2.2 MODELOS DE INOVAÇÃO
2.2.2 Modelo interativo do processo de inovação
A partir dessa nova abordagem, enfatiza-se que o início da inovação não está na ciência, mas, no projeto (design). As inovações avançam através de projetos e reprojetos, que se realizam com a contribuição de diversas fontes de feedback e interações entre Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) em todas as fases.
As formas de relacionamento entre pesquisa e atividade econômica são múltiplas, e o processo de inovação é percebido como sendo interativo e multidirecional, não havendo uma etapa apenas (invenção), em que o aumento do conhecimento seja aproveitado pelo sistema econômico (ROSENBERG, 1979; NELSON; WINTER, 1982; DOSI, 1988).
O modelo não-linear ou interativo, proposto por Kline e Rosenberg (1986), se tornou o modelo que se contrapôs ao modelo linear, que (Figura 14) é constituído por uma cadeia central de inovações, composta pelos seguintes estágios: i) identificação do mercado potencial; ii) invenção do projeto básico; iii) projeto detalhado e teste; iv) reprojeto e produção; e v) distribuição e mercado. A existência de feedback loops entre as atividades de pesquisa e o desenvolvimento da empresa é característica central do processo de inovação nesse modelo.
Segundo Kline e Rosenberg (1986), o modelo interativo (Figura 14) tem, dentre outras características, a possibilidade de cinco caminhos distintos para os processos inovativos, sendo eles:
a) caminho central da inovação. Começa a partir do mercado potencial, conduzindo a um projeto que será detalhado na fase de desenvolvimento, produzido, distribuído e comercializado, começando do mercado e tendo como centro a empresa;
b) caminho dos feedbacks, recebidos no processo. Admite a interação dos usuários e das necessidades percebidas no mercado, com as etapas de desenvolvimento e
produção, indicando qual o potencial de aprimoramento do produto/serviço na próxima rodada de projeto.
c) caminho de interação com o conhecimento e a pesquisa. Consiste na busca de soluções para problemas. Destaca-se ainda que o relacionamento com a pesquisa não ocorre apenas no início do projeto de inovação, mas também descreve o modelo linear, porém, durante todo o processo;
d) caminho de possibilidade de inovação a partir da ciência. Mesmo sendo mais raro, tende a produzir mudanças significantes, bem como marcar o surgimento de novas indústrias por meio de inovações radicais;
e) caminho de feedback dos produtos inovadores para a ciência. Acontece por meio da contribuição da indústria para o avanço da ciência, e muitas das descobertas científicas só foram possíveis com os avanços de instrumentos e dispositivos especializados desenvolvidos pelas indústrias.
Figura 14 – Modelo interativo de inovação (modelo de ligações em cadeia)
Fonte: Adaptado de Kline e Rosenberg (1986) Pesquisa Conhecimento Cadeia Central de Inovação Mercado potencial Invenção e/ou projeto conceitual Projeto detalhado e testes Revisão do projeto e produção Distribuir e comercializar C C C C K K K I I I D M S 1 2 4 1 2 4 1 2 4 3 3 3 F f f f f f f
Legenda da Figura 14: C – cadeia central de inovação; D – ligação direta entre a
investigação e a fase inicial da invenção/realização do projeto analítico; F – efeito particularmente importante de retroação, entre necessidades do mercado e utilizadores, bem como as fases a montante do processo de inovação; f – efeitos de feedback ou de retroação entre fases contíguas; M – apoio à investigação científica, proveniente de instrumentos, máquinas, ferramentas e procedimentos da tecnologia; S – apoio à investigação científica, através de programas públicos de investigação, que pretendem responder às necessidades da sociedade/mercado; e K-I – ligações entre conhecimento (K) e investigação (I) nos dois sentidos.
Na parte inferior da Figura 14, na qual é mostrado o modelo de ligações em cadeia (Chain-Link Model), na cadeia central de inovação (C), observa-se que, entre todas as fases, podem ser constatados efeitos de retroalimentação ou feedback (ligações F e f). No que tange aos fluxos do processo de inovação aos possíveis caminhos do modelo interativo, estes não são excludentes, e, no momento em que se encontra um problema no caminho 1, pode acionar-se o caminho 2 ou o caminho 3, na busca de soluções para a dificuldade. Todavia, pode ser mais difícil obter uma solução, por meio da investigação, do que pelo estoque de conhecimento já existente. Diante do exposto, o retorno da pesquisa para a aplicação prática não é imediato, e a ligação 4 nasce (de forma tracejada).
Os efeitos de retroalimentação ou feedback (ligações F e f) implicam a interligação entre as atividades de especificação do produto, de desenvolvimento, bem como dos processos de produção e comercialização. Os feedbacks, gerados entre os departamentos de P&D e as unidades de produção, são representados na segunda via (f). Vale ressaltar ainda que os feedbacks tratam-se do efeito mais importante, visto representarem a solução de problemas dentro da organização, através do processo de inovação, ou as fontes de inovação relacionadas ao processo de aprendizagem (ROSENBERG, 1982; KLINE; ROSENBERG, 1986).
Segundo Kline e Rosenberg (1986), na maioria das vezes, a empresa inova, utilizando os conhecimentos acumulados ao longo do tempo (ligações 1 e 2). Assim, a ligação da ciência com a inovação não incide somente no início do processo de inovação, mas, ao longo de toda a cadeia central, propiciando a maioria das inovações incrementais em diferentes indústrias (PAVITT, 1984; CHRISTENSEN, 2002; BESSANT; TIDD, 2007).
De acordo com Kline e Rosenberg (1986), a quarta via representa o avanço do conhecimento científico na origem das inovações radicais (ligação D), as quais são raras, contudo, quando ocorrem, provocam quebras de paradigmas. A quinta via (ligação M)
abrange a retroalimentação dos produtos da inovação (máquinas e instrumentos) para a ciência, e a ligação S trata-se da participação de programas governamentais.
Nesse modelo de ligações em cadeia, são verificados alguns pontos centrais, quais sejam: a iniciativa da inovação parte da empresa que identifica necessidades de mercado, apoia-se no conhecimento existente, para desenvolver o projeto ou, caso necessário, busca um novo conhecimento por meio das diferentes estratégias possíveis (P&D, alianças, parcerias, entre outros). Porém, ressalta a importância da ciência e da investigação no processo de inovação, atribuindo às empresas uma importância primordial no processo de inovação, conciliando as questões técnicas com o mercado para a inovação ser bem sucedida. Destaca ainda que o projeto e não a pesquisa é que está na origem da maioria das inovações e, por fim, que as atividades de inovação influenciam o mercado e são por ele influenciadas.
Coerentemente, emergem outros três modelos não-lineares ou interativos de inovação, quais sejam (ROTHWELL, 1994; ETZKOWITZ; LEYDESDORFF, 1995, 2000; STUART, 2000):
a) modelo integrado: nas décadas de 80 e 90, os japoneses inauguram a integração entre os departamentos funcionais da empresa, a fim de serem criadas inovações mais rapidamente, por meio de atividades conduzidas de forma paralela. O modelo tem como principal característica a simultaneidade em que as diversas fases ocorrem, possibilitando, por conseguinte, a obtenção de inovação, com menor tempo (ROTHWELL, 1994);
b) modelo de redes: a inovação consiste em um processo de rede, decorrente do aumento das alianças estratégicas, da P&D colaborativo, da gestão da cadeia de suprimento, do crescimento de redes entre pequenas e médias empresas com empresas grandes e também do crescimento das redes entre pequenas empresas (ROTHWELL, 1994; STUART, 2000);
c) modelo da tríplice hélice: propõe uma interação coparticipativa entre governo, empresa e universidade e apresenta evoluções sobre o chamado Triângulo de
Sábato, inicialmente proposto por Sábato e Botana (1969, apud MATTIODA,
2008), considerando que, mesmo que haja relações bilaterais entre esses atores, estes não têm suficiente poder para promover, de forma sistemática, inovações. Para Etzkowitz e Leydesdorff (2000), o modelo da tríplice hélice apresenta não apenas a interação dos atores, como também, a sua transformação interna, através da interação da universidade (transformando-se de instituição de ensino para instituição de ensino com pesquisa básica e aplicada, envolvendo prestação de
serviços), do governo (beneficiando-se da ação de alianças em nível nacional, regional ou internacional, replicando modelos utilizados por empresas globais) e da empresa (modificando a sua percepção de lucro para uma noção mais ampla de valor e sustentabilidade).
De acordo com Etzkowitz e Leydesdorff (1995, 2000), muitos países estariam buscando conformar a tríplice hélice, tentando fortalecer um ambiente inovador, com iniciativas trilaterais para o desenvolvimento econômico, baseado no conhecimento e nas alianças estratégicas entre empresas, laboratórios governamentais e grupos de pesquisa acadêmica. Os autores propõem, ainda, que esses arranjos seriam encorajados, porém não controlados pelos governos, que forneceriam eventualmente assistência financeira direta ou indiretamente.