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1 FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS DESTA INVESTIGAÇÃO

1.1 CAMINHOS DA FORMAÇÃO DOCENTE EM MÚSICA

1.1.1 Aspectos relevantes ao caso

1.1.1.2 Modalidades de ensino

As modalidades de ensino da escola brasileira estão classificadas em duas categorias: Educação Presencial e Educação a Distância. Entretanto, o foco legislativo educacional até a LDB de 1996 estava apenas na Educação Presencial, como pode ser percebido nas bases legais até aqui apresentadas. A Modalidade de Educação Presencial se caracteriza pelo comparecimento do professor e do aluno em um mesmo espaço físico, reconhecido historicamente como sala de aula. Tais encontros se dão ao mesmo tempo e são definidos, também, como ensino tradicional ou convencional. Todavia, com a disseminação e a acessibilidade cada vez mais intensa das tecnologias da informação e comunicação (TICs), abrem-se novas possibilidades para os processos de ensino e aprendizagem e, ao mesmo tempo, descortinam-se novas perspectivas para processos educacionais contemporâneos em ambientes digitais e virtuais de aprendizagem disponibilizados e acessados pela internet. Considera-se, que o tempo pode ser flexível, adaptado ao cotidiano de cada um que ensina e/ou aprende, assim como as distâncias geográficas não são mais barreiras para a aproximação entre professores e alunos. Em tal contexto, o conhecimento fica na nuvem, à disposição dos interessados que síncrona ou assincronamente o buscam, para a sua própria formação ou para a formação de outrem. Nesse sentido, considera-se a Educação à Distância não mais como um jeito para

desenvolvimento cultural dos alunos. (Redação dada pela Lei nº 12.287, de 2010).

§ 2º O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório da educação infantil e do ensino fundamental, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos. (Redação dada pela Medida Provisória nº 746, de 2016).

*§ 2o O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório da educação básica. (Redação dada pela Lei nº 13.415, de 2017). [grifo nosso] *Revogou os anteriores.

Art. 26, parágrafo 6o.

§ 6o A música deverá ser conteúdo obrigatório, mas não exclusivo, do componente curricular de que trata o § 2o deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.769, de 2008).

*§ 6o As artes visuais, a dança, a música e o teatro são as linguagens que constituirão o componente curricular de que trata o § 2o deste artigo. (Redação dada pela Lei nº 13.278, de 2016). *Revogou o anterior.

Art. 62.

A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura plena […]. (Redação dada pela lei nº 13.415, de 2017). Revogado anteriores.

romper os limites de tempo e de barreiras geográficas entre os envolvidos no ensino- aprendizagem, nem, ainda, como uma mera estratégia de transmissão de conteúdos com uso de instrumentos tecnológicos contemporâneos. Aquilo que, a princípio era denominado EAD, após a internet ganha um novo status; essa modalidade se apresenta não mais como um jeito facilitado e agilizado por tecnologias, mas passa a ser uma nova concepção de ensinar e de aprender, própria do homem contemporâneo, globalizado e incontestavelmente amalgamado a tecnologias de informação e comunicação cada dia mais integradas a ele mesmo.7

Diante do exposto, o paradigma do processo de ensino e aprendizagem, no que diz respeito à supostamente já tão bem conhecida modalidade presencial, foi também revisto, emergindo assim, da própria demanda social agora ancorada nas TICs, novos entendimentos e novas perplexidades. Dessa forma, a Educação na Modalidade a Distância que se caracterizava, inicialmente, pela não presença do professor e dos alunos, ao mesmo tempo e em uma mesma sala de aula convencional, impõe a utilização de meios tecnológicos de informação e comunicação. E essa imposição acaba provocando uma situação, na qual as novas tecnologias, ao permitirem transpor tais limitações, possibilitam a presença de ambos em salas virtuais síncronas, desconstruindo-se assim, uma característica primeira da EAD, qual seja, a da própria distância. E tal modalidade tem se tornado cada dia mais presente no contexto da formação das pessoas, em todos os níveis da Educação brasileira, sendo muito estimulada na formação de professores, a partir da Lei no 12.056 de 2009. Essa Lei destaca, no seu parágrafo segundo, que

“a formação continuada e a capacitação dos profissionais de magistério poderão utilizar recursos e tecnologias de educação a distância”. E, no parágrafo terceiro, que a “formação inicial de profissionais de magistério dará preferência ao ensino presencial, subsidiariamente fazendo uso de recursos e tecnologias de educação a distância”. Essa nova realidade fica mais bem denominada, se o termo EAD for substituído por Educação On-line (NUNES, 2018b, p. n.p.).

Para Nunes (2018b), o Brasil nunca esteve atrasado, em relação ao mundo, no que

7 As relações entre humanos e tecnologias geram mundos até então desconhecidos, mas cujas peculiaridades são decisivas sobre seu modo de vida. Aos poucos, vai-se identificando quais são elas e de que modo as sociedades estão se organizando ou sendo organizadas em decorrência delas. Conceitos como e-Learning (eletronic-learning): modalidade a distância utilizada para definir aprendizagem por meio de mídia eletrônica; b-Learning (blended

learning), quando professores e alunos ficam face a face mediados por tecnologias, internet e mídias digitais; m- Learning (mobile learning ), modalidade educacional na qual a informação é que encontra o sujeito; p-Learning (pervasive learning) nesta os processos de ensino e de aprendizagem ocorrem em qualquer lugar ou tempo,

utilizando qualquer dispositivo de forma continuada e contextualizada; u-Learning (ubiquous learning): os processos de aprendizagem que ocorrem em ambientes imersivos em 3D, criados a partir do uso de diferentes tecnologias digitais capazes de propiciar aprendizagens imersivas, por meio do desenvolvimento de Experiências Ficcionais Virtuais (SCHLEMMER, 2011); (CORREIA; PINHEIRO, 2012).

concerne à Educação Profissionalizante e de caráter técnico, em Modalidade a Distância. Tal constatação, para a autora, deve-se à relevância da contribuição dessa modalidade educacional e à sua adequação à realidade brasileira. Para Novak (2012, p. 46), quatro fatores colaboraram de maneira relevante para impulsionar a expansão desse fenômeno, no Brasil: (1) a prescrição legal, outorgada pela LDB 9.394 de 1996, em conjunto com sua regulamentação de no

5.622/2005; (2) o contexto tecnológico atual, no qual o aperfeiçoamento das novas TICs se apresenta, compulsivamente, envolvendo e comprometendo toda a sociedade no uso de tais tecnologias, a exemplo da internet; (3) as políticas públicas no âmbito Federal, com vistas à democratização do acesso ao Ensino Superior, a exemplo do Pró-Licenciaturas, na formação de professores; e, (4) a capacidade das Instituições Públicas de Educação Superior (IPES), no desenvolvimento de pesquisas, articulação e promoção de competências em EAD. Já Nunes (2018b) destaca, que os resultados dos censos apresentados pela Associação Brasileira de Educação à Distância (ABED), a partir de 2016, registraram que, de início, um dos maiores problemas apresentados nessa modalidade de ensino se dava pela resistência por parte dos professores ao uso das novas tecnologias e na evasão dos alunos, durante a formação, justificadas pelas próprias dificuldades que encontravam na adaptação à Modalidade. Isso ainda não está totalmente superado; mas, nos últimos anos, tais problemas se deslocaram para a falta de tempo para dedicação aos estudos e para questões financeiras.

Diversos autores (MORAN, 2002; GOUVÊA E OLIVEIRA, 2006; ALVES, 2011; VASCONCELOS S., 2011b; NUNES, 2018) concordam, que o esforço de expandir o alcance da educação popular é muito mais antiga do que se costuma imaginar. A própria história bíblica reporta às orientações e doutrinamentos do apóstolo Paulo, enviados por cartas às igrejas da Ásia Menor. Tal relato nos demonstra, que, há muito tempo, já se tinha estratégias para ensinar algo a outros que se encontravam distantes, fisicamente. Dessa forma, inicialmente, utilizou-se tecnologias de Correio, para que o ensino e a aprendizagem ocorressem; contudo, aceita-se que a Modalidade de Ensino a Distância moderna tenha surgido século XVIII. Mais ou menos ao mesmo tempo, movimentos semelhantes se espalharam pela América, Europa e Ásia; enfim, pelo mundo, tendo os conhecidos cursos por correspondência, como principal estratégia. Nos anos de 1930, com o advento do Rádio e, cerca de trinta anos depois, com o da TV, novas formas de aproximação desses cursos com seus públicos foram viabilizadas. Por esses meios, diversos conteúdos puderam chegar a seus destinos em tempo real, promovendo assim um grande avanço nos modos de acesso aos conteúdos e progressiva aproximação das pessoas envolvidas. Entre o rádio e a televisão, e em meio à II Guerra Mundial, o cinema também teve importante papel no treinamento com finalidades militares. Na década de 1970, surge a

Universidade Aberta, no Reino Unido, e a Universidade Nacional de Educação à Distância (UNED), na Espanha. Esses modelos se disseminaram, rapidamente, por toda a Europa. Segundo Gouvêa e Oliveira (2006), tais acontecimentos abriram caminhos relevantes para a consolidação da Educação a Distância, nas tecnologias de Correios (transporte convencional por terra, água e ar; telégrafo e telefone), Rádio e Televisão. Assim como Nunes (2018), entende-se que a Internet tenha inaugurado novos tempos, a cada dia mais bem identificados.

No Brasil, inicialmente, tal modalidade veiculou cursos profissionalizantes realizados por correspondência, incluindo conteúdos para ensino de Português, Francês, Telefonia e Eletrônica. Tais cursos foram, posteriormente, abarcados pelo Rádio e pela TV, que também ofereciam cursos como o Supletivo, para a inclusão social de adultos, por meio de processos educativos com certificação oficial. Em 1979, a Universidade de Brasília foi pioneira na Educação a Distância no Ensino Superior, oferecendo cursos veiculados por jornais e revistas, inaugurando em 1989, o Centro de Educação Aberta Continuada a Distância (CEAD). Foi lançado, assim, no Brasil, a EAD nos moldes mais próximos do que conhecemos hoje. Tal modelo foi seguido, posteriormente, por outras instituições. O Jornal da Educação – Edição do Professor, pertencente à Fundação Roquete-Pinto, deu início, em 1991, ao Programa Um Salto para o Futuro, incorporado pela TV Escola (Canal Educativo da Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação), em 1995. Tal programa se tornou um marco nessa modalidade de ensino, no Brasil. O programa tinha como objetivo a formação continuada e o aperfeiçoamento de professores, especialmente, do Ensino Fundamental, e estudantes do Curso de Magistério, atingindo mais de 250 mil docentes em todo o Brasil, naquele momento histórico. No Quadro 03, observa-se outros acontecimentos relevantes na história da EAD Brasileira.

Importante destacar que, enquanto em outros lugares do mundo, o ensino à distância já vinha sendo praticado em âmbito formal, particularmente universitário, no Brasil, permanecia sob a esfera da formação complementar, dos cursos livres e das experimentações informais. Apenas na LDB de 1996, no Art. 62, determina-se que a formação docente para atuar na Educação Básica seja realizada em cursos de Nível Superior – Graduação-Licenciatura, apontando para a utilização dos recursos tecnológicos da Educação à Distância (parágrafo 3º). Então, também é importante registrar que as primeiras experiências em escala nacional, dessa formalização, estiveram voltadas à formação de professores. Dois anos depois de promulgada a nova Lei, o Plano Nacional de Educação (PNE) estabeleceu metas para essa formação, dentre as quais se destacava o fomento a programas de formação em serviço, nos quais a modalidade EAD mediada pela internet deveria ser um caminho de tornar tal projeto possível. Era meta da

época garantir que 70% dos professores da Educação Infantil e Ensino Fundamental, e 100% dos professores do Ensino Médio tivessem sua formação em Nível Superior (BRASIL, 1998a/b). Com vistas a alcançar tais metas, o governo brasileiro, no início do novo milênio, criou programas de formação inicial e continuada de professores, utilizando a modalidade EAD.8

Quadro 03 - Acontecimentos relevantes sobre a EAD no Brasil

Ano Movimento

1992 Universidade Aberta de Brasília.

1995 Centro Nacional de Educação a Distância. 1996 Secretaria de Educação a Distância pelo MEC. 1996 LDB no 9.394, primeira LDB a abordar o EAD.

2000 Rede de Educação a Distância (UniRede), com o objetivo de democratizar o acesso à educação de qualidade, por meio do EAD, oferecendo cursos de graduação, pós-graduação e extensão.

2004 Programas de formação inicial e continuada de professores da rede pública, por meio do EAD, implantadas pelo MEC, nos quais se destacam o Pró-Letramento e o Mídias na Educação.

2005 Decreto 5.622, no qual a EAD foi regulamentada e caracteriza como modalidade educacional: a “mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos” (BRASIL, 2005).

Universidade Aberta do Brasil, integrando assim o Brasil, no início do novo milênio, na Sociedade da Informação.

2006 Decreto no 5.773, que teve como objetivo supervisionar e avaliar as instituições de educação superior, incluindo a EAD.

2009 Lei nº 12.056, de 13 de outubro. Acréscimo de parágrafos ao art. 62 da Lei nº 9.394/96, dentre os quais destacam-se: § 2º A formação continuada e a capacitação dos profissionais de magistério poderão utilizar recursos e tecnologias de educação a distância.

§ 3º A formação inicial de profissionais de magistério dará preferência ao ensino presencial, subsidiariamente fazendo uso de recursos e tecnologias de educação a distância”.

2011 Secretaria de Educação a Distância foi extinta, descontinuando assim projetos existentes.

2017 Decreto nº 9.057, de 25 de maio de 2017. Considera a educação a distância a modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorra com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com pessoal qualificado, com políticas de acesso, com acompanhamento e Avaliação compatíveis, entre outros, e desenvolva atividades educativas por estudantes e profissionais da educação que estejam em lugares e tempos diversos.

Fonte: Elaborado pelo autor

Por fim, com o Decreto no 9.057, de 25 de maio de 2017, que flexibilizou a

regulamentação ao Ensino à Distância brasileiro, tem provocado um crescimento relevante

8 Pró-Formação, desenvolvido pelo MEC em (2000); PEC – Programa de Formação Universitária da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, em contrato com a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) (2001); Projeto Veredas – Formação Superior de Professores, desenvolvido pelo Estado de Minas Gerais, em convênios com IES daquele Estado (2002); Pró-Gestão – Programa de Capacitação a Distância para Gestores Escolares (2000), desenvolvido pelo Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Educação (CONSED), em parceria com vários Estados (LEITE, 2018).

desta modalidade, estimando-se que nos próximos cinco anos se tenha mais estudantes universitários em cursos na Modalidade de Educação à Distância, do que em Cursos Presenciais (ABED, 2018). Para Nunes (2018), o Decreto ainda se encontra carente de detalhamento, mas ao promover a redução das exigências para as IES que oferecem cursos on-line, possibilitou tal crescimento no número de credenciamentos. Ainda para a autora, no campo do ensino de Música, a demanda é imensa e as possibilidades de oferta ainda se apresentam insuficientes. Afirma, também, que a falta de professores capacitados e a escassez de propostas pedagógicas que atendam efetivamente as especificidades de tal Modalidade se sobrepõem até mesmo à falta de recursos tecnológicos para a implementação de cursos de Música EAD. Tal fala está embasada em sua própria experiência, obtida durante sua coordenação no PROLICENMUS, o qual pertenceu pioneiramente à modalidade EAD por internet, no Brasil, tendo seu foco a Formação Docente em Música. Mais sobre o assunto será trazido na próxima subseção, por se tratar do contexto bem específico, do objeto de estudo desta tese.