• Nenhum resultado encontrado

EM CABO VERDE

3. Os missionários penetrados pelo espírito libermaniano

3.6. A identificação dos missionários com os pobres

3.6.1. Ser cabo-verdiano com os cabo-verdianos: os depoimentos

No seu projeto, Libermann insistia em pedir que, em qualquer território, os missionários se inculturassem. Exortava-os a compreenderem e adotar a cultura e a só evangelizarem depois. Pedia-lhes que fossem africanos com os africanos. É como se lhes pedisse que imitassem o Verbo de Deus que se fez homem para os homens. Estando os missionários em Cabo Verde, eram chamados a ser cabo-verdianos com os cabo-verdianos. Trata-se de um caminho que devia ser feito lado a lado com o povo cabo-verdiano.

Como forma de saber qual o ponto de vista dos leigos sobre as ações dos missionários, elaboramos um pequeno questionário com alguns pontos que nos permitissem recolher algumas informações fidedignas256.

Houve uma sã diversidade de depoimentos, mas uma sensibilidade comum relativamente a uma certa faceta. Quando se lhes perguntou como o povo e a cultura cabo-verdiana, foram vistos e respeitados pelos missionários, em geral deram-nos a perceber que, entre os missionários, havia uns mais solidários com a cultura e outros que trabalhavam incansavelmente mas, afastados do povo, eram apelidados de antipáticos. Eram exigentes, porque todos, inclusive os solidários com a cultura local, recusavam batizar as crianças dos amancebados; uns participavam nas diversões com o povo, mas outros não participavam, talvez por não estarem habituados ou mesmo pelo preconceito decorrente de informações que circulavam sobre as perversidades e imoralidades provenientes das diversões. Aqueles que condenaram o batuque, a tabanca, o funaná, as danças tradicionais, continuaram afastados desses ambientes; aqueles que se aproximaram mostraram-se mais solidários e olharam aquelas práticas tradicionais como algo a valorizar e, ao mesmo tempo, deram a sua colaboração no campo da logística, além de, por intermédio dessas atividades, irem instruindo as pessoas no sentido de evitarem comportamentos inadequados durante as diversões257. Alguns foram radicais na forma como reprovaram as práticas litúrgicas antiquadas, atos litúrgicos herança dos antigos, causando rivalidades e oposição por parte dos que ainda adotavam as normas tridentinas.

As pessoas não só responderam ao inquérito como também tentaram justificar o porquê das reservas de certos missionários em participar das atividades recreativas do

256

Cf. Apêndice – Relatório do questionário aos leigos em Cabo Verde.

257

113 povo. Na verdade, antes da chegada dos missionários, os padres participavam nas diversões, mas alguns de entre os recém-chegados proibiram categoricamente as músicas e os bailes porque, neles, aconteciam muitas imoralidades e os próprios

padrisdi terra, não resistindo às tentações, caíram naquelas imoralidades258. Alguns recém-chegados recusaram, por isso, aquelas práticas, por receio de ter a mesma sorte dos padres anteriores, se não evitassem as ocasiões, perigosas na sua ótica.

As declarações dos leigos correspondiam à realidade, mas variavam de acordo com as paróquias e consoante as atitudes dos padres que nelas trabalharam. Temos o exemplo de duas paróquias: a de Santa Catarina, onde o pároco proibiu categoricamente os bailes259 e mais algumas outras práticas tradicionais, dizendo que iriam para o inferno todos os que perseverassem naquelas práticas de diversões260, e a paróquia de São Lourenço dos Órgãos onde, por intermédio das atividades organizadas pela Ação Católica, foi purificada aos poucos a mentalidade e o comportamento das pessoas nas diversões, começando-se pela formação dos jovens e dos casais novos, considerados como pontes de ligação com as crianças e com os adultos261. A convicção do pároco o P. Arlindo Amaro era a seguinte:

«Uma paróquia não se pode considerar Igreja de Jesus se os seus cristãos não procuram a libertação das amarras que mais os escravizam, como: a ignorância do Evangelho e dos fundamentais deveres e direitos do Homem, o analfabetismo, a preguiça, a indiferença, o individualismo egoísta, as taras e tabus sexuais, a irresponsabilidade familiar, os campos secos, as fontes sujas, os divertimentos imorais, a miséria, a bebedeira, a mancebia, etc.»262.

Olhando as iniciativas tomadas pelos dois párocos, surge-nos a pergunta: qual seria a posição de Libermann perante aquelas situações? Libermann daria tempo para conhecer a realidade conjunta do lugar. Um conhecimento que havia de começar pelo estudo da língua do povo, pelo estudo da cultura, indo aos pormenores como forma de evitar julgamentos prematuros. Como instrutor e guia, Libermann pediria aos missionários que agissem com prudência, discernimento e calma como homens santos.

258

Com isto não queremos generalizar, mas mostrar que, nas paróquias, os missionários párocos não agiram e nem reagiram da mesma forma face à cultura e tradição do povo. Uns quiseram suprimir algumas práticas tradicionais do povo e outros pretenderam no lugar da supressão purificar as práticas consideradas perversas, através da formação das crianças e dos adultos.

259

Cf. REGO, Francisco Alves do – A atividade dos padres do Espírito Santo. Portugal em África. Lisboa. 10 (1953) 338.

260

Tivemos acesso a esta informação num diálogo com o Padre José Maria de Sousa que disse ter conhecido e convivido com o pároco daquela paróquia, o Padre LouizAllaz de nacionalidade suíça.

261

Cf. AMARO, Arlindo – Uma Comunidade Missionária em Cabo Verde. Portugal em África. Lisboa. 30 (1973) 271.

262

114 A alguns missionários custou-lhe assimilar certos valores da cultura cabo-verdiana de herança africana e consideravam o povo cabo-verdiano não 100% africano, mostrando pouca estima pelos traços africanos nele presentes; por vezes a sua tendência era de tratar as pessoas como se de portugueses se tratasse263. Muitas vezes implementavam os mesmos modelos pastorais que se usavam em Portugal e, por isso, tiveram influência considerável na formação dos hábitos e costumes de muitos cabo-verdianos. Por conseguinte, Cabo Verde é hoje considerado, apesar de país do espaço geográfico africano, como povo mestiço portador de cultura mais europeia que africana. Em certa medida a influência europeia ganhou mais força com a presença dos missionários europeus. Não era fácil, portanto, ser cabo-verdiano com os cabo-verdianos na realidade daquele tempo, numa época em que os missionários, em certa medida, deviam seguir algumas orientações do Governo administrativo que nem sempre partilhava as mesmas ideias dos missionários264. Alguns missionários, porém, superaram o regime e não temeram valorizar e fazer valorizar o povo e a cultura265. Não eram numerosos os que quiseram inculturar-se a fundo para, a seguir, evangelizar como se fossem filhos de pais originários266.

3.6.2. Ser cabo-verdiano com os cabo-verdianos: um desafio

Na tentativa de ser cabo-verdiano com os cabo-verdianos, os missionários, homens com votos perpétuos de pobreza, obediência e castidade, não deviam menosprezar nenhum desses votos. A vivência da pobreza foi, em certa medida,

263

Nem todos tinham a atitude nacionalista. Essa atitude não deve ser vista como se aqueles missionários não quisessem o bem do povo. O povo cabo-verdiano que não era nem totalmente europeu nem totalmente africano, dividiu-se por causa da divergência de ideias. Uns com ideias independentistas e outros com ideias de que como insulares não podiam ser considerados colónia como aconteceu na Guiné, e portanto, contra a independência.

264

Cf. AMILCAR Cabral: Documentário; África Minha, p. 47.

265

Cf. MIRANDA – Padre LouizAllaz, p. 53.

266

O Padre Custódio Campos no vídeo da sua homenagem, dizia que o primeiro contacto com a língua crioula foi quase fatal pois não conseguia perceber muito menos falar. E o pior, dizia ele, era que nem sequer havia livros ou gramáticas por onde se pudesse estudar. Animado pelo seu confrade Padre Nogueira de Sousa, aos fins-de-semana ia conviver com as pessoas simples nas aldeias; lá ouvia batuque nos casamentos, convivia com as pessoas, e aos poucos, foi aprendendo a falar a língua crioula e entretanto já fala perfeitamente o crioulo. Dizia um senhor da paróquia de Calheta São Miguel que conheceu muito bem o Padre João Eduardo Moniz, que este padre não tinha comportamentos racistas e que ele parecia uma pessoa nascida e criada na ilha de Santiago, porque tratava-os como irmãos. O Padre José Maria de Sousa compilou um conjunto de músicas populares tradicionais cabo-verdianas que foi juntando ao longo do seu apostolado e publicou em dois volumes a obra intitulada “Hora diBai” no ano de 1973. Estes factos são provas de que os missionários em certa medida não foram indiferentes à cultura cabo-verdiana.

115 conturbada, porque as regalias que o Acordo Missionário de 1940267 facultou aos missionários, deram azo a várias especulações. Tais regalias poderiam alimentar a ideia de que os missionários desempenhavam as suas funções em conluio com o Governo e não ao serviço incondicional dos mais pobres e abandonados. A respeito disso, um missionário dizia: «O Acordo Missionário enquadrou-nos nas malhas do funcionalismo público. Subsídios do Governo e viagens de repouso contribuíram imenso para nos considerarem tais»268.

Libermann pedia insistentemente aos missionários que não escandalizassem os pobres negros, pela colaboração ou pelo convívio com os chefes ou patrões, que muitas vezes eram opressores daquele povo. Os missionários em terras de missão não deviam limitar-se à investigação dos defeitos dos nativos, mas deviam esforçar-se por partilhar os seus problemas quotidianos, com o objetivo de lhes garantir uma vida cheia de esperança através do anúncio do Evangelho. Em relação ao que Libermann pedia aos missionários, constatamos que, tal como nas outras colónias portuguesas, em Cabo Verde a atividade evangelizadora e a promoção da educação se conformava com os princípios doutrinais da Constituição portuguesa, seguindo as linhas dos projetos e dos programas emanados pelo Governo. Num artigo intitulado O Padre António Vieira e as

Missões de Cabo Verde, o Padre António Brásio expôs o seguinte: «As populações que

educamos querem, certamente a nossa civilização, cristã e portuguesa. […] Os pretos da nossa África querem ser cristãos e querem ser portugueses, não há negá-los, – o que constitui, de certo, o testemunho mais valioso da nossa política colonial»269. O perigo do apostolado missionário da época colonial foi a quase absoluta submissão dos missionários ao Governo colonial. Ora este nem sempre respeitou devidamente a privacidade e a especificidade missionárias, incitando a que os missionários se limitassem a ser empregados do Governo e um meio para garantir o domínio quase absoluto das colónias. Os Espiritanos, direta ou indiretamente, deviam seguir certas ordens do regime colonial. O cumprimento dessas ordens implicava, por vezes, transgredir aquilo que devia ser essencial para um missionário cristão e espiritano.

Cabo Verde teve a sorte de ter, na sua maioria, missionários corajosos que não se deixaram influenciar totalmente pelo regime colonial. Estes missionários não se

267

Cf. ASCHER – Os Rabelados de Cabo Verde, p. 26.

268

GONÇALVES, Francisco – Não buscamos o comando mas o trabalho: Libermann o missionário que África precisa. Acção Missionária. Lisboa. 36: 434 (1976) 5.

269

BRÁSIO, António – O Padre António Vieira e as Missões de Cabo Verde. Portugal em África. Lisboa. 3 (1946) 333.

116 envaideceram com os privilégios adquiridos pelo Acordo de 1940, porque através do novo estatuto fornecido pelo Acordo, os missionários puderam fazer uma canalização desses benefícios em prol da missão270. Com o surgimento das guerras coloniais, os missionários enfrentam um novo desafio. Não podendo manifestar-se a favor dos nacionais que ansiavam pela independência, adotaram, até certo ponto, uma atitude de neutralidade e de não aberta oposição ao regime colonial.

Um outro desafio que se levantava a certos missionários era o de ultrapassar a dificuldade que revelavam na necessária e inadiável adaptação à cultura cabo-verdiana. Os primeiros missionários morreram quase todos prematuramente e o testemunho de alguns afirma que morreram quer por se terem alimentado da comida dos nativos à qual não estavam habituados, quer por não terem tido em devida conta as suas limitações físicas. Os missionários seguintes fizeram a releitura destes factos e constataram que deviam adotar o tipo de alimentação a que estavam habituados, o que os levou a evitar comerem nas casa das pessoas; isto fez com que estas formassem imagens e ideias erradas a respeito dos missionários, julgando que estes não podiam juntar-se com as pessoas ordinárias, e que tal era a forma usada por eles para guardarem a pureza271. E por tal motivo o povo respeitava essa distância com muita devoção.

Segundo Libermann, inculturar-se não é fazer ou usar tudo aquilo que é próprio dos nativos; consiste, em respeitar e ir discernindo quais as atitudes ou práticas que ajudam os missionários a trabalhar de forma a resgatar para Deus o maior número possível de almas. Os missionários, em Cabo Verde, estavam a agir corretamente, mas faltou-lhes uma abertura mais solidária à cultura do povo. Podiam manifestar essa solidariedade mesmo não podendo servir-se dos mesmos hábitos. Também houve missionários que não tiveram receio de respeitar tais hábitos e de servir-se deles (desde a alimentação até à língua), e estes foram justamente apontados como modelos.