Capítulo 5: A infância e as transformações na ecologia mediática
5.1 Multitarefa, convergência e integração dos media
O contexto da sociedade em rede (Castells, 2002) trouxe consigo novos modelos de consumo dos media e novas práticas individuais e coletivas que pressionam os mercados a reinventarem os modelos de gestão, produção e distribuição. É neste sentido que Küng, Picard e Towse (2008) falam de cinco grandes tendências: abundância de oferta; fragmentação do consumo; desenvolvimento de portefólios de produtos diversificados; perda de importância das empresas de media; e mudanças no equilíbrio de poder entre produtores e consumidores. Em particular, os consumidores normalizam a internet como mais um meio que se enquadra no normal curso da vida quotidiana. Caracterizam-se ainda por uma fruição da internet em rede com outros media, ou em alternativa a outros media, e por uma utilização pautada pelo regime de multitarefa (multitasking). Uma das principais tendências em termos de novos modelos de consumo dos media prende-se com a intensificação da utilização simultânea de vários meios (Foehr, 2006; Wallis, 2006). Assim, existe uma tendência para a multitarefa, ou seja, realizar simultaneamente várias tarefas ou, se nos referirmos exclusivamente ao caso dos media, expor-se a diversos meios em simultâneo. Em geral os dados apontam para uma realização de várias tarefas ao mesmo tempo tendencialmente maior entre os mais novos, enquanto as gerações socializadas noutras culturas mediáticas tenderão a fazer outra domesticação dos media, no sentido de uma atenção mais focada (Aroldi e Colombo, 2003). Nesse sentido, a televisão parece assim mais talhada para as audiências seniores e a internet para os mais novos. Embora, a análise possa ser complexificada em termos de práticas diferenciadas entre as crianças, e os indivíduos em geral, consoante os seus contextos sociais e familiares, ou contando com fatores como o sexo e a idade.
Se há quem olhe para os fenómenos recentes como indicador da fragmentação das audiências (Küng, Picard e Towse, 2008; Webster e Ksiazek, 2012), que pode seguir vários fatores, entre eles a idade, por outro, há quem os considere numa perspetiva de cultura de convergência e formação de uma outra lógica de utilização dos media, não propriamente fragmentária, mas integrada e transmediática (Jenkins, 2006). Como assinala Jenkins, a cultura de convergência reduzida aos seus elementos nucleares, é sobre a relação entre três conceitos: convergência mediática, cultura participativa, e inteligência coletiva. A convergência dos media remete para o fluxo de conteúdos através de múltiplas plataformas, a cooperação entre indústrias mediáticas e o comportamento migratório das
audiências que buscam nos vários meios o tipo de experiências de entretenimento que procuram. É neste âmbito que podemos enquadrar o uso dos media em regime multitarefa. É de referir que o estudo da domesticação multitarefa dos media abre caminhos de pesquisa acerca da distribuição da atenção dos indivíduos pelas diversas atividades. Para percebermos a realidade mediática em que as crianças se inserem é necessário identificar a forma como a sua atenção é distribuída nas várias atividades. Neste contexto, são identificados três níveis de análise na Figura 5-3. No primeiro nível, a “Atenção Focada”, os agentes dedicam-se exclusivamente a uma só tarefa, sendo toda a sua concentração e atenção focalizada nessa mesma tarefa. No segundo nível, desenvolvem-se diversas tarefas em paralelo, aproveitando os “momentos mortos” para alternar de suporte mediático, mas fixando a sua atenção numa só tarefa. Por exemplo, quando uma criança está a ver televisão poderá aproveitar o intervalo para mandar uma mensagem SMS, ou aproveitar um tempo de descarga de ficheiros quando está ao computador para fazer os trabalhos de casa. O terceiro nível, a “Atenção Difusa”, acontece quando a atenção de um sujeito fica de facto dispersa entre vários estímulos. Por exemplo, quando está a navegar na internet e a ouvir música em simultâneo, ou quando está a comer e a ver simultaneamente televisão.
Figura 5-3. Três níveis de análise do regime multitarefa
Fonte: Araújo et al. (2009).
Atenção inteiramente concentrada numa
só tarefa
Foco da atenção varia entre tarefas
diferentes
Atenção dispersa entre várias
tarefas Atenção Intermitente Atenção Difusa Atenção Focada
A multitarefa na sua vertente de “Atenção Difusa” e a fruição da internet em rede pelos mais novos é demonstrada pelos dados no Quadro 5-4. Entre os inquiridos online, a atividade mais frequente que os internautas realizam enquanto utilizam a internet é ouvir música (em 56% dos casos). Para 20,8% dos internautas é frequente a utilização de chats ou programas de mensagens instantâneas e 15,6% declara ainda que fala ao telefone ou ao telemóvel enquanto está online. Ouvir rádio e ver televisão constituem práticas frequentes em simultâneo com a navegação na internet para 13,1% e 11,8% das crianças utilizadoras, respetivamente. É de salientar que apenas 8,8% declara não realizar nenhuma das atividades descritas enquanto navegam na internet.
Quadro 5-4. Enquanto utiliza a internet, é frequente:
%
Ouvir música 56,0
Ouvir rádio 13,1
Utilizar Chats ou programas de
Mensagens Instantâneas 20,8
Ver televisão 11,8
Falar Ao Telefone/Telemóvel 15,6
Nenhuma destas 8,8
Fonte: CIES, Inquérito online, Sociedade em Rede, 2006
Fica claro que enquanto estão online as crianças, na sua grande maioria, estão também a realizar outras tarefas. Pesquisas anteriores revelam que entre 25 a 30% do tempo total de utilização dos media é passado em regime multitarefa e que quanto maior for o consumo mediático, maior a probabilidade de um indivíduo se envolver nesse regime (BIG Research, 2004). No contexto norte-americano, Foehr (2006), através da análise de diários que os jovens preenchiam todos os dias a relatar o seu uso mediático, aferiu que 63% desses jovens está exposto a outros media enquanto ouve música, 63% quando usa o computador, 58% enquanto lê e 53% quando vê televisão.
O regime multitarefa pode assim ser entendido como um modelo de consumo mediático (Araújo et al., 2009). Os mais novos têm sido socializados num tipo de cultura que pode ser exemplificada pelas janelas dos sistemas operativos. Janelas, ecrãs, sons e experiências abrem-se e fecham-se com facilidade, emergem em paralelo e proporcionam um usufruto multifacetado e simultâneo. A multitarefa é cada vez mais uma prática difundida junto das crianças que realizam “pelo prazer ou curiosidade de navegar entre
canais”. Com uma oferta mediática cada vez maior, as suas rotinas foram-se adaptando, de forma a poderem integrar um número cada vez maior de suportes. De facto, nunca antes os indivíduos estiveram tão expostos aos media como reitera Deuze (2012), para quem se vive hoje nos media, mas também nunca a sua atenção esteve tão disposta, potencialmente, a ficar dispersa entre tantas atividades. A cultura multitarefa também se expande para outras atividades como estudar como podemos ver no Quadro 5-5.
Quadro 5-5. Quando está a estudar, costuma:
%
Usar o computador 43,3
Navegar na internet (procurando informação para o meu estudo) 35,1 Navegar na internet (vendo informação não relacionada com o
meu estudo) 15,1
Fazer download de ficheiros através da internet 8,1
Ouvir rádio 25,6
Ouvir música 47,2
Escrever mensagens de correio eletrónico e usar o messenger 13,1
Ver televisão 23,5
Interagir com a televisão 2,7
Falar ao telefone 10,1
Escrever SMS 21,6
Jogar jogos multimédia 4,6
Ler revistas ou jornais 3,7
Fonte: CIES, Inquérito online, Sociedade em Rede, 2006
Perto de metade ouve música enquanto estuda. Porém, verifica-se uma maior integração do computador nos estudos nos respondentes online visto que 43,3% tem o hábito de usar o computador enquanto estuda e mais de um terço navega na internet procurando informação para os seus estudos. Ademais, 15,1% admite que procura informação não relacionada com o estudo. A televisão e a rádio também marcam presença durante o estudo para cerca de um quarto dos inquiridos e 21,6% não resiste a enviar mensagens pelo telemóvel enquanto estuda. Verifica-se, portanto, que o ambiente mediático diversificado coloca um desafio à concentração, compõe estímulos múltiplos, e entra mesmo nos tempos de estudo. Contudo, a internet veio possibilitar novos meios auxiliares de estudo, colocando ao mesmo tempo desafios à forma como a informação é
rececionada. Veio, por um lado, facilitar o acesso à informação, mas por outro lado, esse mesmo fácil acesso à informação pode induzir alguns a uma cultura de facilitismo, recorrendo ao plágio e absorvendo de forma acrítica informação já triturada. O ambiente mediático emergente não é contudo, por si só, um desafio aos estudos das crianças e com iniciativas pró-ativas poderá mesmo funcionar como mais um elemento pedagógico. Parece claro que a socialização no ambiente mediático emergente deverá ser acompanhada por pais e educadores, constituindo um aspeto educativo das crianças a utilização de dietas mediáticas equilibradas e pressupondo um leque mais alargado no próprio conceito de “literacia”. Com as novas tecnologias as crianças poderão assim procurar informação complementar aos manuais escolares e poderão até achar informação contraditória ou que desafia o que foi dito nas aulas pelos professores. A “literacia” neste novo contexto mediático requer assim, não só uma educação por parte das crianças, mas por parte daqueles que detêm a “autoridade” de transmitir saber.
Outro aspeto da fruição dos media em rede é a possibilidade de ver televisão ao mesmo tempo que se está ao computador. Entre as crianças com computador em casa, cerca de metade vê televisão quando está ao computador. Tanto o público infantil inquirido face-a-face como o público específico que respondeu ao questionário online partilham práticas comunicacionais, cuja evolução não se dá de um dia para o outro. Portanto, as crianças que utilizam com bastante frequência a internet não deixam de olhar com maior ou menor frequência para o ecrã da televisão, porém os moldes em que o fazem podem ser diferentes. Contudo, essas crianças utilizam cada vez mais a televisão como um nó inserido numa rede estabelecida entre vários media, isto é, as crianças tendem cada vez mais a utilizar a televisão como ambiente de fundo enquanto desenvolvem outras atividades.
Certas práticas em regime multitarefa, não serão, porventura, uma novidade, estando já instituídas nas gerações anteriores. Neste quadro, Metheringham (1964) analisou modelos de duplicação das audiências, que, no entanto, assumiam exposições mediáticas separadas no tempo. Keller et al. (1966) distinguiram formas de consumo acumuladas no tempo, mas não de forma instantânea. Smith (1962) lançou questões sobre os impactos da saturação publicitária nas audiências, o que remete para as questões sobre a atenção dos públicos ou de práticas como o zapping. E Kaatz debruçou-se precisamente sobre a atenção dos públicos distinguindo a exposição mediática efetiva da possibilidade dessa exposição ou OTS (opportunities to see). Robinson e Godbey (1997) referem que a audição de rádio costumava ser uma experiência absorvente, na qual as pessoas se
envolviam de forma exclusiva, excluindo outras atividades. Era assim comum as famílias reunirem-se em torno do dispositivo e ouvirem rádio. Mais tarde, a audição de rádio foi passando gradualmente a pano de fundo tornando-se, com o advento da televisão, quase exclusivamente uma atividade secundária, algo que escutamos enquanto fazemos algo. O que parece estar a acontecer atualmente é que o fenómeno de multitarefa tomou proporções nunca antes vistas, com implicações nos quadros quotidianos.
Um representante ideal-típico das crianças inquiridas presencialmente continua a realizar atividades tradicionais enquanto vêm televisão: a maioria das crianças come enquanto olha para o ecrã da TV ou estuda e faz os trabalhos de casa, olhando de soslaio para o que se passa no ecrã. Sem contar com as idas à casa de banho, comer ou fazer uma refeição é a atividade realizada mais frequentemente em simultâneo com o visionamento da televisão. No entanto, a introdução de novos media no quotidiano veio disputar a atenção que as crianças dedicam à televisão. Cerca de um terço das crianças envia mensagens SMS através do telemóvel enquanto vê televisão, um quarto fala ao telefone e 22,6% navega na internet ou escreve mensagens de correio eletrónico. O tempo de ver televisão cruza-se assim com o tempo para fazer outras atividades, podendo a qualquer momento deixar de ser o principal foco de atenção. Neste contexto, é de relevar que, entre as crianças respondentes do inquérito online, uma porção não muito distante de um terço navega na internet enquanto vê televisão. Hoje em dia, o próprio mercado oferece produtos que integram vários media e que são procurados pelas crianças. Na ordem de 22% dos respondentes online declara que pode ver televisão através do ecrã do computador. O uso transmediático promove o regime multitarefa, ao providenciar paragens naturais nas tarefas em curso (por exemplo, os tempos de download, etc.) e interrupções regulares (tais como janelas pop-up nas páginas dos sítios na rede, dos chats, etc.). Além disso, à medida que a oferta mediática se foi multiplicando, os indivíduos foram encontrando formas de a encaixar nas suas rotinas, levando a ilações tais como as apresentadas num estudo desenvolvido pelo Yahoo e a OMD (2006), onde se alega que os consumidores nos Estados Unidos vivem, devido à multitarefa, dias equivalentes a jornadas de 43 horas, incluindo 16 horas de interação com os media e a tecnologia. Desta forma, emergiram estudos similares em torno do regime multitarefa, em especial no campo do consumo dos media (Brown e Cantor, 2000; Roberts et al., 2005).
No que respeita ao inquérito presencial, poucos são os que afirmam não realizar nenhuma atividade em simultâneo e percentagens apreciáveis de crianças afirmam ver televisão, ouvir música, estudar ou fazer os trabalhos de casa, usar o computador e enviar
mensagens em simultâneo com outras atividades. A vida diária dos públicos infantis é impregnada de um sistema mediático de oferta múltipla, na qual vão criando capacidades comunicativas como o facto de aprenderem a integrar as várias possibilidades de oferta e de articular em simultâneo diversas atividades. No âmbito de um regime de “Atenção Intermitente”, o tempo de publicidade não é um tempo morto e é muitas vezes um tempo que se utiliza para outras atividades e é muitas vezes um desafio prender a atenção dos telespectadores nos intervalos, como intuiu Kaatz (1975). Entre as crianças inquiridas presencialmente, o tempo de intervalo é essencialmente um tempo onde, frequentemente ou às vezes, se vai à casa de banho ou à cozinha (em 71,2% dos casos), se vai comer ou fazer uma refeição (em 58,5% dos casos) ou se vai para outra divisão da casa realizar outras atividades (em 52,3% dos casos). É também nos intervalos que cerca de um terço das crianças aproveita para enviar mensagens SMS através do telemóvel, 26,3% aproveita para falar ao telefone e 30% aproveita para interagir com a televisão. A atividade menos realizada nos intervalos dos programas de televisão é a navegação na internet. É ainda curioso constatar que há uma maior fração de inquiridos dos 16 aos 18 anos que dorme enquanto a televisão está ligada, quer porque haverá mais inquiridos nesse escalão com televisão no quarto, quer porque provavelmente têm a liberdade de ver televisão até mais tarde, podendo adormecer a olhar para o ecrã de TV. Este é um indicador do peso omnipresente que a televisão ainda detém nas práticas mediáticas das crianças, pese embora o facto de estar a ser preterida em relação a outros media, no plano subjetivo e identitário das preferências, por parte de frações substanciais de crianças.
Além disso, a reconfiguração do papel da televisão entre as gerações mais novas, fruto do aumento do uso da internet ou do telemóvel, não significa a substituição do consumo de determinados meios comunicacionais por outros. É certo que a televisão tem merecido uma “Atenção Focada” cada vez menor. Porém, a televisão ainda é das principais fontes de informação para essas gerações. A utilização de vários media desempenha um papel conjunto e interligado de reforço de informação nos quadros infantis que acompanha a tendência para a multiplicação de interesses e atividades por parte dos utilizadores das novas tecnologias, levando a que o quotidiano de uma criança típica esteja cada vez mais impregnado de um sistema mediático de oferta múltipla. Contudo, esta não tem de escolher entre práticas ou atividades mediáticas diversas, nem as entender como concorrentes. Antes, numa lógica de convergência mediática (Jenkins, 2006), pode procurar articulá-las em simultâneo. Nesta senda, é legítimo levantar a hipótese de que a utilização das TIC por parte das crianças leva à diversificação e
ampliação das suas competências comunicativas, uma vez que a sua cultura mediática é caracterizada pelo regime multitarefa, por modos de utilização mais interativos, pelas janelas que abrem e fecham ou pelos múltiplos ecrãs, sons e experiências que aparecem e desaparecem com a instrução de um clique e emergem em paralelo, proporcionando aos utilizadores infantis formas multifacetadas e integradas de experienciar os media.