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CAPÍTULO 2. TEORIA DOS CICLOS ECONÓMICOS

2.3. A Escola Novo-Keynesiana

2.3.2. Rigidez Nominal

2.3.2.2. Mercado do Produto

2.3.2.2.1. Modelos Menu Costs Estáticos

No âmbito da primeira categoria, os contributos de MANKIW (1985), AKERLOF e YELLEN (1985), PARKIN (1986), BLANCHARD e KIYOTAKI (1987) e BALL e ROMER (1989; 1990) foram fundamentais para a racionalização e fundamentação microeconómica dada a este tipo de modelos e serviram de ponto de partida para uma investigação mais profunda e exaustiva, em termos teóricos e práticos, das implicações dos menu costs.

Dos trabalhos de MANKIW (1985), AKERLOF e YELLEN (1985) e PARKIN (1986) resultou o ensinamento básico de que pequenos custos individuais de fixar preços podem conduzir a grandes efeitos macroeconómicos. Estes autores desenvolveram modelos independentes onde pequenas fricções no ajustamento do nível de preços individuais, causando alterações significativas na AD, tinham grandes efeitos sobre as variáveis reais. Nos modelos de Mankiw e de Parkin, a fricção resultava de um custo fixo de alteração dos preços nominais - um menu cost -, enquanto na abordagem de Akerlof e Yellen tal fricção era devida a um pequeno desvio da plena optimização -

near rationality.

De salientar a introdução deste conceito de “quase-racionalidade”, por parte de Akerlof e Yellen, dado que este assumiu uma grande importância no estudo da racionalidade do comportamento individual de manter rigidez nominal substancial face a custos de ajustamento negligenciáveis. Este comportamento parecia, à partida, paradoxal. Os autores demonstraram que o não ajustamento individual imediato a choques de procura (nomeadamente, monetários) era um comportamento “quase-racional” por parte dos agentes económicos, na medida em que as perdas daí resultantes eram de “2ª ordem”, embora impusessem alterações de “1ª ordem” à actividade económica real e em termos de bem-estar.

Contudo, para que o comportamento dos agentes privados seja considerado racional é necessário verificarem-se desvios à estrutura concorrencial porque, em concorrência perfeita, preços mais baixos ou salários mais elevados do que os de equilíbrio não proporcionam qualquer

69 Também B

ALL et al. (1988: 18) consideravam que a componente mais importante dos menu costs era o custo de se aprender a pensar em termos reais e ter de contabilizar as variações dos preços nominais correspondentes às variações desejadas no preço real. Daí a afirmação “Mais geralmente, podemos olhar uma revisão infrequente dos preços nominais como uma regra prática que é mais conveniente do que uma revisão contínua”.

benefício para a empresa. Assim, a metodologia utilizada só é passível de aplicação a modelos de concorrência imperfeita, onde a rigidez será um comportamento microeconómico de optimização das funções objectivo dos agentes em relação aos preços e salários70.

Neste campo destaca-se o trabalho de BLANCHARD e KIYOTAKI (1987), com o seu modelo de “agente representativo de concorrência monopolística”, o qual representa uma das principais referências no âmbito da literatura menu costs dada a sua forte utilização, na sua versão original ou com alterações, em muitos e variados trabalhos nesta área71.

Os autores demonstraram, por recurso a um caso especial em que se fixaram apenas nas interacções entre fixadores de preços, que existe uma relação estreita e clara entre os argumentos “menu cost” e “externalidades da AD”, em mercados de concorrência monopolística. De facto, da análise realizada resultou que a presença de custos de ajustamento pode ser suficiente para que as empresas não desejem alterar os seus preços face a um choque nominal. Isto porque quando uma empresa decide não mudar o seu preço o que tem em consideração é apenas como é que isso afectaria o seu preço relativo. Ora, na presença de menu costs, os ganhos de tal mudança seriam meramente de 2ª ordem. Adicionalmente, devido à ausência de mecanismos de coordenação das atitudes individuais, o impacto macroeconómico da mudança de preços não entra como um dado na formulação das decisões individuais quanto ao benefício de ajustamento dos seus preços. Este é, pois, um caso típico de uma externalidade onde os custos sociais excedem os custos privados do não ajustamento dos preços.

De seguida, Blanchard e Kiyotaki procuraram determinar qual a dimensão necessária de tais custos para que as empresas decidissem não ajustar os seus preços ao novo nível de maximização de lucro. Dos cálculos efectuados pelos autores, retém-se que menu costs da magnitude de 0,08% das receitas da empresa (considerados como negligenciáveis) podiam ser suficientes para evitar o ajustamento de preços.

70 Isto implica que a racionalidade do não ajustamento está associada a modelos que contemplem: (1) no mercado do

produto: informação imperfeita dos compradores, situações de monopólio, oligopólio ou concorrência monopolística e (2) no mercado de trabalho: informação imperfeita dos trabalhadores, empresas monopsonistas ou oligopsonistas, salários eficientes ou contratos salariais escalonados. De facto, como foi salientado por MANKIW e ROMER(1991: 7-8), a característica de mercados não concorrenciais é central na maioria dos modelos que tentaram fornecer um fundamento microeconómico para o multiplicador keynesiano. Enquanto o modelo de HART (1982) foi pioneiro a considerar um mercado de trabalho de concorrência imperfeita, os modelos de MANKIW (1988a) e STARTZ(1989) destacam-se por figurarem entre os primeiros contributos neste domínio para o mercado do produto. Entre as várias obras que abordam aprofundadamente a influência da concorrência imperfeita no ajustamento de preços contam-se os livros de CARLIN e SOSKICE (1990), HEAP(1992: Cap. 6-7), ANDERSEN(1994) eNISHIMURA

(1995) e os artigos deDIXON e RANKIN (1994), CARLTON (1996) e de FAZZARI et al. (1998).

71 Este modelo é descrito por F

ISCHER (1988) e HEAP (1992) como o “modelo canónico novo-keynesiano de concorrência monopolística”. De facto, é normal este modelo aparecer nos vários textos de revisão da literatura como o caso típico que coloca os pressupostos comuns dos modelos novo-keynesianos para explorar as consequências de menu-costs e de externalidades. Além disso, vários autores recorreram à sua utilização, na forma original ou adaptada para provar os seus pontos de vista, como aconteceu com ROTEMBERG(1987), FISCHER(1988),

Também ainda no âmbito dos desenvolvimentos efectuados da abordagem “menu costs estáticos” há que destacar o contributo de BALL e ROMER (1989) que, qualitativamente, utilizaram o mesmo tipo de modelo de Blanchard e Kiyotaki. A investigação dos autores levou-os a concluir que a rigidez do preço nominal tem uma externalidade negativa, porque a inércia do preço de uma empresa aumenta a variabilidade da despesa real agregada, a qual prejudica todas as empresas da economia. O que, à partida, se pretendia estabelecer era se a dimensão dessa externalidade era suficientemente grande para justificar a intervenção governamental ao nível da implementação de políticas de estabilização das flutuações do produto, mesmo se os custos de tornar os preços flexíveis fossem pequenos. Ou, dito de outra forma, o propósito era encontrar os fundamentos microeconómicos para que a opção por políticas de gestão da AD (defendida pelos keynesianos) fosse preferível a uma maior flexibilização dos preços.

Para determinar a dimensão das externalidades da rigidez nominal dos preços, os autores calcularam o rácio entre os custos sociais e os custos privados da rigidez, para valores alternativos da desutilidade marginal do trabalho (γ) e da elasticidade entre produtos (ε). As simulações efectuadas revelaram que apenas para valores irrealistas dos parâmetros γ e ε é que o valor de tal rácio justificaria a necessidade de políticas de estabilização72.

Num trabalho posterior relacionado com este, BALL e ROMER (1990), considerando o mesmo modelo básico, reforçaram a ideia que menu costs não eram suficientemente significativos para produzir grandes efeitos reais de alterações nominais na moeda. Mais especificamente, provaram que a rigidez nominal e a perda de bem-estar associada eram pequenas para valores prováveis dos parâmetros γ e ε.

Não obstante aquele resultado, Ball e Romer estruturaram o seu trabalho em torno de um objectivo central: provar que o argumento principal da literatura menu costs, “abraçado” com tanto entusiasmo pelos novo-keynesianos como fundamento para a rigidez nominal, poderia ser salvo com algumas modificações realistas ao modelo básico. Constataram que a mera inclusão de pequenos obstáculos ao ajustamento de preços, num modelo de características walrasianas noutros campos, não seria suficiente por si para gerar rigidez nominal considerável. No entanto, a adição de uma fonte de rigidez real apropriada poderia provocar um grau não negligenciável de rigidez nominal ao modelo. Especificamente, os autores provaram que o grau de rigidez nominal surgido da presença de menu costs (ou de um dado desvio à plena racionalidade) era crescente com o grau de rigidez real, ou seja, inércia real substancial implicava um grande grau de rigidez nominal mesmo se o menu cost fosse baixo.

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Cálculos para valores mais plausíveis, como sejam um markup de preços de 25% (ε=5) e uma elasticidade oferta de trabalho igual a 0,25 (γ = 5), apenas produziram um rácio de 1,4, ou seja, a perda de bem-estar do ciclo económico era apenas 1,4 vezes maior do que o menu cost suportado pela empresa. Só uma simulação para valores mais irrealistas produziria um rácio significativo, como no caso de considerar ε= 2 (um markup de 100%) e

A intuição subjacente aquele resultado pode ser ilustrada da seguinte forma. A não alteração de um preço após um choque nominal será um equilíbrio de Nash se o ganho de uma empresa em mudar o seu preço, quando as outras empresas não mudam, for menor do que o custo de ajustar. Mas, uma variação no preço nominal de uma empresa quando todos os outros se mantêm constantes é uma alteração no preço real da empresa. Logo, rigidez nominal é um equilíbrio se o ganho de ajustar o preço real em resposta à alteração da AD é menor que o custo de o mudar. Se a empresa apenas deseja uma pequena alteração no seu preço real, isto é, se existe um grande grau de rigidez real, então o ganho de fazer a alteração é pequeno73.

Os autores mostraram também que: (1) rigidez real, por si só, não impede a total flexibilidade nominal, ou seja, é necessário uma fonte independente de rigidez nominal porque, caso contrário, os preços ajustar-se-ão totalmente a choques nominais não obstante a extensão da rigidez real e (2) os resultados obtidos aplicam-se igualmente ao mercado do trabalho.

Do que foi mencionado, emergem duas conclusões importantes a reter daquele estudo de Ball e Romer. A primeira é que factores que reduzam o desejo de uma empresa em alterar o seu preço face a variações da procura real (isto é, factores que aumentem a rigidez real) fazem elevar o valor da externalidade sobre o bem-estar social e, consequentemente, os benefícios potenciais de uma política de estabilização. A outra conclusão diz respeito ao potencial problema da existência de uma multiplicidade de equilíbrios. Nomeadamente, um equilíbrio possível é o que deriva do não ajustamento dos preços em resposta a um choque nominal quando cada uma das empresas espera que não haja ajustamento por parte das outras; outro equilíbrio dá-se no caso de todos os agentes esperarem que cada um deles vá alterar o preço e, logo, decidem também ajustar, confirmando a previsão inicial de ajustamento. Entre estas duas situações extremas poderão situar-se ainda vários outros pontos de equilíbrio74.