CAPÍTULO 2: A ERA DIGITAL
2.2. Mundo Digital
Em 1999, o sociólogo espanhol Manuel Castells lança nos EUA os três densos volumes de “A era da informação: economia, sociedade e cultura” (Paz e Terra) onde discute as novas formas organizacionais da economia informacional, afirmando que na era da retribalização digital as redes são componentes fundamentais, pois são capazes de formar-se e expandir-se por todas as avenidas e becos da economia global.
Roman (2001) define retribalização digital como o movimento de socialização do qual os homens participam atualmente e que acontece graças à ampliação da área de relacionamento além dos limites físicos, e às possibilidades de interação virtual, propiciadas pelas novas tecnologias digitalizadas de telecomunicação.
A integração em redes tornou-se a chave da flexibilidade organizacional e do desempenho empresarial, pois possibilitou interligar toda a cadeia de valor: empresas, trabalhadores, fornecedores e consumidores, ajudando as organizações a superarem problemas de coordenação e controle. Quanto maior o número de níveis hierárquicos, pior a qualidade da comunicação em uma organização. Graças às redes informatizadas de comunicação, as mensagens contornam as disposições hierárquicas, mostrando a obsolescência de modelos organizacionais recheados de instâncias repassadoras da informação. O e-mail facilita a transmissão de mensagens, diretamente da administração superior das empresas aos trabalhadores de sua base produtiva e vice-versa. O correio eletrônico, portanto, questiona a linearidade unidirecional do fluxo informacional, modelo que interessa às estruturas rigidamente hierarquizadas, tributárias à cultura gutenberguiana.
McLuhan (1980) pregava que o “meio era a mensagem”. A segmentação e a diferenciação de audiência dos anos 80 por meio das novas tecnologias de informação mostraram que a “mensagem era o meio”. Os anos 90 trouxeram as redes digitais de comunicação interligando o mundo e as pessoas, possibilitando o acesso simultâneo a diversas mensagens, individualizadas, por diversos meios. É a interatividade potencializando a audiência: a mensagem é a mensagem. Nas palavras de Castells: “não estamos mais vivendo numa aldeia global, mas em cabanas individualizadas espalhadas globalmente e distribuídas localmente. (CASTELLS apud SAAD, 2003, p.74)
Nicholas Negroponte, em sua obra A Vida Digital (2006) defende que os átomos foram substituídos por bits. Segundo ele (idem, p.12) “a informática não tem mais nada a ver com computadores. Tem a ver com a vida das pessoas.” Os bits de informação hoje regem nossa vida.
Ainda seguindo o pensamento de Negroponte (2006), podemos afirmar que, embora estejamos na era da informação, a maior parte das informações ainda nos
chegam em forma de átomos (jornais, revistas, por exemplo). Nosso sistema de medida ainda é baseado em átomos. Átomos são mensuráveis, bits não.
Mudanças no âmbito organizacional também são sentidas com a digitalização de nossa sociedade. A era industrial era pautada pela centralização, burocratização, padronização e maquiavelismo. A nossa atual sociedade da informação assume características opostas: descentralização (o processo de planejamento de decisões tende a se tornar participativo e não centralizador), desburocratização, despadronização, sinergia, rapidez (imediatismo), simultaneidade, flexibilidade, interação e aspectos multimídia. Quebram-se barreiras de tempo e espaço.
Hoje, a palavra burocracia, que antes era sinônimo de organização, tem conotação pejorativa. Transformou-se em sinônimo de obsolência administrativa e esclerose empresarial.
Segundo Storch (1995, p. 285) “a dinâmica atual dos meios de comunicação de massa e do uso da informática impõe um outro eixo de estruturação: uma velocidade nunca dantes alcançada na história da comunicação entre homens.”
Muitas mudanças no ‘consumo’ da informação originam-se nessa era digital. A informação chega de forma diferente aos receptores e a maneira de receber a informação se dá diferentemente dos meios tradicionais. Na internet a informação é transmitida em textos curtos, diretos, com hiperlinks que permitem ao internauta traçar seu próprio caminho para absorção de informações.
“No mundo digital, o problema do volume versus profundidade desaparece, de modo que leitores e autores podem mover-se com maior liberdade entre o geral e o específico. Na verdade, a idéia de ’querer saber mais sobre o assunto’ é parte integrante da multimídia, e está na base da hipermídia”. (NEGROPONTE, 2006, p.71).
Na hipermídia, o leitor assume papel ativo e novo status ao comunicador, conferindo-lhe papel interativo. Negroponte continua (2006, p.71): “O espaço da informação não se limita de forma alguma a três dimensões. A expressão de uma idéia ou linha de pensamento pode incluir uma rede multidimensional de
indicadores apontando para novas formulações ou argumentos que podem ser evocados ou ignorados.”
O conhecimento torna-se interdependente, interligado e intersensorial. O receptor consumidor de informação é quem decide que informação quer receber e de que maneira quer recebê-la. Ele produz sua própria informação, é o editor de seus próprios textos e imagens. O consumidor transforma-se em criador, que decide qual informação vai absorver ou consumir. A interação é marcante neste processo. Temos cada vez mais a necessidade de nos comunicar através de sons, imagens e textos, integrando mensagens e tecnologias multimídia (MORAN, 1998). O homem pós-moderno digital é um ser multimídia.
Essa necessidade pode ser constatada em cenas típicas do cotidiano: ao chegar em casa uma mesma pessoa, que já esteve conectada à Internet durante o dia todo no trabalho, liga a televisão, ao mesmo tempo em que acessa seu microcomputador e ouve música. Isso sem contar com as ligações telefônicas.
Essa necessidade de envolver todos os sentidos e estar sempre conectado ao mundo é uma fuga à solidão pós-moderna, intitulada por alguns autores de solidão das multidões. As pessoas têm cada vez mais um sentimento crescente de solidão, fruto da individualização, do excesso de trabalho, dinamismo alucinante do dia-a-dia, e da insegurança nas ruas, que fazem com que cada vez mais as pessoas isolem-se em suas residências.
Julio (2005 apud TERRA, 2006, p. 38) fala sobre algumas conseqüências que a Internet traz ao cotidiano pós-moderno:
São mais e-mails para responder, mais tempo trabalhando, menos horas para o lazer e um contato face a face cada dia mais distante. Ora, o que era para juntar está afastando; o que era para convergir está divergindo e nos seu próprio conceito de aplicação. [...] Somos seres conectados com o mundo e desconectados de nós mesmo.
A internet vem para facilitar a vida dessas pessoas que agora podem fazer quase tudo sem sair de casa, desde compras e movimentações bancárias a bater
papo com amigos, conhecer gente nova ou namorar. Ao mesmo tempo em que a internet aproxima as pessoas, ela contribui para o isolamento do ser humano, que vai perdendo aos poucos o contato pessoal, e praticando cada vez menos o diálogo oral presencial. Esta comunicação oral presencial está sendo substituída pela comunicação virtual. Tal tendência pode ser facilmente observada na atualidade, basta olharmos ao nosso redor, no ambiente de trabalho: pessoas que ocupam o mesmo espaço físico optam pelo espaço virtual ao real oral para se comunicar. A rede gera uma dependência entre seus usuários, é viciante. No entanto, tais afirmações ainda constituem apenas hipóteses que vêm sendo estudadas por psicanalistas por meio de análise do comportamento humano com a rede digital. Entretanto, não caberá a este trabalho expô-las.
Para Moran (1998, p. 79) “A internet virou uma grande vitrine, um grande campo de troca de mensagens num enorme banco de dados e um crescente balcão de negócios e serviços, embora haja ainda muitos problemas de segurança e rapidez para resolver”
Para Martin (p.89 apud SAAD, 2003, p.52 ) :
Internet não deve ser considerada apenas mais um meio de comunicação. Ela é o sistema de circulação da nova economia [...] a armadilha que geralmente vemos é confundir a tecnologia e o que ela possibilita através da internet com as necessidades do mercado. A internet é um meio para um fim e não um fim em si mesma. Reconhecer essa diferença é igual à compreensão da sociedade sobre o telefone, que se tornou uma aplicação fundamental por facilitar a comunicação e não porque era apenas uma inovação tecnológica.
As relações comercias passaram por muitas mudanças devido à revolução digital, onde todo o mundo está conectado o tempo todo, por uma única rede, quebrando barreiras de tempo e espaço. Tudo acontece em tempo real (ou será virtual?). O ‘aqui e agora’ são fundamentais.
Os espaços para a comercialização mudam de endereço: migram dos espaços físicos para a Internet (www), onde todos podem ter acesso a esses locais de compra em poucos segundos, não importa em que parte do mundo o comprador ou vendedor estejam.
Esse mecanismo de compra on-line (pela internet), que muitas pessoas no início resistiam a utilizar por medo da ineficiência e insegurança, vem crescendo espantosamente.
Para se ter uma idéia, durante a semana do Natal de 2007 o comércio eletrônico movimentou R$1,08 bilhões só no Brasil2.
Isto transparece a força e a credibilidade dessa ferramenta, que faz parte do nosso dia-a-dia, e que continua em crescente ascensão, desbancando o comércio tradicional de rua.
No entanto, segundo Moran (1998), o avanço tecnológico não acontece paralelamente ao avanço pessoal. Estamos cada vez mais fragmentados como sociedade. As relações humanas ainda estão marcadas pela dominação, pela exploração direta e indireta. Cada um tenta sobreviver sozinho ou em pequenos grupos (tribos).
Conforme dito anteriormente, os bits ditam hoje um novo modelo de vida, onde as estruturas sociais e econômicas sofrem mudanças. Mais adiante veremos os impactos da digitalização nas relações organizacionais e humanas.