Os Media-construtores da realidade social
5. A Realidade Social do Jornalismo
5.1. Sistemas mediáticos e práticas jornalísticas
5.1.3. Modelo da Responsabilidade Social do Jornalismo
Este modelo emergiu ao longo do século XX e é fruto de uma alteração gradual do modelo revolucionário, que passou a ser obsoleto face aos novos contextos sociais, económicos, culturais e políticos. O desenvolvimento urbano, industrial e sobretudo tecnológico, bem como o nível educacional dos indivíduos ampliou os mercados de
media e de audiências. Assim, e apesar de manter basicamente as funções do modelo
jornalístico anterior instaura um novo princípio: a liberdade é acompanhada concomitantemente por obrigações. Por outras palavras, este modelo de concepção anglo-saxónica criou uma comissão em prole de uma Imprensa livre, mas também responsável. Foram criados novos standards de desempenho profissional, formulados novos códigos éticos e os media começaram a operar em nome do bem público (Merrill, 1993).
Esta mudança ou, se quisermos, revisão de paradigma, deveu-se ao crescimento rápido do volume de órgãos de comunicação social concentrados em apenas alguns grupos de comunicação. Estes gigantes da comunicação desencadearam um mal-estar social e começaram a ouvir-se as primeiras críticas (cf. Peterson, 1956): 1. Os media começam a possuir um enorme poder e os seus proprietários a poderem difundir a sua própria opinião, especialmente em matérias sensíveis como a Economia e a Política; 2. Os
media começam a assumir uma atitude de subserviência para com aos grandes
anunciantes que passaram a influenciar as suas políticas editoriais; 3. Os media resistem às mudanças sociais; 4. Os media dão mais atenção ao superficial e ao sensacional do que àquilo que é significativo nos factos da actualidade, bem como começam a pecar por falta de substância no entretenimento; 5. Os media põem em perigo a moral pública;
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6. Os media começam a invadir a privacidade das pessoas desnecessariamente; 7. Os
media são controlados por uma classe sócio-económica, passando a ser uma indústria de
difícil acesso para outras classes, colocando em perigo o mercado livre e aberto às ideias que até então se defendeu.
Ora, isto colocava a sociedade num novo totalitarismo. O modelo da responsabilidade social de jornalismo surge assim como uma salvaguarda a esta nova ameaça à Democracia. Joseph Pulitzer foi um defensor deste paradigma para as escolas de jornalismo pois só «os mais elevados ideais profissionais, o mais escrupuloso empenho
de fazer o certo, o cumprimento do conhecimento mais rigoroso acerca dos problemas e o sincero sentido de responsabilidade moral, salvarão o jornalismo da subserviência aos interesses económicos, que buscam objectivos egoístas, antagonistas com o bem- estar público» (Pulitzer, 1904:658). Palavras similares tiveram também outros editores,
aos quais se juntaram produtores de cinema, de rádio e televisão, o que promoveu a formulação de novos códigos éticos para o exercício da comunicação69.
Com o surgimento da radiodifusão, novas Rádios surgiam todos os dias, utilizando simultaneamente os mesmos cumprimentos de onda. Perante essa profusão caótica, o governo foi chamado a intervir, sendo nesta altura que se deu o maior contributo para a implementação do modelo da responsabilidade social. Apesar da lei proibir a censura, a intervenção do governo, através da Comissão Federal de Rádio, criada em 1927, pelo
69 Os cânones deste modelo de Jornalismo adoptados pela Sociedade Americana de Editores de Jornais,
em 1923, apelavam para a prática responsável do jornalismo, tendo em conta «o bem-estar geral, a
sinceridade, a veracidade, a imparcialidade, o fair-play, o decoro e o respeito pela privacidade individual» (Peterson, 1956:85). Em termos jornalísticos foram considerados os seguintes requisitos,
pela Comission on Freedom of the Press (1947): 1. Os media devem dar conta dos factos do dia de modo compreensivo, verídico e inteligente, por forma a dar sentido ao contexto dos factos. Este requisito exigia rigor aos media e isso significava situar o facto como facto e opinião como opinião; 2. Os media devem servir como um fórum de intercâmbio de comentários e críticas. Assim, os grandes grupos de comunicação devem considerar-se como um espaço de de discussão pública, onde possam estar representados os diferentes pontos de vista e não apenas aqueles que as operadoras defendam (este requisito, no entanto, não tinha “poder” para obrigar os editores a aplicá-lo nem ao governo a regular as taxas de cumprimento); 3. Os media devem oferecer um retrato social que seja representativo dos grupos que constituem a sociedade de modo a não favorecer a concepção de julgamentos estereotipados de grupos minoritários (tinham sobretudo em consideração os grupos dos negros e dos chineses e o objectivo era gerar nos media o respeito pelo sentimento nacional e a sensibilidade pelas diferenças raciais e religiosas); 4. Os media são responsáveis pela apresentação e clarificação dos objectivos e valores da sociedade; 5. Os media devem proporcionar o pleno acesso ao denominado “day’s intelligence”, pois o público tem o direito de aceder à informação, o direito básico de ser informado e a Imprensa seriam os agentes do público para a quebra de barreiras à livre circulação de notícias.
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Congresso, teve por objectivo trazer alguma ordem com a atribuição de licenças para frequências de rádio, bem como supervisionar os conteúdos dos programas em nome do interesse público70. As instruções eram claras: para todos aqueles que não cumprissem as recomendações seriam punidos com as respectivas revogações de licença, pois os difusores de rádio eram meros administradores das frequências de rádio e não seus proprietários.
A questão é que os teóricos que formularam este modelo de jornalismo tinham uma ligeira diferença quanto à percepção da natureza humana, comparativamente com o modelo antecedente. O modelo da responsabilidade social do jornalismo não renega a racionalidade do homem, porém delega-lhe menos confiança que o seu antecessor. Apesar de reconhecer no homem uma motivação inata para procurar a verdade, vê-o também como um ser letárgico que nem sempre é pró-activo no uso da sua racionalidade. Essa natureza conformista do Homem, coloca-o facilmente nas mãos de demagogos, da publicidade enganosa e de outros que podem manipulá-lo com fins egoístas. Daí, mais do que a necessidade moral de defender a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão é imperativo zelar pelo direito do cidadão a uma informação adequada.
Em suma, o modelo da responsabilidade social do jornalismo foi mais além do que o “tipo de liberdade” que o jornalismo revolucionário defendeu – a liberdade para o indivíduo. O jornalismo responsável defende sobretudo a liberdade para a sociedade71. Daí que todos (imprensa, público e governo) tenham de perder parte da sua liberdade individual a favor de uma liberdade mais ampla que remeta para o bem-estar geral (Hocking, 1947).
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Para este modelo de jornalismo o governo continua a ser o legatário residual de responsabilidade para o desempenho adequado da Imprensa. Assim, «o governo deve ajudar a sociedade a obter os
serviços que necessita dos mass media se uma auto-regulação da Imprensa e o “auto-alinhamento” da vida comunitária não forem suficientes para lhe satisfazer essas necessidades. O governo deve actuar de diversas maneiras. Pode legislar contra abusos flagrantes da Imprensa que envenenam a opinião pública ou entrar no campo da comunicação para complementar os media existentes». Ainda assim, mantém-se
a defesa pela propriedade privada dos media. O governo deveria intervir, mas cautelosamente, pois
«qualquer agente capaz de promover a liberdade é também capaz de a destruir» (Hocking, 1947: 182-
93).
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De acordo com a Comissão para a Liberdade de Imprensa, o direito à liberdade de expressão deve ter em conta os direitos privados dos outros bem como os interesses vitais da sociedade (Comissiono n Freedom of the Press, 1947).
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