• Nenhum resultado encontrado

Mudança da noção de tempo, unida ao trabalho e consumo: uma nova exploração do intelecto

No documento Revista de Trabalho e Educação (páginas 36-41)

A atual intensificação da produtividade do trabalho, promovida pela racionalidade tecnológica, passa pela tentativa de fazer com que a seqüência temporal, e, por conseguinte, o tempo, aparente-mente «desapareçam». Como bem observou Castells (2006, p. 526) o tempo linear, irreversível, mensurável e previsível está sendo fragmentado e não estamos apenas testemunhando a uma relativiza-ção do mesmo de acordo com os contextos sociais. A transforma-ção é mais profunda, pois a tecnologia está sendo utilizada para apropriar, de maneira seletiva, qualquer valor que cada contexto possa oferecer.

Essa análise pode ser melhor compreendida quando pensamos que por meio das tecnologias comunicacionais se operam duas das mais importantes políticas capitalistas atuais: a primeira delas, a volatibilidade dos investimentos de capitais –através dos fluxos instáveis de capitais, representando uma «concentração da liberdade de ação, sobretudo, de mobilidade de capital, mas não da força de trabalho, que é mantida prisioneira pelas fronteiras nacio-nais, sendo o combustível que faz com que a riqueza cresça mais que nunca», na expressão de Beck (1999, p.106-107). De fato, os mais livres da determinação do espaço são os acionistas, pois são os únicos autenticamente livres da determinação espacial, cabendo a eles mover a companhia para que percebam mais dividendos, deixando a todos os demais presos à localidade para «lamber as feridas, consertar o dano e se livrar do lixo», como analisa Bauman (1999, p.14-15); e, a segunda das políticas, a propagação e comer-cialização dos logotipos, – ou melhor, das imagens das marcas, através do marketing – das empresas transnacionais, que produzem em suas sedes bens simbólicos, marcas e tecnologias estratégicas. A Benetton, por exemplo, centrada na Itália, exporta praticamente somente o desenho (design).

Isso é explicado por Klein (2002, p.31-32) pelo fato de terem se passado décadas de marketing e de favorecimento das marcas que agregaram muito mais valor a uma empresa que seus ativos e vendas anuais. Assim, seria ingênuo pensar que foi somente o capital financeiro o que assumiu a comunicação mediada por computador, como alerta por sua vez Silveira (2001, p.9). A velha indústria também se comunica por redes. Matrizes e filiais, assim como empresas principais e terceirizadas, estão cada vez mais conectadas em intranets ou utilizam a própria internet para se comunicarem entre si, integrando seus processos de produção. Chesnais, em 1996, já apontava o surgimento das corporações-rede, e Castells (2006, p. 527-528) analisando como a sociedade atual se estrutura em rede, o que a faz também exportar signos, bens simbólicos, explicitando assim seu conceito de tempo intemporal como sendo apenas «[...] a forma dominante emergente do tempo social na sociedade em rede porque o espaço de fluxos não anula a existência de lugares». Para o autor, a disponibilidade de novas tecnologias de informação e novas técnicas de gerenciamento, transformou a natureza dos mercados de capitais, surgindo, pela primeira vez na história, um mercado de capital global unificado, onde o tempo é crucial para a geração de lucros em todo o sistema.

Assim, toda produção pode converter-se em linguagem digital e ser imediatamente enviada a qualquer parte do mundo à velocidade da luz.

Mas, para isso, foi necessário ao mesmo tempo «flexibilizar»

as relações sociais de trabalho. Um dos meios utilizados para expressar tal flexibilização é a substituição instantaneamente natural do lugar de trabalhador – que é estrutural, e, portanto, não tem como ser assim destituído! –, para o de «colaborador». Essa função social parece sintetizar-se na tentativa de colocar-nos a todos como consumidores, subsumindo assim as classes sociais.

Touraine (2002, p.144-154) analisa que o consumo de massa apresenta a formação de novas comunidades, onde a hierarquização

social de consumo é substituída pelo consumidor que é, ao mesmo tempo, a finalidade da empresa de produção.

Essa tentativa de fazer desaparecer as classes sociais e as diferenças de interesses entre elas foi percebida, no que diz respeito ao trabalho docente, quando um dos participantes do GT As Tecnologias Digitais e o Processo de Trabalho Docente, do 4º Encontro de Professores da Educação Superior da Rede Privada, disse que:

Tem um cara aqui que falou do coordenador [escolar]; o coordenador tinha uma função que era a função pedagó-gica, agora ele tem a função de colocar pra gente lá no começo do ano: “vocês agora são gestores de unidades de negócio”, até diretor de uma unidade de negócios; [o professor] tem que calcular: “... eu tenho tantos alunos, que pagam tanto de mensalidade, e eu tenho tantos professores, que recebem tanto... (grifos nossos)

Vemos aqui claramente como vai se consolidando o envolvi-mento manipulatório (conceito ao qual à frente retornaremos) dos trabalhadores, constantemente convidados a esquecer seu pertenci-mento a uma classe trabalhadora para, milagrosamente, se tornarem proprietários sem de fato o serem.

Os mecanismos de reformulação produtiva têm trazido um conjunto de medidas, como as citadas acima, que têm como objetivo primordial «reforçar» o corpo, mas, em especial, a mente ou a capacidade intelectual do trabalhador. Sendo esta a base para as novas formas de extração da mais-valia (Marx), ou seja, o tempo de trabalho incorporado ao produto que não é pago ao trabalhador.

O chamado «bom clima organizacional», em que todos os tra-balhadores passam a ser «gestores de unidades de negócio», parece resumir as estratégias empresariais no que se refere à denominada

«gestão de pessoas» para alcançar o objetivo de lançar-se diante da

concorrência. Para isso é necessário, no entanto, que haja empre-gados «entusiasmados» por «pertencer à equipe», «na alegria e na tristeza», já que «profissionais motivados» e uma visão estratégica são considerados os principais elementos para levar uma organiza-ção ao topo. Nesse sentido, tem sido uma preocupaorganiza-ção constante das empresas manterem elevada a moral dos empregados, o que

«permite respostas mais velozes» por parte das empresas em rela-ção a seus competidores, para o que é necessário manter um quadro de profissionais «satisfeitos e leais».

As novas qualificações dos trabalhadores, como algumas das que foram acima citadas, seriam o motor da produtividade e o que, por sua vez, na cadeia relacional com o consumidor, «cria a fideli-dade do cliente à sua marca ou empresa », segundo afirma, por exemplo, o presidente executivo do grupo Pão de Açúcar (Valor Carreira, 2003, p.11). De modo que as empresas devem cuidar para que cada profissional esteja alinhado aos valores e à missão da empresa, conheça seus papéis, metas e objetivos e esteja capacitado para exercer sua função «com segurança», além de «respeitar e ser respeitado». «Em definitivo, que tenha orgulho da empresa na qual trabalha», inclusive quando há necessidade de que haja demissões, já que estas devem ser feitas «com transparência e comunicação adequada»; clima empresarial que criaria «uma cumplicidade em torno dos interesses da empresa que passam a ser vistos como de todos», diz agora o diretor da Petroquímica Triunfo (Valor Carreira, 2003, p.11). Repare-se aqui como o desemprego aparece como uma das formas contemporâneas de reestruturação de uma classe trabalhadora que deve ver com naturalidade o fato de não ter um posto de trabalho estável, ou de tornar-se mais pobre.

Essa tentativa de naturalização da desgraça alheia tem sua origem teórica e política na lógica do «envolvimento manipula-tório» (ANTUNES, 1995; 1999) dos trabalhadores pelo sistema Toyota. Antunes explica como, criado no Japão pós-45, o sistema

Toyota se alastra a todas as grandes empresas daquele país e, depois, ao restante do mundo, visando o aumento da produtividade.

Aperfeiçoando, portanto, as concepções do taylorismo e do fordismo, o toyotismo traz inovações nas formas de extração do sobretrabalho não remunerado ao trabalhador e extraído durante o processo de produção (a mais-valia). Para tanto, se introduzem as inovações tecnológicas e, também, novos processos de «humani-zação do trabalho» ou de «gestão de pessoas», cujo alvo é sempre a melhoria sistemática da capacidade mental da força-de-trabalho.2 É isto exatamente o que permite, como podemos “ver” neste momento histórico em que estamos vivendo, operar-se uma alteração de patamar de extração de uma mais-valia absoluta para uma mais-valia relativa3, que pode hoje ser globalizada devido à unicidade de tempo, somada à unicidade da técnica (SANTOS, 2001). No entanto, convivem nesta mesma etapa histórica formas de mais-valia absoluta, como nas Zonas de Processamento de Exportação, especialmente na China e Indonésia. No Brasil chega-se ao ponto, todavia, de haver trabalho escravo inclusive para empresas transnacionais, como a Wolkswaggen, além de empresas nacionais (MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO, 2005).

Educar continuamente, no trabalho, no terreno do consumo ou na escola, para a «sociedade da informação», e controlar, indiscri-minadamente, são os mecanismos de uma economia de mercado que se refaz transmutada hoje na lógica chamada por Dantas (1996)

2 Quando falamos em melhoria sistemática da capacidade mental da força-de-trabalho é impossível não entender aqui porque se insiste tanto hoje nos cursos de educação continuada, tanto nas empresas tradicionalmente assim consideradas como no setor educacional como um todo.

3 A mais valia - relativa é extraída do trabalhador através da intensificação dos processos de trabalho, com a introdução de novas formas de produção, mais ágeis; incrementa-se a tecnologia, aumenta-se a capacidade mental do trabalhador, também através da escola, reestruturando-a para tal. Ou seja, em igual tempo de trabalho, com a introdução de novas tecnologias, a produtividade aumenta. E assim, aumentando-se a mais-valia produzida, cresce o lucro do capitalista.

como de capital informação. Quadro da sociedade que parece atualizar as análises realizadas no âmbito da Escola de Frankfurt, em especial por Teodor Adorno e Max Horkheimer (1985), quando de sua análise sobre a «sociedade industrial», sobre o poder ideológico manipulatório da cultura, denunciado como indústria cultual.

*****

Mas, mesmo assim, estamos convencidos de que, no caso das tecnologias informacionais, há espaço também para formas de atuações políticas alternativas, se soubermos explorar o caráter contraditório da tecnologia.

No documento Revista de Trabalho e Educação (páginas 36-41)