3 OS TRAJETOS DO PENSAMENTO HABERMASIANO
3.7 O DISCURSO FILOSÓFICO DA MODERNIDADE (1985)
Nessa obra, apresenta a modernidade como um “projeto inacabado”, na tentativa
de reconstruir, passo a passo, o discurso filosófico da modernidade. Desde os fins do
século XVIII, ela foi um assunto cativante entre os filósofos. Habermas afirma que,
Hegel, “foi o primeiro a desenvolver um conceito claro de modernidade, empregando
um conceito de modernidade contextualizado historicamente”, isto é, como conceito de
época. (HABERMAS, 2002, p. 9)
Isso corresponde ao uso contemporâneo do termo inglês e francês: por
volta de 1800, modern times e temps modernes designam os três
séculos precedentes. A descoberta do Novo Mundo assim como o
Renascimento e a Reforma, os três grandes acontecimentos por volta
de 1500, constituem o limiar histórico entre época moderna e a
medieval. Hegel também utiliza esses termos, em suas lições sobre a
filosofia da história, para delimitar o mundo germânico-cristão que, por
sua vez, se originou da Antiguidade grega e romana. A classificação,
ainda hoje usual, em Idade Moderna, Média e Antiga, só pôde se
compor depois que as expressões novos tempos e tempos modernos
(mundo novo e mundo moderno) perderam o seu sentido puramente
cronológico, assumindo a significação oposta de uma época
enfaticamente nova. Enquanto no Ocidente cristão os novos tempos
significavam a idade do mundo que ainda está por vir e que despontará
somente com o dia do Juízo Final – como ocorre ainda na Filosofia das
idades do mundo, de Schelling –, o conceito profano de tempos
modernos expressa a convicção de que o futuro já começou: indica a
época orientada para o futuro, que está aberta ao novo que há de vir.
(HABERMAS, 2002, p. 9)
Retomando as preocupações do jovem Hegel, “acerca das condições de
possibilidade de uma comunidade ética no mundo moderno [...] sem apelar para
vínculos de solidariedade passadistas”, Habermas também trabalha com os conceitos
de “solidariedade pós-tradicional, racionalidade e subjetividade”. (SOUZA, 1997, p. 14)
“A cesura em que se inicia o novo, é deslocada para o passado, precisamente
para o começo da época moderna”. Por isso, Habermas afirma que “somente no curso
do século XVIII, o limiar histórico em torno de 1500, foi compreendido
retrospectivamente como tal começo”. (HABERMAS, 2002, p. 10)
O espírito do tempo (Zeitgeist), um dos novos termos que inspiram
Hegel, caracteriza o presente como uma transição que se consome na
consciência da aceleração e na expectativa da heterogeneidade do
futuro [...] Uma vez que o mundo novo, o mundo moderno, se distingue
do velho pelo fato de que se abre ao futuro, o início de uma época
histórica repete-se e reproduz-se a cada momento do presente, o qual
gera o novo a partir de si. Por isso, faz parte da consciência histórica da
modernidade a delimitação entre o tempo mais recente e a época
moderna: o presente como história contemporânea desfruta de uma
posição de destaque dentro do horizonte da época moderna. Hegel
também entende o nosso tempo como o tempo mais recente. Ele data o
começo do tempo presente a partir da cesura que o Iluminismo e a
Revolução Francesa significaram para os seus contemporâneos mais
esclarecidos no final do século XVIII e começo do XIX. (HABERMAS,
2002, p. 11)
A ideia de “ruptura com o passado” trata-se de uma condição sine qua non para
a compreensão do verdadeiro sentido do pensamento hegeliano.
Logo, um pensamento que aponta para o progresso, não se coaduna com as
propostas reacionárias. O espírito de sua filosofia nos convida a uma “renovação
contínua”. Palavras como “revolução”, “progresso”, “emancipação” e “espírito do
tempo”, acompanham os trajetos da modernidade, seguem o ritmo da proposta
hegeliana de “movimento”. (HABERMAS, 2002, p. 12)
Elas lançam uma luz histórico-conceitual sobre o problema que se põe
à cultura ocidental com a consciência histórica moderna, elucidada com
o auxílio do conceito antitético de tempos modernos: a modernidade
não pode e não quer tomar dos modelos de outra época os seus
critérios de orientação, ela tem de extrair de si mesma a sua
normatividade. A modernidade vê-se referida a si mesma, sem a
possibilidade de apelar para subterfúgios. Isso explica a suscetibilidade
da sua compreensão, a dinâmica das tentativas de afirmar-se a si
mesma, que prosseguem sem descanso até os nossos dias.
(HABERMAS, 2002, p. 12)
Hegel estudou a modernidade numa dimensão complexa. A modernidade se
“desliga das sugestões normativas do passado, que lhe são estranhas. A Reforma, o
Renascimento, a ciência natural moderna e o pensamento kantiano expressam a
autocompreensão da modernidade”. (HABERMAS, 2002, p. 13)
Kant expressa o mundo moderno em um edifício de pensamentos. De
fato, isto significa apenas que na filosofia kantiana os traços essenciais
da época se refletem como um espelho, sem que Kant tivesse
conceituado a modernidade enquanto tal. Só mediante uma visão
retrospectiva Hegel pode entender a filosofia de Kant como
auto-interpretação decisiva da modernidade. (HABERMAS, 2002, p. 12)
Sobre o conceito hegeliano de modernidade (capítulo II), Habermas aponta para
o fato de que “na tradição aristotélica, o conceito de política como uma esfera que
abrange o Estado e sociedade, próprio da antiga Europa, manteve-se sem interrupção,
até o século XIX”. (HABERMAS, 2002, p. 53)
Seguindo essa concepção, “a economia doméstica, uma economia de
subsistência, baseada na produção agro-artesanal (inclui a participação de mercados
locais), constitui o fundamento de uma ordem política global. A constituição da
dominação política, integra a sociedade em seu todo”. (HABERMAS, 2002, p. 54)
Entretanto, essa tradição não mais se adequa às sociedades modernas, “nas
quais a circulação de mercadorias da economia capitalista (organizada pelo direito
privado), desliga-se da administração do poder”. (HABERMAS, 2002, p. 54)
Por meio dos media que são o valor de troca e o poder, dois sistemas
de ação se diferenciam, completando-se funcionalmente: o social
se do político, a sociedade econômica despolitizada
separou-se do Estado burocratizado. Esseparou-se deseparou-senvolvimento acabou por exceder
a capacidade explicativa da doutrina clássica da política. Por isso,
desde os fins do século XVIII, esta se decompõe em uma teoria social
fundada na economia política, por um lado, e em uma teoria do Estado
inspirada no direito natural moderno, por outro. (HABERMAS, 2002, p.
54)
Hegel apontou “para a individualidade do homem situado no tempo presente”.
Percebeu “a separação das esferas sociais”. Na sociedade civil burguesa, por exemplo,
“cada um é um fim para si mesmo e todos os outros não são nada”. (HEGEL apud
HABERMAS, 2002, p. 55)
Hegel descreve as relações mercantis como um domínio neutralizado
eticamente para a persecução estratégica de interesses privados e
egoístas, na qual estes fundam simultaneamente um sistema de
dependência multilateral. Na descrição de Hegel, a sociedade civil
burguesa aparece, por um lado, como uma eticidade perdida em seus
extremos, como algo que pertence à corrupção. Por outro, como a
criação do mundo moderno, tem sua justificação na emancipação do
indivíduo que adquire liberdade formal: o desencantamento da
arbitrariedade da carência e do trabalho é um momento necessário no
processo para formar a subjetividade em sua particularidade.
(HABERMAS, 2002, p. 55)
Só mais tarde, na Filosofia do Direito, Hegel apresenta um novo termo:
“sociedade civil burguesa”. No ensaio Sobre os modos de tratamento científico do
direito natural (1802), usa a economia política como referência, para analisar “o sistema
de dependência universal recíproca em vista das carências físicas do trabalho, e,
também, da acumulação”. (HABERMAS, 2002, p. 55)
Aqui já se coloca para ele o problema de como não conceber a
sociedade civil burguesa meramente como uma esfera de decadência
da eticidade substancial, mas, ao mesmo tempo, em sua negatividade,
como um momento necessário da eticidade. Hegel parte da
constatação de que o ideal de Estado da Antiguidade não pode ser
restabelecido sob as condições da sociedade moderna despolitizada.
Por outro lado, atém-se à idéia daquela totalidade ética que ocupara
pela primeira vez sob o nome de religião popular. Logo, tem de
estabelecer a mediação entre o ideal ético dos antigos, no sentido em
que é superior ao individualismo da época moderna, e as realidades da
modernidade social. Com a diferenciação entre Estado e sociedade,
que Hegel, conforme o caso, já se propõe naquele período, afasta-se
na mesma medida tanto da filosofia política de restauração como do
direito natural racional. (HABERMAS, 2002, p. 55)
A especificidade do Estado moderno só se torna visível quando “o princípio da
sociedade civil burguesa” é concebido “como um princípio de socialização moldada pelo
mercado, isto é, uma socialização não política”. (HABERMAS, 2002, p. 56)
No documento
OS LIMITES DA CIDADANIA E DO DIREITO:
(páginas 105-109)