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MUDANÇA ESTRUTURAL DA ESFERA PÚBLICA (1962)

No documento OS LIMITES DA CIDADANIA E DO DIREITO: (páginas 68-71)

3 OS TRAJETOS DO PENSAMENTO HABERMASIANO

3.1 MUDANÇA ESTRUTURAL DA ESFERA PÚBLICA (1962)

Sob a influência de Adorno, envolveu-se com a discussão sobre o tema da

indústria cultural; paralelamente, com base na sustentação da existência de uma “razão

pública” independente – originalmente utilizada no século XVIII por uma categoria de

burgueses ilustrados – ofertou um conceito original de esfera pública. (ARAGÃO, 2002)

A formação moderna da opinião pública ao longo do Iluminismo ocorre

inicialmente em espaços íntimos de discussão de idéias, com

apresentação em primeira-mão das obras, transferindo-se, depois, para

os debates mediatizados pelos meios impressos, por meio da

colaboração de uma intelectualidade crítica nascente (HABERMAS,

1984, p. 213)

Resgatou a discussão da subjetividade, teorizada por Hegel, para trabalhar com

ideia de uma subjetividade burguesa, um combustível teórico usado para a criação de

uma esfera pública literária autônoma em relação ao Estado, “a qual a partir das trocas

de experiências acerca da nova privacidade, possibilita uma autocompreensão dos

sujeitos e uma tematização dos dramas da vida interior – vide drama burguês e o

romance psicológico – que se originam na esfera interna da pequena família”. (SOUZA,

1997, p. 15)

Essa subjetividade burguesa além de estar liberta dos grilhões da tradição,

serviu de fundamento para a formação de uma esfera pública. (SOUZA, 1997)

Aqui tematizam-se não só os fundamentos da vida em comum segundo

um novo patamar de racionalidade. Não mais a violência ou o recurso

da tradição são decisivos para a legitimação da ação política. As

pessoas privadas reunidas num público apresentam-se como uma

esfera regulada pela autoridade, mas dirigida contra ela, na medida em

que o princípio de controle que o público burguês contrapõe à

dominação tradicional pretende modificar a dominação enquanto tal. O

público literalmente cultivado implica uma igualdade das pessoas

cultas, com opinião, igualdade essa indispensável para a legitimação do

processo básico da esfera pública: a discussão baseada em

argumentos. Pelo lado do público, isso significa o reconhecimento de

uma força interna à comunicação, exigindo a desconsideração de

fatores sociais externos como privilégios, situação econômica, etc. Pelo

lado do Estado, esse fato leva à necessidade de justificação da ação

política, segundo os mesmos princípios. (SOUZA, 1997, p. 15)

Entretanto, a esfera pública burguesa, que foi independente na sua origem,

desmoronou. Isto ocorreu devido ao aumento da intervenção estatal no universo

familiar – comprometendo sua autonomia –, à transformação da imprensa em grande

indústria manipuladora de informações e, à formação da indústria cultural. (ARAGÃO,

2002)

Nesse contexto, o problema da mudança estrutural da esfera pública está

associado à discussão da teoria da razão instrumental dos frankfurtianos. (ARAGÃO,

2002)

Verificou-se que a burguesia obteve o controle da informação, ao mesmo tempo

em que conquistou o poder de direção da comunicação dirigida ao público. Sem ser

propriamente uma “autoridade estatal” ela assumiu a posição de “autoridade” da

informação. (ARAGÃO, 2002)

Historicamente, portanto, surgiu uma “nova categoria de burgueses”: os que não

só laboram na formação da opinião, mas que também desempenham suas funções na

administração pública (ARAGÃO, 2002, p. 179)

Na obra em questão, estabelece uma divisão entre esfera do poder público e

esfera da opinião pública. A primeira versa sobre o Estado, “enquanto poder ou setor

público [...] que se expressa no monopólio do uso da força e responsável pela

administração dos interesses da sociedade”. (ARAGÃO, 2002, p. 179)

A segunda, diz respeito à sociedade, formada pelos interesses privados, no

interior da qual é possível identificar uma “esfera da opinião pública, que se contrapõe

ao poder público”. (ARAGÃO, 2002, p. 179)

O setor privado, portanto, abrange tanto o campo da sociedade civil,

enquanto setor de troca de mercadorias e de trabalho social, quanto a

esfera pública política, definida como “esfera de pessoas privadas

reunidas num público; elas reivindicam esta esfera pública

regulamentada pela autoridade, mas diretamente contra a própria

autoridade, a fim de discutir com ela as leis gerais do intercâmbio de

mercadorias e trabalho social”. (HABERMAS apud ARAGÃO, 2002, p.

179-180)

Para Aragão (2002, p. 182):

O surgimento de um público enquanto tal se dá com a criação dos

concertos pagos, uma vez que a música tivera anteriormente sempre

uma função de representatividade pública (ligada aos serviços

religiosos às festividades sociais da corte, etc..), o que restringia

imensamente as oportunidades dos burgueses ouvirem música, a não

ser nas igrejas ou na sociedade aristocrática. [...] E, em todos esses

campos da arte, surge uma luta em torno do julgamento dos leigos, do

público enquanto instância crítica, onde, até então, apenas um círculo

restrito de entendidos tinha a competência do especialista, ligada a

privilégios sociais.

Por outro lado, a consolidação de uma família burguesa representa a esfera do

privado.

Os burgueses julgavam que o espaço da sua vida privada, familiar, era

independente dos ditames colocados pelo setor privado do mercado e,

como tal, reino da pura humanidade. Tal representação da família lhes

conferia uma autonomia em relação à coação social e às relações de

poder econômico-políticas, pois acreditavam estar a instituição familiar

baseada apenas na vontade de indivíduos livres e na permanente

comunhão amorosa dos cônjuges, cabendo-lhe a função de resguardar

o livre desenvolvimento das faculdades das pessoas cultas. A família

burguesa, portanto, como locus do cultivo do livre-arbítrio, da comunhão

de afeto e da formação pessoal, incluindo aí a formação da

personalidade, permitia a formulação de um conceito novo de

humanidade, que se pretendia inerente a todos os homens,

definindo-os por estes traçdefinindo-os como “humanos”, sem a necessidade de evasão

para o transcendental, a fim de escapar da coação da ordem vigente.

(ARAGÃO, 2002, p. 183).

Habermas equiparou “a emancipação psicológica dos homens” à emancipação

política da classe burguesa, pois os proprietários de bens e mercadorias se “vêem

como autônomos em relação às diretivas e controles estatais, decidindo livremente de

acordo com as leis do mercado e a busca de rentabilidade” (ARAGÃO, 2002, p. 183)

A subjetividade oriunda da intimidade “pequeno familiar” dá origem a uma

literatura e a um público leitor de pessoas privadas, que desejam discutir publicamente

o que foi lido, em ações opostas ao “privilégio do segredo do Estado” (ARAGÃO, 2002,

p. 184)

Com a criação da imprensa e da crítica de arte profissional, surgem

instituições que serão refuncionalizadas para a esfera pública política,

onde a discussão não girará mais em torno de questões íntimas,

subjetivas, mas de questões privadas, relativas às tarefas propriamente

civis de regulamentação de trocas de mercadoria, e o diálogo

estabelecer-se-á com base na discussão pública da disputa dos

proprietários privados com o poder público. (ARAGÃO, 2002, p. 184)

Para Habermas (1984, p. 68):

O processo ao longo do qual o público constituído pelos indivíduos

conscientizados se apropria da esfera pública controlada pela

autoridade e a transforma numa esfera em que a crítica se exerce

contra o poder do Estado realiza-se como refuncionalização da esfera

pública literária, que já era dotada de um público possuidor de suas

próprias instituições e plataformas de discussão. Graças à mediatização

dela, esse conjunto de experiências da privacidade ligada ao público

também ingressa na esfera pública política.

No documento OS LIMITES DA CIDADANIA E DO DIREITO: (páginas 68-71)