CAPÍTULO 3 – ENQUADRAMENTO TEÓRICO: MODA E ENVELHECIMENTO
3.2. Moda na sociabilidade das mulheres idosas
Segundo Bourdieu (2007), "o espaço social é caracterizado pela dinâmica da construção de uma representação abstrata [de um] universo específico” (p. 162), no caso, o objeto de pesquisa desta dissertação, envelhecimento e moda. Os agentes sociais têm tendência de reproduzir as suas estruturas sociais em determinados comportamentos que são incorporados inconscientemente pelos indivíduos abrindo-se, assim, a novos fenómenos no mundo social em que pese a importância deste estudo para a construção de um objeto de pesquisa pouco explorado no âmbito académico.
Considerando a análise de Bourdieu (2007), o espaço social é um processo específico de construção que pode ser visto no esquema de um mapa, que define uma visão ampla do contexto dos agentes sociais envolvidos. A interpretação que temos em relação à moda nos faz pensar que os agentes sociais no processo de construção da sua trajetória permitem que as condições de existência, no caso o habitus, como um conjunto de práticas exercidas na sociedade, dito de outra maneira, que:
17 É uma rede social interligada a rede mundial de computadores – internet, denominada de facebook. 18 Instagram é uma rede social de fotos, mas pode se comunicar por mensagem de modo privado ou
[…] o mais importante é, sem dúvida, que a questão desse espaço é formulada nesse mesmo espaço; que os agentes têm sobre estes espaços, cuja objetividade não poderia ser negada, pontos de vista que dependem da posição ocupada aí por eles e em que, muitas vezes, se exprime sua vontade de transformá-lo ou conservá-lo. É assim que um grande número de palavras utilizadas pela ciência para designar as classes que ela constrói são emprestadas ao uso habitual em que servem para exprimir a visão – frequentemente, polêmica – que os grupos têm uns dos outros. (p. 162)
Desse modo, a moda cria um mundo por meio de práticas sociais instituídas pelos
habitus que são gerados pelos agentes sociais que, ao mesmo tempo, consegue devolver
neste contexto de “julgamentos classificatórios emitidos por eles sobre a prática dos outros ou suas próprias práticas (Bourdieu 2007, p.162)”.
Por seu turno, o autor (2007):
O habitus é, com efeito, princípio gerador de práticas objetivamente classificáveis e, ao mesmo tempo, sistema de classificação (principium divisionis) de tais práticas. Na relação entre as duas capacidades que definem o habitus, ou seja, capacidade de produzir práticas e obras classificáveis, além da capacidade de diferenciar e de apreciar essas práticas e esses gostos, é que se constitui o mundo social representado, ou seja, o espaço dos estilos de vida. (p. 162)
Bourdieu (2007) demonstra que a relação entre o habitus e o gosto tem atributos particulares entre as condições económicas e sociais, nomeando de volume e estrutura
do capital (p.162). Porém, o autor assinala que somente é possível realizar esta análise
mediante:
[…] os traços distintivos associados à posição correspondente no espaço dos estilos de vida não se torna inteligível a não ser pela construção do habitus como fórmula geradora que permite justificar, ao mesmo tempo, práticas e produtos classificáveis, assim como julgamentos, por sua vez, classificados que constituem estas práticas e estas obras em sistema de sinais distintivos. (p. 162)
Para compreender a nossa investigação as práticas percebidas no mundo social (moda e envelhecimento), recorremos a sua teorização sobre as chamadas estruturas
estruturadas e estruturas estruturantes (Bourdieu, 2007, p. 164). A primeira, nos
possibilita analisar as classes sociais existentes e a perceção das idosas e dos profissionais da moda como produto da sua própria existência; a segunda, refere-se
sobre como organizar as práticas dos agentes sociais e suas perceções sobre suas
práticas.
Cada condição é definida, inseparavelmente, por suas propriedades intrínsecas e pelas propriedades relacionais inerentes à sua posição no sistema das condições que é, também, um sistema de diferenças, de posições, ou seja, por tudo o que a distingue de tudo o que ela não é e, em particular, de tudo o que lhe é oposto: a identidade social define-se e afirma-se na diferença. (Bourdieu, 2007, p. 164)
Considerando a lógica do sistema de diferenças, Bourdieu (2007), apresenta-nos a
dialética das condições e dos habitus que é baseado:
[…] alquimia que transforma a distribuição do capital, balanço de uma relação de forças, em sistemas de diferenças percebidas, de propriedades distintivas, ou seja, em distribuição de capital simbólico, capital legítimo, irreconhecível em sua verdade objetiva. (p. 164)
Em consonância com o estudo sobre a moda e o envelhecimento, podemos fazer uma analogia com a forma de pensar de Bourdieu (2007) quando ele explica a relação entre a estrutura estruturada (opus operatum) e a estrutura estruturante (modus
operandi): por um lado, existe a intenção da indústria da moda em produzir para o
público em massa e para um público específico de vestuário de luxo que são comuns à lógica do consumo; e, por outro, um comércio de moda sem uma regra específica, sendo "objetivamente orquestradas, fora de qualquer concertação consciente" (Bourdieu, 2007, p. 164), praticadas por todos os agentes sociais e distintas categorias/classes sociais.
Bourdieu (2007) aponta um desenho sistemático importante de análise, o qual servirá de base para traçar um perfil sobre o gosto pela moda que as idosas passam a absorver a partir dos seus habitus:
A sistematicidade está no opus operatum por estar no modus
operandi: encontra-se no conjunto das “propriedades”, no duplo
sentido do termo, de que os indivíduos ou os grupos estão rodeados – casas, móveis, quadros, livros, automóveis, álcoois, cigarros, perfumes, roupas –, e nas práticas em que eles manifestam sua distinção – esportes, jogos, distração culturais –, apenas porque ela está na unidade originariamente sintética do habitus, princípio unificador e gerador de todas as práticas. (p. 165).
Bourdieu (2007) é enfático ao escrever que:
O gosto, propensão e aptidão para apropriação – material e/ou simbólica – de determinada classe de objetos ou de práticas classificadas e classificantes é a fórmula geradora que se encontra na
origem do estilo de vida, conjunto unitário de preferências distintivas que exprimem, na lógica específica de cada um dos subespaços simbólicos – mobiliário, vestuário, linguagem ou hexis corporal – a mesma intensão expressiva (p. 165).
Na escrita de Bourdieu (2007), o gosto é uma dimensão importante do estilo de vida dos agentes sociais que simbolizam o modo em que as idosas percebem a moda à sua maneira e no habitus (relacionada à transposição das classes sociais) na sociedade atual.
Segundo o autor (2007), as práticas são intermediadas pelo habitus e pelo agente social que agem em conjunto na sociedade, nas estruturas sociais que são incorporadas ao pensamento do agente social que reproduz através do conhecimento adquirido dividindo-se categoricamente no meio social.
Ao refletirmos como se estruturam os conhecimentos sobre moda na sociedade entram em cena a noção de representações sociais, que passaremos a expor no próximo ponto.