A tomada de decisão noticiosa
C 5 = Editor da área Internacional do jornal
2. O processo do Gatekeeping noticioso
2.2. Os eventos à entrada dos Gates
Dos milhares de eventos (acções, personalidades, assuntos) que surgem à entrada das organizações de comunicação, apenas uma quantidade ínfima consegue passar a
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fronteira do primeiro gate e inicia todo o percurso concepcional até chegar a “item noticioso”, publicado ou emitido a uma audiência. Ou seja, o que faz com que alguns eventos sejam ignorados e outros seleccionados pelo media são os atributos qualitativos com que surgem aos gatekeepers. Seguindo mais uma vez Shoemaker e Vos (2009), enumeramos as características que potenciam as possibilidades dos eventos, primeiro, chamarem a atenção dos responsáveis editoriais e, depois, entrarem no processo de construção noticioso:
- Um dos mais importantes valores dos eventos mediáticos – entendidos enquanto acontecimento, personalidade ou assunto – é o seu desvio relativamente á norma geral224. Logo, a lei e a norma vigente numa dada sociedade acabam por criar as fronteiras entre aquilo que não é notícia por estar em conformidade com o expectável, e aquilo que é notícia por estar em dissonância com o desejável. Portanto, os eventos ‘fora da lei’ têm maior probabilidade de virem a entrar nos canais noticiosos e ser processados em itens noticiosos, sendo um princípio jornalístico que vigora em todo o mundo (cf. Shoemaker et al., 1987; Shoemaker & Cohen, 2006).
- Os eventos entendidos como pessoas proeminentes ou as designadas celebridades têm também uma maior prevalência entre os itens noticiosos. E isso porque para a maioria das pessoas essas figuras têm uma vida fora do normal e logo acabam por ter interesse também para os gatekeepers que visam captar as audiências. Sobretudo nos sistemas mediáticos onde as linhas que separam a informação do entretenimento (infotainment) são muito ténues, estes eventos tendem a conseguir «saltar os mais altos portões» (shoemaker & Vos, 2009:25). Daí as inúmeras notícias que narram estórias - muitas vezes irrelevantes - sobre celebridades só pelo protagonismo que têm junto do grande público225.
- Os eventos com maior vivacidade têm também maior probabilidade de entrar no canal de processamento de notícias. Nisbett e Ross (1980) realizaram um estudo sobre a
224 A norma geral aqui entendida para a generalidade das pessoas. Pois um mesmo acontecimento pode
ser trivial se tiver ocorrido a um cidadão anónimo e ter uma grande importância mediática se acontecer a uma celebridade. Por exemplo a situação clínica do Presidente da República sempre que é hospitalizado é notícia mas se for um desconhecido não tem qualquer valor mediático.
225 Nas últimas décadas este tipo de evento fez recrudescer o número de publicações e programas de
Televisão que mais parecem autênticas paradas de celebridades, muitas das quais em plenas actividades rotineiras, enchendo páginas e páginas de mexericos. E até em programas ou títulos informativos é frequente encontrar este tipo de item noticioso.
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atractividade nas pessoas e perceberam que há uma maior propensão para reter e recordar informações vivas (com mais acção, emoção, excitação, ritmo, cor, etc.) do que informações pálidas e secas226. Os autores identificaram os elementos de vivacidade nas mensagens:1. serem emocionalmente mais interessante; 2. terem imagens concretas e provocantes; e, 3. Terem proximidade – sensorial, temporal e/ou espacial – com as pessoas. É por isso que, de uma maneira geral, informações sobre pessoas conhecidas ou que têm uma ligação afectiva com o público, são mais interessantes para uma dada audiência, do que outras relativas a estrangeiros ou a pessoas com uma afectação neutra. Também os relatos de situações anedóticas ou de casos pessoais são muito mais apelativos para a mente humana do que um amontoado de dados desumanizados. Da mesma forma as informações recolhidas em primeira-mão são muito mais vivas. Os autores apontam como factor de êxito desses atributos informativos, o facto desse tipo de conteúdo permitir uma informação mais “imaginável”, pois incita a capacidade de produção de imagens no cérebro.
- Os eventos com elevada qualidade e atractibilidade são muito mais bem-vindos aos ‘portões’ noticiosos do que mensagens semelhantes com outras que já passaram para os canais de concepção. Já os eventos que chegam à entrada com uma veracidade duvidosa têm menos probabilidade de entrar, a não ser que mereçam o esforço de serem reavaliados227 no apuramento da verdade. Também os eventos que colidam à entrada com as crenças dos respectivos gatekeepers podem causar stress cognitivo (Festinger, 1957), dificultando a decisão ou, pior, promovendo erros de julgamento na classificação da informação entre hard ou soft news (Greenberg & Tannenbaum, 1962).
- As estruturas narrativas com que os eventos chegam aos ‘portões’ decisórios, também podem constituir um facilitador para a entrada da mensagem nos ‘portões’ (Gans, 1979b). Ou seja, um evento que se preste ao formato de estória, que «tenha uma
estrutura e um conflito, um problema e um desfecho, uma acção que cresce e decresce, que tenha um início, um meio e um fim» (Epstein, 1973:153) tem mais probabilidade de
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Eis o exemplo de um evento: a estória de «uma família sem-abrigo que se esforça para celebrar o
Natal com a sua filha de 4 anos tem mais chances de ser seleccionada para notícia do que as estatísticas de pessoas miseráveis a viverem a quadra natalícia. E se se recolher imagens fortes, provocantes da criança a pedir uma boneca, tanto melhor. E se a menina e a família foram vistas pela fonte noticiosa a viverem a sua miserável condição num parque local, ainda mais provável é que se torne um item noticioso» (Shoemaker & Vos, 2009:26).
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ser escolhida para ser processada em notícia. Também Bennett (1988) salientou que os eventos muitas vezes só se tornam notícias quando atingem proporções dramáticas intensas, com grandes intrigas entre as personagens e no fim o enredo seja resolvido. - Contudo, há que salientar aqui que os eventos não possuem inerentemente um valor mediático. A relevância informativa é uma construção cognitiva feita por jornalistas que, como qualquer ser humano, faz julgamentos, avaliações sobre o que ocorre à sua volta, tendo em conta a ideia que têm sobre o que os públicos pensam em relação ao interesse jornalístico. São muitos os atributos228 que dão valor noticioso aos eventos, e quanto maior for o número desses atributos e mais se combinarem entre si (no mesmo evento), tanto mais os eventos se tornam seleccionáveis. Isto é importante, pois deixa a nu o quanto as notícias tornadas públicas são fruto de uma construção simbólica da realidade, através de artefactos sociais, palavras e imagens que a informação transmite. Não obstante, é abusivo assumir-se que todas as notícias que estão diariamente na ordem do dia sejam compostas apenas por eventos que obtiveram maior valoração na avaliação jornalística. Shoemaker e Reese (1996) chamam a atenção que a rotina profissional é apenas um dos níveis de análise que interfere no produto noticioso final.