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[...] no capitalismo, a produção é social, mas a apropriação dos resultados da produção é privada. Essa contradição fundamental anuncia o descompasso histórico entre o progresso material e o progresso social. A desigualdade do desenvolvimento se expressa nos desencontros que nos revelam diversidades e não uniformidades da mesma realidade econômica (MARTINS, 1997, p. 94).

É importante frisar que o projeto Sinop, que se desenvolveu, basicamente, sobre a exploração da floresta (madeira in natura) e, consequentemente, sobre a expropriação/exploração/proletarização dos trabalhadores, não se deu de forma pacífica. Pelo contrário, a luta dos trabalhadores, embora não tenha se dado e/ou não venha se dando de forma organizada, é histórica. Portanto, apesar do silenciamento imposto pelo capital, representado pelos grandes grupos econômicos (nacionais e internacionais) que buscam consolidar o projeto neoliberal no Estado de Mato Grosso, a luta em defesa do direito à terra, por parte dos trabalhadores rurais, continua. Mais: a este direito, outros vêm sendo agregados e buscados, tais como: melhores condições de trabalho, melhores salários, saúde e, principalmente, a luta pelo direito a uma educação pública de qualidade242.

As velhas e novas promessas, “terra e trabalho para todos”, o discurso do “progresso”, já não dão conta de esconder as contradições. Os trabalhadores que não se beneficiaram das benesses deste projeto modernizador do campo passaram a compreender – e isso se deve, com certeza, muito à escola – que as realidades sociais, culturais e políticas “constitutivas do nosso mundo são construções humanas”

241 Operação realizada pela Polícia Federal, maio de 2007, no combate à corrupção que atuava no desmatamento ilegal e criminoso da Amazônia.

(ONÇAY, 2006, p. 17). Esta compreensão, afirma a autora, “é o primeiro passo na busca da transformação”. Por isso, não mais na condição de “vítimas”, põem-se à luta. Luta pelo direito que lhes foi negado, principalmente o direito à terra. Neste sentido concordo com Ribeiro (1987, p. 8) quando afirma que a “a luta apresenta também uma

dimensão educativa para o trabalhador, que se faz classe neste processo”243.

A grande maioria da mão-de-obra empregada pelo setor madeireiro em Sinop, carro-chefe da economia, é formada, ainda hoje, por trabalhadores sem qualificação (leia-se: sem escolarização), pobres e sem outra opção de emprego. Moram em casas de madeira, formando pequenas vilas próximas às madeireiras, as chamadas “colônias madeireiras” 244.

Sobre esta realidade acima colocada, vamos fazer algumas considerações. Primeiro, as casas para os empregados morar com suas famílias, isentos de aluguel, água e energia, não quer representar, como muitos empresários tendem passar a idéia, uma forma de aproximação de beneficio, ajuda, etc. do dono do capital (madeireiro) para com os seus operários. Muito pelo contrário. Esta prática representa, de forma escamoteada, uma estratégia de vigilância e de controle do patrão sobre seus

empregados, bem como transformar o local de trabalho num curral eleitoral245.

Segundo, morar na “colônia”, portanto, perto do local de trabalho, na casa do patrão, é uma forma de a empresa manter os trabalhadores sob sua custódia, dependentes; “lembrá-los” que têm uma dívida para com o seu “benfeitor”, pois “moram de favor”. Isto os torna mais obedientes, prestativos, etc. Também evita a “perda de tempo” com transporte, possíveis atrasos (“tempo é dinheiro”); bem como oferece a possibilidade da mulher, e até das crianças (como comumente acontece), trabalharem, buscando aumentar a renda da família. Esta passa a constituir-se, neste caso, em um exército industrial de reserva e o trabalhador, que antes vendia sua própria força de trabalho, “agora vende mulher e filhos. Torna-se um traficante de escravos

243 Importantes contribuições, neste sentido, podem ser encontradas na obra de Ribeiro (1987), Capítulo I, 3.2, A Pedagogia da violência.

244 Picoli e Santos (1998), Educação para a Segurança no Trabalho (relatório), mostram com bastantes detalhes o cotidiano vivido por estes trabalhadores nas madeireiras de Sinop.

245 Segundo Picoli (2006, p. 224), “é comum, antes e depois das eleições, os vestuários da grande maioria ser as camisetas que fazem propaganda dos políticos, geralmente dos partidos e dos candidatos indicados pelo empresário do setor”.

(MARX, 1998, p. 453)246.

E por fim, um aspecto que nos é caro e nos chama a atenção diz respeito à educação escolar destes trabalhadores, ou melhor, à falta dela, ou à baixa escolaridade destes. Como explicar isso? A resposta a esta questão pode ser buscada em Marx e Engels (1978, p. 74 – 75) quando tratam da relação entre educação enquanto formação intelectual, e nível salarial, as relações entre educação escolar e o nível de condição de vida. Segundo estes autores, a classe dominante nunca esteve desejosa por uma educação verdadeira voltada aos interesses das classes populares, pobres: “não pretendemos realçar a absurda contradição segundo a qual a indústria moderna substitui cada vez mais o trabalho complexo pelo trabalho simples para o qual não há necessidade de qualquer formação”. Ou então: “não queremos finalmente realçar que a formação intelectual, se o operário a tivesse, não exerceria influência direta sobre o seu salário”. Em seguida vem: “que a instrução geral depende do nível das condições de vida, e que o burguês entende por educação moral o enfarto de princípios burgueses”. E concluem: “e que afinal de contas a classe burguesa não possui os meios nem o desejo de oferecer ao povo uma educação verdadeira”.

Mais do que os “meios”, o que falta à burguesia é a vontade e, quando se prestam a este “desejo”, o fazem “para evitar a degeneração completa do povo em geral, oriunda da divisão do trabalho, por isso A. Smith recomenda o ensino popular pelo Estado, em doses homeopáticas” (MARX, 2006, p. 418). Em outras palavras, as indústrias madeireiras de Sinop têm caminhado e caminham no sentido de ter em seus quadros, principalmente nos trabalhos onde se executam operações “mais simples” (trator, serra, carga, etc.), trabalhadores, que Marx (2006, p. 417) chama de “indivíduos meio idiotas”. Como entender isso? Isso se deve ao fato de que, segundo MARX e ENGELS (1978, p. 74 – 75) “[...] quanto menor for o tempo de formação profissional exigido por um trabalho, menos será o custo de produção do operário e mais baixo será o preço de seu trabalho, de seu salário”. Ou seja, o trabalhador “ignorante” dá mais lucro à empresa. E, neste caso, basta que se invista o mínimo necessário à sua manutenção, “manutenção de sua vida, à conservação de sua capacidade de trabalho” (MARX & ENGELS, 1977, p. 52).

Há ainda que se acrescentar que, embora esta atividade (extração, beneficiamento,

246 “A degradação dos costumes provocados pela exploração capitalista do trabalho das mulheres e das crianças foi descrita até nos seus últimos pormenores por F. Engels, na sua obra sobre A situação da classe operária na Inglaterra [de 1845], e outros escritores que me basta mencionar aqui” (MARX & ENGELS, 1978, p. 65).

comercialização de madeira), em muitos casos, ainda esteja sendo praticada de forma predatória, à margem da lei e, em alguns casos, com a conivência de órgãos oficiais, há certa tolerância. Esta se deve ao fato de que, ou melhor, pode ser entendida como uma estratégia do Estado no sentido de amaciar as contradições produzidas pelo capital. Em outras palavras, serve como uma forma, não de absorver os excluídos do capital, mas como uma forma de “escondê-los”, aliená-los do processo, evitando-se, assim, que os mesmos possam pôr a nu o processo de exclusão social em que vivem. Isto poderia colocar em xeque o discurso hegemônico, representado pelas classes dominantes, da

imagem do município “próspero” e “progressista”247. Esta forma de lidar com as

contradições nos remete a Engels (1886) quando se perguntava: “o que fazer com os desempregados? Enquanto se avoluma, a cada ano, o número deles, [...]; e quase podemos prever o momento em que os desempregados perderão a paciência e encarregar-se-ão de decidir seu destino, com suas próprias mãos” (In: MARX, 2006, p. 42).

A economia do município, inicialmente baseada na madeira, está, hoje, mais diversificada e conta com uma grande oferta na área de prestação de serviços (oficinas, bancos, faculdades, restaurantes, etc.). Possui três frigoríficos considerados de médio/grande porte voltados ao abate de rebanho bovino, que é de aproximadamente 200.000 cabeças. Das dez grandes empresas de armazenagem e comercialização de grãos, voltadas ao agronegócio, três têm representantes no município: Bunge Alimentos, Cargil Agrícola e Basf.

O município é considerado o maior produtor de arroz de terras altas no país e é destaque na produção de algodão no estado/MT. As propriedades rurais, num total aproximado de 1.000 (mil), podem ser distribuídas, quanto ao tamanho: 200, grandes; 200, médias e 600 pequenas. Estas últimas, as chácaras, estão mais próximas da cidade e formam o chamado “cinturão verdade”, voltadas principalmente ao cultivo de horti-fruti-granjeiros. As médias (sítios) e grandes propriedades (fazendas) estão mais

247 O esforço para a manutenção desta imagem ainda é muito forte e é reproduzida insistentemente, sob as mais diferentes formas, principalmente através dos meios de comunicação (TV, rádio, jornal), de propriedade de alguns poucos empresários. Sousa (2004) traz alguns exemplos/trechos de falas/discursos, usados em diferentes momentos, onde esta idéia fica bem caracterizada: “Sinop: progresso e desenvolvimento”; “a cidade aspira e transpira progresso”; “Sinop corre apara o futuro”; “Sinop: a força do progresso de olho no futuro”; colhemos árvores, plantamos progresso. Sinop, fruto do trabalho de nossa gente”; Sinop: a marca do trabalho”. A Colonizadora Sinop S/A tem, atualmente, seu jornal próprio (CSSA News). Este é distribuído gratuitamente junto aos lugares onde há um maior fluxo de pessoas, principalmente nos supermercados da cidade. As reportagensestão voltadas, exclusivamente, para divulgar histórias de famílias “bem sucedidas” e anúncio de classificados da própria empresa, compra e venda de lotes, casas, aluguéis, etc.

afastadas e servem, basicamente, ao cultivo de monoculturas, como a soja, arroz, milho, algodão – culturas voltadas ao agronegócio. Hoje o município conta com uma capacidade de armazenagem de grãos superior a 650mil toneladas.

Estes poucos números mostram um projeto de colonização que deu certo. A pergunta que cabe, no entanto, é: deu certo para quem? Esta questão se justifica, pois estamos diante de uma “nova versão de guerra declarada pelo modo de produção capitalista. Uma guerra cuja arma mortal é o maior lucro e o menor custo. A esta ordem não importam erros, sofrimentos e miséria” (SILVA, 2000, p. 153). As terras da Amazônia vêm desenvolvendo, exatamente, a este papel: servir ao capital através das monoculturas248.

5 O velho e o novo ideário capitalista

Proponho-me a terminar este texto com uma pergunta: qual o futuro dos trabalhadores do campo na Amazônia norte mato-grossense? Creio que a resposta possa ser encaminhada a partir de alguns indicativos feitos por estudiosos, dentre outros, Speyer (1983, p. 24), onde constata que, ao longo da história do país, determinada atividade de natureza agrícola (ciclos econômicos, monocultura voltada para o mercado externo), é que tem condicionado “a estrutura agrária, assim como a organização social, política e econômica”. É, portanto, neste ou desde este contexto que a educação como um todo, bem como as práticas e as concepções de escola se produzem.

Falando mais especificamente sobre a fronteira amazônica, Celentano e Veríssimo (2007), afirmam que “o avanço da fronteira na Amazônia tem sido marcado pela degradação dos recursos naturais, violência e por um crescimento econômico rápido, porém não-sustentável na maioria dos municípios da região”. Para os autores, “nesse modelo de ocupação, a economia segue o padrão “boom-colapso”. Ou seja, nos primeiros anos da atividade econômica ocorre um rápido e efêmero crescimento na renda e emprego (boom), seguido muitas vezes de um colapso social, econômico e

248Podemos tomar, como exemplo, a atual política agrícola de incentivo às monoculturas voltadas à produção dos biocombustíveis. Para Frei Betto (2008), tudo indica que a expansão dos canaviais no Sudeste do país empurrará a produção a produção de soja (e de outras monoculturas) Amazônia adentro, provocando, ainda mais, o desmatamento da região. Como conseqüência, se agravará, como tem ocorrido historicamente com outras monoculturas, a concentração de terras; a exploração da mão-de-obra do trabalhador (desrespeito aos direitos trabalhista, trabalho escravo...). Ou seja, em vez destas culturas oportunizarem a vida (bio = vida, daí biocombustíveis), estes estarão promovendo a morte (necro= morte, daí necrocombustíveis).