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2. MODELOS TEÓRICOS

2.4. Modelo de margem com risco de preço

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O risco (ou incerteza) de preço consiste na variabilidade em torno de seu valor esperado. O comportamento empresarial diante do risco tem merecido inúmeras considerações, tanto teóricas quanto empíricas, com destaque particular ao trabalho de SANDMO (1971). As aplicações em economia agrícola têm privilegiado a área de produção, com pouca ênfase ao setor de comercialização. Apenas na década de 1980, após o trabalho de BRORSEN et ai., é que o impacto da incerteza de preço sobre as margens de comercialização passou a ser mais estudado.

O modelo de BRORSEN et ai., de natureza estático-comparativa, consiste numa adaptação do modelo de SANDMO para firmas de comercialização agrícola em competição perfeita.

Admitindo-se competição, considera-se uma firma tomadora de preços que produz o produto y a partir da matéria-prima x e .de um vetor z de insumos de comercialização (capital, trabalho etc.). A tecnologia da firma é representada por uma função de produção não-estocástica:

em que/ é uma função crescente e côncava de x e

z.

Sendo p o preço do produto y, r o preço da matéria-prima x e q o vetor de preços dos insumos

z,

considera-se que, no momento da decisão de produção, a firma conheça q e r, mas não conheça com precisão o valor de p ( devido às defasagens de produção).

A demanda é considerada aleatória, com o valor esperado do preço do produto determinado pelo cruzamento da oferta com a demanda esperada de mercado. Admitindo-se a aleatoriedade da demanda como exógena à firma, p é representado por uma variável aleatória com uma distribuição de probabilidade dada, refletindo a expectativa da empresa a respeito do preço do produto.

Supondo que a empresa maximize sua utilidade esperada de riqueza (UE), a decisão de produção é feita de acordo com o modelo:

Max

UE[w+ py-q'z-rx/ y

=

f(x,z)]. (50)

x.z

A expressão (50) define a riqueza da firma com sendo a riqueza inicial, w, mais a receita, py, menos o custo, q'z

+ rx,

em que q'z é o vetor (linha) de preços dos insumos de comercialização multiplicado pelo vetor (coluna) das quantidades desses insumos, e rx é o produto do preço pela quantidade de matéria-prima (note-se que essa soma origina um escalar). A função de utilidade UE é crescente [UEw = (ôUE..t&)>O] e côncava [UEww = (ó2UE/&2)<0] para uma firma avessa a risco.

O problema de maximização representado pela equação (50) é de caráter geral, tendo sido anteriormente apresentado por SANDMO. Para adaptar o modelo para uma firma de comercialização tomadora de preços, · BRORSEN et ai. fazem duas pressuposições restritivas. Primeiramente, a função de produção y = f(x,z) é suposta ser fracamente separável, podendo ser escrita como y = g[x,Ji(z)]. Essa parece ser uma pressuposição razoável nos casos em que o processo produtivo consiste em tomar dada quantidade de matéria-prima e transformá-la em produto final. A segunda pressuposição é que a função g é do tipo de Leontief (proporções fixas) com respeito à matéria-prima24:

24 Quanto aos insumos de z, admite-se que esses podem ter quaisquer elasticidades de substituição não

y = min[; ,h(z)], k>O. (51)

Para analisar melhor a otimização representada pela equação (50), a maximização, sujeita à tecnologia dada pela equação ( 51 ), é decomposta em dois estágios:

MaxUE(w+py-q'z-rx)= Max{UE[w+py- Min(q'z+rx)]}. (52)

x,y,z y x,z

O primeiro estágio é o problema típico de minimização do custo sem incerteza (pois admite-se que os preços da matéria-prima e dos insumos são conhecidos). Sendo x+(q,r,y) e z+(q,r,y), respectivamente, funções de demanda de custo mínimo da

matéria-prima e dos insumos de comercialização, segue da função de produção ( 51) que, para preços positivos, a função indireta de custo tem a forma:

C(r,q,y) = q'z+ + rx+ = m(q,y) + rky,

em que C é uma função linearmente homogênea, crescente e côncava em preços (r,q), e · crescente e estritamente convexa em produto y. Mediante o teorema da curva envolvente

(envelope):

� =X+ =ky; (53a)

éC mi +( ) -=-=z q,y.

étJ étJ (53b)

Essas duas últimas expressões refletem as implicações da tecnologia de produção dada pela equação (51) utilizada na especificação das funções de demanda de custo mínimo da matéria-prima e dos insumos (x+ e

z+,

respectivamente).

Substituindo as equações (53a) e (53b) na equação (52), o segundo estágio de maximização fica:

MaxUE(w+ py-rx+ -q'z) = MaxUE[w+(p-kr).y-q•z+(q,y)]. (54)

Observa-se que p-kr é a diferença entre o preço do produto final e o preço da matéria-prima, em quantidades equivalentes, ou seja, � a margem de comercialização (M). Substituindo M na equação (54), tem-se:

M

ax UE[ w

+

My -q' z+ (q ,y)], (55)

que é um problema de maximização de utilidade esperada com respeito a y sob incerteza deM.

A solução do problema de maximização representado pela expressão (55) é a função de oferta sob risco y*

=

y[w,q,E(p)-Kr,a), em que y* é a solução ótima de produção, E(p) é o preço esperado e ué o desvio padrão do preço25.

A relação entre as funções de demanda rninimizadoras de custo da matéria-prima e dos insumos (x+ e z+) e suas respectivas funções de demanda de resposta

ao risco (x* e z*) são26:

e

x*[w,q,E(p)-Kr,u]

=

x+(y*)

=

ky*[w,q,E(p)-Kr,u],

z*[w,q,E(p)-Kr, cr] = z+[q,y*[w,q,E(p)-Kr, cr]. Diferenciando-se ambas as expressões:

&* =k

01•

.

qw,q,E(p)-kr,cr] · qw,q,E(p)-kr,cr]'

---=

&+

01·

qw,E(p)-kr,cr]

0'

qw,E(p)-kr,cr] (56a) (56b) (57a) (57b) (57c)

25 Ver SANDMO (p.67). A diferença entre as funções de oferta de y e de demandas de x e z em resposta

ao risco (v*, x* e z*, respectivamente) de SANDMO e as de BRORSEN et ai., é a substituição do preço esperado [E(p)} pela margem esperada [E(p)-krJ no último trabalho.

26 Notar que as expressões (56a) e (56b) correspondem à expressões (53a) e (53b), com a substituição da oferta (y) pela oferta sob risco (y*).

As expressões (57a,b,c) permitem importantes conclusões acerca do impacto da incerteza sobre a oferta de produto e as demandas de matéria-prima e insumos de comercialização. A equação (57a) mostra que a influência da mudança na incerteza ( ôo-) sobre a demanda de x* é proporcional ao seu efeito sobre a produção y*. A influência da incerteza sobre z* pode ser obtida da equação (57c); caso ôy*/ôu <O, a implicação é que um aumento da incerteza reduzirá tanto a oferta do produto quanto a demanda dos insumos

z

(pois ik.*lôu<O), isto se os insumos no vetor

z

forem insumos não inferiores (&*liJy >O).

Voltando à função de oferta sob risco (y*), BRORSEN et ai. assumem o pressuposto de que a firma possui preferência com aversão ao risco absoluto decrescente (ARAD), ou seja, a aversão ao risco tende a diminuir à medida que aumenta a riqueza. Uma dedução que será importante mais adiante é que, em ARAD, a inclinação da oferta de produto com respeito ao preço esperado é positiva (iJy*lôE(p) >0)27.

Definindo a função agregada de oferta como

r =

Y[w,q,E(M),u) e assumindo que a indústria comporta-se semelhantemente à firma representativa, Y* teria as mesmas propriedades que a oferta da firma (y*). Nesse contexto,

r

poderia ser invertida para uma forma com o preço como dependente:

E(M)

=

E(p) -kr = M[w,q,o;Y]. (58)

É essa equação que permite a análise do comportamento da margem

'---···. .. .. . . . .

esperada sob condições de aversão ao risco. Algumas implicações da equação (58) podem ser obtidas pela sua diferenciação. Da definição da expressão (58):

ôE(M) = ( óY*

)-i

óY tE(p) ' ôE(M) = -( óY*

)-i

ôY*'

iB tE(p) iB

onde 0= (w,q,u).

27 SANDMO (p. 69).

(59a)

A pressuposição de que y* e Y" têm as mesmas propriedades permite que se usem os resultados obtidos por SANDMO e por ISHII, citado por BRORSEN et ai., na derivação das propriedades de E(M).

Admitindo preferência ARAD, SANDMO verificou que [ôY"/ôE(p)) > O, o que implica que a margem esperada é positivamente relacionada com a quantidade de produto [ôE(M)/ôY>O]. Já ISHII, também assumindo ARAD, verificou que o produto decresce com aumento da incerteza no preço [�/ôo- < O], o que permite concluir [da equação (59b)] que:

ôE(M)00" )O '

ou seja, um aumento no risco de preço sempre aumenta a margem de comercialização. Da equação (59b) também se deduz que, em ARAD: [ôE(M)lilJ] � O quando (ôY"/iq) � O, e [E(M)/iq) � O quando (ôY"/iq) � O, ou seja, o impacto de uma mudança no preço dos insumos de comercialização sobre a margem esperada pode ser positivo ou negativo. Entretanto, BATRA & ULLAH, citados por BRORSEN et ai., mostraram que (ôY"lâJ) < O, sob ARAD e complementaridade dos insumos; nessa situação, em que a oferta sob risco diminui diante de aumentos no preço dos insumos, segue-se que a margem esperada aumenta com o preço dos insumos de comercialização.

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