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Monte Castelo, Montese...: a FEB vitoriosa

Ainda sobre o prestígio conquistado por Castello Branco na Segunda Guerra Mundial, o general Cordeiro de Farias é contundente ao afirmar que a FEB não teve um Estado-Maior durante toda a campanha na Itália, quando este foi chefiado pelo coronel Brayner, portanto, coube a Castello Branco tirar o melhor proveito da situação, sendo ele um grande estrategista:

“Sabia perfeitamente que não havia outro caminho senão aquele. Ele teve um desempenho notável. Chegou a exercer funções além de seu cargo específico, ligadas à chefia do Estado-Maior, porque Brayner se apagou por falta de espírito de decisão.”125

Quando voltou ao Brasil, depois da guerra, Castello Branco não apoiou o golpe para destituir do poder o ditador Getúlio Vargas, no entanto, sentia um certo alívio diante do fracasso da manobra comunista de se aproximar do poder. O Partido Comunista Brasileiro, comandado por Luís Carlos Prestes, apoiava a “Constituinte com Getúlio” e o movimento do queremismo. Mesmo durante o governo de Dutra que colocou o PCB na ilegalidade, rompeu relações diplomáticas com a URSS e cassou os mandatos dos parlamentares comunistas (destaque-se, entre os cassados o próprio Prestes), Castello Branco continuava a enxergar a ameaça vermelha por todos os lados. Por ironia, ele acompanhava o avanço comunista na diretoria da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil, uma de suas maiores preocupações. Diante desta situação, Castello tentou fundar uma instituição paralela em 1946, mas foi convencido de que isto apenas dividiria uma instituição que ainda tinha vários problemas para se constituir como defensora dos interesses dos ex-combatentes. Este sentimento anticomunista de Castello Branco ainda ganharia novos contornos anos mais tarde, escrevendo páginas tristes de nossa história: o golpe de 1964 e a conseqüente repressão dos militares.

italiano e às sucessivas tentativas de tomar o Monte Castelo (de novembro a fevereiro de 1945), o Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria da FEB, o PANP, registrou os maiores índices de baixas no front por motivos psiquiátricos, que variavam do estado de ansiedade, ataques de histeria, fobia de obuzes a esquizofrenia, depressão melancólica e personalidade psicopática. No total, deram entrada no PANP neste período 235 pacientes, sendo que de setembro de 1944 a maio de 1945, durante toda a campanha da FEB na Itália (levando em consideração o contato com o inimigo), foram registradas 384 baixas psiquiátricas.126

Mas Monte Castelo deixou de ser um incômodo para a FEB, oficiais e praças, quando foi tomado finalmente depois de cinco tentativas. O pico que tinha assumido uma conotação de dever moral para cada febiano, começava a ser ressignificado em favor das Forças Armadas, na tentativa de valorizar a sua participação na Segunda Guerra Mundial. Com a elevação conquistada, o discurso oficial tratou logo de glorificar as ações dos expedicionários, menosprezando outras ações de combate da FEB tão importante quanto esta. O MONTE CASTELO surgia como um objeto de devoção da mística febiana.

Segundo nos conta Joel Silveira em seus relatos sobre a guerra, a ofensiva sobre Monte Castelo teve início em novembro de 1944. A oeste de Bolonha, o cume estava situado em uma região na qual os alemães mantinham uma posição bastante sólida, com defesas bem situadas também nos montes Belvederes, Gorgolesco e Della Toraccia. Para o exército alemão, manter o domínio destas fortificações significava proteger a região sudeste, evitando que as tropas aliadas tivessem o livre acesso ao vale do rio Pó pelas estradas 64. Já para o esforço de guerra dos aliados era imprescindível a conquista da cidade de Bolonha, o que resultaria no acesso direto ao Passo de Brenner, na fronteira com a Áustria, conseqüentemente comprometendo o recuo alemão em um eventual reforço em outras frentes.

Para os soldados brasileiros, Monte Castelo assumiu a imagem de uma “muralha germânica” que colocara a teste sua bravura e sua habilidade, diria o jornalista. Entre 24 de novembro e 12 de dezembro de 1944 a FEB realizou quatro tentativas fracassadas para conquistar a elevação, tendo sofrido um assustador número de baixas. Para o correspondente de guerra dos Diários Associados, a ofensiva de 12 de dezembro entrou para a história daquele Corpo Expedicionário como um dia que qualquer ex-combatente brasileiro gostaria de esquecer. Pela quarta vez seguida o general Willis Dale Crittenberg, comandante do IV Corpo do Exército norte-americano, ao qual a FEB estava subordinada, insistia na tomada de

126 OLIVEIRA (2001), Op. cit., p.137-138.

Monte Castelo apenas por um regimento brasileiro, sendo que o sucesso da operação exigia o empenho de toda a Divisão que constituía a FEB, como acreditava o general Mascarenhas de Moraes.

Sobre os ataques a Monte Castelo, Cordeiro de Farias revelou que desde a primeira investida todos sabiam que seria um fracasso, inclusive o general Mark Clark, comandante do V Exército norte-americano. “E o general Clark, queria que morrêssemos?”, pergunta Cordeiro de Farias, que de prontidão responde a si mesmo: “Não”. Segundo ele o general americano queria dar aos alemães a impressão de que as Forças Aliadas haviam desistido da tomada de Bolonha e decidido tomar Monte Castelo. O plano era forçar o movimento das tropas alemãs até a região de Monte Castelo para depois, com a chegada do inverno, lançar um ataque decisivo a Bolonha. Cordeiro de Farias assume que os ataques de 24, 25, 29 de novembro e 12 de dezembro foram todos suicidas e que toda a oficialidade brasileira sabia disto, no entanto, “nada podíamos transmitir aos nossos subordinados”. O mesmo acontecia com o general Clark, que não podia assumir formalmente e publicamente as verdadeiras razões do ataque ao elevado, uma vez que “ninguém diz à sua própria tropa que ela vai ser lançada numa manobra sem perspectivas de vitória”, completa Cordeiro de Farias. Se o general Clark não tinha escolhas ou se a operação se justificava em termos militares, o que dizer sobre o aspecto humano. O sacrifício de mais de 400 vidas, entre mortos e feridos, justificava a operação? Ao que Cordeiro de Farias respondeu da seguinte maneira: “Os ataques preencheram completamente suas finalidades. Durante todas as minhas conferências sobre a FEB, aliás, eu disse sempre que, por mais paradoxal que pareça, as derrotas da FEB foram o melhor auxílio dado pelo Brasil às tropas aliadas.”127

Com a chegada do inverno a guerra teve uma “trégua” informal e a situação pôde ser melhor avaliada e planejada. Então, no dia 20 de fevereiro as tropas brasileiras colocaram-se em posição de combate, mas agora conforme uma estratégia mais adequada aos seus objetivos. Desta vez, para a ofensiva a FEB contava com todo os seus três regimentos, com toda a sua artilharia e o apoio da 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1ª E.L.O.) da Força Aérea Brasileira (FAB), comandada pelo general Osvaldo Cordeiro de Farias, além de atuar em conjunto com a experiente 10ª Divisão de Montanha norte-americana, que tinha como missão tomar o vizinho Monte Belvedere. Finalmente, os soldados brasileiros conquistaram Monte Castelo em 21 de fevereiro de 1945, fazendo mais de 80 prisioneiros.

127 FARIAS, Cordeiro de. apud. CAMARGO & GÓES, Op. cit., p.320-322.

Para Silveira, entre os maiores feitos da FEB estavam também a vitória de Castelnuova, a 4 de março de 1945, e a de Montese, a 14 de abril do mesmo ano, culminando com o cerco e rendição de toda a 148ª Divisão de Infantaria alemã, contabilizando cerca de 15 mil prisioneiros. Mas foi também em Montese que os expedicionários enfrentaram o maior número de baixas em sua campanha na Itália, um total de 426 baixas, entre mortos e feridos. Durante todo o conflito 457 expedicionários morreram e mais de 2700 ficaram feridos.

Entretanto, Montese, Castelnuova entre outros feitos dos pracinhas brasileiros na Itália não mereceram o mesmo tratamento dado à conquista de Monte Castelo. A primeira memória que se construía da FEB tratou de transformar as frustradas tentativas de assalto ao elevado em um episódio heróico, em que os astutos e bravos soldados brasileiros souberam resistir ao duro inverno e à guarnição alemã, que fortemente equipada protegia o cume. Isto não deixa de ser uma meia verdade, só esqueceram de dizer do medo que atormentava os febianos, sentimento comum diante das atrocidades da guerra, dos traumas que acometeram centenas de nossos combatentes. O brasileiro como um “guerreiro improvisado” era o mote do trabalho de enquadramento da memória oficial da FEB, que reconhecia que “Monte Castelo não foi apenas uma vitória militar, mas uma vitória brasileira”. No entanto, os diversos discursos que sucederam a este trabalho de memória das Forças Armadas desprezaram o aspecto humano deste e de outros episódios da participação do Brasil no teatro de operações no Mediterrâneo, em geral eram relatos frios, preocupados somente com as táticas e operações de combate. Os sofrimentos dos soldados brasileiros e as mortes de seus companheiros eram meramente mais um dado que compunha a narrativa glorificante da FEB e ajudava a dimensionar a triste estatística de mortos e feridos em toda a participação do Brasil neste conflito mundial.

Enquanto isto, no Brasil do pós-guerra, cristalizava-se uma imagem de que a FEB tinha desempenhado um papel preponderante e decisivo na luta na Itália. Criando-se, então, a idéia de uma “Campanha da Itália”, na qual Mascarenhas de Moraes aparecia como o herdeiro das tradições de Caxias, que de forma inabalável conduziu os pracinhas à heróica vitória nos apeninos. Este enquadramento da memória, segundo Maximiano, desprezou qualquer tentativa de compreender o verdadeiro papel e relevância da FEB ao ser incorporado ao V Exército norte-americano, juntamente com algumas dezenas de outras divisões naquele teatro de operações. Lembrando que a FEB não representava mais do que 10% do V Exército em 1945. Também não faz parte desta memória o fato de que

Mascarenhas contava com um limitado poder de decisão, como mencionado anteriormente, o que os colocava em uma situação desqualificada de retransmissor de ordens do então general Willis Crittenberger, comandante do IV Corpo de Exército norte-americano, unidade de comando imediatamente acima da divisão brasileira.

O trabalhado de memória também procurou difundir a imagem de um soldado brasileiro que munido de sua “malandragem” conseguiu conter e superar os alemães em combate. Histórias como a da enfermeira da FEB, Elza Cansanção, que fazia questão de inúmeras vezes reafirmar que o “tedesco tinha medo de faca”, ou de Joel Silveira que alude a um episódio em que alguns praças teriam se desvencilhado de cercos inimigos dando berros insanos e golpes de capoeira, integram o imaginário do combatente brasileiro. Mas, para Maximiano, o fato de Cansanção e Silveira não terem nenhum contato com soldados alemães, a não ser prisioneiros, inviabiliza seus relatos que, por sua vez, não passavam de tentativas de reforçar a moral do corpo expedicionário ou de reverberações de discursos surgidos durante a campanha. No entender do autor, estes relatos não encontraram ressonância nas opiniões pessoais daqueles que tiveram que lidar frente a frente com os soldados alemães:

As lembranças a respeito dos alemães de forma geral fazem menção à estatura física dos soldados, à eficiência de suas armas, à cega obediência à disciplina, dentro do mais estrito estereótipo referente aos alemães, criado desde a Primeira Guerra Mundial, e fomentado pela pregação militarista dos oficiais prussianos.128

O que se viu no pós-guerra foi uma literatura que não cansou de fazer alusão à inventividade, criatividade, espontaneidade e “malandragem” como características do

“homem brasileiro”, fatores que na certa estariam presentes na constituição da identidade do febiano, já que o corpo expedicionário era em geral composto por homens do povo convocados a exercer o seu tributo de sangue. Eram negros, caboclos, descendentes de europeus e japoneses, uma mistura étnico-racial de dar inveja. O general Octavio Costa, na época tenente, conta-nos que o comportamento nas ruas dos jovens convocados que chegavam a São João Del Rei, onde estava localizado o 11º Regimento, era de baderna,

128 MAXIMIANO (2004), Op. cit., p.214.

arruaças. Dava medo imaginar que aqueles seriam os nossos combatentes, confessou o general em suas memórias. Entretanto, sua visão mudaria no decorrer do convívio com eles, seja nas horas que antecederam a chegada da tropa na Itália ou durante o conflito. Mais tarde ele definiria o “verdadeiro homem brasileiro” da seguinte maneira: “Gente diversificada, heterogênea, desigual, inquieta. Gente movimentada, aberta e colorida; altiva, musical, humana e viva”.129 Por outro lado, segundo Maximiano, parte dos ex-combatentes da FEB gosta de nutrir este imaginário de guerreiros maliciosos, em que a brasilidade (entendida como esperteza, uma qualidade inerente ao brasileiro) teria sido um fator decisivo diante das agruras da guerra, como sugere o depoimento do febiano Geraldo de Figueiredo:

O brasileiro logo que chegou lá descobriu uma maneira muito simples.

Então tinha o borzeguim e depois a galocha pra por em cima. Então nós eliminamos o borzeguim. A gente cortava uma faixa de manta, lavava os pés e calçava a meia né, passava talco e depois embrulhava aquela faixa e punha a galocha. Ah, pronto! A gente tava com os pés quentinhos e leve. Por que a pior coisa é andar na neve. Fazer uma patrulha na neve, a pessoa tem que dosar, porque é como andar num pântano, é a mesma coisa. 130

O problema desta imagem do febiano é o quanto ela é capaz de confundir e esconder algumas verdades sobre a FEB, favorecendo a memória que se quis forjar. O melhor seria invertê-la: o quanto a inventividade do soldado brasileiro no front não foi uma resposta assertiva ao despreparo e à desorganização de toda a FEB?

Ainda sobre a participação deste “homem brasileiro” na guerra, a memória oficial também iria insistir em propagar a idéia de que os homens conclamados ao cumprimento do dever também não hesitaram em atender ao chamado da Pátria, prontos para morrer por um ideal. O que não se confirmou, lembrando que a maioria dos conscritos da FEB eram de cidadãos convocados, poucos foram aqueles que se alistaram voluntariamente para a frente de batalha. O corpo expedicionário se valia de brasileiros que desconheciam, na sua maioria, os motivos daquela guerra, logo, estavam distante de qualquer jogo ideológico. E o fato de terem respondido imediatamente à convocação não sinalizava qualquer vestígio de

129 COSTA, Octavio. Cinqüenta anos depois da volta. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1995. p.39-40.

130 FIGUEIREDO, Geraldo de. apud. MAXIMIANO (2004), Op. Cit., p.214 (entrevista concedida ao autor em São Paulo, 1999).

patriotismo de sua parte, pelo contrário, estavam ali por um puro sentimento de cumprir um dever moral, mas que lhe tinha sido imposto. O soldado-cidadão da FEB poderia ser traduzido pelo depoimento do ex-combatente Alfredo Arello, que de forma honesta descreveu o sentimento diante de sua convocação:

Eu pulei muito no Exército. Eu acendi muitas tochas. Eu fui preso em Barra Mansa, fui preso em Juiz de Fora. Eu fiz um monte de coisas para não ir mesmo. Agora eu vou dizer que eu fui porque quis? Não, eu pulei mesmo para não ir. Mas depois que eu estava em Nápoles, eu falei, agora seja o que Deus quiser, aqui não tem mais jeito!131

Sendo assim, estes e outros relatos dos ex-combatentes ajudam a desconstruir uma FEB vitoriosa, auto-glorificante, que ainda hoje insiste em seus mitos como maneira de manter viva uma memória da única campanha essencialmente militar do Brasil em todo o século XX.

Mas é preciso um alerta. O trabalho de enquadramento da FEB já podia ser encontrado na própria imprensa do Brasil de 1944. Desde o envio das tropas era preciso garantir uma memória. Quem chama a nossa atenção para isto é o ex-combatente Massaki Udihara que na época escreveu o seguinte em seu diário de campanha:

Tive a surpresa de ler um jornal de casa. Um general que chegou trouxe-o.

“O Jornal” do Rio. Na primeira página, em letras garrafais o anúncio da nossa chegada. A descrição confirmou o que sempre pensei de notícia de jornal: falsidade e deturpação consciente e criminosa da verdade. Diziam que viemos preparados. Nada disso. Que trouxemos barracas. Passamos um dia ao relento por não termos trazido. Fomos recebidos com ovações de uma grande multidão. Cais desertos, sem ninguém. Só alguns oficiais nossos e americanos e um grupo de italianos que estavam carregando caixas e nem por curiosidades nos olharam. Ruas vazias com poucas pessoas. Só moleques que corriam ao nosso lado pedindo cigarros. Descalços e esfarrapados, foi essa a multidão entusiasta que nos recebeu.132

E uma demonstração do quanto é atual os traços desta memória “enquadrada” da FEB pode ser encontrada no Noticiário do Exército, uma publicação do Exército Brasileiro, desde 18 de junho de 1957, que agora conta com a sua versão eletrônica. Em matéria de 21

131 ARELLO, Alfredo. apud. MAXIMIANO (2004), Op. cit., p.362 (entrevista concedida ao autor).

132 UDIHARA, Op. cit., p.63-64.

de fevereiro de 2003, o veículo editado pelo Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEx), faz um discurso alusivo aos mais excêntricos elementos de enquadramento apontados acima:

Monte Castelo é ícone da vitória brasileira [grifos nossos] no teatro de operações europeu. Na data de hoje, 58 anos atrás, a FEB tomou de assalto a localidade escarpada, gelada, açoitada por ventos e neve que a presumiam inexpugnável. Nossos pracinhas lançaram-se com ímpeto irresistível ao ataque esmagando resistências, desentocando os defensores das casamatas, conquistando o objetivo que há muito os desafiava. A fortaleza organizada não mais era escudo protetor do adversário; ela tombara perante nossos heróis. Ao evocarmos o feito heróico de Monte Castelo, motivo de justo orgulho para todos os brasileiros, rendamos as nossas homenagens a todos aqueles que atenderam, solícitos, ao chamamento da Pátria em perigo.133

Como se vê, mais uma vez aparece no discurso oficial o Monte Castelo como uma

“vitória brasileira”, um “motivo de justo orgulho para todos os brasileiros”. E os soldados brasileiros com seu “ímpeto irresistível ao ataque” não foram esquecidos, pelo contrário, a fortaleza alemã organizada só “tombara perante nossos heróis” (desorganziados), por isto devíamos, segundo o periódico, render homenagens a estes homens que “atenderam, solícitos, ao chamamento da Pátria em perigo.”

Por estas e outras, é preciso que aceitemos que este trabalho de memória que vem desde 1945 ainda resiste hoje em dia, mas que também extrapola os discursos oficiais e encontra refúgio em produções cinematográficas das últimas décadas. Os realizadores da nova geração eram adolescentes nos anos de 1980, pouco vivenciaram as atrocidades cometidas pelos militares, pelo contrário, herdaram um país que precisava se reconstruir democraticamente, e que para tanto resolveu colocar panos quentes nas feridas abertas entre os militares e uma parcela da sociedade civil organizada. Esquecer era o melhor remédio.

Assim, por mais que nestes últimos 20 anos tenha havido uma preocupação em rememorar a ditadura militar, esta nova geração não tem porquê odiar os militares, cresceu distante de toda esta história sombria que assenta em parte da memória dos brasileiros. Para esta geração as torturas, as humilhações, os assassinatos executados pelos militares são apenas lembranças fugazes de um tempo de que ouviram falar, que “experimentaram” nas telas do cinema ou que “aprenderam” em pinceladas nas aulas de história.

133 TOMADA DE MONTE CASTELO: 21 de fevereiro de 1945. Noticiário do Exército, ano XLVI, n.10054, 21 fev.2003, ver <http://www.exercito.gov.br/NE/2003/02/10054/capa054.htm> (consultado 23 nov. 2007).

É neste processo de esquecimento da atuação dos militares no poder que a memória

“enquadrada” da FEB vai encontrando algumas brechas no imaginário do brasileiro. Se na geração dos anos de 1960 o ódio aos militares resulta em ironia, sátira ao tratar da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em filmes recentes se prefere o enaltecimento ao tratarem dos ex-combatentes brasileiros. Assim, de forma disfarçada ou inconsciente vão surgindo alguns pequenos traços da memória “enquadrada”, imagens de uma FAB e de uma FEB heróicas. Por mais que estes novos realizadores reclamem para si um cinema preocupado com os aspectos humanos dos ex-combatentes, o que não deixa de ser verdade, é possível encontrarmos nele um certo gosto pelo militarismo e pela tecnologia de guerra.

Ao realizar o filme documentário Senta a Pua! (1999), o cineasta Erik de Castro diz ter tido uma única premissa: não trabalhar com símbolos nacionais, marchinhas e hinos militares, uma vez que pretendia partir primeiramente do aspecto humano e do fato daqueles homens serem brasileiros, para somente depois chegar nos militares.134 Mas mesmo comprometido com um novo projeto de memória destes ex-combatentes, Senta a Pua! não deixa em certos momentos de ser um filme que enaltece um pouco mais os ex-combatentes do que outros filmes desta mesma geração, como A Cobra Fumou (2002, Vinicius Reis). Mesmo que o diretor reconheça que em nenhum momento de seus encontros com os ex-combatentes da FAB, no decorrer da realização do documentário, estes tenham se glorificado como heróis, é o filme que por meio de alguns instantes de sua narrativa constrói este sentido, exerce uma certa idolatria.135

Durante o relato do brigadeiro Joel Miranda sobre o episódio em que seu avião foi abatido em Castell Franco, nas proximidades de Verona, a câmera de Senta a Pua! em um pequeno movimento denuncia a estima para com o espírito militar, em especial as honrarias.

Este depoimento é um dos mais comoventes do documentário e o primeiro do ex-combatente Joel Miranda desde 1945, com o fim da guerra. Depois deste depoimento para Erik de Castro, ele nem mesmo atendeu a imprensa na época do lançamento do filme.

Quando Joel Miranda saltou de seu avião em chamas acabou fraturando um braço em um pouso mal sucedido. Procurou ajuda e foi acolhido por partisans — tropa irregular de italianos que se opunha à ocupação alemã da Itália. Parte de sua aventura foi conseguir fazer uma

134 Estas e outras informações são fornecidas pelo cineasta Erik de Castro em um áudio extra que acompanha o documentário em sua versão para o DVD.

135 Esta opinião também é compartilhada por Tetê Mattos em O Brasil vai à guerra: representações no cinema documentário. In: CATANI, Afrânio Mendes et. al. Estudos Socine de cinema, ano IV. Rio de Janeiro: SOCINE;

UFF; FAPESP; Panorama Comunicações, 2003, p.190-197.