles era o elo mais frágil de toda aquela zona e por isso era ali que devia começar a revolução. Conseguiram con- tinuar a combater, ao invés de outros movi- mentos. Nos anos 80, a esquerda turca viu-se varrida por uma vaga repressiva, enquanto o PKK continuou a empenhar-se na luta armada, graças às suas relações além fronteiras. À época os Curdos viviam numa zona montanhosa que estava já dividida em quatro regiões. O envol- vimento em várias lutas, antes de mais a dos Pa- lestinianos no Líbano, permitiu-lhes receber

uma ajuda económica considerável para pros- seguir a luta armada. Em suma, depois do golpe de Estado de 1980, que deu lugar a uma repres- são horrível contra a população, o PKK tornou- se num movimento de resistência de grande importância para os Curdos. Assim como as- sim, foi isso mesmo que legitimou e institucio- nalizou a repressão do Estado turco. Desde esse momento até hoje vivemos sempre em guerra; a guerra, por sua vez, provoca a resis- tência da população e a resistência alimenta a militarização do Estado turco. O PKK não está apenas activo na Turquia mas noutros territó- rios em que vivem Curdos e é criticado por ou- tras organizações da esquerda turca. É verdade que se trata dum partido que enfrenta um es- tado de guerra mas trata-se duma organização muito hierarquizada, baseada no culto dum chefe que tudo decide. No seu funcionamento interno encontram-se aspectos típicos do tota- litarismo: uma única ideologia e uma única chefia. Algumas vezes os dirigentes da organi- zação queixam-se de não compreender bem as ideias e as propostas de Öcalan, porque ele está “muito acima” deles. Trata-se dum movimento que usa vários registos, entre eles a religião, o feminismo – se não libertário, ao menos de es- querda –, o pensamento tradicional curdo e desde há uma década até um pequeno reportó- rio anarquista.

Öcalan inspira-se também no confederalismo de- mocrático.

Exacto. No passado, Öcalan falava de um Es- tado no Curdistão independente. Mais tarde, na prisão, fez uma espécie de auto-crítica, di- zendo que o desejável para a região era o con- federalismo democrático. Desde então, os mili- tantes do PKK empenharam-se em colocá-lo em prática. Espero que tenham sucesso, sobre- tudo depois da guerra, tanto mais que hoje muitos leram já os livros de Bookchin.

Hoje o que existe é a guerra. Quando esta acabar, esperando que acabe, que poderá suceder? Penso que os Curdos, e o mesmo posso dizer para os anarquistas europeus, têm um forte po- tencial graças a todas as experiências, leituras e debates sem fim até hoje realizados. É verdade que os Curdos se poderão simplesmente apo- derar do poder, até porque estão armados, mas

não devemos esquecer que existem também pequenos grupos não hierárquicos muito acti- vos.

Os anarquistas comparam a guerra civil espanhola como aquela que tem lugar no Rojava. Parece-te a comparação oportuna?

Durante a guerra civil espanhola a organização dos anarquistas não era como a do PKK. Dur- ruti não era Öcalan. No Rojava, e em especial no interior do PKK, a hierarquia é muito mais forte. Pessoalmente prefiro Durruti a Öcalan! Ainda que Durruti se tenha tornado o símbolo dum movimento, não o idealizo, antes de mais porque da época gloriosa dos anarquistas espa- nhóis até hoje vão oitenta anos e muita coisa entretanto mudou. Orientamo-nos hoje para a interculturalidade e o feminismo. Existem po- rém semelhanças entre a guerra civil espanhola e o Rojava, porque, num quadro de guerra, conquanto distinto, se tentou animar em am- bos os casos um novo tipo de governo. Ainda assim, repito, a organização dos dois movimen- tos é diferente.

Achas possível em situações de guerra, como a do Rojava e a do Curdistão, outros meios de existência e até de resistência. Penso sobretudo nas práticas não-violentas.

Sim, parece-me possível. Infelizmente quando a guerra se instala no quotidiano e a população se organiza em exército é quase impossível. Em geral nunca uso a palavra impossível mas neste caso parece-me inevitável. O certo é que até em circunstâncias de guerra, em especial no Ro- java, e apesar dos obstáculos, podem realizar- -se experiências positivas e de quando em quando até acontecem milagres.

Podes dar-me exemplos destes milagres?

Um exemplo é o de Omar Aziz, o sírio que co- nheceu Bookchin na América. Quando regres- sou à Síria, foi preso devido ao seu activismo e por fim morreu na prisão em 2013. Estava pró- ximo dos comités locais que continuaram acti- vos e a organizar-se de forma não-violenta e construindo a sua rede própria de contactos in- ternacionais em torno de ideias e projectos lo- cais. Não têm armas e para se proteger evitam estar no centro da atenção mediática. Também

na Turquia, onde a repressão não faz senão crescer, existem muitos grupos autónomos, dos quais faço parte, que se organizam em rede, cri- ando espaços de acção. Isto prova que até num meio autoritário se pode criar e ser activo. Claro que uma guerra é diferente. Quando se pegam em armas, há que ter um comporta- mento de exército, senão de nada serve. Se se está obrigado a fazer uma guerra, é necessário nunca esquecer que a situação pode facilmente degenerar e tornar impossível qualquer vestí- gio de vida livre.

No caso de tu própria te veres envolvida numa situ- ação de guerra, estarias em caso de necessidade na disposição de pegar em armas?

É difícil condenar quem recorre às armas para resistir e não se submeter. Opor-se à barbárie e à dominação é importante. Penso porém que é necessário antes de usar qualquer violência esgotar todas as outras vias e até criar sistemas alternativos de resistência. No Médio Oriente existe o hábito de pegar em armas, é uma espé- cie de tradição. Há gente disposta a morrer. Com isto quero dizer que é mais fácil aceitar,

D es en ho d e A n dr é M on ta n ha

não que seja fácil pôr em causa a sua vida. As- sim, neste momento uma outra forma de resis- tência é difícil mas não é impossível. É neces- sário insistir neste ponto, já que as armas e os exércitos nos destroem. Não conheço nenhuma transformação libertária fundada sobre um exército.

Movimentas-te entre a ecologia social, o municipa- lismo libertário, o feminismo e a não-violência (ou se preferires, a recusa da violência). Qual é para ti prioritário?

Não penso nenhum deles sem os outros. Qual a tua percepção do movimento anarquista em geral e do europeu e do francês em particular? Estou longe de conhecer tudo. Estou em França desde 2012 e estou em ligação com o movimento desde há três anos. Vejo que exis-

tem muitos grupos e são feitas muitas investi- gações. Do meu recanto tento criar o meu es- paço. De momento sinto-me sobretudo pró- xima do movimento libertário e das ideias de ecologia social que se encontram na revista Si- lence, que é também feminista. Como quer que seja, a descoberta deste meio ainda não acabou. Desde há vinte anos que parece multiplicar ca- minhos e grupos locais, ou ainda desenvolver os que estão ligados à educação de base, como por exemplo a cooperativa L’Orage de Greno- ble. Dei conta de iniciativas assim nas várias ci- dades em que estive e onde encontrei pessoas não ligadas a organizações mas empenhadas em várias lutas libertárias. Tenho a impressão que há na verdade uma renovação e um reforço deste movimento. Parece-me que os movimen- tos alternativos estão criando um novo Maio de 68 mais local, menos centrado e controlável.

cd

desenho de Cruzeiro Seixas