CAPÍTULO 2. TEORIA DOS CICLOS ECONÓMICOS
2.3. A Escola Novo-Keynesiana
2.3.3. Rigidez Real
2.3.3.1.1. Teoria dos Contratos Implícitos
A teoria dos contratos implícitos emergiu nos anos setenta, como parte do desenvolvimento geral da economia de informação e da teoria dos contratos, tentando explicar em termos de comportamento racional os níveis de desemprego e as flutuações do emprego observados durante as recessões e as razões dos salários não conseguirem equilibrar o mercado de trabalho103. Os primeiros modelos devem-se a GORDON (1974), BAILY (1974), e AZARIADIS (1975), os quais estabeleceram os princípios básicos desta abordagem104.
A teoria dos contratos implícitos “deu os primeiros passos” com o modelo de Gordon. O objectivo era encontrar uma racionalidade económica para a relação entre rigidez salarial e o desemprego involuntário, ou seja, para o comportamento da curva de Phillips. As explicações existentes, Modelo Auction e Modelo Search, revelavam-se como insatisfatórias pois não estavam preparadas para lidar com o problema de desemprego involuntário, não conseguindo dar resposta a múltiplas questões empíricas105. A estas abordagens, Gordon contrapôs, com base numa extensão simples do modelo novo-clássico e dos seus postulados maximizadores, uma explicação alternativa para o comportamento de rigidez salarial e do desemprego. O pressuposto de base era que as contratações podiam ser vistas, tipicamente, como entendimentos implícitos e, em alguns casos, explícitos (contratos legalmente não vinculativos) em que se estipulava que, sob condições razoáveis, os empregados teriam uma certa segurança em relação a salários e a emprego.
Com efeito, o principal contributo do trabalho de Gordon foi o fornecimento de uma racionalização para a assimetria de atitudes dos empregados e dos empregadores perante o risco e, daí, extrair algumas implicações para a rigidez salarial e outros tipos de comportamento
103Em A
ZARIADIS e STIGLITZ (1983) efectua-se uma excelente revisão da literatura sobre contratos implícitos, analisando os progressos feitos até então, identificando algumas das dificuldades e sublinhando os temas micro e macroeconómicos que apelam a trabalho adicional.
104
Após duas décadas, os ensinamentos destes três autores mantêm-se actuais dando razão à observação de ROSEN
(1994: xii), na introdução à sua colectânea de artigos sobre contratos implícitos, quando referia: “ (...) Os papers destes fundadores da teoria dos contratos implícitos contêm ideias básicas difíceis de melhorar”.
105São várias as dificuldades/limitações de carácter empírico apontadas a este tipo de modelos, destacando-se: (1) a
não consideração de layoffs; (2) o pressuposto de que, independentemente do estádio do ciclo económico, as condições salariais e de emprego são as mesmas;e, (3) não fornecer uma resposta para alguns factos da história económica, em que o aumento do desemprego coexistiu com o aumento dos salários.
observado. A esta abordagem Gordon deu a designação de “quasi-contract theory”. Certos aspectos da mesma ideia básica foram também desenvolvidos, independentemente, nos artigos de Baily e de Azariadis.
Geralmente, este tipo de contratos são negociados quando os trabalhadores são mais avessos ao risco do que as empresas106. Nestas circunstâncias, um acordo de longo prazo produz um resultado satisfatório na medida em que garante benefícios mútuos a ambas as partes. Aos primeiros agrada-lhes a margem de segurança traduzida num salário real mais estável do que aquele que ocorreria num mercado walrasiano, o que lhes permitirá evitar flutuações nos seus rendimentos (cíclicas ou específicas a um negócio ou ocupação) e, por outro lado, poderão assumir determinadas responsabilidades, económicas e não económicas, que se prolongam no tempo. Por seu lado, as empresas estarão numa situação confortável que as "protege" de flutuações nos salários reais se ocorrerem choques estocásticos, dado que a garantia de uma certa “fidelidade” e empenho vai traduzir-se em que os trabalhadores não se deslocarão para lugares com maiores salários em alturas de boom económico. Então, o que a teoria dos contratos implícitos faz, basicamente, é alargar a relação de emprego usual entre trabalhador empregador a provisões de segurança mútua entre as duas partes.
Mais recentemente, JACOBSEN e SCHULTZ (1995) também desenvolveram, na sequência das formulações anteriores de Azariadis, Baily e Gordon, uma teoria de contratos implícitos para justificar a rigidez do salário real. Segundo estes autores, o resultado básico padrão da teoria dos contratos implícitos era que o salário oferecido num contrato óptimo seria igual em todos os estados da natureza (e igual ao salário de reserva) mas o emprego flutuaria entre eles. Isto apresentava-se em conformidade com o facto empírico estilizado de que o emprego é mais volátil do que o salário ao longo do ciclo económico. Adicionalmente, o modelo apresentado por Jacobsen e Schultz fornece uma nova razão para que contratos óptimos possam também exibir salários flutuantes no decurso dos ciclos económicos, ou seja, a rigidez do salário real ter apenas um carácter parcial.
No que respeita à evidência empírica no âmbito da abordagem dos contratos implícitos, na maior parte dos trabalhos aplicados apenas se obteve suporte misto para as previsões da teoria dos contratos implícitos sobre o processo de determinação salarial. Esta falta de consenso nos resultados está patente na comparação de alguns estudos efectuados recentemente, como os de BLINDER e CHOI (1990), BILS (1991), BEAUDRY e DINARDO (1991) e de CAMPBELL III e KAMLANI
106Efectivamente, é normal considerar-se nestes modelos o pressuposto de que os trabalhadores são avessos ao risco
no que toca a activos e rendimentos, o que é, mesmo, assumido como um facto, dado o suporte empírico que lhe é dado por vários estudos realizados no âmbito da teoria financeira. Por seu lado, aos empregadores é atribuída uma atitude de neutralidade perante o risco, pois considera-se que estes são, em parte, especialistas em assumir riscos e podem diversificá-los mais eficientemente do que os trabalhadores através dos mercados de capitais e outros mercados de activos. Em BAILY (1974), por exemplo, o ênfase foi totalmente dirigido para as diferenças entre accionistas e trabalhadores em relação ao acesso aos mercados de capitais.
(1997), para dados da economia americana. Enquanto que nos dois primeiros as respostas obtidas não se traduziram num apoio à ideia básica da teoria dos contratos implícitos de que as empresas menos avessas ao risco ofereciam segurança aos trabalhadores através da estabilização do salário real face a flutuações da procura de trabalho107, nos dois últimos já foi, pelo contrário, encontrada forte evidência favorável às implicações dos modelos dos contratos implícitos108.