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A ATIVIDADE MISSIONÁRIA DOS ESPIRITANOS EM CABO VERDE (1941-1975)

2. Primeira fase da missão espiritana (1941-1955)

2.1. O reacender da chama com a chegada dos Espiritanos

Documentos a que tivemos acesso125 permitem-nos ter a perceção da vivência da realidade religiosa em Cabo Verde ao longo dos séculos até aos nossos dias.

Cabo Verde foi um dos primeiros países da África ocidental a ter um bispado. Os eclesiásticos, auxiliados pelos chefes responsáveis das colónias, catequizavam e batizavam, mesmo os escravos destinados ao Brasil. Os clérigos eram também mestres das escolas, mestres de gramática e lecionadores de moral (1592)126. A sua ação nas ilhas de Cabo Verde, apoiadas pela estabilidade de uma vida social organizada, foram causa de um gigantesco salto em direção a um futuro promissor para o povo cabo- verdiano. É certo que nem sempre as coisas correram da melhor forma. A insularidade do país, as secas prolongadas e os condicionalismos político-religiosos da metrópole fizeram com que num determinado período houvesse falta de clero na evangelização do arquipélago. Como consequência, já antes da morte de Libermann, em 1850, Bessieux, Prefeito Apostólico do Gabão, numa carta enviada ao bispo Kobès, manifestou o desejo

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Não se trata de um único documento, mas de vários que fomos consultando ao longo da redação do nosso trabalho. Foram, portanto, os artigos publicados nas revistas, jornais da Congregação em Portugal, as obras publicadas pelos membros da Congregação, pelos leigos em Cabo Verde e respetivas correspondências dos bispos e missionários encontradas no arquivo do Distrito Espiritano de Cabo Verde.

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50 de enviar dois ou três missionários para Cabo Verde, mas isso não foi possível por falta de missionários127. Mais tarde, em 1893, como referimos anteriormente, o Padre António da Costa Teixeira enviou uma carta a um espiritano da Província Portuguesa, a pedir-lhe missionários espiritanos para a diocese de Cabo Verde:

«Tenha a bondade, Rev. Padre, de me informar se haverá qualquer possibilidade de me obter três ou quatro padres da sua congregação para dirigir o seminário-colégio da nossa diocese e diga-me também em que condições a Congregação poderia aceitar esta obra. […] espero que me informe do que os superiores decidirão a este respeito»128.

Naquela época, a diocese de Cabo Verde começava a sentir com mais premência a falta de sacerdotes. Progressivamente, a diocese foi-se tornando numa das dioceses prioritárias, mas instabilidades provocadas pela instauração da República agravaram ainda mais a situação, transformando Cabo Verde em terra de missão.

A Igreja Católica, na pessoa dos Papas, apontava, desde o início do séc. XX, as diretrizes que serviram de contributo para o desenvolvimento e alargamento da Ação missionária. O Papa Bento XV, na sua carta apostólica sobre a propagação da fé em todo o mundo, disse o seguinte: «a Igreja Católica não é estrangeira em nenhum povo ou nação»129. Os sucessores deste papa prosseguiram esta cruzada em favor da universalidade da Igreja.

Graças ao elã missionário dos Pontífices e ao Acordo Missionário assinado entre a Santa Sé e a República Portuguesa (1940)130, abriu-se o caminho para a renovação ou para um reacender da chama da fé na alma do povo cabo-verdiano, que vinha sendo penalizado por muitos acontecimentos desagradáveis. A chegada da República tinha deixado os seguintes traços:

«As condições religiosas da diocese foram-se agravando sucessivamente desde o advento da República. O Primeiro governador republicano acabou com o Instituto de D. Luís Filipe, que o bispo António Moutinho havia fundado na vila do Tarrafal, na Ilha de Santiago, e era dirigido por Irmãs hospitaleiras. Era aquele, em toda a diocese, o único instituto destinado à educação de meninas, e prometia óptimos resultados. As Irmãs quiseram ficar… o governador não consentiu. Mandou conduzi-las à Praia, internou-as, juntamente com as que serviam no hospital da cidade. Elas sofreram os maiores vexames até seguirem para Lisboa. O mesmo governador, por uma portaria do princípio de Janeiro de 1911, suspendeu do exercício e dos vencimentos a um professor do seminário-liceu, por ter pregado contra o divórcio. Na ilha de Santiago mandara prender o pároco de Santa Catarina, sob a falsa acusação de que ele

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Cf. NEIVA – História da Província Portuguesa 1867-2004, p. 769.

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NEIVA – História da Província Portuguesa 1867-2004, p. 769.

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IGREJA CATÓLICA. Papa, 1914-1922 (Bento XV) – MaximumIllud: [Carta Apostólica de 30 de nov. 1919], in AAS, vol. 11 (1919) 440-455.

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Cf. ASCHER, Françoise – Os Rebelados de Cabo Verde: história de uma revolta. Paris: L’Harmattan, 2011, p. 26.

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aconselhara o povo a desrespeitar a propriedade alheia; transferiu o delegado de saúde da ilha de S. Nicolau, pelo facto de ter pegado numa das varas do pálio por ocasião da entrada solene do bispo; e praticou contra a religião outros actos, que produziram perniciosos efeitos na mal formada cristandade de Cabo Verde; o Decreto nº 233, de 25 de Novembro de 1913, estabeleceu nas colónias a separação entre a Igreja e o Estado; foram arrolados os bens da Igreja; a lei nº 701, de 13 de Junho de 1917, extinguiu o seminário-liceu. […] Sem instituto para a formação do clero, sem o reconhecimento, por parte do Estado, das nomeações eclesiásticas, e dada a pobreza de quase todas as freguesias, desapareceu a possibilidade de prover de párocos as que vão vagando. Das 35 freguesias, que tem a diocese (de Cabo Verde e Guiné), em Julho de 1919 só estavam providas 18. A fragmentação insular de Cabo Verde agrava tão precário estado, pois na mesma época havia duas ilhas, a de Maio e a do Sal, totalmente desprovidas dos socorros da Religião»131.

A República portuguesa de 1910 extinguiu o único seminário-liceu da diocese de Cabo Verde, situado na ilha de São Nicolau. Em 1925, a diocese de Cabo Verde tinha, espalhados pelas ilhas, apenas 14 sacerdotes distribuídos pelas ilhas, para uma população bastante numerosa. Era necessário encontrar uma alternativa para formação do clero. Mas a situação não melhorou até 1940. A vida cristã foi decaindo, provocando o desânimo do bispo D. Frei Rafael (predecessor de D. Faustino) que, depois de quatro anos de presença, apresentou, em 1939, a sua demissão. A situação da diocese foi piorando, pois, fica com paróquias abandonadas, igrejas desertas, sacerdotes idosos e concubinários, sem nenhuma esperança de receber reforços do exterior132.

O ano 1941, ano da chegada dos padres do Espírito Santo, foi considerado o ano do Renascimento. O Governo de Salazar, no acordo com a Santa Sé, criara condições para a presença missionária nas colónias, embora dentro de certos limites. Então, o bispo D. Faustino Moreira dos Santos, missionário espiritano com larga experiência missionária em Angola, chega à sua nova diocese acompanhado de sacerdotes da Congregação do Espírito Santo que iniciaram de imediato a pastoral na ilha de Santiago, assumindo, de seguida, também a pastoral na ilha do Maio. A presença dos missionários proporcionou um progressivo crescimento e renovação da fé cristã no seio do povo daquelas ilhas.