2 SISTEMA DE AVALIAÇÃO DO PROLICENMUS
2.1 COMPONENTES DO PROCESSO AVALIATIVO
2.1.2 Instrumentos
2.1.2.2 Projeto Individual Progressivo
Como se pode ver, alunos com condições de ingresso muito diversificadas, avançando por caminhos distintos, cumprindo uma mesma matriz curricular e rumando a um mesmo perfil de egresso, conviveram presencialmente num mesmo polo e, concomitantemente, integraram turmas on-line constituídas por pessoas com conhecimentos similares, em abrangência nacional. A condução desse processo foi, em essência, baseada em Avaliação. Como isso foi conseguido? Além do já descrito, os caminhos percorridos pela Avaliação no PROLICENMUS foram também conduzidos por um Instrumento dinâmico e com características transversais,
denominado Projeto Individual Progressivo (PIP), que fez parte do eixo Condução e Finalização da Matriz Curricular do Curso. Com suas versões virtual e papel, o PIP se constituiu como a alternativa de sistematização no acompanhamento individual dos licenciandos, em forma de portifólio, durante todo o Curso, justificado também pela sua natureza EAD. Sob o guarda- chuva do PIP, encontravam-se os Projetos Individuais de Estudos (PIE), que tinham a função de, semestralmente, provocar uma reflexão que partia da análise crítica sobre o planejamento anterior e seu cumprimento por cada aluno, na condução do seu Curso, até aquele momento. Em tal ocasião, este aluno repensava seus interesses e objetivos, assim como suas a escolha pela ordem das Interdisciplinas, atividades e ações, para cumprimento de cada uma das exigências do Curso e seus ideais particulares.
O instrumento PIP, que era conteúdo de uma Interdisciplina da Matriz Curricular, integrada ao eixo Condução e Finalização, tinha um professor como responsável para conduzi- lo; e representava também um projeto de vida, na formação de um determinado licenciando. Sua principal função era criar uma estrutura para que o estudante pensasse sobre as possibilidades teóricas e práticas oferecidas durante o Curso, para interpretá-las e realizá-las de modo qualificado, em sua realidade particular. Com a elaboração de um PIP, buscava-se acomodar a diversidade, encorajando a todos a capitalizarem suas forças, ajudando-os a identificar as áreas que necessitam aperfeiçoar e oferecendo-lhes uma sistematização para a reflexão sobre a prática e os fundamentos éticos e políticos que a sustentam. O PIP, por sua natureza, abrigava questionamentos que deverão guiar permanentemente o trabalho desenvolvido (UFRGS, 2010).
Tal instrumento, quando adotado sob outras condições, como cursos presenciais, pode oferecer ao licenciando reflexões em relação ao conceito de aprendizagem; a valorizações relativas ao que precisa ser aprendido; aos objetivos como futuro educador musical licenciado; às evidências dos fundamentos e posturas adotadas; os resultados que indicam se os objetivos foram alcançados; e, “se práticas e discursos dos estudantes refletem os valores privilegiados e acordados” (UFRGS, 2010, p. 19-20). Assim, a proposta do PIP, além de buscar responder a tantos desafios daquele curso específico, norteando a finalização do curso, focado no Estágio Supervisionado, nos Trabalhos de Conclusão de Curso e no Recital de Formatura, fortalecia o desenvolvimento contínuo de cada licenciando na relação consigo mesmo, diante das exigências do Curso, da Instituição e da sociedade e com o outro; sobretudo, conduzindo a organização e a comunicação de todo o processo de diplomação (CUNHA; NUNES, 2017). Entendendo que tais benefícios poderiam ser transferidos a contextos mais abrangentes, decidiu-se estudá-lo em pormenores, por meio desta investigação.
A construção do PIP acompanhava cada aluno, ao longo de todo seu curso, devidamente sustentado pelo Projeto Individual de Estudos, que era semestral. O PIE, por sua vez, era um recurso para a organização pessoal, sob a forma de um roteiro preparado pela Coordenação, para que cada estudante pudesse se autoavaliar e compartilhar seus desafios e sucessos, submetendo-o a apreciação de tutores, professores e colegas. Aos poucos, assim, construía seu PIP e, obviamente, seu próprio percurso e a si mesmo, em pequenos passos. Ele era, ao mesmo tempo, um relatório crítico do percurso acadêmico e profissional já cumprido, como um planejamento de passos subsequentes. Ao trabalhar com os PIEs, os alunos aprendiam sobre Metodologia de Projetos em geral e, paulatinamente, praticavam a elaboração de Projetos de Pesquisa, Ensino e Extensão. O primeiro PIE foi inaugurado já por um Parecer sobre o rendimento individual dos ainda candidatos, nas provas do Processo Seletivo de ingresso no Curso. As defesas semestrais, por sua vez, serviam como ensaio para as DPIs que ocorreram nos últimos semestres do Curso. Com base naquilo que era seu perfil de ingresso no Curso e naquilo que o PPC previa como perfil de egresso, cada um conduzia seu PIP. Assim, demonstra- se que o PIP, como projeto maior que reuniu todos os PIEs concebidos ao longo de todo o Curso, foi um instrumento de autoavaliação eficaz; isso é, uma autoavaliação contextualizada e assumida, com direito à defesa e à reconsiderações contínuas de decisões.
Como se pode ver, as escolhas e propostas de cada aluno, incluindo compartilhamento e coleta de conteúdos e materiais, eram individuais; mas suas correspondentes discussão e avaliação eram coletivas, visto que tudo deveria ser submetido à aprovação de todos, no polo. Os parâmetros para tais debates eram as determinações do PPC, inquestionáveis, posto terem sido ancoradas, previamente, em determinações legais. Esses parâmetros continham, em si, exigências pertinentes às condições de aprovação em relação ao Perfil do Egresso, também impossível de ser reescrito. Balizando tais exigências, havia:
• Estágio Curricular Supervisionado (ECS) – componente curricular com uma carga horária de 405h e, por se tratar da diplomação de professores que já atuavam na área, mas sem a formação, optou-se por permitir que os licenciandos realizassem seus respectivos estágios, nos seus espaços de atuação. Contudo, havia a incumbência de elaborar um planejamento cooperativo; ou seja, com supervisão compartilhada entre professores, tutores e equipe técnica das escolas envolvidas. O PPC do Curso previa que suas ações seriam desenvolvidas desde o segundo semestre do Curso, as quais estariam “sob forma de um processo contínuo que conduz da observação crítica (tanto da própria atuação, posto que são professores em exercício, quanto de práticas
docentes de seus colegas) à intervenção (da supervisionada à autônoma)” (UFRGS, 2007, n/p). Assim, dessa maneira, 200 horas de Estágio foram permitidas e validadas, para aqueles que assim o solicitaram. Houve um professor formador que ficou responsável pelo gerenciamento dos Estágios, o qual incluiu, em seu planejamento, a discussão sobre propostas diversificadas de estágios, apresentações de projetos e realização do relatório. Esse profissional, em momento posterior, assumiu o papel de professor formador/orientador do TCC. Quanto à escolha de um ou outro conteúdo específico, na realização do Estágio, o PPC previa um professor que dominasse a especificação escolhida pelo aluno, para poder então orientar o licenciando, naquela determinada especificidade e no projeto a ser desenvolvido por ele. Das 405 horas destinadas ao Estágio Supervisionado, o PPC destacou: 200 horas seriam distribuídas em quatro semestres e teriam o objetivo de “observar e investigar sobre o processo de ensino musical formal e não formal”, dentro do contexto de trabalho de cada estagiário e em suas adjacências. Dessa maneira, o estagiário deveria “investigar de que forma o ensino de arte, com enfoque na Música” estava sendo inserido nas séries iniciais do Ensino Fundamental, além de observar e analisar o ensino de Música em espaços não formais. As 205 horas restantes, igualmente distribuídas em quatro semestres, previam que o estagiário desenvolvesse ensaios de práticas do ensino de Música com enfoque no Ensino Médio, em redes formais de ensino, produzindo os correspondentes relatórios parciais e concluindo com um relatório de finalização. Os critérios de avaliação do Estágio também foram estabelecidos em três Níveis: 1) Nível 1: conduta, atuação e frequência nos espaços de estágio, incluindo o cumprimento da carga horária estabelecida; 2) Nível 2: apresentação dos produtos solicitados, como plano de Estágio, relatórios parciais, se necessários, e/ou texto reflexivo sobre a experiência; e 3) Nível 3: conceito do SIP obtido por pelo polo. • Recital de Formatura (RF) – componente curricular, cujo manual de orientações foi
publicado no penúltimo semestre do Curso, 2011.2. Esse manual orientava para que o RF fosse realizado até o mês de março daquele ano, último semestre do Curso. A concepção de um recital, no PROLICENMUS, foi bastante diferenciada dos demais cursos de Licenciatura em Música conhecidos. Surpreende o fato de que, ao contrário do que se esperaria no senso comum, o Recital de Formatura não fazia parte do eixo das interdisciplinas de Música; mas sim, do das Pedagógicas: cada recitalista deveria apresentar seus alunos, tocando sozinhos ou com ele. Isso deixa claro que o RF não estava focado na formação de músicos concertistas; mas, na do professor.
Obviamente, ao mesmo tempo, esperava-se músicos-professores que fossem professores-músicos, com conhecimentos de performance e tecnológicos aplicados ao próprio ensino de Música, tudo isso, simultaneamente. O Recital de Formatura possuiu três componentes, os quais incluíram espaços e momentos distintos: Exposição, Execução e Aplicação. Cada momento desse deveria ser preparado com bastante antecedência pelo estudante, de forma que evitasse apresentações vazias. O RF pôde ser realizado individual ou coletivamente, e essa escolha coube aos próprios licenciandos. Quando escolhida a forma coletiva, cada recitalista deveria evidenciar integralmente o seu papel, enquanto compositor, arranjador, intérprete (instrumentista/cantor), dirigente de grupos, e/ou quaisquer outros papéis que esse viesse a assumir na direção de grupos. Assim, cada estudante ficou responsável pela produção do seu próprio recital. O RF poderia ser realizado em um tempo de trinta minutos, se individual e de cinquenta minutos, se coletivo. A concepção primeira do RF foi que “toda apresentação ou espetáculo é um evento social, que serve também para aproximar amigos, atualizar assuntos, fortalecer laços afetivos”. Posteriormente, essa ideia foi ampliada para Recital Musicopedagógico à luz da PropMpCDG. (NUNES, H. Et al, 2018). Entendeu-se que o momento do Recital era um espaço de trocas, onde o fazer musical não se restringia apenas ao músico/professor, mas convidava a plateia a ser mais que espectadores; a convidava para aprender e compartilhar novas experiências musicais. Entre os músicos-professores, o RF era para ser um momento de encontro para “cumprimentos, das trocas de novidades”, e tudo deveria contribuir e ser considerado como parte importante para ambos, palco e plateia. Nesse sentido, se esclarece que tais experiências deveriam ser “fruídas, com o público ainda no saguão”. Nele, deveria ser criada uma “Exposição, aproveitando resultados concretos de todas as fases do Curso, como trabalhos em grupo, vídeos de provas, intervenções do Estágio Curricular Supervisionado”. Para tanto, recursos como vídeos, fotos, gravações de áudio, objetos virtuais de aprendizagem e instrumentos construídos poderiam ser expostos e compartilhados. Entendeu-se que, em um RF de um professor de Música, diferentes habilidades e competências poderiam ser demonstradas, aceitando-se o repertório trazido pelos estudantes e o ofertado pelo Curso, tanto no RF individual, quanto no RF coletivo. Assim, foram estimuladas apresentações com composições próprias e/ou realizações musicais vividas pelos licenciandos e seus alunos; resultados de atividades desenvolvidas no Estágio Supervisionado e/ou com a participação de músicos que atuam sob sua
responsabilidade musical; e/ou outras sugestões feitas pelo(s) recitalista(s), desde que aprovadas por seu orientador33. Dessa forma, o RF se tornou parte relevante do
Sistema de Avaliação do PROLICENMUS, devidamente integrado ao instrumento PIP.
• Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) – componente curricular realizado sob a forma um artigo científico, totalizando noventa horas de trabalho, integralizada às 2.895 horas do Curso. A exigência é que representasse, significativamente, cada cursista, ao longo de sua trajetória de estudos no PROLICENMUS. A proposta do TCC possibilitou que esse documento decorresse do PIP e fosse devidamente homologado pela banca avaliadora, no SIP. Esse trabalho deveria ser entendido pelo cursista como um documento que representasse a sua formação; portanto, todas as suas habilidades e competências adquiridas durante o Curso poderiam ser identificadas e discutidas, no TCC. Ele deveria significar o coroamento dos estudos do licenciando, no que se referissem a seu desenvolvimento, de tal modo, que todas as suas ações e escolhas convergissem e resultassem, coerentemente, ao lado dos PIEs e do PIP. Era esperado que o documento do TCC revelasse o seu olhar individual sobre esses instrumentos e, concomitantemente, pudessem ser acompanhados por tutores, professores, colegas e pelo próprio aluno, na sua jornada enquanto cursista. O modo como e os caminhos, pelos quais cada um faria o seu TCC, caracterizaria seu percurso individual, sob seu olhar maximizado, emoldurado pela Matriz Curricular do Curso e, consequentemente, definia o perfil profissional desse licenciando. Dessa forma, o estudante deveria pensar em seu TCC como uma possibilidade de mobilização de seus conhecimentos, desde o primeiro momento do Curso até sua formatura, em fusão entre processo e produto. Na proposição do PPC do Curso, qualquer que fosse sua natureza ou especificidade, eles funcionariam como referência para aplicação no ensino de Música na escola; potencializaria a pedagogia da sala de aula; representaria a culminância do processo de desenvolvimento particular e desafiaria o formando para sua formação continuada. Enfim, o TCC no PROLICENMUS tinha o desafio proposto de ser um produto final resultante de um
33 Orientações do material elaborado para o Curso de Licenciatura em Música da UFRGS e Universidades Parceiras, do Programa Pró-Licenciaturas II da CAPES. Produzido pela equipe do CAEF. Porto Alegre, 2011.
processo formativo pensado e repensado, durante todo o Curso, pela Mediação - e com o suporte do PIP. Devidamente evidenciado e apreciado por todos na moldura do último SIP, autorizado pelos conceitos legais que revelavam a escolha final e particular de cada licenciando (UFRGS, 2010). Logo, na condição de sua formação enquanto professor de Música, o TCC foi submetido sob a forma de uma prova de Defesa da Produção Intelectual, que proporcionou o fechamento de todo o processo formativo. Assim, ao mesmo tempo que este aluno produzia um documento que poderia ser visto como um Memorial, um registro qualificado de seu percurso, ele produziu, também, as bases para sua vida profissional como diplomado.
Quadro 8 - Síntese de Molduras e Instrumentos do Sistema de Avaliação PROLICENMUS SISTEMA DE AVALIAÇÃO DO PROLICENMUS (SAP)
MOLDURAS
Exigências Legais e Institucionais (ELI) Seminários Integradores Presenciais (SIPs) INSTRUMENTOS
Níveis de Avaliação (NA) Projeto Individual Progressivo (PIP)
Instrumentos Auxiliares
Nível 1 (N1) Estágio Curricular Supervisionado (ECS)
Nível 2 (N2) Recital de Formatura (RF)
Nível 1 (N3) Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)
Técnicas e Estratégias de Viabilização
Projeto Individual de Estudos (PIE) Classificação por Cores (CC) Testes, Provas, Trabalhos orais e escritos
Defesa de Produção Intelectual (DPI)
Fonte: Elaborado pelo autor
Como visto e resumido no Quadro 8, no Sistema de Avaliação do PROLICENMUS houve Molduras e Instrumentos rigorosos, formalizados e compartilhados, próprios, sim, ao controle; mas concebidos para serem aplicados de forma aberta, discutida e responsável, a partir da perspectiva de um si mesmo comprometido e honesto. Assim, tratou-se, de fato, de um Sistema; isso é, um organismo constituído de elementos interdependentes, mas articulados de modo a formar um todo consistente. Entende-se como organismo, em um sentido também filosófico dado por Aristóteles, aquele que “[...] na sua totalidade, deve ser apropriado ao fim a que se destina e estar a ele subordinado, também as partes do organismo devem ser
subordinadas à totalidade[...]” (ABBAGNANO, 2012, p. 854). Na próxima seção, busca-se resgatar, por meio da técnica de Grupo Focal, a partir das memórias dos que viveram o PROLICENMUS, a percepção, a compreensão e os impactos do Sistema de Avaliação do PROLICENMUS, na caminhada profissional de seus integrantes, durante e após a finalização do Curso.