5. ANÁLISE DAS CATEGORIAS TEMPO, ASPECTO E MODALIDADE NOS
5.3.3. Modalidade: um estudo histórico de 1970 a 2000
Abaixo, visualizamos os gráficos 7 e 8, que apresentam as respostas sobre a Modalidade, ao longo das décadas, nos níveis Fundamental e Médio:
Gráfico 7: respostas às questões sobre Modalidade, propostas no roteiro de análise – Ensino Fundamental.
No Ensino Fundamental, obtivemos 33,34% de respostas positivas na década de 2000, enquanto, no Ensino Médio, não tivemos nenhuma. As respostas negativas diminuíram de 1990 para 2000 no Ensino Fundamental, mas aumentaram, progressivamente, no Ensino Médio: 50% – 1970; 66,66% – 1980; 66,66% – 1990; 83,34% – 2000. Comparando os resultados da Modalidade com os do Tempo e do Aspecto, notamos que as respostas negativas diminuíram, significativamente, de 1970 a 2000 na abordagem do Tempo e do Aspecto, tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio, o que não ocorreu para a Modalidade. As respostas parcialmente oscilaram no Ensino Fundamental (16,66% – 1970; 0% – 1980; 16,66% – 1990; 33,34% – 2000) e reduziram no Ensino Médio (50% – 1970; 33,34% – 1980; 33,34% – 1990; 16,66% – 2000). Mesmo na década atual, os resultados não foram expressivos, o que demonstra que a Modalidade é deixada em segundo plano, no estudo do verbo e do advérbio, pelos autores dos livros didáticos.
O bloco do roteiro de análise sobre a Modalidade foi elaborado com base em Givón (1984, 1995, 2005), Almeida (1988) e Neves (2006). A partir desses autores, destacamos como pontos principais para trabalhar a Modalidade: correlação entre os Modos verbais e o contexto de uso; diferença entre Modo e Modalidade; efeitos de sentido provocados pela escolha de determinadas formas verbais; ligação entre a Modalidade e o posicionamento do falante; usos/ funções dos auxiliares modais e marcação da Modalidade pelo advérbio.
Todos os autores dos livros didáticos, de 1970 a 2000, associam os Modos verbais às noções de certeza, incerteza e ordem/ pedido. Porém, como vimos no capítulo 3, na visão funcionalista, a Modalidade é compreendida no contexto comunicativo, isto é, só a forma verbal em determinado Modo não é suficiente para expressar certeza, incerteza, ordem ou pedido. Se pedíssemos a um aluno que identificasse a que Modo pertencem as formas destacadas em: – Estou chateada com a Lia. Será que devo ir à sua festa?/ – Acho que você não deveria ir, sem dúvida, ele responderia que o Modo é indicativo. No entanto, levando em conta o contexto, percebemos que o verbo achar pode denotar a ideia de dúvida, assim como o futuro do pretérito, que diz respeito a um fato incerto no futuro. Portanto, a forma é de indicativo, mas o significado é de dúvida, ideia que é associada ao Modo subjuntivo. Infelizmente, os autores dos livros não destacaram tal questão, importante para os alunos perceberem a razão de estudarem os Modos.
Em relação à diferença entre Modo e Modalidade, somente os autores dos livros do Ensino Fundamental de 2000 fazem a diferenciação, mas de forma implícita. A Modalidade
corresponde à atitude do falante frente ao que diz e tem natureza semântica. O Modo, de natureza morfológica, é um dos meios de marcar a Modalidade. Cereja e Magalhães (2002a, 2006c) apresentam questões, por exemplo, com o futuro do pretérito e com o Modo imperativo mais elementos modalizadores para atenuar um pedido. Por essas e outras atividades que mostram a atitude do falante, seja pelo uso de determinado tempo ou Modo verbais ou por meios de algumas expressões (eu acho que..., na minha opinião...), como vimos no capítulo de análise, percebemos que os autores de 2000 (Ensino Fundamental), restritamente, tratam da Modalidade.
Quanto aos efeitos de sentido provocados pela escolha de determinadas formas verbais, isso é mais perceptivo nos livros de 2000, tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio. Os autores de 1970 a 1990 só ressaltam tal questão nos livros do Ensino Médio, concentrando-se no uso do Modo imperativo, principalmente, em anúncios/ propagandas, em que esse Modo é usado para convencer o interlocutor. Já os autores de 2000, além de enfocar o uso do Modo imperativo, tratam do uso de verbos de significação plena, do uso do futuro do pretérito, do uso do pretérito imperfeito ou mesmo do presente do indicativo e do uso do Modo subjuntivo, para provocar atenuação de pedidos ou criar mundos hipotéticos por meio da linguagem.
O posicionamento do falante perante o que diz é mostrado através: de expressões como eu penso que, do meu ponto de vista, é preciso que, na minha opinião (autores de 2000 – Ensino Fundamental); do uso dos três Modos verbais (autores de 1970 – Ensino Médio); uso do Modo imperativo – função emotiva da linguagem (autores de 1980 e 1990 – Ensino Médio). O trabalho dos autores é restrito, pois, apesar de falarem de julgamentos e opiniões emitidos pelo falante por meio desses usos, não enfatizam o grau de comprometimento, se é maior ou menor, quando se utilizam tais meios.
Os usos/ funções dos auxiliares modais ficaram em segundo plano para os autores dos livros. Alguns autores (1970, 1990 e 2000) consideram modais como dever, ter que, poder e
precisar, contudo não trabalham a função desses auxiliares. O objetivo dos autores é exercitar a forma e o conceito de verbos auxiliares. Da mesma forma, a marcação da Modalidade pelo advérbio não é comentada por nenhum autor de livro didático. O uso de advérbios no enunciado pode transmitir as noções semânticas de certeza, incerteza ou ordem/ pedido: –
Estou preocupado, a Amanda já deveria ter chegado. Será que ela vem?/ – Certamente, ela virá à festa ou– Talvez ela venha à festa; – Alô?/ – Alô? Amanda? Onde você está?/ – Estou
dirigindo./ – Só falta você. Venha até a festa agora!.
Para resumir os resultados obtidos, para os dois níveis de ensino, chegamos ao gráfico abaixo:
Gráfico 9: respostas positivas, negativas e parciais para a categoria Modalidade ao longo das décadas.
Vemos que respostas sim, só foram obtidas a partir de 2000 e, ainda, de forma mínima. Houve um decréscimo das repostas negativas, passando de 66,66% em 1970, 83,34% em 1980, 75% em 1990 para 58,34% em 2000, redução mínima se compararmos com a categoria Tempo (0% em 2000) e Aspecto (33,2% em 2000). A abordagem parcial da Modalidade foi próxima em 1970 e 2000 (33,34% e 25%, respectivamente). Entre as três categorias, o Tempo foi o mais trabalhado de forma significativa pelos autores, sendo a Modalidade a menos trabalhada. No Ensino Médio, a Modalidade não foi explorada de maneira mais expressiva. Um dos motivos para esse resultado pode ser o fato de haver mais pesquisas, no Brasil, sobre o Tempo (e também sobre o Aspecto) nas décadas passadas (1970, 1980, 1990) do que sobre a Modalidade, que tem sido bastante estudada na década atual.
Estudar a Modalidade, para além do Modo verbal, é fundamental para que o aluno não limite o seu conhecimento aos Modos indicativo, subjuntivo e imperativo, associando-os às noções de certeza, incerteza ou ordem/ pedido, respectivamente. Como já discutimos, não há uma relação de um para um entre os Modos e as noções semânticas.
Neste capítulo, vimos como as categorias Tempo, Aspecto e Modalidade foram tratadas pelos autores dos livros didáticos de 1970 a 2000. Discutimos as categorias em cada nível de ensino e, depois, apresentamos, de modo global, como se deu a abordagem delas ao longo das décadas, ilustrando com gráficos. A seguir, faremos as conclusões da pesquisa.