1. Afirmados óbices à admissibilidade da resolução fracionada do mérito
1.4 Risco de desarmonia das decisões exaradas no mesmo processo
A acumulação de diferentes pretensões numa mesma relação processual, induzindo à complexidade de seu objeto, é tolerada pelo sistema à luz de dois objetivos fundamentais, quais sejam, a busca pela economia processual e o interesse na produção de decisões harmônicas e coerentes entre si.232
A primeira meta é de fácil visualização. Imagine-se que as vítimas de certo acidente de trânsito se reúnam e, juntas, proponham a correspondente ação indenizatória contra a pretensa causadora. O litisconsórcio, aqui, será facultativo (pois as vítimas podiam
231 Precisamente nesse sentido, quanto ao duplo estágio de imunização da sentença parcial, ver: SICA, Heitor Vitor Mendonça. Preclusão processual civil, cit., pp. 214-219.
232 Segundo Joel Dias Figueira Júnior, as vantagens da admissão do cúmulo de pedidos numa mesma relação processual são “a notável economia processual e de despesas, especialmente porque a sentença a ser prolatada haverá de examinar as diversas questões comuns às várias ações cumulativas, com a manifesta vantagem ulterior de evitar decisões conflitantes.” (FIGUEIRA JÚNIOR, Joel Dias. Comentários ao Código
ir separadamente a juízo) e simples (pois a decisão não será necessariamente uniforme em relação a cada uma delas). Resultará, no entanto, em economia de recursos e de esforços por parte do Estado-Juiz: a expedição e cumprimento de um só mandado, v.g., bastarão para que o réu seja citado de todas as demandas contra ele deduzidas, deflagrando o prazo para o oferecimento de defesa. Da mesma forma, ficará otimizada a atividade probatória: em vez de serem produzidas, em processos separados e em juízos diversos, várias audiências para a elucidação da dinâmica do acidente e consequente identificação de seu causador – portanto, para a apuração do mesmíssimo fato –, a acumulação subjetiva permitirá que isso seja feito de maneira concentrada.
Aliás, evitada a pulverização de processos relativos aos mesmos fatos, mediante a aglutinação das atividades instrutória e decisória em um só juízo, o ideal da coerência da resposta jurisdicional também ficaria, teoricamente, assegurado. No aludido exemplo, seria difícil conceber que o juiz, depois de ter presidido instrução única, (i) condenasse o réu a indenizar o primeiro dos demandantes e, ao mesmo tempo, (ii) julgasse improcedente o pleito do segundo demandante, sob o fundamento de que foi este último, e não o réu, o causador do acidente. De duas, uma: ou o réu causou o acidente e, assim, deve responder perante todos os que comprovem a sua condição de lesados; ou ele não o causou e não pode ser chamado à responsabilidade perante ninguém.
Seria interessante ao sistema, portanto, também sob a ótica de evitar a prolação de decisões incongruentes entre si, a aglutinação de demandas, bem assim o seu julgamento conjunto. Por isso, inclusive, a previsão do artigo 105 do Código: “Havendo conexão ou continência, o juiz, de ofício ou a requerimento de qualquer das partes, pode ordenar a reunião de ações propostas em separado, a fim de que sejam decididas simultaneamente.”233
Sem falar: no artigo 265, IV, a, do Código, que prevê a suspensão do processo em caso de prejudicialidade externa, sobrestando “o curso do processo que veicula a causa prejudicada, até o resultado da prejudicante, assim evitando a ocorrência de
233 Sustenta Patricia Miranda Pizzol, em comentário ao aludido dispositivo, que “para que os julgados sejam harmônicos e não ocorra um dispêndio desnecessário de atividade jurisdicional, tempo, dinheiro, sendo a hipótese de conexão ou continência, fica o magistrado obrigado a proceder à reunião dos processos, a fim de julgar simultaneamente as duas lides postas em juízo, consoante o disposto no art. 105 do CPC, Se não o fizer, haverá o risco da prolação de decisões que sejam logicamente (praticamente) contraditórias (embora possam ser juridicamente compatíveis).” Cuidar-se-ia, pois, de comando cogente. (PIZZOL, Patricia Miranda. In: MARCATO, Antonio Carlos (Coord.). Código de Processo Civil
decisões eventualmente conflitantes”234
; no artigo 60, in fine, que manda sobrestar o processo principal por até noventa dias, a fim de que possa ser julgado em conjunto com a oposição autônoma; no artigo 318, que manda sejam julgadas simultaneamente a demanda principal e a reconvenção etc.
Surge, nessa medida, ponderável óbice à técnica do julgamento segmentado do objeto litigioso. Se o sistema é orientado a prezar pela harmonia de julgados, evitando que sejam acometidos de incoerências lógicas, seria um contrassenso permitir o julgamento em escalas do mérito. Como diz Clarisse Frechiani Lara Leite, a harmonia de julgados, objetivada pelo sistema ao admitir a cumulação de demandas, provavelmente ficaria comprometida com a possibilidade de decisões separadas dos diversos objetos cumulados.235
Cremos, todavia, que também esse não se constitua num argumento insuperável, apto a determinar a inadmissibilidade da técnica.
Primeiro, convenhamos que o julgamento concentrado do objeto litigioso, mediante sentença única, apenas teoricamente elimina o risco de haver contradição lógica entre os diferentes capítulos de mérito. Pense-se, novamente, em ação de indenização, na qual a autora pede a condenação do réu à reparação de danos materiais e morais decorrentes de acidente automobilístico a ele atribuído.
Procedentes ambos os pedidos em primeiro grau, poderá o recurso do réu se limitar ao pedido de reforma do segundo capítulo, que a condenou à reparação de danos morais. Teremos, portanto, um recurso parcial, do ponto de vista de sua extensão.
É perfeitamente possível que o tribunal ad quem, revendo as provas, acabe por concluir que a causadora do acidente foi a autora.236 Nessa contingência, o recurso do réu será provido, para julgar improcedente o pedido de indenização moral (dispositivo),
234 MARCATO, Antonio Carlos. In: ____________ (Coord.). Código de Processo Civil
interpretado. S. Paulo: Atlas, 2004, p. 761.
235 LEITE, Clarisse Frechiani Lara. “O conceito de sentença”, cit, pp. 84-85.
236 Embora a devolução, do ponto de vista da sua extensão, seja limitada pela impugnação do recorrente, no tocante à sua profundidade ela é amplíssima, permitindo ao tribunal apreciar “todas as questões suscitadas e discutidas no processo, ainda que a sentença não as haja julgado por inteiro” (CPC, art. 515, § 2º).
com base na premissa de que não houve ilícito por parte do réu (fundamentação). Porém, nenhum impacto terá esse julgamento sobre o outro capítulo decidido em primeiro grau e não devolvido ao tribunal ad quem, qual seja, o que concedeu à autora a indenização material (dispositivo), com lastro no reconhecimento do ilícito por parte do réu (fundamentação).
Teremos, aqui, uma incongruência lógica entre os dois capítulos de mérito passados em julgado, inobstante tenham eles sido julgados conjuntamente em primeiro grau, o que indica que o fenômeno, embora não seja desejável, não constitui nem nunca constituiu algo completamente estranho ao sistema.
Por outro lado, como se verifica do artigo 292, caput, do Código, a lei consente a cumulação de vários pedidos contra o mesmo réu, “ainda que entre eles não haja conexão”, facilitando e ampliando, portanto, os casos de ocorrência do fenômeno.237 Pode v.g. o autor ajuizar demanda pleiteando do mesmo réu, em cumulação simples, (i) o recebimento do preço de contrato de compra e venda e (ii) o pagamento de valor fixado em contrato de mútuo.
Nesses casos, não havendo qualquer elemento de conexidade entre as pretensões – as contratações são diversas –, o risco da prolação de decisões contraditórias aparentemente não se põe. Os fatos à base de cada pretensão são completamente diversos e, sendo assim, soa difícil conceber um confronto teórico entre os fundamentos de cada um dos capítulos decisórios. Ao menos aqui, portanto, esse receio não é idôneo para justificar que se impeça o juiz de seccionar o julgamento do mérito, oferecendo respostas separadas no tempo a cada uma das pretensões.238
Mais importante, no entanto, é assentar que julgamento seccionado do mérito não se confunde com precipitação. Quando se fala em permitir que a resposta
237 Cf. BUENO, Cássio Scarpinella. In: MARCATO, Antonio Carlos (Coord.). Código de Processo
Civil interpretado. S. Paulo: Atlas, 2004, p. 905; MALUF, Carlos Alberto Dabus. “Cumulação de ações no
processo civil”, cit., pp. 61 e seguintes.
238 Bem por isso a observação de Bruno Silveira de Oliveira, para quem o julgamento fracionado teoricamente só encontra algum obstáculo nos casos de conexidade a ligar as diferentes pretensões. Não havendo essa relação, contudo, fica afastado o risco de contradição lógica entre os diferentes capítulos de mérito (SILVEIRA DE OLIVEIRA, Bruno. “Um novo conceito de sentença?”. Revista de Processo, Vol. 149, Julho de 2007, pp. 149 e seguintes).
jurisdicional venha por etapas, não se está a defender que o juiz aja açodadamente, prescindindo da produção de provas essenciais e da cognição exauriente para julgar certa fração do objeto litigioso, o que de resto esvaziaria a própria aptidão do decisório de imunizar-se com a res judicata.239
O julgamento fracionado, portanto, é aquele que tem por objeto pretensão já suficientemente madura para ser decidida, relativamente à qual o juiz já atingiu o estado de certeza processual. Tivesse sido deduzida isoladamente, tal pretensão seria imediatamente decidida de meritis, já que o juiz não tem necessidade de aprofundamento cognitivo algum para poder deliberar a seu respeito. Sua única peculiaridade reside na circunstância de ter vindo ao processo na companhia de outras pretensões ali também formuladas, induzindo à complexidade do objeto litigioso, as quais, embora autônomas e destacáveis, reclamam, no entanto, providências instrutórias adicionais para atingirem o mesmo nível de maturidade.
Se o juiz já atingiu o estado de certeza processual em relação a certa parcela do objeto litigioso (v.g., pagamento dos danos emergentes, comprovado documentalmente pelo réu), e se essa parcela não ostenta relação de dependência em relação ao remanescente (v.g., direito do autor aos lucros cessantes, ainda pendente de averiguação), não parece haver justificativa razoável para que se postergue a decisão a respeito da primeira pretensão. O que habilita o juiz a pronunciar-se de meritis sobre certa demanda é, sempre, o nível de cognição que ele já tenha alcançado a respeito, em termos de profundidade, e não a circunstância de haver, ou não, outras pretensões deduzidas no mesmo processo (continente).
Aliás, é estranho pensar que o juiz, tendo atingido certo nível de cognição, possa deliberar sobre determinado pedido se ele foi formulado sozinho, mas que não possa assim proceder se o mesmíssimo pedido veio contingencialmente acompanhado de outras demandas, portanto em processo de objeto complexo. Como observa Silas Dias de Oliveira
239 “O que importa para a formação ou não, da coisa julgada é a apreciação da questão principal em cognição exauriente, mesmo que diante de um procedimento que possua grau de cognição horizontal restrita. (...) Já as tutelas concedidas mediante cognição sumária não são aptas à formação de coisa julgada.” (ARAÚJO, José Henrique Mouta. Coisa Julgada Progressiva e Resolução Parcial do Mérito, cit., p. 129). Na mesma linha, sustentando que a formação de coisa julgada material pressupõe que a decisão seja exarada mediante cognição exauriente, havendo uma vinculação constitucional entre ambas: TALAMINI, Eduardo. Coisa julgada e sua revisão, cit., pp. 53-56; DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de Direito
Filho, “não há muito sentido em incentivar o jurisdicionado a cumular demandas, sem a possibilidade de, na hipótese de se mostrar mais vantajoso, julgá-las em momentos diferentes. Num primeiro momento, prestigia-se a economia processual, mas em seguida sepulta-se a tempestividade da tutela jurisdicional. (...) Não se viabilizar a oportuna desacumulação de demandas traria prejuízos ao sistema, visto que, em hipóteses tais, seria mais vantajoso ajuizar duas ações, separadamente, mas com o dobro de gastos e de esforço.”240
E daí prever a lei chilena, por exemplo, a desacumulação das diferentes demandas quando a sua aglutinação frustrar o objetivo da economia e eficiência processuais.241 Com efeito, a cumulação é prevista e admitida, tanto lá quanto aqui, sob a premissa de que as pretensões alcançarão o grau de maturidade em momento próximo, no mais das vezes ao final da instrução, abrindo caminho para o julgamento concentrado. Porém, por vezes não é isso o que ocorre e, nesses casos, não há porque adiar a decisão daquilo que já está pronto para ser julgado até que as demais pretensões, cujos pressupostos são diversos, atinjam o mesmo ponto de maturação. A cumulação nem sempre há de resultar, portanto, em julgamento simultâneo.
Em suma, o que se julga antecipadamente no tempo, mediante cisão do objeto litigioso, é a pretensão já madura, em regime de cognição exauriente. Essa constatação, se não elimina por completo, ao menos mitiga sensivelmente o receio de que a técnica possa levar a um eventual confronto lógico entre as diferentes decisões fruto do desmembramento.
Mas mesmo esse risco de conflito lógico entre as decisões resultantes do fracionamento – que nos parece reduzido ante as observações acima –, não deve impedir o uso da técnica. Além de já ser inerente tal possibilidade ao sistema – falando por si o caso do recurso parcial, acima aludido, bem assim o das pretensões que, embora conexas, são
240 OLIVEIRA FILHO, Silas Dias de. Julgamento fracionado do mérito e suas implicações no
sistema recursal, cit., pp. 50-51.
241
Dispõe o artigo 172, do Codigo de Procedimiento Civil daquele país: “Cuando en un mismo juicio se ventilen dos o más cuestiones que puedan ser resueltas separada o parcialmente, sin que ello ofrezca dificultad para la marcha del proceso, y alguna o algunas de dichas cuestiones o parte de ellas, lleguen al estado de sentencia antes de que termine el procedimiento en las restantes, podrá el tribunal fallar desde luego las primeras. En este caso se formará cuaderno separado con compulsas de todas las piezas necesarias para dictar el fallo y ejecutarlo, a costa del que solicite la separación.”
deduzidas em momentos diferentes e em processos diversos –, lembre-se que o instituto da coisa julgada tem por finalidade eliminar a possibilidade de conflito prático entre decisões. Torna a res judicata inconcebível, v.g., a coexistência de uma sentença que determina que o réu pague ao autor certa verba e de outra, que declara que o mesmo réu nada deve ao autor. Evita, pois, o choque entre os preceitos imperativos extraídos de diferentes provimentos jurisdicionais.
Daí, aliás, a lição de que a coisa julgada não se põe apenas e tão somente nos limites do pedido julgado, ficando alcançadas por ela todas as demandas cujo acolhimento seja prática e objetivamente incompatível com o que ficou estabelecido no decisum imutabilizado. Assim, se foi declarado em definitivo que Tício não é pai de Caio, não pode Caio ajuizar nova demanda, pleiteando alimentos (questão principal) com base no reconhecimento incidenter tantum da paternidade atribuída a Tício (questão prejudicial). O mesmo acontece no âmbito das ações concorrentes: rechaçado o pedido de abatimento do preço, deduzido com lastro no artigo 500 do Código Civil, não pode o autor intentar nova demanda, desta feita postulando a rescisão do contrato. As pretensões são juridicamente equivalentes e, para evitar hipotético o confronto prático entre as decisões, a coisa julgada material obsta ao julgamento de meritis da segunda demanda: electa una via altera non datur.242
A divergência dos motivos de duas sentenças, sem conflito prático entre seus dispositivos, no entanto, é admitida pelo sistema, embora não seja, naturalmente, a solução mais desejável.243 Tanto assim que os motivos, por mais importantes que sejam, em nosso sistema não ficam cobertos pela autoridade da coisa julgada (CPC, art. 469), o que de resto se reforça pela dicção dos artigos 5º e 325, que autorizam o manejo da ação declaratória incidental para que a questão prejudicial, que seria decidida apenas incidentalmente, se converta em questão principal, sujeitando-se à imunização.244
242
TALAMINI, Eduardo. Coisa julgada e sua revisão, cit., pp. 70-71.
243 DINAMARCO, Cândido Rangel. “O conceito de mérito em processo civil”, cit., p. 274; Humberto Theodoro. “Coisa julgada: pluralidade e unicidade (Súmula n. 401 do STJ)”, cit.
244 Preciso nesse particular o magistério de José Rogério Cruz e Tucci: “em nosso direito processual civil, o veículo apto para estender às questões prejudiciais a autoridade da coisa julgada, de sorte a permanecerem elas insuscetíveis de discussão, após o encerramento do processo e transitada em julgado a sentença, é denominado ação declaratória incidental, cuja função é exatamente a de permitir que se decida também com força de coisa julgada alguma questão logicamente subordinante daquela que se havia suscitado ao formular-se o pedido.” (TUCCI, José Rogério Cruz e. A motivação da sentença no processo civil. S. Paulo: Saraiva, 1987, p. 136).
Portanto, não se nega que a técnica da cisão implica algum risco de incongruência lógica entre as decisões fracionadas. É possível, por exemplo, que, depois de julgado procedente certo pedido, com trânsito em julgado, e prosseguindo o processo quanto ao remanescente, o autor seja declarado carecedor da ação, com a resolução do objeto restante na forma do artigo 267, VI, do Código. Teremos, aqui, um conflito teórico entre as fundamentações, que efetivamente é inconveniente, mas que (i) não vulnera a coisa julgada, (ii) não é novidade no sistema e (iii) não pode preponderar ante os valores maiores da segurança jurídica e da duração menor do processo, que estão à base da técnica do fracionamento.245