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Os problemas mais graves da marginalização social de pontos diferentes do país se refletiram na nova fronteira de ocupação, visto ser uma nova opção para reproduzir a classe trabalhadora e a alternativa momentânea para subsistência. As cidades se tornaram depósito do exército industrial, ou o alongamento da exploração e marginalização dos que buscam realizar um sonho ainda distante (PICOLI, 2006, p. 74).

Segundo dados do IBGE /2000, o Município de Sinop possui uma população de

226 Ênio Pepino, empresário, responsável pelo projeto de colonização.

227 Ver obra de Sousa (2004).

227 Para Ianni (1996, p. 76-7), “civilizar” está ligado ao conceito de modernização a qual implicaria a necessidade da difusão dos padrões e valores sócio-culturais predominantes nos países desenvolvidos. “É uma tradução da idéia de que o capitalismo é um processo civilizatório não só ‘superior’ mas também mais ou menos inexorável”. É neste sentido que Abrão (1986, p. 62) coloca que como o camponês era visto como um “desajustado” por falta de desta “cultura”, caberia à escola, “melhor do que qualquer outra instituição”, desempenhar esta função: “formar o homem da roça culturalmente”.

74.831 habitantes229, com uma área territorial de 3.206,8 Km2 (0,35% do território

estadual)230 e densidade demográfica de 32,5 hab./km2. Apresenta altitude de 384m,

acima do nível do mar, coordenada 11º50’53” de Latitude Sul e 50º38”57” Longitude Oeste de Gr., situado numa área de transição entre o Cerrado e a Floresta Amazônica, denominada Região Médio Norte do Estado de Mato Grosso, distante 500 km da Capital do Estado de Mato Grosso, às margens da BR 163, no sentido Cuiabá/MT – Santarém/PA.

O relevo é plano, suavemente ondulado, com raros pontos de erosão, favorável ao desenvolvimento da agricultura. O solo é do tipo argiloso e apresenta algumas pequenas áreas arenosas. Originalmente era coberto, em sua maior extensão, pela Floresta Amazônica Meridional, rica em madeira (mogno, angelim, cedro, itaúba...), hoje substituído por extensas áreas voltadas à agricultura (monocultura), principalmente de grãos (soja, milho, algodão...) e pela pecuária bovina de corte.

Alguns números o destacam como pólo econômico dentro do Estado de Mato

Grosso231, com um IHD municipal considerado de alto nível. O clima é predominante

quente-úmido com temperatura média anual de 28º C, com precipitação média anual de 1.900 milímetros. O município faz parte da meso-região Norte Mato-Grossense e limita-se ao Norte com os Municípios de Itaúba e Cláudia, ao Sul com Sorriso e Vera, a Leste com Santa Carmem e Cláudia e a Oeste com Ipiranga do Norte e Sorriso. Suas terras são banhadas pelo Rio Teles Pires, um dos maiores rios da Amazônia, afluente do Rio Tapajós, que deságua no Rio Amazonas.

Em termos educacionais, se destaca na região Norte do Estado, por abrigar um número significativo de universidades, sendo duas públicas: a Universidade do Estado

229 As estimativas (2006) assinalam uma população de 103.868 habitantes. Estes números colocam o município como o quarto maior no Estado de Mato Grosso. A grande maioria da população (90%) vive na área urbana e o restante (10%) na área rural.

230 Ao longo dos anos o município perdeu parte significativa de seu território em função dos vários desmembramentos de terras com a criação de novos municípios (Vera, Santa Carmem, Cláudia, etc.).

231 PIB, 810.137.000,00; PIB per capita, 8.553,00 R$; IHD (Índice de Desenvolvimento Humano). Como um dos indicadores do IHD refere-se à educação, gostaria de trazer alguns números referentes a Mato Grosso. O IHD foi criado com a finalidade de medir o nível de desenvolvimento humano por países, sendo calculado com base nos seguintes indicadores: educação (alfabetização e taxa de matrícula), longevidade (expectativa de vida ao nascer), e renda (PIB per capita). Os índices variam de 0 a 1, nas seguintes classificações: de 0 a 0,499 – baixo índice de desenvolvimento humano; de 500 a 0, 799 – médio nível de desenvolvimento humano; e acima de 0,800 – alto nível de desenvolvimento humano. O RDH (Relatório de Desenvolvimento Humano), publicado em 2004, confere ao Brasil um IDH de 0,775. Entre os estados brasileiros, Mato Grosso aparece na 9ª posição, com índice de 0,773. Se tomarmos apenas o indicador renda, “verifica-se uma forte e progressiva concentração de renda no Estado, impedindo a redução da pobreza e, consequentemente, aumentando a desigualdade social” (HIGA, 2005, p. 15). Em relação à educação, destaca a autora, o “Estado apresentou progresso, alcançando alto índice de desenvolvimento”, uma vez que, segundo o Censo de 2000 (IBGE), “a população alfabetizada somava, naquele ano, um total de 1.761.966 pessoas, representando 88,9% da população residente no Estado com ou mais de 10 anos de idade” (p. 15).

de Mato Grosso - UNEMAT232 e a Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Entre as particulares destacam-se, Faculdade de Sinop – FACIP, a Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná – UNICEM, e Universidade de Cuiabá- UNIC,

constituindo-se no principal pólo educacional do norte de Mato Grosso233.

As escolas de 1º e 2º graus no município de Sinop somam um total de 41. Destas, 17 são escolas municipais, 08 estaduais e 16 particulares. O número de alunos matriculados soma um total de 29.949. Apenas duas escolas estão localizadas na área rural do município e atendem pouco mais de 200 alunos. São as escolas localizadas no Assentamento de Reforma Agrária Gleba Mercedes V.

Como vimos, Sinop traz contido no nome a sigla da Colonizadora, Sociedade

Imobiliária Noroeste do Paraná - SINOP. Os outros três núcleos (Cláudia, Santa

Carmem e Vera), que compunham a então Gleba Celeste, levam nomes de mulheres. Uma característica que se tornou muito comum, também, com nomes de estradas

vicinais, córregos e escolas234. Segundo relatos235, o colonizador queria, com este gesto,

dar um toque mais humano às suas obras e, ao mesmo tempo, homenagear as mulheres. Outro fato que chama a atenção diz respeito aos nomes das avenidas e ruas da cidade. As primeiras levam nomes de árvores (ex: Avenida das Acácias, Av. das Sibipirunas,

232 O Campus da Unemat em Sinop foi criado em 1990. Hoje (2007) conta com 7 cursos de graduação, sendo 3 de licenciaturas: Letras, Matemática e Pedagogia e 4 bacharelados: Administração de Empresas, Ciências Econômicas, Ciências Biológicas, Ciências Contábeis .

233 Como nosso objeto de estudo é a educação, tenho me perguntado o porquê da grande procura, por parte da comunidade (jovens e adultos – filhos e pais), por um curso superior, principalmente da classe média alta? Fato este que tem atraído para Sinop, principalmente nos últimos 6, 7 anos, um grande número de universidades/faculdades, principalmente particulares. Primeiro, como pólo regional e, com apenas duas universidades públicas, inicialmente com um número reduzido de cursos (principalmente voltados apenas à docência), outras universidades foram sendo atraídas para atender outras demandas. Segundo, estas atendem, hoje, estudantes oriundos de diferentes municípios da região norte do Estado. A resposta à pergunta, propriamente dita, a construo em forma de hipótese e a relaciono aos estudos feitos por Ramos (1995). A autora diz que a busca da escolarização, por parte dos filhos dos grandes proprietários, burguesia rural - fato ocorrido no RS, final do século XIX, início do século XX - deveu-se à ameaça dos imigrantes europeus. Ou seja, a presença destes passou a tornar-se uma ameaça ao latifúndio. Isso fez com que os fazendeiros buscassem o estudo (curso superior) como uma forma/estratégia de garantir, aos filhos, o status de classe que lhes era garantido pela condição de filhos de grandes proprietários. Portanto, assim como tem ocorrido no RS, bem como em outra regiões do país, na região norte de Mato Grosso, a ascendência econômica, o poder, o status, já não passam, necessariamente, pelo domínio de grandes extensões de terra (nem mesmo pela condição de ser empresário do ramo madeireiro). Ou seja, “os proprietários de terra tiveram que transformar algumas práticas como tentativa de resgatar o prestígio e o poder que a partir dali não poderiam se sustentar somente pela extensão das terras e pelo uso das armas” (p. 77). Ainda, segundo a autora, “na atualidade, essa prática de investimento no capital cultural se repete, ainda que por caminhos e em conjunturas diferentes, na visível escolarização dos agentes de gerações mais recentes” (Op. cit., p. 77). E conclui: “a escolarização se constitui numa das dimensões possíveis que permitem caracterizar modificações nas estratégias de reprodução social da burguesia agrária. Assim, além das modificações das práticas relacionadas ao uso produtivo da terra, existe também a possibilidade de reconversão das posições sociais através da aquisição de um outro tipo de capital: o capital cultural. O investimento nesse tipo de capital pode ser interpretado como um esforço para os agentes reproduzirem-se enquanto força política e econômica” (p. 232). Acredito que esta analogia tenha algum sentido, alguma proximidade, alguma relação com o que se passa na região norte de Mato Grosso.

234 Sousa (2004).

Av. dos Jequitibás, Av. dos Tarumãs, Palmeiras, etc.) e as segundas, levam o nome de flores (ex: Rua das Orquídeas, R. das Avencas, R. das Azaléias, R. dos Lírios, R. das Violetas, etc. )236.

Sinop é uma cidade projetada e planejada com características de um centro urbano, “cidade fabricada” (PASUCH, 2000), ou seja, não se desenvolveu a partir de um núcleo de ocupação antigo, ou então, não passou por etapas mais ou menos longas de evolução e localiza-se numa área de povoamento recente (SOUSA, 2004). O objetivo inicial dos mentores do projeto, quanto ao uso da terra e à produção agrícola, esteve voltado à cultura do café. Iniciativa que não deu certo devido à baixa produtividade, resultado do clima adverso, solo pobre, doenças, etc. Uma segunda tentativa foi a cultura da mandioca, incentivada pela instalação da usina de álcool, Sinop Agroquímica

S/A237. Este projeto também fracassou e muito pequenos proprietários rurais foram

obrigados a “passar adiante” suas propriedades, vendê-las para terceiros (“melhores sucedidos”), para saldarem as dívidas junto aos bancos (financiamentos, empréstimos, etc.).

A partir da década de 1980 as atividades de produção voltaram-se à exploração e à industrialização da madeira. Como havia mão-de-obra disponível, madeiras nobres em abundância, preços e mercado garantidos, Sinop passou a constituir-se sinônimo de

madeira238, tornando-se num dos mais importantes pólos industriais madeireiros do

Estado de Mato Grosso239.

Em conseqüência desta atividade, principalmente pela forma como é

desenvolvida240, um dos grandes problemas enfrentados na região é a questão do meio

ambiente: devastação da floresta e queimadas irregulares, bem como a burla da lei (corrupção): transporte e venda irregulares da madeira, projetos fantasmas de manejo

236 Outro fato que chama a atenção está no fato de algumas obras importantes levarem o nome de pessoas (ainda vivas), no caso, de políticos e/ou pessoas influentes. É o caso da avenida principal da cidade, Avenida Júlio Campos (ex-governador do Estado), originalmente chamada Avenida dos Mognos; Praça Plínio Callegaro (ex-prefeito); Cartódromo Oswaldo Sobrinho Secretário de Educação do Estado); Parque de Exposição Jaime Campos (ex-governador), dentro outros exemplos. Há que se perguntar: por que não foram/são homenageados alguns colonos, aqueles que vieram à frente “amaciar a terra”? (PERIPOLLI, 2002). Interessante, também, que estes últimos, dificilmente são vistos/lembrados como “pioneiros”, “empreendedores”, “destemidos”, nos discursos, falas, escritos, etc., a não para testemunharem a favor do projeto, ou seja, aqueles que se “deram bem”.

237 Sobre o projeto da usina, ver trabalho de Sousa (2004), capítulo III, SAQ - Sinop Agroquímica S/ A.

238 Picoli (2004a), Amazônia: o silêncio das árvores: uma abordagem sobre a indústria de transformação de madeiras traz importante contribuição sobre a questão da indústria de transformação de madeiras na Amazônia, o caso do norte de MT, especificamente de Sinop. Ver também do autor O capital e a Devastação da Amazônia (2006), bem como a contribuição de Sousa (2004), principalmente, capítulo o III , Atividade madeireira de Sinop.

239 Segundo informações obtidas junto ao Sindusmat, Sinop contava, em 2007, com aproximadamente 130 madeireiras cadastradas junto ao sindicato. Nas décadas de 1980 e 1990 os números chegavam a de mais de 400 (quatrocentas).

florestal, uso de notas frias, sonegação de impostos, etc.. Essas irregularidades

resultaram na Operação Curupira (2007)241, o que fez com que muitas madeireiras

fossem fechadas ocasionando, consequentemente, um grande número de desempregados no setor. Muitos destes trabalhadores, sem qualificação, sem escolarização, sem opção de trabalho, viram-se obrigados, mais uma vez, a buscar outra/nova fronteira. Mas, em que pese toda a confiança/esperança aí depositada, qual o futuro destes trabalhadores?