2 AS NARRATIVAS
2.3 Modelos e tipos estruturais
Além das características operacionais de estrutura da informática, tem-se a estrutura discursiva, que enquadra a informação em diferentes tipos e modelos. De acordo com Sodré e Ferrari (1986), as narrativas podem ser divididas em quatro tipos; o que as distingue é a forma como abordam determinados assuntos, sendo cada tipo capaz de: anunciar, enunciar, denunciar ou pronunciar. O primeiro se refere apenas à explanação dos fatos; o segundo diz respeito à maneira como o repórter tem de construir uma notícia com base no discurso oculto: "exprime a manifestação desses fatos através de um discurso que se oculta como discurso: não se percebe que há alguém narrando; mais parece que os acontecimentos têm vida própria e se exibem diante do leitor" (SODRÉ e FERRARI, 1986, p. 21). Em relação aos tipos que denunciam e pronunciam, os autores lembram que isso acontece quando os repórteres se colocam no texto e exercem uma clara subjetividade: "mais que o anúncio ou simples enunciar dos fatos, as notícias-pronúncia e denúncia informam sobre um tema, numa abstração que visa formar um conceito de natureza ideológica" (SODRÉ e FERRARI, 1986, p. 32). Diferentemente do tom denunciante da denúncia, a pronúncia se refere ao jogo manipulador por meio da construção do texto, depositando nele um juízo de valor.
Além da forma dos critérios de narração relacionados à subjetividade ou objetividade, há ainda alguns critérios referentes ao esquema de reportagem. Os autores lembram que o tipo de esquema mais comum é o da pirâmide invertida; mas há espaço para o cronológico, o qual pode ser representado pelo "nariz de cera". Há denominações para cada modelo ou modo hierárquico das narrações, entre eles a reportagem de fatos (fact-story), que apresenta os fatos pela ordem de importância, a reportagem ação (action-story), na qual, tomado pelo movimento, o repórter vai detalhando os fatos durante a ação, comum em reportagens televisivas ou em notícias
online, e a reportagem documental (quote-story), que informa sobre um determinado assunto de forma mais objetiva, incluindo citações.
Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari (ibidem) explicam que o mesmo caminho narrativo que provém da literatura pode ser utilizado no jornalismo. Dessa forma, a informação jornalística incorpora o gênero narrativo da reportagem. Além das diversas possibilidades dos modelos narrativos acima citados, no jornalismo há ainda outros, que estão muito próximos à literatura. Dentre tantos exemplos, é possível se construir uma reportagem-conto ou reportagem-crônica.
Na narrativa literária, o conto costuma ser a forma mais curta; em jornalismo, a reportagem é a mais longa. Mas as duas formas muito se assemelham: pode-se dizer que a reportagem é o conto jornalístico — um modo especial de propiciar a personalização da informação ou aquilo que também se indica como "interesse humano". Na literatura, o conto apresenta uma centelha, um momento, uma fatia temporal da existência de um personagem. No jornalismo — tanto no chamado livro- reportagem, quanto no jornal diário — a reportagem amplia a cobertura de um fato, assunto ou personalidade, revestindo-os de intensidade, sem a brevidade da forma-notícia. (SODRÉ e FERRARI, 1986, p. 75)
Os autores citam o jornalista e contista Tchekhov, quando afirmava que "um bom conto deveria ter: força, clareza, condensação e novidade" (SODRÉ e FERRARI, 1986, p. 75), e lembram que essas são qualidades de que toda reportagem também deve se apropriar. Para diferenciar a reportagem-crônica da reportagem-conto, Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari (1986) ressaltam:
A típica reportagem-conto tem uma estrutura mais orgânica. Geralmente particulariza a ação em torno de um único personagem, que atua durante toda a narrativa. Os dados documentais entram dissimuladamente na história e o texto aproxima-se tanto do conto, que incorpora até fluxos de consciência dos personagens. (SODRÉ e FERRARI, op. cit., p. 81)
Já na reportagem-crônica, os autores dizem que sua estrutura não é pequena ao ponto de se chamar de notícia, nem abrangente como a grande reportagem. Eles afirmam que essas reportagens estão relacionadas ao caráter de crítica social e opinião (SODRÉ e FERRARI, 1986).
Desde já, ressalta-se aqui as características do gênero reportagem: "mais extensa, mais completa, mais rica na trama de relação entre os universos de dados" (LAGE, 2006, p. 114).
O conceito de notícia — em que pese o uso amplo da palavra news (notícia) em inglês — pode ser, assim, substituído pela expressão
informação jornalística. Essa expressão tem, aí, sentido peculiar, que
coincide com o da reportagem (gênero de texto) mas, eventualmente, assume a forma do que se chama de artigo, crônica (política, desportiva) ou crítica (de artes, de espetáculos: não é apenas uma estruturação de dados convenientemente tratados, como na informática ou na inteligência militar, que opõe informação (relato consistente, envolvendo análise) a informe (relato episódico). É mais do que isso: é a exposição que combina interesse do assunto com o maior número possível de dados, formando um todo compreensível e abrangente. Difere da notícia porque esta, sendo comumente rompimento ou mudança na ocorrência normal dos fatos, pressupõe apresentação bem mais sintética e fragmentária. (LAGE, 2006, p. 112-113)
Portanto, a notícia se distingue da reportagem por seu tamanho e pelo cuidado com a exposição dos fatos. De forma resumida, o autor José Marques de Melo apresenta a distinção entre as duas: "A notícia é um relato que eclodiu no organismo social. A reportagem é o relato ampliado de um acontecimento que já repercutiu no organismo social e produziu alterações que já são percebidas pela empresa jornalística" (MARQUES DE MELO, 2003, p. 66). Exceto nas editorias "Giro Globo" e o "Dicas a Mais", O Globo a Mais explora reportagens e artigos de opinião. No Jornal do Commercio, há uma predominância do gênero reportagem na edição digital do impresso, já nos conteúdos transpostos da web para o aplicativo, percebe-se que a maioria pertence ao gênero notícia.