• Nenhum resultado encontrado

Momento de deliberar sobre o custo financeiro do processo

Conforme dispõe o artigo 20, caput, do Código de Processo Civil, “A sentença condenará o vencido a pagar ao vencedor as despesas que antecipou e os honorários advocatícios.” Eis aí a responsabilidade pelo custo financeiro do processo, que, segundo anota Antônio Cláudio da Costa Machado, é objetiva de quem sucumbe na causa, independendo de qualquer perquirição acerca de dolo ou culpa de sua parte. Quem perde, paga.382

Se, nos termos da lei, essa deliberação deve ser tomada pela sentença, como proceder o juiz em caso de fracionamento? Deve ele, também de modo fracionado, ir resolvendo aos poucos a distribuição dos encargos de sucumbência? Ou deve reservar a definição desse tema acessório para a ocasião da sentença final?

A primeira alternativa já foi defendida em sede jurisprudencial, como se colhe exemplificativamente do acórdão proferido pela 18ª Câmara do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, na apelação n. 70006762470, de relatoria do Desembargador Pedro Luiz Pozza.

Naquele precedente – que já mereceu nossa análise no Capítulo I, item 2.6, supra –, a resposta de mérito foi objeto de seccionamento: julgou-se o pedido prejudicial, mediante a declaração de nulidade de transação, deixando-se para momento ulterior o exame do outro pedido, de conteúdo inibitório, que reclamava atividade instrutória para poder ser decidido.

Conquanto o acórdão só tenha se ocupado de um dos pedidos cumulados, relegando para depois o exame da segunda pretensão, deixou desde logo fixados os encargos de sucumbência relacionados ao acolhimento da primeira demanda. É o que se depreende da parte dispositiva do voto condutor do julgado: “Quanto ao pedido acolhido, imponho à apelada os encargos sucumbenciais, ou seja, metade das custas processuais e

382 COSTA MACHADO, Antônio Cláudio. Código de Processo Civil interpretado e anotado: artigo

por artigo, parágrafo por parágrafo. Barueri: Manole, 2006, p. 317. Acresce Bedaque que a rigor não é o

princípio da sucumbência que regula a matéria, mas sim o da causalidade, que lhe é mais amplo (BEDAQUE, José Roberto dos Santos. Código de Processo Civil interpretado, cit., pp. 103-104).

honorários de quinhentos reais, com correção monetária pelo IGPM e juros de mora de doze por cento ao ano a partir do trânsito em julgado.”

Segundo nos parece, essa não tende, no entanto, a ser a solução ideal para a generalidade dos casos.

Pense-se v.g. na decisão que, em saneador, acolhe a objeção de prescrição para fulminar parte das comissões reclamadas pelo autor contra o réu, determinando a abertura de instrução para apuração do direito ou não do autor às verbas remanescentes.

No aludido exemplo, é evidente que o juiz decompôs o pedido, concedendo tutela estável ao réu em relação a uma parte do objeto litigioso. Nem por isso, todavia, soará conveniente fixar desde logo a responsabilidade do autor pelas custas e honorários inerentes a essa parcela. Pode acontecer muito bem de, no julgamento da fração remanescente do pedido (verbas não alcançadas pela prescrição), a solução acabar sendo favorável ao autor, mediante o reconhecimento de seu direito às comissões, caso em que ficará caracterizada a sucumbência recíproca, a impor a distribuição e compensação proporcional dos honorários e despesas entre as partes (CPC, art. 21, caput).

Como se vê, o esgotamento do objeto litigioso parece ser relevante para que o juiz, tendo uma perspectiva global da vitória e da derrota de cada parte, possa então arbitrar com segurança os respectivos encargos, inclusive mediante a valoração mais profunda dos critérios das alíneas a, b e c do artigo 20, § 4º, do Código, influentes na definição da honorária sucumbencial.

Fixar desde logo honorários em favor de uma das partes, sem saber o que acontecerá em relação às pretensões remanescentes, pode, também, dar ensejo à prática de atos totalmente evitáveis, ao arrepio da economia processual. No exemplo acima citado, se o juiz esperar pelo esgotamento da fase cognitiva, poderá chegar à conclusão de que as partes sucumbiram reciprocamente e em proporção similar, determinando, consequentemente, que cada qual suporte os honorários de seus respectivos patronos. Nessa situação, ficará obviada a instauração de fase de cumprimento para o recebimento de honorários advocatícios, pois terão sido compensados entre as partes, na forma do artigo

21.383

Portanto, em linha de princípio, pode-se dizer que a deliberação quanto ao custo financeiro do processo deve aguardar a integral solução do objeto litigioso, por meio da sentença final, não devendo ser realizada por etapas ou escalas. A relação de dependência recomenda que o acessório só se decida depois da integral definição do principal.

No entanto, se esta pode ser definida como uma regra geral, comporta, todavia, certas exceções e mitigações. Pense-se, por exemplo, na ação de cobrança intentada pelo autor contra A e B, em litisconsórcio passivo, facultativo e simples. Provando A, ictu oculi, que já pagou o débito ou obteve a sua remissão por outro meio, o juiz poderá desmembrar o objeto litigioso, julgando improcedente o pedido formulado contra A e determinando o prosseguimento do processo apenas em relação a B, com a abertura de instrução.

Não parece lógico e nem razoável que o juiz, já tendo rechaçado definitivamente o pedido formulado contra A, aguarde a conclusão do processo (que segue em relação a B) para somente nessa ocasião, com o exaurimento do objeto litigioso complexo, dispor sobre as verbas de sucumbência. Se a sentença, apesar de parcial, fulminou por completo a pretensão deduzida pelo autor contra A, “extinguindo” o processo relativamente a ele, o juiz nesse momento já terá todos os elementos para cravar que o autor sucumbiu integralmente frente a esse réu, devendo responder pelos encargos respectivos. O capítulo principal, no que tange a A, já foi integralmente ferido, de tal arte que o acessório fica em condições de simultâneo julgamento. Não há dependência alguma entre o que será decidido quanto a B e as verbas de sucumbência devidas a A.

A situação, aliás, em nada difere da exclusão de litisconsorte passivo por motivo de ilegitimidade, que, sendo decretada, impõe que os ônus sucumbenciais sejam

383 Daí, a nosso sentir, o acerto da decisão que, em saneador, pronuncia a prescrição sobre parte do pedido formulado contra o réu, sem, no entanto, antecipar nesse momento qualquer deliberação sobre o custo financeiro do processo. Procedendo exatamente dessa forma, confiram-se os seguintes precedentes: TJSP, 10ª Câmara de Direito Privado, AI n. 2045275-50.2014.8.26.0000, Relator Desembargador Carlos Alberto Garbi, j. 29.04.2014; TJSP, 28ª Câmara de Direito Privado, AI n. 2015262-05.2013.8.26.0000, Relator Desembargador Manoel Justino Bezerra Filho, j. 22.10.2013; TJSP, 34ª Câmara de Direito Privado, AI n. 0197266-78.2012.8.26.0000, Relator Desembargador Soares Levada, j. 26.11.2012.

prontamente suportados pelo autor, ainda que o processo tenha seguimento em relação a outros demandados.384

O mesmo vale para outras situações, como é o caso do pré-julgamento da reconvenção em relação à ação principal, por motivo processual ou até mesmo meritório (v.g., reconhecimento de prescrição ou decadência a acobertar a pretensão reconvencional). Considerando que “Os honorários na reconvenção são independentes daqueles fixados na ação principal, independentes, inclusive, do resultado e da sucumbência desta”385, o juiz, simultaneamente à extinção da reconvenção, deverá fixar os ônus sucumbenciais respectivos, mesmo sabendo que o objeto litigioso só será exaurido e extinto o processo com o julgamento da demanda principal.

Aluda-se ainda a outras hipóteses de redução do cúmulo subjetivo, como é o caso da antecedente rejeição da oposição interventiva em relação à demanda principal. Como diz Cândido Rangel Dinamarco, “a cessação (da oposição) antes da pronúncia da sentença (concernente à demanda principal) implicará redução do objeto do processo e exclusão do opoente – voltando o litígio e a estrutura subjetiva da relação processual ao que eram antes de deduzida a oposição.”386

Uma vez rechaçada a pretensão do opoente, com a sua exclusão da relação processual, não há, aqui também, sentido em que se deixe para o final do processo a fixação do custo financeiro a ser suportado pelo opoente. O objeto litigioso remanescente, a ser decidido pela sentença final, diz respeito exclusivamente ao embate entre autor e réu, não tendo nenhuma interferência na responsabilidade do opoente pelas custas e honorários decorrentes do insucesso de sua demanda.

384

“A exclusão da lide de parte considerada ilegítima em litisconsórcio passivo inicial torna inequívoco o cabimento de verba honorária pelo sujeito passivo processual responsável pela inclusão indevida, por força da sucumbência informada pelo princípio da causalidade.” (STJ, REsp 824.702/RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 13/02/2007, DJ 08/03/2007, p. 171). De igual teor: TJSP, 17ª Câmara de Direito Privado, Apelação n. 9107589- 20.2008.8.26.0000, Relator Desembargador Erson T. Oliveira, j. 23.11.2011.

385 STJ, AgRg no Ag 690.300/RJ, Rel. Ministro MASSAMI UYEDA, QUARTA TURMA, julgado em 13/11/2007, DJ 03/12/2007, p. 311. No mesmo sentido e da mesma Corte Superior: AgRg no Ag 1309003/SP, Rel. Ministro ALDIR PASSARINHO JUNIOR, QUARTA TURMA, julgado em 09/11/2010, DJe 23/11/2010; EDcl no AgRg no Ag 1366252/GO, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, QUARTA TURMA, julgado em 07/06/2011, DJe 14/06/2011; REsp 332.101/SP, Rel. Ministro CARLOS ALBERTO MENEZES DIREITO, TERCEIRA TURMA, julgado em 26/02/2002, DJ 08/04/2002, p. 212.

386

Cindido o objeto litigioso, portanto, não há regra absoluta quanto ao momento em que o juiz deverá deliberar sobre o custo financeiro do processo. Regra geral essa deliberação ficará reservada para a sentença final, ocasião em que o juiz terá condições de, examinando globalmente a solução dada ao objeto litigioso, aferir o grau de sucumbimento de cada parte. Por vezes, no entanto, esse princípio geral sofre mitigação, autorizando o juiz a deliberar por etapas quanto aos encargos sucumbenciais, o que se dá fundamentalmente quando não há relação de dependência alguma entre a parte do mérito precedentemente julgada e o restante deixado para exame na sentença final.