Parte II – Projeto de Ensino Artístico
2. Enquadramento teórico
2.5. Aprendizagem do violino
2.5.1. Modelo da Espiral de Desenvolvimento de Keith Swanwick
Baseando-se na ideologia de Piaget (1971, cit. Fernandes, 2015), que defende que o conhecimento processa-se por etapas e é construído pelo indivíduo na sua relação com o meio, Swanwick e Tillman desenvolveram a teoria da Espiral, que associa as várias etapas do desenvolvimento psíquico aos diferentes estádios de desenvolvimento musical (Swanwick, 1988).
O primeiro estádio vai até aos 4 anos, mais ou menos. A sua principal característica é a existência de experiências que as crianças têm com as coisas, através do batimento e da exploração das possibilidades de produção de sons dos instrumentos. No segundo estádio, que vai dos 5 aos 9 anos, a manipulação dos sons já funciona como uma forma de manifestação do pensamento, dando origem às primeiras composições, muito parecidas com as que as crianças conhecem porque, repetidamente, as cantam, tocam e ouvem. As criações tornam-se mais inovadoras e variadas, a partir dos 10 anos, num movimento que podemos designar de especulativo. Em seguida, já no início da adolescência, as variações passam a respeitar os padrões de determinados estilos específicos, muitas vezes o pop ou o rock, "idiomas" em que é possível estabelecer conexões com outros jovens. Por fim, a partir dos 15 anos, é possível desenvolver um quarto estádio, que engloba os outros três, em que a música representa um valor importante para a vida do adolescente, marcado mais por uma relação emocional individual, e menos por tendências passageiras ou por algum tipo de consenso social. (Swanwick, 2010, cit. Costa, 2009/2010, p. 46-47)
O Modelo da Espiral de Desenvolvimento Musical descreve o desenrolar da consciência em relação aos elementos do discurso musical: materiais, expressão, forma e valor (Swanwick 1979 e 1983, cit. França & Swanwick, 2002). Swanwick e Tillmanidentificam oito níveis qualitativamente diferentes, sequenciados hierárquica e cumulativamente: Sensorial e Manipulativo (Materiais), Pessoal e Vernacular (Expressão), Especulativo e Idiomático (Forma), Simbólico e Sistemático (Valor) (França & Swanwick, 2002).
Rumo à partilha social
Figura 10. Espiral de desenvolvimento de Keith Swanwick (fonte: Swanwick, 1988, p. 76)
Segundo Estevens (2014), a camada Materiais é caracterizada pela perceção, exploração e domínio de produção dos sons dos instrumentos.
Swanwick (1988, cit. Grossi, 2014) defende que as respostas referentes à segunda camada, Expressão, surgem, inicialmente, a nível pessoal. Neste estágio de desenvolvimento, “as pessoas percebem que a música possui um caráter expressivo e tendem a associá-la com sentimentos ou estados emotivos de caráter pessoal” (Grossi, 2014, p. 30). No nível vernacular, o caráter expressivo é reconhecido através de convenções musicais estabelecidas, como frases e organização métrica (ibid., 2014).
A terceira camada, Forma, caracteriza-se pela tomada de consciência e controle da figura musical expressa nas relações entre os gestos musicais (Estevens, 2014). De acordo com Grossi (2014), “as pessoas reconhecem tanto a existência de relações estruturais entre os eventos da música, quanto a coerência na organização dos materiais e da expressão; observam que entre os eventos há, por exemplo, repetições, contrastes, tensão, desvios, repouso, etc.” (p. 31).
7. Simbólico A música é produzida com uma forte adesão pessoal 5. Especulativo Há evidência de relações estruturais apoiadas por contraste ou transformação 3. Pessoal Há carácter expressivo: gestos ou atmosferas musicais 1. Sensorial Há prazer na exploração e produção de sons 10-15 8. Sistemático Há pensamento musical original, imaginativo e crítico, desenvolvido sistematicamente 6. Idiomático As relações estruturais são desenvolvidas num contexto estilístico particular com uso de dispositivos idiomáticos 4. Vernacular O carácter expressivo é produzido num quadro de práticas musicais convencionais 2. Manipulativo Há controlo na manipulação dos sons 15 + 4-9 0-4
O último e mais alto nível de experiência musical identificado por Swanwick é aquele em que o sujeito demonstra um envolvimento com sistemas de valor social (Grossi, 2014). Na camada Valor, “a música passa a ter relevância para o indivíduo e emerge a necessidade de se pensar sobre as experiências, sentimentos e valores a ela associados” (Estevens, 2014, p. 27).
Sobre o patamar Valor, Swanwick afirma:
A música passa a ter relevância para o indivíduo. Surge a necessidade de refletir, de falar com os outros sobre as experiências, os sentimentos e os valores. A passagem do modo idiomático, mais centrado ou subjetivo para este novo nível mais descentrado faz-se gradualmente e, por vezes, de modo impercetível. A diferença qualitativa entre o compromisso pelo estilo musical concreto, que é estimulado socialmente, e a primeira fase da metacognição, é essencialmente uma diferença simbólica. Nesta diferença, o que muda parece ser a tendência para determinado estilo musical começar a coincidir com certas estruturas da mente. As preferências musicais, ou de qualquer outro tipo, não são determinadas pelo consenso social. São sim, determinadas por um desejo forte de autorrealização, onde as pessoas se podem encontrar divididas pela intensidade dos seus sentimentos. Adquire-se uma forte consciência dos limites, bem definidos, da própria personalidade. (2006, cit. Costa, 2009/2010, p. 46)
Para Swanwick (1988), cada lado da espiral representa a natureza dialética do envolvimento musical. Grossi (2014) refere que o lado esquerdo e direito são respetivamente associados aos processos de assimilação e acomodação. Segundo Swanwick (1996, cit. Grossi, 2014) o lado esquerdo está associado à dimensão da motivação interna. Inicia com a exploração quase totalmente intuitiva das qualidades sensoriais do som, que se transformam em expressividade pessoal, e depois em especulação estrutural, e no último estágio, num compromisso pessoal para com o significado simbólico da música (Swanwick 1996, cit. Grossi, 2014). Essas perceções intuitivas são estendidas e nutridas pelo lado direito, analítico e imitativo em influência, “através do controle da habilidade, das convenções do vernáculo musical, autenticidade idiomática, a da extensão sistemática das possibilidades musicais” (Grossi, 2014, p. 32)
A forma espiral dada ao esquema teórico, onde as camadas são estabelecidas, revela que embora haja uma sucessão de níveis de desenvolvimento musical, tal desenvolvimento deveria ser entendido como um processo cumulativo e cíclico (Grossi, 2014).
A relação deste modelo com este projeto situa-se no potencial de análise que permite fazer dos desempenhos das crianças, bem como do potencial pedagógico na condução de novas aprendizagens. Os alunos, no presente projeto, situam-se nas idades entre os 5 e os 11 anos, o que, segundo esta espiral, os coloca por entre as três primeiras camadas. Isso significa que é espectável que manifestem desempenhos situados no nível do controlo dos materiais e da expressão e que algumas crianças comecem já a estar conscientes ao nível das relações estruturais da música. O ensino do violino que pretenda promover o desenvolvimento dos alunos, deve, portanto, estimular o desenvolvimento dessas três camadas, de acordo com o potencial de cada criança.
Para além deste conhecimento acerca do potencial de cada estudante, é fundamental desenhar um conjunto de estratégias metodológicas que tenham, não só valor didático, mas também que contribuam para uma aprendizagem consistente e motivante. O Método Suzuki
apresenta algumas estratégias de aprendizagens ativas e envolvimento das famílias que parecem ser fundamentais para a consecução destes objetivos.