SUMÁRIO
CAPÍTULO 4 – MADE IN CHINA, p
1. APROXIMAÇÕES CONCEITUAIS
2.2 MODELOS TRADICIONAIS DE CIDADE CHINESA
As cidades na China dinástica eram núcleos políticos das grandes áreas rurais em que se localizavam, e funcionavam como centros administrativos do governo imperial. Para serem consideradas “cidades” elas tinham que ser fortificadas, tendo como característica principal as muralhas e canais. Estes núcleos eram denominados pela palavra chinesa chéng ( ) significando ao mesmo tempo “cidade”, “muralha da cidade” e “fortificar a cidade”. Na China as primeiras cidades vem do lado ocidental das planícies do Rio Amarelo e o baixo vale do Rio Wei, e a primeira cidade teria sido a “Yin”, que deu nome a dinastia Yin (também conhecida por dinastia Shang), na província moderna de Anyang; mas existem vestígios de escavações em cidades mais antigas como Zhengzhou,84 que revelaram a cidade de Shang,
mais antiga e distante das margens do Rio Amarelo.85
Segundo Sproviero (1998), esta forma cultural surgida na confluência do Rio Amarelo com o Rio Wei pretendia não só firmar-se como uma grande cultura na Ásia, mas dominar territórios de forma imperial e afirmar-se, de fato, como uma cultura superior. De maneira que dominou todo o território do que viria a ser conhecido no ocidente como Cina ou China,86 formando a sua cultura majoritária com traços marcadamente imperiais e
84 O nome Zhengzhou é composto pelos ideogramas (hé, ) e (nán, ) significa respectivamente
“na outra margem” e “Rio Amarelo”; e “nán” significa “viagem a região sul”.
85 A área que ficava a cidade de Shang é um site arqueológico na atual cidade de Zhenghou; as
escavações feitas na década de 1950 revelam que a cidade era murada, com forma retangular e ficava a 160 quilômetros de distância da cidade de Yin. (KOSTOF, 1991, p.30)
86 No entanto ainda hoje é possível encontrar minorias coexistindo com a grande cultura chinesa
dominante. Estas minorias são formadas por grupos de mulçumanos e culturas tribais que, juntas, formam as minorias chinesas.
147 etnocêntricos autodenominada Zhōngguó ( ) ou Império do Meio. O etnocentrismo é uma forte característica chinesa e deve ser levada em conta quando se estuda suas cidades, pois durante três mil anos a China se considerou muito superior às culturas tribais com as quais tinha contato, contribuindo para que os chineses acreditassem ser o centro do mundo (Império do Meio).
O processo de conquista do vasto território chinês nos mostra que o foco era na expansão do sistema agrícola centrado na produção camponesa e não da constituição de cidades como condição fundamental para a colonização. Portanto assim que a terra fosse controlada, era constituído um núcleo político central que representava a autoridade imperial, e partia-se para a próxima aldeia. O importante era instaurar o controle e não permanecer e desenvolver a malha urbana da cidade propriamente dita como faziam os gregos e romanos. (KOSTOF, 1991, p. 31) Desta forma os chineses construíam uma rede de núcleos de poder, não necessariamente criando cidades muito densas e urbanizadas. Não era comum que cidades chinesas tivessem uma maior importância sobre as demais, o poder era distribuído entre as cidades e a figura do imperador concedia o status de cada uma delas dentro da hierarquia administrativa do império e o status de capital era concedido a qualquer cidade na qual ele decidisse permanecer. A cada mudança de dinastia havia uma mudança de capital. Portanto, abandonar uma capital ou construir uma nova não era uma ação atípica – o mais importante era o controle central do Império do Meio. A hierarquia das cidades chinesas era expressa por sufixos adicionados aos nomes das cidades, fu para cidades de primeira ordem, chu para expressar subordinação às principais e logo abaixo eram as denominadas hieu.
A palavra cidade, chéngchi ( ), é composta pela soma dos ideogramas chéng ( ) e chi ( ). Isto adiciona pelo menos mais três significados possíveis aos já vistos, pois chi remete a poço, reservatório e fosso. O início das cidades chinesas tradicionais era ligado à escavação de um poço. Um bom lugar para criar uma cidade é também um bom lugar para cavar um poço. Outra forma recorrente de locar novas cidades era segundo princípios do feng shui: o lugar que tivesse uma boa energia para se enterrar os mortos era considerado também um
148 bom lugar para acolher os vivos, estabelecendo uma forte relação entre os túmulos e as habitações. Tanto que, mais recentemente, quando o governo instituiu a cremação por falta de espaço em cemitérios de algumas cidades tal decisão acarretou grandes problemas sociais e protestos com a demolição de 400mil túmulos na província de Henan em 2012.87
Na tradição chinesa o imperador era um exemplo de moral e uma figura paterna universal que ocupava o centro do universo. Assim como outras cidades imperiais, Pequim não era conhecida como cidades dos homens, mas sim como um eixo condutor (axis mundi) através do qual o poder do paraíso era canalizado, ou ainda onde os reinos superiores e inferiores se encontram. As cidades imperiais chinesas eram consideradas uma expressão da ordem do paraíso em forma urbana. (CAMPANELLA 2008, p. 94) A China ocupava o centro de sua própria ordem hierárquica e teoricamente universal, um sistema que funcionou por milénios centrado na figura do imperador que mantinha sob seu domínio “tudo sob o céu” classificando os demais povos como bárbaros, uma cosmografia que resistiu bem até a Era Moderna. (KISSINGER, 2015, p. 13)
A rigidez filosófica atribuída às cidades é algo relevante na China, onde as capitais eram concebidas como um conjunto unitário e totalmente planejadas em composições perfeitamente ortogonais e representavam um modelo a ser seguido. O padrão construtivo das suas cidades eram os retângulos, forma geométrica que representava a Terra e o Poder Criador, e o padrão circular representava o Paraíso e o Poder Receptor, por este motivo temos a sucessão de retângulos centralizados nas cidades da China Imperial, como é o Caso da Cidade Proibida em Pequim,88 o que as diferenciam fundamentalmente das cidades
87 A demolição dos túmulos foi justificada pela “falta de espaço”, seguido da proibição de novos
túmulos e a cremação como única opção possível. Ver notícia do diário O Globo. Disponível em <http://oglobo.globo.com/mundo/idosos-chineses-se-matam-para-nao-serem-cremados-12631819>. Acessado em: set. 2015.
88 Como nos mostra Kostof (1991), a cidade proibida de Pequim é como um diagrama imperial,
composta de retângulos concêntricos organizados pela dinastia Ming em 1421, contendo muralhas arrodeadas por um poço. Podemos notar aqui novamente a coerência na construção de novas cidades e capitais na China, afinal pelo I Ching o ideograma cidade é representado por chéng e chi, que correspondem a vila, muralha, poço, fosso.
149 ocidentais, que tradicionalmente têm uma concepção radial, ou concêntrica, ou espiral. (TUAN, 1980, p. 43)
Figura 48: Mapa da cidade de Pequim com os ângulos retos definindo retângulos concêntricos. O grid de ruas e o contorno da muralha estão em vermelho. No centro, a Cidade Proibida Púrpura. SCHINZ, A. The Magic Square: Cities in Ancient China. Londres: Editora Axel Menges. 1996. p. 362.
150 No entanto este “modelo chinês” de fazer cidade não se limitava apenas à China continental. No Japão, a cidade imperial Fujiwara, capital do império a partir de 694, e a cidade Heijokyo (Nara) foram ambas construídas segundo o sistema ortogonal chinês (malha em grade), como uma espécie de cópia do desenho da malha urbana da cidade chinesa de Chang’an. (KOSTOF, 1991, p.33)
O desenho urbano chinês imperial é marcado pela ordem, hierarquia, simetria, centralidade, rigidez e linearidade. Todas estas diretrizes resultam das ideias de Confúcio89 que
norteavam o traçado das cidades tradicionais chinesas que, ainda segundo suas ideias, deveriam ser governadas por uma elite de estudiosos, formando um governo forte e centrado na figura do imperador – que teria nesta cidade imperial chinesa o seu principal diagrama de poder. Esta organização de governo presumia a cidade com claro intuito de civilizar o campo. (KOSTOF, 1991, p. 39) Esta relação é tão forte que as pessoas diferenciavam cidade e campo como confucionista90 e taoista, respectivamente, e sempre que buscavam balancear a rigidez moral da cidade recorriam a “paisagem tranquila” do campo “taoista”, e ambos se complementavam, como no yin-yang taoista. Daí a importância do jardim91 dentro das cidades; para os chineses o jardim é uma representação celeste na
terra que é capaz de balancear a energia da cidade. Portanto a diferença campo-cidade
89 Segundo Sinedino (2012), Confúcio (551 – 479 a.C) é considerado o maior pensador chinês.
Confúcio viveu na China antes de sua unificação num império centralizado. Era um conservador e apoiava a aristocracia “superior” com base na tradição, por isso não conseguiu compor junto aos nobres com título “inferior” que, apesar de deterem o poder propriamente dito, estavam sob a autoridade do Duque de Lu. Acreditava na figura do Homem Nobre, aquele que esta por vir, e advogava que estes não deveriam assumir o governo, mas sim estarem à serviço das instituições: a ideia confuciana de “governo dos bons”. Afastando-se intelectualmente do poder, Confúcio morre pregando um equilíbrio entre perfeição moral e sucesso social e político sem saber que, posteriormente, teria seu discurso sistematizado e adotado pelo governo chinês na época do Imperador Han (156 – 87 a.C) que podia ser descrito como externamente confucionista e internamente legalista.
90 O confucionismo foi brevemente criticado pelo taoísmo no período entre fim da Dinastia Han (206
a.C – 220 d.C) e o início da Dinastia Tang (618 – 906 d.C) quando passou a ser exigido como leitura obrigatória até em exames para cargos públicos em 622 d.C. (YU-LAN, 1966); mas foi na Dinastia Song que o confucionismo amadureceu – os cargos públicos que antes apenas podiam ser ocupados por membros da aristocracia de sangue”, passaram a poder ser ocupadas também por pessoas “talentosas do povo” –, porém isso só era possível através do Estudo, o que marca uma contradição ao pensamento legitimista do próprio Confúcio que pregava a meritocracia.
91 Para compreendermos a maneira pela qual os chineses veem o universo temos que entender
como é concebido o jardim chinês já que tradicionalmente – apesar do jardim ser feito pela mão de um homem – ele deve representar o paraíso. Já na década de 1920, encontramos textos de estudiosos chineses que, ao visitarem jardins gramados e meramente plantados, afirmaram ser os jardins ocidentais “mais interessantes para uma vaca do que para seres humanos”. (JI, 1988) Daí já notamos que existe uma grande diferença na concepção paisagística chinesa: os chineses constroem jardins concebidos como imagens celestes que retratem as mutações, os ciclos naturais e a passagem do tempo cíclico, natural e contínuo (segundo a filosofia do I Ching e os preceitos do feng
shui); o que se por um lado os diferencia fundamentalmente do jardim francês, (topiário, racional e
geométrico); por outro os aproxima do jardim inglês, que apesar de também ser construído para retratar a natureza, representa uma natureza romântica e em ruínas.
151 existe na China, mas não por oposição, e sim por complementariedade, e o jardim é este espaço entre os dois influenciando também a concepção de jardins em outras partes do mundo.92
Figura 49: Fotografia da Cidade Proibida Púrpura como vista do Parque Jingshan, localizado ao norte. Fotografia do autor. Ano 2015. Acervo do autor.
Além disso, historicamente, de acordo com Wilma Fairbank, os chineses não consideraram arquitetura uma arte, (FAIRBANK, 1994 apud CHUNG et. al 2001, p. 191) a responsabilidade pela construção arquitetônica era atribuída a carpinteiros e artesãos. As características da arquitetura tradicional eram transmitidas entre o aprendiz e o mestre, que resultaram nos manuais clássicos com princípios e métodos construtivos acumulados por séculos de repetição, um verdadeiro processo de imitação do mestre. As regras rígidas de desenho urbano e arquitetônico perduraram as dinastias, a república e ainda é possível notar sua influência hoje. Os chineses têm por prática preservar a técnica e não o objeto, isso explica a naturalidade pela qual eles reconstroem suas cidades, prédios e até templos,
92 O fascínio do Ocidente pelo jardim oriental começa em 1699, quando a corte francesa organizou
um festival chinês para comemorar o ano novo. O termo “chinoiserie” foi então cunhado neste período e começou uma verdadeira produção de subjetividade em torno das “coisas da China”, isso inclui móveis, porcelanas, obras de arte, cerâmicas e, é claro, os jardins chineses. Segundo Wong (2009), nesta altura os jardins ocidentais eram pensados em duas dimensões e com a influência chinesa eles passam a ser menos estruturados e pensados de forma a parecerem mais naturais e tridimensionais.
152 processo divergente do que encontramos nas técnicas de restauro no ocidente que frequentemente carecem de especialistas para restauração de fachadas e edifícios históricos, resultando no engessamento de diversas formas de apropriação por uma parcela da população – e a expulsão de seus moradores –, além dos conhecidos processos de museificação, legitimados pelo valorização da “cultura” dos ditos “centros históricos”.
Figura 50: Fotografia da reconstrução de um imóvel utilizando técnicas construtivas tradicionais. No primeiro plano, um pedaço dos velhos muros e o portal. No segundo plano, um galpão temporário de construção. Pequim. Fotografia do autor. Ano 2015. Acervo do autor
A cidade tradicional chinesa permaneceu como principal forma de organização espacial no território chinês até a primeira Guerra do Ópio. Este momento de conflito simboliza o resultado da ruptura da grande cultura europeia ocidental com suas estruturas arcaicas feudais e com a relação Estado-Igreja desenvolvendo o mercantilismo e o Estado moderno burguês capaz de viabilizar a sua modernização. Desta forma, esta cultura ocidental chocou-se com os interesses chineses através da expansão imperialista dos seus domínios atacando o porto de Xangai e forçando a sua abertura através do Tratado de Nanquim, assinado em 1842. Com a assinatura deste tratado, partes da China foram concedidas pelo império chinês às forças imperialistas ocidentais representando uma humilhação aos olhos dos chineses. Cinco portos foram oficialmente abertos para comerciantes estrangeiros e permitiram que as potências europeias impusessem um novo sistema de concessões.
153 Figura 51: Gravura “En Chine Le gâteau des Rois et... des Empereurs” por Henri Meyer publicada no Le Petit
jornal, Supplément du dimanche, Numéro 374, em 16 jan. 1898. Disponível em:
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