• Nenhum resultado encontrado

O Caráter Clandestino do E-mail

No documento danielabonacorsobarataribeiro (páginas 62-66)

CAPÍTULO 2: A ERA DIGITAL

2.8. O Caráter Clandestino do E-mail

O e-mail, como tecnologia da informação, garante sim a racionalidade comunicativa, mas também oferece a possibilidade de ser utilizada como espaço clandestino para interação pessoal. Esse é o componente que diferencia essa tecnologia das anteriores. A agilidade do transporte das informações gera uma contradição do e-mail como espaço que pode ser tanto usado para a produtividade quanto para a clandestinidade, a marginalidade.

A informatização dos processos de trabalho desencadeia uma recomposição do espaço no ambiente de trabalho; a informatização da comunicação, por sua vez, não só redefine os espaços de interação nas organizações, como abre a possibilidade liminar de comunicação através do e-mail, como um subespaço paralelo onde as individualidades encontram autorização para expressão

desmedida, divertida, afetuosa e irresponsável. (ROMAN, 2001, p.84)

As relações de dominação e poder são colocadas de fora e surgem outras dimensões da subjetividade suprimidas no dia-a-dia. O relacionamento informal e subjetivo que se estabelece “na troca intensa de e-mails, desenfarta o trabalhador, farto de regras e de prazos, pois o insere numa temporalidade em que desperdício não só é autorizado como valorizado”. (ROMAN, 2001, p.83)

O e-mail está sendo utilizado como espaço clandestino para a vivência de experiências compensadoras que tornam suportável o tempo dedicado ao trabalho do cotidiano. Esses espaços de autonomia e de resistência à disciplina não foram criados pelo e-mail, uma vez que são componentes dos Ritos de Interação Compensatória, mas ganham nele uma nova conformação: sustentam-se através do discurso escrito e da troca cooperativa de mensagens, numa dinâmica incontrolável, atenuante dos efeitos da estrutura formal, que exige comedimento e disciplina, e onde, não raro, a fala é interdita. (ROMAN, 2001)

O meio eletrônico vem sendo explorado como uma ferramenta extra-oficial, num caráter alternativo, onde os envolvidos trocam mensagens tidas pelas empresas como inúteis, onde se tratam assuntos não relacionados ao trabalho, portanto, considerados não produtivos. São mensagens que fogem às regras, compromissos, obrigações, deveres, que condenam o trabalhador à vivência de um cotidiano com horizonte já definido. Esses e-mails de caráter mais sentimental, e bem humorados, surgem com o objetivo de desestressar os funcionários e tratarem questões do cotidiano de forma mais passional, seja por meio de mensagens com tom de escárnio, seja com piadas ou histórias tristes e tocantes com uma lição de moral. Esse meio eletrônico vem para preencher uma parte obscura que é o lado humano dos funcionários das organizações, surgem como um momento de pausa ao ritmo alucinante do dia a dia, que é cada vez mais dinâmico e isolador.

A vida organizacional, em sua banalidade, em suas falhas, nos patéticos ritos do cotidiano, com suas pequenas aberrações, é

representada nessa troca buliçosa de mensagens “inúteis”, que promovem a comunhão não-institucional pela confusão e pelo delírio. (ROMAN, 2001, p. 57)

Segundo Roman (2002) O e-mail promove nas instituições o diálogo não- institucional. Vive-se, nos instantes fugidios de troca de mensagens, a vivência de um mundo intersubjetivamente compartilhado. Esse intercâmbio põe à mostra uma tensão intrínseca entre o institucional e o individual; entre o organizacional e o subjetivo.

O discurso desses e-mails não pretende ser politicamente correto, bem redigidos ou úteis aos destinatários. Neles, abusa-se do humor, da irreverência, do escárnio, dos sentimentos, na tentativa de suprir carências afetivas de nosso mundo altamente dinâmico, competitivo e isolador.

A seriedade carrega um componente intimidador. O riso supõe que o medo foi dominado,

engloba um elemento de vitória não somente sobre o terror que inspiram os horrores do além, as coisas sagradas e a morte, mas também sobre o temor inspirado por todas as formas de poder, pelos soberanos terrestres, a aristocracia social terrestre, tudo o que oprime e limita” (BAKHTIN,1987, p.79 apud ROMAN, 2001,p.121).

Jamais o poder, a violência e a autoridade empregnam a linguagem do riso. É por esta razão que utiliza-se o humor nesse espaço clandestino.

As pessoas estão carentes e buscam nas empresas um conforto afetivo que não encontram em suas vidas. Como o ambiente de trabalho não tem esse objetivo – proporcionar conforto espiritual – os sujeitos desenvolvem os Ritos de Interação Compensatória, por sua conta e risco. Entopem as caixas postais eletrônicas com mensagens cheias de valores de positividade e sentimentalidade. (ROMAN, 2001)

Há um outro fator importante na utilização do e-mail neste espaço clandestino: por esta forma de comunicação não exigir o enfrentamento cara a

cara do emissor com o receptor e pelo fato do destinatário ter a opção de poder permanecer oculto no envio de uma mensagem, os grupos de pessoas mais inibidas e silenciosas sentem-se mais estimuladas a começar a se expressar por e-mail.

Segundo Varona (1997, p. 21 apud ROMAN, 2001, p.39)

o correio eletrônico facilita a que os empregados se sintam menos inibidos para iniciar o envio de mensagens. Isto ajuda de maneira muito particular que os grupos tradicionalmente silenciosos se comuniquem, como os grupos étnicos minoritários, os subordinados, as mulheres e os empregados com deficiências físicas.

Este é um aspecto da internet que merece uma atenção especial. Os usuários de internet, participantes de redes sociais como salas de bate-papo, MSN e, mais recentemente, Orkut, sentem-se mais à vontade para falar sobre a própria vida, seus sentimentos e angústias quando a comunicação é intermediada por um computador. É como se a pessoa vestisse uma máscara ao usar essas ferramentas tecnológicas, não podendo ser vistas nem reconhecidas pelas pessoas envolvidas na conversa, eliminando assim qualquer risco de constrangimento. O diálogo oral presencial implica numa intimidação, pois há exposição dos participantes a julgamentos e constrangimentos.

Voltando à questão do espaço clandestino usado pelos funcionários nas empresas, constata-se que esses e-mails são banais, sim, e a proposta deles é esta mesmo. Essas mensagens marginais transmitidas por e-mail são consumidas e descartadas de imediato, como em tudo em nossa sociedade de consumo. O que vale é o contato, o relacionamento que se faz ao circular essas mensagens. O que importa não é o conteúdo da mensagem, mas a sua transmissão, a sua replicação.

Essas mensagens inúteis são mal-vistas pelas empresas, pois representam perda de tempo e podem distribuir o mal pela empresa. Por meio dele, pode-se planejar verdadeiras rebeliões nas organizações sem que a gerência tome

conhecimento. É por esta razão que a maioria das organizações desenvolve um sistema de vigilância dos e-mails trocados por seus funcionários. Qualquer mensagem eletrônica suspeita pode ser barrada e seu autor punido. O foco da questão é saber como fazer esse controle de maneira justa, visto que é impossível ter todas as trocas de e-mail corretamente monitoradas.

A tecnologia da informação não foi desenvolvida e aplicada nas organizações para aumentar a competência comunicativa dos trabalhadores, mas com o objetivo de racionalizar processos e otimizar o processo produtivo. Mas essa mesma ferramenta criada para produzir, dá vazão à não produtividade, gerando uma situação inesperada para as organizações.

“Não bastava separar os trabalhadores, acompanhar suas atividades e controlar se o que fizeram estava conforme a regra. É preciso vigiá-los durante todo o tempo da atividade e submetê-los a uma perpétua pirâmide de olhares.” (FOUCAULT, 1979, p.106)

Essa punição à utilização do e-mail parece um tanto contraditória. Primeiro, agracia-se os funcionários com tecnologias que ampliam as possibilidades de comunicação e, logo após, disciplinam, com regras, os processos interacionais nas organizações. Para evitar o “mau uso” dos e-mails muitas organizações vêm bloqueando o acesso de alguns departamentos à internet.

Com o intuito de diminuir esse espaço clandestino as empresas vêm adotando medidas que revelam o reconhecimento e a aceitação dos momentos de carnavalização nas organizações. O casual day, as festas de fim de ano, de aniversário, todos esses momentos que representam uma fuga ao cotidiano do trabalho, são um bom exemplo dessa postura que as empresas vêm adotando.

No documento danielabonacorsobarataribeiro (páginas 62-66)

Documentos relacionados