7 DESARMONIA E PATOLOGIA
7.6 MOBILIDADE E RIGIDEZ
A repetição ou a conservação nos sistemas vivos é tão vital quanto sua mobilidade e transformabilidade. As assimilações reprodutora e generalizadora dos funcionamentos orgânicos são características normais e essenciais da vida mental. Em termos das assimilações reprodutoras, somente o aumento de sua rigidez é que parece trazer desadaptações. Sobre a passagem ou a “ultrapassagem” da circularidade nos esquematismos sensório-motores secundários, e sobre a rigidez versus a mobilidade esquemática, Piaget diz algo importante: “[...] a inteligência elementar [...] é essencialmente conservadora [...][voltada para] fazer aquilo a que as reacções circulares a acostumaram.” (Piaget, 1936, p. 246).
[...] as relações devidas à coordenação de esquemas «móveis» são realmente construídas pelo sujeito. [...] Não há, pois, [nas etapas de esquematismos circulares] coordenações entre esquemas e as coordenações interiores a cada um dos esquemas são invariáveis e portanto rígidas. O grande avanço que o quarto estádio traz é que os esquemas afirmam-se como «móveis»: coordenam-se entre si, e por isso dissociam-se para se reagruparem de uma nova forma, ficando as relações que implicam, cada uma em si mesma, susceptíveis de serem extraídas das suas totalidades respectivas, para dar lugar a combinações variadas. Ora, estas diversas novidades são solidárias umas com as outras. Tornando-se «móveis», isto é, aptas para coordenações e sínteses novas, os esquemas secundários destacam-se do seu conteúdo habitual para se aplicarem a um número crescente de
objectos: de esquemas particulares com um conteúdo específico ou singular, tornam-se esquemas genéricos com um conteúdo múltiplo.
É neste sentido que a coordenação dos esquemas secundários e, conseqüentemente, as suas dissociações e reagrupamentos dão origem, a um sistema de esquemas «móveis» cujo funcionamento é muito comparável ao dos conceitos ou dos juízos característicos da inteligência verbal ou reflectidora. (Ibid., p. 252-253).
Em relação às classes ou gêneros, é evidente que o «esquema móvel», apesar de todas as diferenças de estrutura que o separam destes seres lógicos, é-lhes funcionalmente análogo. Como eles, o esquema móvel denota sempre um ou mais objectos, por «pertença». Como eles, os esquemas móveis implicam-se uns aos outros graças a ligações variadas que vão da «identificação» pura ao encaixe, ou «inclusão», e aos entrecruzamentos ou «interferências». (Ibid., p. 254).
Se nos casos gerais de harmonia psíquica deve existir uma mobilidade funcional suficiente, podemos entender que algumas perdas nesta mobilidade podem promover funcionamentos mais rígidos, relativamente menos adaptativos. Podemos observar que as patologias psíquicas em geral, por sua tendência de repetição desadaptativa, devem carregar algum traço de rigidez.
O transtorno obsessivo compulsivo, por exemplo, mostra-se com aspectos importantes de rigidez e baixa mobilidade. São casos interessantes de assimilações deformantes rígidas, pouco móveis, revelando características predominantes de assimilação reprodutora de esquemas.
Nos TOC a rigidez de conduta parece ocorrer por uma estruturação ANÁLOGA (não idêntica) às condutas dirigidas pelos esquemas secundários no bebê, ou as condutas para fazer durar um espetáculo interessante. Existe no bebê uma capacidade precoce de repetir atos que deram algum prazer, um exercício de fortalecimento do esquema significativo adquirido. Mas enquanto no bebê as construções subseqüentes trarão uma versatilidade cognitiva e afetiva que permitirá a invenção de novidades
esquemáticas de conduta, pela previsão imediata de uma ação inédita que, ao mesmo tempo é capaz de prever o instante seguinte e experimentar uma solução entre várias possíveis, nos TOC os “esquemas rígidos” (em oposição aos “esquemas móveis”) impedem ou dificultam a ultrapassagem da repetição. Outra diferença importante entre as repetições próprias das esquemáticas circulares adaptativas e os TOC é que no primeiro caso o dinamismo motivacional está íntegro, enquanto que, no segundo caso, complexidades motivacionais patológicas parecem presentes.
O exemplo mais conhecido de Piaget sobre a ultrapassagem da circularidade de esquemas secundários é o da remoção de uma almofada que encobre um objeto recém escondido. Superando as dinâmicas repetitivas mais puras dos estágios anteriores, o bebê constrói um esquema inventivo, preditivo e experimental, mesmo que em grau rudimentar se comparado aos estágios seguintes. Mas neste caso dos bebês, existe uma função motivadora e afetiva preservada e ativa assim como estruturações cognitivas que fazem evoluir o psiquismo geral. Os passos da repetição à inovação preditiva e experimentadora são constantes em todo o desenvolvimento subseqüente. E o quadro geral das ações em TOC apresentam uma semelhança aparente significativamente importante em relação às condutas primitivas do desenvolvimento humano, porém carecendo da mobilidade própria da harmonia.
Por outro lado, se os sofrimentos do bebê ou da criança podem carregar elementos de intensidades variáveis, devem possuir, harmonizadoramente continências médias suportáveis que dêem 'a conduta geral uma possibilidade de intercâmnbios adaptativos móveis: é óbvio que se após uma fome ou dor intensas, segue-se uma boa mamada ou alívio da dor, a significação destes benefícios deve realizar-se como fator adaptativo de regulação intrapsíquica e interpessoal. A rigidez do bebê ou da criança em significar prioritariamente a realidade como negativa deve dizer respeito a um elemento de patologia ou protopatologia que merece ser cuidado.
Mas observemos como o próprio Piaget mostra relações importantes entre sua linguagem científica dos “esquemas” e a compreensão de certos mecanismos psicodinâmicos, como a “repressão”:
A repressão, constituindo [...] um efeito da inter-regulação dos esquemas de assimilação afetiva, não levanta, do ponto de vista do simbolismo, um problema especial e reforça simplesmente essas raízes gerais de inconsciência nos casos particulares em que intervém. (Piaget, 1945, p. 264).
Nos casos mais freqüentes de autopunição, o esquema inibidor ou repressivo é o do “superego”; ora, suas raízes assimiladoras escapam à reflexão do sujeito tão naturalmente quanto as raízes, antigas ou esquecidas, das noções de causa, de lei física, etc [...]. (Ibid., p. 264).
[...] a repressão de um esquema afetivo por outro é, portanto, a própria condição da organização de conjunto dos esquemas.” (Ibid., p. 269).
Nesta linguagem podemos tratar de esquemas repressores (um processo ativo de exclusão ou encapsulamento de um esquema) e esquemas reprimidos (registrados, mas encapsulados e com dificuldades de evocação). Um esquema recalcado, reprimido ou encapsulado pode promover repetições de traços de sua estrutura
sem consciência evocativa da realidade originária. Por outro lado, pode ocorrer com evocação consciente da cena repressora barreiras parciais em sua evocação, ou seja, por lembranças de menores aspectos da cena. O esquema reprimido guarda, em maior ou menor grau, aspectos estruturais de sua gênese inicial e suas gêneses repetitivas. Eles podem sofrer, além disto, construções posteriores de caráter deformante ou adaptativo, o que tende a promover rumos desarmonizadores ou harmonizadores.
Os termos rigidez e enrijecimento compõem um par de noções que merecem algum detalhamento. A imagem mais freqüente de “rigidez” é a das coisas mecânicas: materiais rígidos, mecanismos rígidos, uma junta rígida, etc. Mas a rigidez orgânica, portanto a psíquica, é uma rigidez sistêmica diferente da de tipo puramente mecânico. Talvez seja um pouco menos claro que esta rigidez orgânica refere-se a sistemas ativos e dinâmicos. Uma planta que, por patologia, não responda ao fototropismo, possui uma rigidez fisiológica que resulta em disfunções visualmente observáveis, como crescer apenas verticalmente em direção a barreiras desadaptativas, em vez de inclinar-se rumo à luz, etc. A rigidez psíquica não é necessariamente um quadro estático: oscila, sofre aumentos e diminuições, torna-se mais e menos móvel, conforme as condições internas e externas, etc. O termo enrijecimento traz ao pensamento algumas imagens menos estáticas, pois fala do ato ou efeito de enrijecer. Mas toda rigidez biológica é originada e
composta por atividades; o que é rígido organicamente envolve um enrijecimento; o enrijecimento produz rigidez.
É importante assinalar, mesmo que brevemente, que os enrijecimentos psíquicos podem comportar graus diversos de patologia, o que é um pouco óbvio, mas podem comportar aspectos adaptativos complementares, como casos de proteções sistêmicas úteis. Podemos sugerir pesquisas futuras que busquem investigar analogias entre a concepção de proteção biopsíquica menos ou mais adaptativa e, por exemplo, os mecanismos de defesa tratados pela Psicanálise.
7.7 ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE PATOLOGIA E TRATAMENTO,