2. CAPÍTULO 2 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.1 FUNDAÇÕES PROFUNDAS: ESTACAS
2.1.2 Capacidade de Carga de Estacas
2.1.3.5 Modelo de Coyle-Reese
Coyle e Reese (1966) utilizaram, como base de estudo, dados de estacas metálicas cravadas em argila, estudando cenários para a obtenção de funções de transferência de carga através de dados de instrumentação de estacas com strain gages em profundidade, dados de ensaios de campo e dados de ensaios de laboratório.
Os autores desenvolveram um método para a obtenção da curva carga- recalque no topo de uma estaca carregada axialmente, baseado em funções de transferência de carga para o fuste e para a ponta, as quais são admitidas conhecidas. Em suma, o procedimento consiste na subdivisão da estaca em
n
elementos, com as devidas forças atuando em cada segmento. Através do equilíbrio estático, computam-se as forças e os deslocamentos de cada elemento, de modo iterativo, progredindo da base ao topo da estaca.
No modelo baseado em funções de transferência de carga de Coyle e Reese (1966), o meio (solo) não é contínuo: é "discreto". Isto é, o deslocamento de um elemento não é causado pelo atrito de outros elementos. O mesmo vale para a reação de ponta, que não influencia o deslocamento de outros elementos, a não ser a ponta. Mas a estaca é admitida contínua, sendo considerada a interação entre seus elementos.
A seguir é apresentado o roteiro detalhado para procedimento do cálculo e obtenção da curva carga-recalque conforme o modelo de Coyle e Reese (1966), tendo como base a Figura 2.9.
O modelo tem por objetivo obter as forças e deslocamentos em cada elemento pré-definido da estaca (elementos
i = 1
an
), através do equilíbrio estático, utilizando-se a Lei de Hooke e as funções de transferência de carga para o atrito e ponta.O atrito lateral total da estaca,
A
l, é dado pela somatória deP
1 a P
n, e aresistência de ponta é dada por
Q
p (Figura 2.9). O cálculo é iterativo e, portanto, oPara cada elemento
i
, pode ser adotada uma seção transversal e um módulo de elasticidade, além de considerado um atrito lateral unitáriof
i referenteàquela camada de solo.
Com base nestas informações, parte-se para a aplicação do modelo, seguindo-se os passos
I
aX
, sendo utilizada a notação adotada na presente pesquisa:Figura 2.9 – Estaca carregada axialmente, com indicação das forças atuantes em cada elemento (fonte: adaptado de COYLE e REESE, 1966).
I
. Inicia-se com a escolha arbitrária de um valor pequeno para o recalque da ponta,y
p. Calcula-se a carga de pontaQ
p.II
. Estima-se um deslocamento médio para o elemento da ponta (y
n). Para a primeira iteração, adota-sey
n =y
p.III
. Utilizando-sey
n, estima-se o atrito lateral unitáriof
n neste segmento,através da curva conhecida
f
n= f(y
n)
.IV
. Conhecendo-se o atrito lateral unitáriof
n, computa-se a força atuante notopo do elemento
n
,P
n-1 (Eqs. 39 e 40):n p n Q P P1 (39) n n n f D L P
(40)onde
P
n é a carga devido ao atrito lateral no elementon
, eD
e L
n são o diâmetroe o comprimento do elemento
n
.V
. Calcula-se o encurtamento elástico da estaca no trecho entre a ponta e metade do elementon
(e/2
), assumindo-se variação linear de carga para pequenos segmentos:S
E
L
Q
P
e
c n p med n
(
/2)
2
2
/
, (41)2
1 , p n med nQ
P
P
(42)onde
P
n,med é a carga atuante na seção média do elementon
eE
c eS
são seumódulo de elasticidade e sua seção transversal.
VI
. Calcula-se o novo deslocamento do ponto médio do elemento da ponta: 2/ e y
yn p (43)
VII
. Comparam-se os valores do deslocamento no ponto médio,y
n, calculado no itemVI
e o admitido no itemII
.VIII
. Caso o deslocamento calculado não seja igual ao admitido com uma tolerância admissível, repetir os passosIII
aVIII
, admitindo paray
n o valor calculado emVI
.IX
. Quando o cálculo convergir, calculary
n-1, que é o deslocamento entre oselementos
n-1
en
: no topo do elementon
e na base do elementon-1
, através da equação:e y
yn1 p (44)
X
. Partir para o elemento de estaca acima, a partir do passoII
, adotando-seP
n ey
n, respectivamente nos lugares deQ
p ey
p. Proceder assim, sucessivamente,até chegar ao elemento
1
, obtendo-se entãoP
o ey
o.Conforme dito anteriormente, no modelo de Coyle e Reese (1966), está implícito que o efeito da carga de atrito de um elemento
i
,P
i (ver Figura 2.9), emqualquer outro elemento da estaca
j
, inclusive a ponta, é negligenciado. Analogamente, o efeito deQ
p nos deslocamentos dos elementosj
do fuste tambémé desprezado.
No que se refere à ponta, Poulos e Davis (1980), Randolph e Wroth (1978), Randolph (1994) e Vargas (1978) também adotaram a hipótese simplificadora de desconsiderar o recalque na ponta devido à carga de atrito lateral.
Vesic (1977) criticou as simplificações do modelo de Coyle e Reese (1966), afirmando que é contraditória à realidade. Nessa linha, Seol et al. (2009) e Seol e Jeong (2009) também criticaram, interpretando que o modelo subestima os valores dos recalques, e propuseram metodologias de análise de transferência de carga “acoplada", que considera o efeito da carga
P
i (e deQ
p) em elementosj
(Figura2.9).
Seol et al. (2009) fizeram análises numéricas através do Método dos Elementos Finitos, em que a resistência do fuste era acoplada, por se tratar de uma abordagem em meio contínuo. Os autores constataram que o acréscimo de recalque na ponta devido à carga do fuste,
y
p,f, é proporcional aA
l e que a relação entrey
p,f ey
p é tanto maior quanto maior forem as relações deA
l/P
o eD/E
b (ver Listade Símbolos). Ou seja, esta parcela seria mais relevante para estacas de atrito. Seol e Jeong (2009) propuseram um método analítico baseado nos fatores de influência de Mindlin (1936), buscando considerar as parcelas de deslocamento em um elemento
i
devido às cargas atuantes nos outros elementos da estaca. Seol e Jeong (2009) concluíram, através de três estudos de casos – obras Pusan, Gimhae e Inchoen, que o valor de y
p,f teria sido relevante e deveria ser levado emconta nos modelos de cálculo para previsão da curva carga-recalque. Entretanto, entende-se que a crítica dos autores não procede para as estacas por eles estudadas, como se mostra no APÊNDICE B – Análise dos dados de Seol e Jeong.