3. Orientações missionárias
3.2. Missionário, simultaneamente ovelha e pastor
Depois do batismo, Libermann manifestou o desejo de ser sacerdote. Fez uma longa caminhada nos seminários, descobriu quão nobre e grande era o ministério sacerdotal. Foi ordenado sacerdote em 1841, e passou uma grade parte da sua atividade apostólica a fazer promoção e acompanhamento espiritual dos padres. Mais de três quartos das cartas de sua volumosa correspondência foram enviados a seminaristas e padres. Segundo Libermann, Cristo é o paradigma do sacerdote. Os homens chamados ao ministério sacerdotal devem cultivar um amor e um grande desejo pelas almas
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Os dois eram judeus convertidos ao cristianismo; ambos experimentaram muitas dificuldades ao longo da sua missão (Paulo pela perseguição e Libermann pela doença); e, ainda, ambos se consagraram para anunciar o Evangelho aos mais pobres e abandonados (os considerados infiéis e pagãos).
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GILBERT, Alphonse – Nas tuas mãos Senhor: um caminho de santidade com Francisco Libermann. Lisboa: Missionários do Espírito Santo, 1997, p. 276.
38 pobres, abandonadas e infelizes. Jesus é o bom Pastor por excelência, n’Ele os missionários encontram todas as qualidades de um verdadeiro missionário. Cristo é a referência para todos os homens apostólicos, porque ele é simultaneamente Pastor e Cordeiro.
A Igreja, nas colónias onde trabalhavam os missionários de Libermann, durante o século XIX, não tinha autonomia administrativa. Por isso, os missionários de Libermann não podiam tomar partido pelos negros de qualquer maneira, porque a presença deles, no meio da raça negra, dependia da aprovação ou da aceitação da Administração. Libermann, sabendo das ameaças e das amargas situações experimentadas pelos missionários nas colónias, chamou-os à prudência, calma, moderação; a que evitassem conflitos e discussões com os dirigentes. Como reação às situações de injustiças e de violências, Libermann, em 1849, propunha o seguinte para um missionário:
«Proceda em todas as circunstâncias com prudência, suavidade, caridade e a moderação de um homem de Deus […] Com as pessoas que lhe forem opostas, que o perseguirem e odiarem, siga o que o Divino Mestre nos recomenda, ao confiar-nos a nossa missão: Ide como cordeiros para o meio dos lobos (Mt 10,16). Um cordeiro não se defende e sobretudo não morde. Sofra pois, com paciência»83.
Se compararmos alguns dos seus escritos espirituais com algumas ajudas espirituais aos missionários, podemos ter a sensação de que Libermann como que se contradiz de vez em quando. Mas, na prática, como homem de discernimento, sempre procurou agir com racionalidade, prudência, moderação. Denunciar a injustiça é evangélico, mas isto não justifica o uso da violência contra os violentos, sob pretexto de estar a defender as vítimas. Libermann era contra a violência; por isso, pedia aos missionários que renunciassem ao mal, mas não odiassem os perseguidores, pois isto é que prova a verdadeira força de um homem apostólico84. Durante a formação dos missionários no noviciado, Libermann dava-lhes várias orientações sobre como deviam ser os seus comportamentos com as autoridades. Muitas vezes, perante as dificuldades com as autoridades, os missionários em missão esqueciam tais orientações, e Libermann cheio de mansidão e força exortava-os a que imitassem Jesus o bom Mestre, que perante a injustiça e a violência lutou com as armas da mansidão e do perdão. Portanto a violência devia ser categoricamente evitada.
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ND, vol. 11, p. 318-319.
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39 O bom pastor, segundo Libermann, é aquele que, simultaneamente é pastor e ovelha. Um missionário não deve esquecer que o seu lugar é a seguir ao seu Mestre e não ter a presunção de querer precedê-lo. A Salvação vem de Jesus Cristo, o bom Pastor que está sempre a atrair as suas ovelhas para onde a pastagem é abundante. Para isso, Jesus não se importou com o sofrimento, não se importou com o pôr-se na pele da miséria humana, para depois superar essa miséria que não deixava o homem viver numa total comunhão com Deus. Jesus Cristo, bom Pastor, é também o Cordeiro já prefigurado pelo Profeta Isaías como sendo o Servo sofredor, que não respondia com ameaças aos que lhe batiam. Em Filipenses, São Paulo dizia: “Por isso Deus O exaltou para sempre”. Um verdadeiro missionário segundo Libermann é aquele que imita o bom Mestre em tudo.
Como combate contra a ociosidade, Libermann, tendo tido em Roma momentos em que não tinha nada para fazer enquanto esperava a resposta da Propaganda Fide, comentou os 12 primeiros capítulos do Evangelho de São João85. No comentário feito ao décimo capítulo do Quarto Evangelho, Libermann deixou aos missionários uma reflexão sobre a verdadeira relação que devia existir entre o pastor e as ovelhas.
O trabalhar na messe do Senhor não deve ser encarado como o exercer de uma função ou como puro ativismo. Os chamados devem ultrapassar os fariseus na condução dos rebanhos. O bom pastor entra no redil e, pouco a pouco, vai entrar espiritualmente nas almas das ovelhas e as das ovelhas na do Pastor. Só se é bom pastor na configuração, na fé, como Filho de Deus encarnado. O bom pastor não busca o seu próprio interesse, não usa as ovelhas como meio de satisfação das suas necessidades mas, num espírito de abnegação, dá a sua própria vida em resgate das suas ovelhas. Cristo é a porta onde todos devem passar e quem se recusar a entrar por ela é ladrão e salteador. O bom pastor é dócil à graça de Deus; por isso, a sua voz será escutada porque ele se identifica com o divino Espírito do seu Mestre. Ele é diferente do mercenário que só quer o proveito próprio, ou seja, só se interessa com o seu salário e não se preocupa com a vida das ovelhas.
Os missionários deviam trabalhar com toda a sua alma na realização das obras que Deus se dignou encarregá-los, mas deviam ter o cuidado de não as fazer obras suas ou obras pessoais. Em forma de conclusão, vamos citar duas frases ditas por Libermann que podem servir de síntese ao conjunto de todo o seu pensamento: «Somos um bando
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40 de pessoas pobres, reunidos pela vontade do Mestre que, Ele só, é a nossa esperança. Podemos formar grandes projetos porque as expetativas não são baseadas em nós, mas n’Aquele que é todo-poderoso»86. Libermann concentrou toda a sua confiança em Deus e pediu aos missionários que fizessem o mesmo, porque, segundo a sua experiência, Deus responde a todos aqueles que O invocam em verdade.
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