3. METODOLOGIA E ANÁLISE DOS RESULTADOS
3.2 RESULTADOS OBTIDOS
3.2.2 Motivações, expectativas e reconhecimentos
A escolha de uma profissão depende de fatores sociais, pessoais e financeiros. Segundo Lima (1999), a profissão de comissário é vista como um trabalho no qual os seus adeptos têm a oportunidade de conhecer diversos lugares e de usufruírem de bons hotéis, ou seja, há uma experiência turística e um estilo de vida no qual é difícil encontrar em outras carreiras. A entrevista 3 confirma essa teoria a respeito das vertentes que influenciaram sua escolha profissional.
Além de lidar com pessoas, cada dia é alguém diferente, cada dia é uma situação diferente. Eu acho que essa possibilidade de viver coisas novas o tempo inteiro, viver com pessoas novas, lugares novos, não ter rotina, não ter horários, é tudo muito diferenciado e isso tudo dá uma sensação de liberdade. Talvez eu não conseguisse trabalhar 8 horas por dia em um horário fixo, trancada dentro de uma sala com quatro paredes, acho que seria um pouco claustrofóbico para mim. Dentro do meu perfil, escolher essa profissão também teve muito a ver com isso, de ter a liberdade, a gente não tem hora pra nada, mas tem uma responsabilidade como tudo. O tempo todo é mutação, a vida de um tripulante é o tempo todo mutante, você está sempre em lugares diferentes, convivendo com pessoas diferentes, aprendendo com culturas diferentes, comendo comidas diferentes então tudo isso é mágico, se você conseguir viver isso, te dá uma gama de conhecimento, de aprendizado, de experiência até pessoal mesmo, do auto equilíbrio que é necessário para você conseguir se manter diante de tanta mudança, de tanta alteração ,você ter equilíbrio para conseguir se manter, levar à vida (ENTREVISTADA 3).
No geral, observa-se nos relatos dos comissários de bordo que eles optaram por essa carreira devido ao estilo de vida que a atividade proporciona. Além disso, percebe-se que os entrevistados optaram pela função por vocação, curiosidade, por gostarem de trabalhar com o público ou por já estarem inseridos no ambiente da aviação e, desejarem permanecer, contudo, atuando em uma função diferente.
De acordo com os entrevistados, quando é perguntado o porquê de muitas pessoas optarem por essa profissão, a maioria afirmou que é devido à imagem criada à carreira de comissário de bordo.
Eu acho que é muito pelo glamour que a profissão aparenta ter, a pessoa que está de fora ela imagina realmente a profissão com uma coisa muito glamorosa, que você viaja bastante, que você dorme em hotel, tem aquele uniforme que é sempre pomposo, a gente tem sempre que estar impecável. Isso passa uma imagem de um bom emprego, então tem aquela coisa do voo internacional, de um dia voar internacional. Então eu acho que é isso (ENTREVISTADA 4).
Na terceira fase do space out o cargo de comissário de bordo teve a sua glamourização reduzida devido aos fatores externos que ocorreram no meio da aviação. Porém, a entrevistada 4 afirma que a atividade não perdeu a sua essência consolidada na segunda fase do space out , relatando que as pessoas ainda optam pela profissão por causa da imagem, do “glamour” e “liberdade” que passa para quem não está inserido no meio. Entretanto, segundo Nery (2009), nos dias atuais, a função está direcionada ao rápido e prático e não à elegância, como antigamente.
Todos os entrevistados mencionaram que o cargo de comissário de bordo não é algo glamoroso como aparenta ser. Segundo eles, há os seus benefícios e satisfações, mas também, suas desvantagens e seus pontos negativos. Porém, apesar da profissão ter os seus malefícios, percebe-se nos relatos que o prazer que atividade proporciona faz com que o sofrimento seja minimizado.
A entrevistada 2 conta que só o aspecto financeiro não é necessário para manter a pessoa no cargo. Segundo ela, quem olha somente esse lado se decepciona, sofre e não desempenha essa função por muito tempo. É uma profissão que é subjetiva, pois para quem gosta, tem vocação e consegue administrar todas as vertentes que englobam a sua vida pessoal com a profissional terá prazer na atividade. Contudo, para aqueles que possuem dificuldades em lidar com o cotidiano
e não são tão apaixonados pela aviação, a atividade pode se tornar frustrante e desgastante.
Eu posso dizer que muita gente procura essa profissão por vários motivos. Tem o lado financeiro porque acredito que a maior parte das pessoas já se interessa por isso. Mas muitas pessoas que pensam dessa forma acabam se decepcionando, porque quando bate de frente com a realidade da profissão fica meio “deprê”. Claro que você tem que gostar, é uma coisa que tem que vir de você, não adianta ninguém forçar e insistir ou falar não vai. Se você gosta, você se dará bem, porque senão você não aguenta, vai ser muito chato, pesado e maçante para você, vai pesar muito na sua vida. Então tem que ser uma coisa bem pensada. As pessoas optam por achar bonito ver a comissária passando e falar: - Olha, que bonito! Mas tem que pensar bem porque é uma decisão muito séria. É uma profissão muito legal e bonita, mas de grande responsabilidade também (ENTREVISTADA 2).
Quando a pessoa escolhe uma profissão para se inserir no mercado de trabalho, na maioria dos casos, ela cria uma expectativa sobre a função que irá desempenhar. Segundo Chiavenato (1999), o indivíduo nunca conhecerá efetivamente um trabalho, sem antes vivenciá-lo no seu cotidiano. Além disso, mesmo que pesquise, questione e pergunte sobre a carreira que deseja seguir, o sujeito antes de ingressar no meio terá uma percepção baseada na superficialidade e até mesmo no senso comum.
De acordo com os entrevistados 1, 2, 3, 4 e 5, a profissão de comissário de bordo atendeu e ainda atende todas as suas expectativas. Percebe-se nos respondentes que estão há mais tempo na profissão que já há um desgaste físico e psicológico, porém não é motivo que causa desilusão em relação à carreira. Segundo a entrevistada 3, quando você gosta do ambiente que está inserido há uma facilidade de desapegar dos problemas presentes no cotidiano da função.
Eu diria que atende sim as minhas necessidades, eu entendo porque foi exatamente a melhor escolha que eu fiz. Eu gosto de fazer isso, isso me satisfaz e dá prazer. Eu me sinto realizada profissionalmente, isso é fundamental, em 12 anos sempre tive o maior orgulho de dizer que eu sou comissária de voo e gosto dessa vida embora diversos momentos sejam doloridos e tão difíceis, mas se você gosta, você acaba passando por cima de tudo isso, coloca uniforme e vai pro voo e depois você esquece dos problemas (ENTREVISTADA 3).
A entrevistada 1 cita que o seu corpo sofre devido à rotina e infraestrutura de trabalho, porém esse fato não reduz suas expectativas.
Sim, atendeu as minhas expectativas. Não é que hoje não atenda mais, é como eu estou certo tempo, o meu corpo sente algumas coisas devido a isso. Eu gosto muito do que faço, mas o fato de não poder dormir 8 horas por noite, de trocar a noite pelo dia, de não se alimentar direito, isso influencia muito, mas a profissão em si atendeu desde começo e até hoje atende (ENTREVISTADA 1).
Os entrevistados 2 e 6 afirmaram que não tinham expectativa acerca da profissão. A respondente 2 disse que as expectativas foram criadas durante o curso de comissário de bordo e o 6 quando começou a desempenhar a função. Para eles, o contato com atividade foi gerando a sensação de prazer, surpreendendo-os.
Eu fiz o curso de comissária, sem expectativa nenhuma, só por curiosidade mesmo e eu fiquei apaixonada pela primeira aula que foi sobre equipamentos, eu achei aquilo ali mágico. E foi despertando em mim o interesse (...). Ao longo do curso eu fui ficando ainda mais encantada com tudo aquilo, porque eu passei a conhecer como funcionava tudo lá dentro. Sim, a expectativa foi aumentando e a partir do momento que eu comecei a trabalhar com isso, atendeu com certeza as minhas expectativas. Foi ainda mais além do que eu imaginava que fosse, e foi uma coisa muito natural. Eu nunca tinha pisado dentro de uma aeronave antes de começar a trabalhar, é uma coisa muito engraçada, minha mãe achava que eu ia ter um treco lá dentro, mas atendeu sim as minhas expectativas e ainda atende (ENTREVISTADA 2).
No começo sim (...) quando entrei nesse emprego, eu acabei vendo que é um trabalho diferenciado de qualquer trabalho que você vai fazer. O meu primeiro voo eu nunca vou me esquecer, eu estava dentro do aeroporto, aí ligaram para o meu telefone e falaram assim: - Você está indo para o México agora. Até cair a ficha, eu pensei: Caramba, estou aqui em Washington agora. Na vida normal você tem que processar isso, eu levei um tempo para processar, 3 horas depois daquilo eu estava no México, na cidade do México, foi primeira vez que eu tinha ido para o México. Aí eu pensei: Caraca, que legal! Fiquei em um hotel 5 estrelas, eu não estava muito acostumado. Quando eu saí do México, no outro dia eu fui direto para Costa Rica. Na minha primeira semana de trabalho eu tinha ido para mais de 5 países. Então no começo do trabalho foi uma coisa muito interessante (ENTREVISTADO 6).
No geral, avalia-se nas respostas que, independente dos pontos negativos que a função de comissário apresenta, é uma atividade que atende todas as expectativas dos entrevistados, não sendo algo imaginário.
Nota-se nos depoimentos que não há queixas a respeito do salário base. Contudo, alguns entrevistados afirmam que as empresas, principalmente as nacionais, poderiam investir mais nas recompensas não financeiras.
Em relação à questão das recompensas, foi observado nos relatos, que, as companhias aéreas nacionais não investem em um pacote de recompensas não financeiras. Entretanto, nota-se que os fatores presentes no cotidiano da profissão faz com que seus funcionários continuem motivados no cargo.
Não tem nada disso, infelizmente. Eu sou aluna de administração de um curso à distância e isso é uma das coisas que eu me questiono, porque seria tão interessante ter essa motivação na empresa. É muito importante você ter um reconhecimento, isso paga mais do que um salário. Mas, infelizmente isso não acontece. (ENTREVISTADA 2,)
Olha guria, sinceramente, na antiga Tam era salário e só, não tinha esse negócio de muito obrigada, só em datas em especiais. Hoje é dia do comissário, parabéns! Hoje é natal, feliz natal! (...) não ganhamos bonificação, não ganha mais um salário. É tipo assim, faz a sua obrigação que eu faço a minha. (ENTREVISTADA 1)
Godoy (2009) cita que a falta de reconhecimento no trabalho pode dificultar o envolvimento subjetivo do funcionário na tarefa que é estabelecida. Com isso, o encontro com o seu potencial e especialidade pode ser prejudicado. Para o autor, quando há uma percepção por parte do empregado que a sua tarefa está senda reconhecida, isso lhe dá um sentido profissional e ameniza os aspectos negativos do trabalho.
Já os entrevistados de empresas internacionais, relatam nas suas falas que a questão das recompensas estão bastantes presentes no cotidiano dos profissionais. Fazendo uma análise comparativa entre as companhias áreas, nota-se nos relatos dos comissários da Emirates e Continental que as suas respectivas empresas se preocupam mais em implantar mecanismos diferenciados para recompensar. Isso faz com que a produtividade dos seus comissários de bordo aumente e melhore a qualidade dos seus serviços. Ademais, é uma estratégia para evitar a rotatividade, pois de acordo com o entrevistado 6, muitos não abandonavam a profissão por conta das recompensas.
Em alguns casos, as recompensas podem estimular o sofrimento criativo, pois mesmo sofrendo, quando o indivíduo encontra um incentivo na carreira, ele pode procurar estratégias e mecanismos para desempenhar a função, ser reconhecido e recompensado, transformando assim, o sentimento em prazer. (DEJOURS, 1994)
Os entrevistados 5 e 6 relatam sobre as recompensas presentes nas suas respectivas empresas abaixo.
A Emirates eu não tenho nem o que falar, eu conversei com as meninas que trabalham na Azul, na Gol e na Tam, eu nunca vi nada igual. Primeiro de tudo, ela (a empresa) te dá uma casa, você divide com uma pessoa, um
apartamento com tudo mobiliado, te dá tudo. No segundo dia que você chega aqui, eles já te dão um dinheiro para ficar um mês aqui. Você tem casa, você tem transporte na porta da sua casa até a empresa, como se fosse ao centro. Tem um ônibus, então tem acomodação e transporte. Descontos nas viagens que nem se fala, vou te dar um exemplo mínimo: a passagem para o Brasil na econômica para o Rio está custando em torno de R$4000 a R$ 5000, a gente como comissário pagamos R$ 400 mais ou menos. Nós temos uma passagem de graça para o nosso país. Aqui em Dubai a gente tem desconto em quase todos os lugares, quase tudo, academia, shopping, nas lojas, quase tudo. Eu acho que em nenhuma você vai ter tantos benefícios assim. A gente tem uma clínica médica (...). É maravilhoso. Não tenho que reclamar, os benefícios são ótimos (ENTREVISTADA 5).
Na empresa que eu trabalhava, na Continental, se você ficasse 6 meses sem chegar atrasado, você concorria a um carro. E se você não quisesse concorrer um carro, você ganhava um dinheiro por fora. Então você tinha opções. Se você não concorre ao carro, recebe 100 dólares por exemplo. Obviamente você tentava concorrer ao carro, eu nunca ganhei. (...) Outros benefícios. Eu lá nos Estados Unidos tinha descontos com a FEDEX, que seria a SEDEX no Brasil, eu tinha desconto para isso. Eu tinha desconto para academia, eu tinha desconto para o hotel. Eu tinha desconto para praticamente tudo o que eu quisesse fazer para a minha vida. Eu tinha acesso a determinadas empresas com descontos muitos grandes. Banco, empréstimo, então realmente os benefícios eram bons mesmo (ENTREVISTADO 6, 2016).
Porém, durante o estudo observa-se que o estilo de vida exótico é o principal estímulo que fazem os comissários se encantarem e continuarem na função. A entrevistada 3 menciona que um aspecto que a faz motivada pela a sua profissão é ter o seu trabalho realizado de maneira eficiente, fazendo com que o cliente se sinta feliz e satisfeito com o seu serviço. Para ela, a sensação de dever cumprindo é algo prazeroso e gratificante.
O que mais me encanta e motiva é a sensação de dever cumprido. De conseguir fazer o voo com segurança, de conseguir levar o passageiro para onde ele pretende ir e ver o sorriso no rosto da pessoa. Claro que nem sempre a viagem vai ser questão de felicidade, mas eu acredito que a gratificação é essa, de dever cumprido, de ir fazer o voo, de conseguir fazer tudo ok e voltar para casa. (ENTREVISTADA 2)
As respostas ressaltam os pressupostos deste estudo. A experiência turística e o estilo de vida diferenciado dos profissionais são os principais fatores que recompensam e motivam os comissários nessa carreira.
Nos relatos há um envolvimento de todas as características presentes nas três fases do space out, no qual estar dentro de um avião viajando e ter um estilo de
vida exótico é uma forma de remuneração. Além disso, o papel que a carreira desempenha na vida do comissário também pode ser considerado uma recompensa (WHITELEGG, 2007).
Todos os comissários de bordo afirmaram que se sentem reconhecidos e realizados no seu trabalho. Porém, a respondente 2 tem uma opinião contrária aos demais, ela cita que fica desmotivada e frustrada devido à falta de reconhecimento. De acordo com Dejours (1994) quando isso não acontece, pode gerar um sofrimento patogênico.
Eu não pretendo ficar muito tempo até porque comissária velha no Brasil não rola. E não sou reconhecida não, infelizmente. Somos apenas um número. Isso me deixa um pouco frustrada e desmotivada, mas continuamos firmes e fortes fazendo o que amamos, enquanto é possível. Enquanto somos jovens, magras e lindas, isso também são exigências (ENTREVISTADA 2).
Quando foi perguntado sobre o futuro na profissão, exceto o entrevistado 6 que disse que saiu do cargo para fazer uma faculdade, eles mencionaram que desejam continuar na carreira por bastante tempo até “o corpo não aguentar mais”, se aparecerem outros planos de vida ou não cumprirem mais as exigências da empresa.
É óbvio que mais cedo ou mais tarde eu vou ter que escolher outros caminhos para minha vida, estou com 37 anos eu não consegui manter uma estrutura familiar, não dá, às vezes é muito difícil, especialmente, porque às vezes os homens não conseguem entender a mulher viajando o tempo inteiro, filhos é sempre muito difícil, então ser comissária é você abdicar de tudo isso e chega uma hora que isso tudo pesa. Não é que não seja impossível você viver as duas coisas, mas é difícil (ENTREVISTADA 3).
As falas acima comprovam o panorama acerca do cargo do comissário de bordo na terceira fase do space out no qual a profissão é vista como uma carreira, porém, há também, uma relação com a segunda fase do space out, pois é uma atividade que as mulheres, em alguns casos, realizam antes do casamento e de acordo com a entrevistada 3, no Brasil ainda é exigido ter uma aparência jovial. (WHITELEGG, 2007).
A profissão de comissário não dá para ser por um longo tempo. Acontece que chega uma hora que a própria vitalidade já nos falta, está tudo numa condição física. Algumas companhias também optam por pessoas mais novas, pela própria ação, pela necessidade de força e outras coisas. Hoje no mercado brasileiro se tem muita essa concepção de comissário com
alguém jovial, de rostinho simpático, diferente de muitas companhias no mundo afora que tem outra concepção que é aquela coisa mais pessoas mais velhas, mais experientes, mas a cultura brasileira é essa, a gente tem um pessoal mais novo e nessa visão, a gente também pensa futuramente em construir algumas coisas que talvez não vá bater muito bem com a profissão, construir uma família, filhos, enfim, vai chegar uma hora que isso é inevitável (ENTREVISTADA 3).
Nota-se que os relatos evidenciam que o futuro na profissão depende da capacidade para o trabalho e do envelhecimento funcional do comissário de bordo. Segundo Fischer (2005) a capacidade para o trabalho pode ser interferida por causa dos aspectos sócio demográficos. O autor menciona que a capacidade funcional física e mental pode começar a se deteriorar a partir dos 45 anos e quanto mais tempo o indivíduo está submetido às exigências do seu meio trabalhista, o envelhecimento funcional será mais frequente.