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Um plano no apagar das luzes: o Decreto n 53.323/

3 A COLETA SELETIVA NA CIDADE DE SÃO PAULO: UM PERCURSO HISTÓRICO

3.5 A longa gestão de Gilberto Kassab: litigância e as alterações no programa de coleta seletiva a partir do Decreto n 48.799/

3.5.3 Um plano no apagar das luzes: o Decreto n 53.323/

A gestão Gilberto Kassab foi realmente longa, atravessando, inclusive os marcos da Lei n. 11.445/2007 e da Lei n. 12.305/2010.

Há seis meses do fim, contudo, a gestão Gilberto Kassab decidiu editar o Decreto n. 53.323/2012 que foi, por um curto período, o Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos da cidade de São Paulo.

Embora tenha sido rapidamente revogado (durante a gestão Fernando Haddad), merece ser abordado porque seu anexo trouxe um panorama da coleta seletiva no município em 2012.

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Vale recordar que a Lei n. 11.445/2007, que alterou a Lei n. 8.666/1993, para tornar dispensável a licitação para contratar cooperativas e associações de catadores também já estava em vigor.

Importante recordar a oposição à edição da Lei n. 13.478/2002, que introduziu grandes modificações no sistema de limpeza urbana da cidade, sem a criação prévia da política e do plano diretor de resíduos do município155.

Os anos foram passando sem que a política e o plano constassem de forma sistematizada em uma norma jurídica, na cidade de São Paulo. E o plano foi sendo cada vez mais exigido em leis estaduais e nacionais.

Em âmbito estadual, a Lei n. 12.300/2006, que instituiu a Política Estadual de Resíduos Sólidos, já incentivava e apoiava que municípios gerenciassem os resíduos sólidos urbanos “em conformidade com Planos de Gerenciamento de Resíduos Urbanos” (art. 20).

Nacionalmente, a Lei n. 11.445/2007, que estabeleceu as diretrizes nacionais para o saneamento básico, compreendendo a limpeza urbana e o manejo de resíduos sólidos (art. 3º, I), erigiu a existência de plano de saneamento básico como condição de validade de contratos que tivessem por objeto a prestação de serviços públicos de saneamento básico (art. 11, I).

E, por fim, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, Lei n. 12.305/2010, criou uma sistemática, que incentiva e prioriza que a gestão integrada e o gerenciamento de resíduos sólidos sejam baseados em planos (art. 14), organizadamente, escalonados entre os entes federados.

Assim, a elaboração de planos156, estaduais e municipais, é condição para que os entes federados tenham

acesso a recursos da União, ou por ela controlados, destinados a empreendimentos e serviços relacionados à limpeza urbana e ao manejo de resíduos sólidos, ou para serem beneficiados por incentivos ou financiamentos de entidades federais de crédito ou fomento para tal finalidade (art. 16 e 18)157.

Em relação aos Municípios, a Lei n. 12.305/2010 estabelece que terão prioridade no acesso aos recursos da União os Municípios que “optarem por soluções consorciadas intermunicipais para a gestão dos resíduos sólidos” ou que

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O Plano Diretor Estratégico do Município previa dentre as ações estratégicas para a política de resíduos sólidos a elaboração e a implementação do Plano Diretor de Resíduos Sólidos, nomenclatura sinônima, depois, substituída por Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, seguindo a legislação nacional.

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O Plano Nacional de Resíduos Sólidos até hoje não foi aprovado e implementado. 157

De acordo com a Lei n. 12.305/2010, os planos possuem um conteúdo mínimo detalhado nos incisos dos artigos dos planos correspondentes aos entes federados (arts. 15, 16 e 18). Importante destacar que, além dos planos nacional, estadual e municipal, também podem existir planos microrregionais, de regiões metropolitanas ou aglomerações urbanas, e planos de gerenciamentos de resíduos sólidos (art. 14, I a VI). Esses últimos são exigidos dos geradores, que são empresas, na maioria dos casos, como parte integrante do processo de licenciamento ambiental (art. 20, c/c 24).

“implantarem a coleta seletiva com a participação de cooperativas ou outras formas de associação de catadores de materiais recicláveis formadas por pessoas de baixa renda” (art. 18, § 1º).

O anexo do plano de gestão integrada de resíduos sólidos elaborado na gestão Gilberto Kassab ressaltou que, dos 96 distritos da cidade de São Paulo, a coleta seletiva ocorria em 75, na modalidade porta a porta e nos pontos de entrega voluntária (PEVs).

Apesar de ter relutado tanto à implementação do programa municipal de coleta seletiva, a gestão Gilberto Kassab reconheceu, finalmente, no plano, que este serviço público era prestado pelas concessionárias e pelas cooperativas de catadores, tanto aquelas conveniadas, como as que o executavam de maneira informal, ou como se convencionou chamar, as habilitadas e as não habilitadas.

Em julho de 2012, segundo o plano, 20 cooperativas integravam o Programa Socioambiental de Coleta Seletiva, que foi assim sintetizado em números:

 75 distritos atendidos, 14 dos quais integralmente, pelas 02 concessionárias e pelas 20 cooperativas de catadores conveniadas com a Prefeitura;

 1.500.000 domicílios atendidos dentre um total de 3.574.286 (aproximadamente 42%) existentes;

 20 Centrais de Triagem em operação para recebimento de materiais recicláveis, sendo 01 delas exclusiva para recebimento de Resíduos Eletroeletrônicos;

 Uma média de 1.085 cooperados;

 R$ 850,00 de média de renda mensal por cooperado;

 45 entidades cadastradas a título precário, para processamento momentâneo do excedente das cooperativas conveniadas, com aproximadamente 270 integrantes;

 23 caminhões coletores da concessão empregados;

 93 caminhões disponibilizados para as cooperativas, sendo:  44 caminhões tipo gaiola;

 19 caminhões tipo MUNCK;  08 caminhões tipo VUC;  22 caminhões tipo HR.

 1.845 PEV’s de 2.500 litros instalados e em instalação e outros, bem como 3.818 contêineres de 1.000 litros disponibilizados nos 1.866 condomínios atendidos, além de escolas e órgãos públicos. (fls. 111 do anexo do Decreto n. 53.323/2012).

As 20 centrais de triagem estavam divididas, 10 em cada um dos agrupamentos (noroeste e sudeste), em que a cidade foi partilhada para os contratos de concessão de serviço público divisível de limpeza urbana.

Importante notar que 9 das cooperativas foram inauguradas em 2003; 3 em 2004; 1 em 2006; outra em 2009 e 5 em 2010, ou seja, 60% das centrais de triagem

foram criadas em dois anos (2003 e 2004), e as restantes foram sendo inauguradas em um período de oito anos, comprovando as dificuldades enfrentadas.

Outro dado que vale a pena ressaltar é o de número de cooperados que, em julho de 2012, era de 1.085 cooperados.

Ainda em relação às cooperativas, convém destacar a informação sobre o que foi denominado de “entidades cadastradas a título precário, para processamento momentâneo do excedente das cooperativas conveniadas” (fls. 111 do anexo ao Decreto n. 53.323/2012). Esses eram os grupos de catadores com grau inferior de organização e de estrutura que não conseguiam cumprir as exigências para contratar com o Poder Público.

Observou-se, por ocasião dos comentários sobre as alterações do Decreto n. 48.799/2007, que um dos aspectos positivos foi a previsão (art. 3º, § 2º) de que, com esses grupos, poderiam ser celebrados convênios ou termos de parceria. Em 2012, o próprio município reconheceu a existência de 47 entidades que prestavam serviços sem vínculo jurídico, mediante mero “cadastramento a título precário”, situação não prevista na Lei n. 13.478/2002 ou no Decreto n. 48.799/2002.

Outra informação que chamou atenção foi a quantidade de 93 caminhões disponibilizados pelo Município às cooperativas. Desses, 44 eram caminhões do tipo gaiola, que possibilitavam a coleta seletiva pelos catadores, feita de forma a não destruir os resíduos recolhidos e propiciando maior aproveitamento e menor quantidade de rejeito.

E assim chegou ao fim a mais longa das gestões municipais nos últimos 30 anos. Inicialmente, obstinada em não cumprir o próprio programa público de coleta seletiva, depois, “debaixo de vara”, cumprindo-o, com alterações e parcialmente.

O Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, aprovado pelo Decreto n. 53.323/2012, no apagar das luzes, foi objeto de críticas por não ter atendido às diretrizes e ao conteúdo mínimo previstos na Lei n. 12.305/2010; também, por não ter contado com a participação popular em sua elaboração e por inobservância da Política Nacional sobre Mudanças do Clima, no que diz respeito às rotas tecnológicas voltadas a menor geração de gases de efeito estufa (PGIRS, 2014, p. 1).

3.6 A gestão Fernando Haddad e o Plano de Gestão Integrada de Resíduos

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