3 OS TRAJETOS DO PENSAMENTO HABERMASIANO
3.1 MUDANÇA ESTRUTURAL DA ESFERA PÚBLICA (1962)
Sob a influência de Adorno, envolveu-se com a discussão sobre o tema da
indústria cultural; paralelamente, com base na sustentação da existência de uma “razão
pública” independente – originalmente utilizada no século XVIII por uma categoria de
burgueses ilustrados – ofertou um conceito original de esfera pública. (ARAGÃO, 2002)
A formação moderna da opinião pública ao longo do Iluminismo ocorre
inicialmente em espaços íntimos de discussão de idéias, com
apresentação em primeira-mão das obras, transferindo-se, depois, para
os debates mediatizados pelos meios impressos, por meio da
colaboração de uma intelectualidade crítica nascente (HABERMAS,
1984, p. 213)
Resgatou a discussão da subjetividade, teorizada por Hegel, para trabalhar com
ideia de uma subjetividade burguesa, um combustível teórico usado para a criação de
uma esfera pública literária autônoma em relação ao Estado, “a qual a partir das trocas
de experiências acerca da nova privacidade, possibilita uma autocompreensão dos
sujeitos e uma tematização dos dramas da vida interior – vide drama burguês e o
romance psicológico – que se originam na esfera interna da pequena família”. (SOUZA,
1997, p. 15)
Essa subjetividade burguesa além de estar liberta dos grilhões da tradição,
serviu de fundamento para a formação de uma esfera pública. (SOUZA, 1997)
Aqui tematizam-se não só os fundamentos da vida em comum segundo
um novo patamar de racionalidade. Não mais a violência ou o recurso
da tradição são decisivos para a legitimação da ação política. As
pessoas privadas reunidas num público apresentam-se como uma
esfera regulada pela autoridade, mas dirigida contra ela, na medida em
que o princípio de controle que o público burguês contrapõe à
dominação tradicional pretende modificar a dominação enquanto tal. O
público literalmente cultivado implica uma igualdade das pessoas
cultas, com opinião, igualdade essa indispensável para a legitimação do
processo básico da esfera pública: a discussão baseada em
argumentos. Pelo lado do público, isso significa o reconhecimento de
uma força interna à comunicação, exigindo a desconsideração de
fatores sociais externos como privilégios, situação econômica, etc. Pelo
lado do Estado, esse fato leva à necessidade de justificação da ação
política, segundo os mesmos princípios. (SOUZA, 1997, p. 15)
Entretanto, a esfera pública burguesa, que foi independente na sua origem,
desmoronou. Isto ocorreu devido ao aumento da intervenção estatal no universo
familiar – comprometendo sua autonomia –, à transformação da imprensa em grande
indústria manipuladora de informações e, à formação da indústria cultural. (ARAGÃO,
2002)
Nesse contexto, o problema da mudança estrutural da esfera pública está
associado à discussão da teoria da razão instrumental dos frankfurtianos. (ARAGÃO,
2002)
Verificou-se que a burguesia obteve o controle da informação, ao mesmo tempo
em que conquistou o poder de direção da comunicação dirigida ao público. Sem ser
propriamente uma “autoridade estatal” ela assumiu a posição de “autoridade” da
informação. (ARAGÃO, 2002)
Historicamente, portanto, surgiu uma “nova categoria de burgueses”: os que não
só laboram na formação da opinião, mas que também desempenham suas funções na
administração pública (ARAGÃO, 2002, p. 179)
Na obra em questão, estabelece uma divisão entre esfera do poder público e
esfera da opinião pública. A primeira versa sobre o Estado, “enquanto poder ou setor
público [...] que se expressa no monopólio do uso da força e responsável pela
administração dos interesses da sociedade”. (ARAGÃO, 2002, p. 179)
A segunda, diz respeito à sociedade, formada pelos interesses privados, no
interior da qual é possível identificar uma “esfera da opinião pública, que se contrapõe
ao poder público”. (ARAGÃO, 2002, p. 179)
O setor privado, portanto, abrange tanto o campo da sociedade civil,
enquanto setor de troca de mercadorias e de trabalho social, quanto a
esfera pública política, definida como “esfera de pessoas privadas
reunidas num público; elas reivindicam esta esfera pública
regulamentada pela autoridade, mas diretamente contra a própria
autoridade, a fim de discutir com ela as leis gerais do intercâmbio de
mercadorias e trabalho social”. (HABERMAS apud ARAGÃO, 2002, p.
179-180)
Para Aragão (2002, p. 182):
O surgimento de um público enquanto tal se dá com a criação dos
concertos pagos, uma vez que a música tivera anteriormente sempre
uma função de representatividade pública (ligada aos serviços
religiosos às festividades sociais da corte, etc..), o que restringia
imensamente as oportunidades dos burgueses ouvirem música, a não
ser nas igrejas ou na sociedade aristocrática. [...] E, em todos esses
campos da arte, surge uma luta em torno do julgamento dos leigos, do
público enquanto instância crítica, onde, até então, apenas um círculo
restrito de entendidos tinha a competência do especialista, ligada a
privilégios sociais.
Por outro lado, a consolidação de uma família burguesa representa a esfera do
privado.
Os burgueses julgavam que o espaço da sua vida privada, familiar, era
independente dos ditames colocados pelo setor privado do mercado e,
como tal, reino da pura humanidade. Tal representação da família lhes
conferia uma autonomia em relação à coação social e às relações de
poder econômico-políticas, pois acreditavam estar a instituição familiar
baseada apenas na vontade de indivíduos livres e na permanente
comunhão amorosa dos cônjuges, cabendo-lhe a função de resguardar
o livre desenvolvimento das faculdades das pessoas cultas. A família
burguesa, portanto, como locus do cultivo do livre-arbítrio, da comunhão
de afeto e da formação pessoal, incluindo aí a formação da
personalidade, permitia a formulação de um conceito novo de
humanidade, que se pretendia inerente a todos os homens,
definindo-os por estes traçdefinindo-os como “humanos”, sem a necessidade de evasão
para o transcendental, a fim de escapar da coação da ordem vigente.
(ARAGÃO, 2002, p. 183).
Habermas equiparou “a emancipação psicológica dos homens” à emancipação
política da classe burguesa, pois os proprietários de bens e mercadorias se “vêem
como autônomos em relação às diretivas e controles estatais, decidindo livremente de
acordo com as leis do mercado e a busca de rentabilidade” (ARAGÃO, 2002, p. 183)
A subjetividade oriunda da intimidade “pequeno familiar” dá origem a uma
literatura e a um público leitor de pessoas privadas, que desejam discutir publicamente
o que foi lido, em ações opostas ao “privilégio do segredo do Estado” (ARAGÃO, 2002,
p. 184)
Com a criação da imprensa e da crítica de arte profissional, surgem
instituições que serão refuncionalizadas para a esfera pública política,
onde a discussão não girará mais em torno de questões íntimas,
subjetivas, mas de questões privadas, relativas às tarefas propriamente
civis de regulamentação de trocas de mercadoria, e o diálogo
estabelecer-se-á com base na discussão pública da disputa dos
proprietários privados com o poder público. (ARAGÃO, 2002, p. 184)
Para Habermas (1984, p. 68):
O processo ao longo do qual o público constituído pelos indivíduos
conscientizados se apropria da esfera pública controlada pela
autoridade e a transforma numa esfera em que a crítica se exerce
contra o poder do Estado realiza-se como refuncionalização da esfera
pública literária, que já era dotada de um público possuidor de suas
próprias instituições e plataformas de discussão. Graças à mediatização
dela, esse conjunto de experiências da privacidade ligada ao público
também ingressa na esfera pública política.
No documento
OS LIMITES DA CIDADANIA E DO DIREITO:
(páginas 68-71)