• Nenhum resultado encontrado

2 RESÍDUOS SÓLIDOS, COLETA SELETIVA E O TRABALHO DOS CATADORES: NOÇÕES ELEMENTARES E PANORAMA

2.2 A coleta seletiva

2.2.3 Modalidades de coleta seletiva

As modalidades mais tradicionais de coleta seletiva praticadas no Brasil são: porta a porta e os pontos de entrega voluntária (PEVs) (GRIMBERG; BLAUTH, 1998, p. 28).

Na primeira modalidade, “o veículo coletor percorre todas as vias públicas (de um ou mais bairros), recolhendo os materiais pré-selecionados, dispostos frente aos domicílios, estabelecimentos comerciais etc.”, conforme explicam Elisabeth Grimberg e Patrícia Blauth (1998, p. 28)53.

Gina Rizpah Besen et al. (2016, p. 17) apontam duas vantagens e duas desvantagens nesta modalidade, que “garante boa cobertura da coleta” e “sinalização do serviço prestado pelo caminhão e reconhecimento do som pelos cidadãos”, mas que “possui custo elevado, pois o caminhão deve passar em todas

50

A definição de reutilização está prevista no art. 3º, XVIII, da Lei n. 12.305/2010, como processo de

aproveitamento dos resíduos sólidos sem sua transformação biológica, física ou físico-química, observadas as condições e os padrões estabelecidos pelos órgãos competentes do Sisnama e, se couber, do SNVS e do Suasa.”

51 A Lei n. 12.305/2010, no art. 3º, XIV, define reciclagem como “processo de transformação dos resíduos sólidos que envolve a alteração de suas propriedades físicas, físico-químicas ou biológicas, com vistas à transformação em insumos ou novos produtos, observadas as condições e os padrões estabelecidos pelos órgãos competentes do Sisnama e, se couber, do SNVS e do Suasa”. Um dos objetivos da Política Nacional de Resíduos Sólidos é “o incentivo à indústria da reciclagem, tendo em vista fomentar o uso de matérias-primas e insumos derivados de materiais recicláveis e reciclados” (art. 7º, VI). Na ordem hierárquica das prioridades na gestão e no

gerenciamento de resíduos sólidos, a reciclagem é obrigatória e prévia aos tratamentos de resíduos sólidos e à disposição final de rejeitos. Reciclagem não se confunde e não abrange a incineração de resíduos sólidos, que os destroem, desperdiçando recursos naturais e energia (CONNETT, 2013, p. 48). Sobre o tema da incineração, além de Connett (2013), já citado, ver também Tangri (2003), que elaborou relatório “Waste incineration: a dying tecnology” sobre os problemas da incineração, suas alternativas e os sistemas de gerenciamento de resíduos sólidos baseados no conceito “Zero Waste” (Resíduos Zero).

52

Sérgio Adeodato e Martha San Juan França (CEMPRE, s/ ano de publicação) contam a história da reciclagem, no Brasil e no mundo. Constroem, inclusive, uma linha do tempo com marcos desde 2.100 a.C. Aristides Almeida Rocha (2016, p. 129) aponta que os registros mais antigos de reciclagem dos resíduos são atribuídos aos chineses, em 105 d. C., que aproveitavam restos de rede de pesca e trapos de pano para fabricarem papel. Essa técnica foi sendo aperfeiçoada com a chegada dos chineses a Bagdá, em 700 d. C., quando aproveitaram quedas d´água para a construção de moinhos papeleiros.

53 Gina Rizpah Besen (2016, p. 17) acrescenta: “os coletores recolhem os resíduos com o caminhão em movimento”. Essa característica, contudo, pode não ocorrer. Dependerá da forma como os resíduos sólidos são acondicionados e do tipo de caminhão que realizará a coleta.

as ruas da área coletada” e “os dias e horários de coleta precisam de ampla divulgação”.

Elisabeth Grimberg e Patrícia Blauth (1998, p. 31) sinalizam ainda o custo como uma das desvantagens da coleta seletiva porta a porta, que exigiria uma “infraestrutura maior de coleta”; citam também que o custo é impactado pela necessidade de posterior triagem dos resíduos coletados.

As vantagens da coleta seletiva porta a porta, segundo Elisabeth Grimberg e Patrícia Blauth (1998, p. 31), seriam a maior facilidade para a separação nas fontes geradoras; a desnecessidade de deslocamento dos cidadãos até pontos de entrega voluntária (PEVs), já que os materiais poderiam ser deixados na calçada em frente ao domicílios, e a agilidade da descarga nas centrais de triagem.

Outra modalidade de coleta seletiva são os pontos de entrega voluntária (PEVs) (como são conhecidos na cidade de São Paulo), ou locais de entrega voluntária (LEVs), como são denominados em Belo Horizonte.

Gina Rizpah Besen et al. (2016, p. 17) explicam que nos PEVs, “são disponibilizados contêineres em pontos e/ou locais estratégicos, onde a população pode efetuar entrega voluntária ou trocas de resíduos”.

Dentre as vantagens da coleta seletiva por meio de PEVs estariam a redução do custo logístico (uma vez que os trajetos realizados pelo caminhão coletor seriam menores) e o fato de a carga estar acumulada nos PEVs, o que demandaria uma equipe menor para operá-los.

A população realiza parte do trabalho da coleta seletiva com os PEVs, pois, além de separar os materiais, precisa levá-los até os contêineres, o que ajuda a reduzir os custos, despertar a conscientização e estimular a participação. Os PEVs podem ser utilizados como espaços publicitários e, a depender do contêiner, possibilitar a separação dos recicláveis por tipos (GRIMBERG; BLAUTH, 1998, p. 32; BESEN et al., 2016, p. 16).

As principais desvantagens são relacionadas às dificuldades para manutenção e limpeza dos PEVs; avaliar o grau de adesão da comunidade; a necessidade de maior voluntariedade da população para se deslocar até os PEVs, além do risco de desvio de materiais e de depredação dos equipamentos.

Conforme será visto mais adiante, a coleta seletiva porta a porta e os PEVs são as modalidades realizadas na cidade de São Paulo, primordialmente.

Gina Rizpah Besen et al. (2016, p. 17) observam, contudo, mais outras duas modalidades, denominadas “Ponto a Ponto” (bandeiras) e “Sistemas de Troca”.

Na modalidade “Ponto a Ponto”, “os resíduos secos são coletados nos pontos de geração e concentrados em pontos estratégicos, chamados de ‘bandeiras’, para posterior coleta pelo caminhão”. Ao contrário da modalidade porta a porta, eles não vão em cada domicílio; a coleta fica a cargo dos “coletores”, que usam bags, carrinhos manuais ou motorizados para transportá-los até as “bandeiras”54

.

Uma das vantagens desse modelo seria a otimização da rota de coleta, com facilidade para o carregamento e a redução do tempo de coleta, além da interação dos coletores com os moradores e a melhoria das condições dos materiais coletados. Dentre as desvantagens estão as dificuldades para a localização dos pontos ideais para a “bandeiras” (BESEN et al., 2016, p. 17).

Uma última modalidade de coleta seletiva é a chamada “Sistemas de Troca”, por meio da qual “os resíduos secos são levados para pontos específicos e trocados por alimentos, cupons de alimentos, dinheiro ou descontos em contas de serviço, a exemplo de energia elétrica” (BESEN et al., 2016, p. 17).

Três seriam as vantagens do “Sistema de Troca”: reduzir os custos de transporte para a prefeitura; maior qualidade dos materiais e menos rejeitos, além de trazer benefício econômico para os cidadãos. As desvantagens estariam na falta de garantia de continuidade e na participação mais afeta a interesses pessoais do que coletivos(BESEN et al., 2016, p. 17).

A escolha das modalidades a serem implementadas em uma determinada cidade depende de estudo específico a ser realizado por cada município, considerando as características locais, os instrumentos legais e as características do mercado, conforme apontam Gina Rizpah Besen et al. (2016, p. 17).

Por fim, vale ressaltar que, independentemente da modalidade de coleta seletiva, deve sempre ser buscada a integração dos catadores nos respectivos projetos, públicos ou privados, por ser esse um dos objetivos da Política Nacional de Resíduos Sólidos (art. 7º, XII).

54 Em São Paulo, utiliza-se a modalidade “Ponto a Ponto”, não para a coleta seletiva, mas para a coleta domiciliar comum em favelas ou locais de difícil acesso, onde não é possível a chegada do caminhão de coleta, por causa de ruas e vielas estreitas.

Outline

Documentos relacionados