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CAPÍTULO 2 – O CONTEXTO COMO AGENTE CONTRIBUIDOR PARA A

2.1. A Gramática Discursivo-Funcional

2.1.1. Nível interpessoal e nível representacional

Existem, no modelo da GDF, quatro níveis de organização linguística, hierarquicamente ordenados em camadas, que descrevem as funções e os significados dos elementos linguísticos codificados na gramática de uma língua. São o nível interpessoal, o nível representacional, o nível morfológico e o nível fonológico. Esses níveis traduzem as representações conceituais em representações semânticas e pragmáticas, por meio das operações de formulações.

O nível interpessoal está relacionado aos aspectos formais de uma unidade linguística, refletindo o papel da unidade na interação entre os participantes do ato discursivo. É o nível das estratégias empregadas para se conseguir os objetivos comunicativos. Esses aspectos englobam as noções retóricas de toda a estruturação do discurso com a finalidade de representar os conceitos extralinguísticos em forma linguística. Hengeveld e Mackenzie (2008, p. 47) estruturam as relações hierárquicas no nível interpessoal com as seguintes variáveis:

Figura 7: Nível interpessoal

Fonte: (HENGEVELD & MACKENZIE, 2008, p. 49)

Em que:

M Movimento (Move): unidade autônoma de interação relevante para a análise discursiva; expressa uma intenção comunicativa do falante, por exemplo, motivar.

A Ato discursivo (Discourse atc): unidade mínima do comportamento comunicativo, por exemplo, correspondente a uma oração declarativa no M ‘motivar’.

ILL Ilocução (Illocution): ilocução codificada na expressão, por exemplo, tipo de oração declarativa, é codificada em frames ilocucionários abstratos que determinam traços prosódicos, morfológicos entre outros.

PS e PA Participantes falantes e destinatários (P- Participante, P-Speaker, P-

Addressee): os participantes envolvidos na ilocução.

C Conteúdo comunicado(Communicated Content): conteúdo semântico comunicado envolvendo o ato e o modo da informação a ser comunicada, contém a totalidade do que o falante deseja evocar em sua interação com o destinatário.

T Subato de atribuição (Ascriptive Subact): subato em que ocorre a construção do conteúdo por predicação, é a tentativa do falante de evocar uma propriedade.

R Subato referencial (Referential Subact): subato em que o falante registra propriedades para entidades por meio de expressões referenciais, é a tentativa do falante de evocar um referente.

Π Operador (Operator): mecanismo que representa estratégias gramaticais, aplica-se à própria unidade.

Φ Função (Function): mecanismo que representa estratégias gramaticais, que atua entre uma unidade inteira e outras unidades da mesma camada.

Σ Modificador (Modifier): mecanismo que representa a estratégia lexical.

Essas variáveis são intercaladas por símbolos convencionados pela GDF com papéis distintos, em que dois pontos (:) representa que cada variável predica argumentos; colchetes [ ] representam a delimitação das camadas do nível interpessoal; e parênteses ( ) representam a inserção das variáveis no nível interpessoal. Para exemplificar, reproduzimos o exemplo dado por Hengeveld e Mackenzie (2008, p. 49), envolvendo um conteúdo comunicado e uma ilocução lexical.

(1) Honestamente, eu não gosto de você.

 (MI:[(AI:[(FI:DECL(FI):‒honestamente‒(FI))(PI)S

(PJ)A (CI: ‒ Eu não gosto de você ‒ (Ci))](AI))](MI))12

Como se observa, a intenção comunicativa do falante (PI)S em relação ao destinatário

(PJ)A, declarar algo, é representada pelo ato discursivo (AI), modificado lexicalmente pela

ilocução, honestamente, que introduz o conteúdo comunicado(CI), eu não gosto de você.

O nível representacional está relacionado ao processo da designação, exprime os aspectos semânticos, “is thus restricted to the ways in which language relates to the possible worlds it describes13” (HENGEVELD e MACKENZIE, 2008, p. 46). Nesse nível, os

lexemas são introduzidos como representações de categorias semânticas com conteúdo básico, sendo particular de cada língua. Assim como o nível interpessoal, o nível

12 Exemplo do texto original: Honestly, I don’t like you. (M

I:[(AI:[(FI:DECL(FI): ‒ honestly ‒ (FI))(PI)S (PJ)A

(CI: ‒ I don’t like you ‒ (Ci))](AI))](MI)) – Hengeveld e Mackenzie (2008, p. 46)

13 Restrito aos meios pelos quais uma língua se relaciona com os mundos possíveis que esta descreve.

representacional também é organizado em camadas hierárquicas, mantendo o padrão top down, em que o elemento mais alto do nível é o conteúdo proposicional (p), que, por sua vez, contém um ou mais episódios, que contém um ou mais estados de coisa, organizados em propriedade, indivíduo, lugar, tempo, modo, quantidade e razão. Estado de coisa é compreendido como algo que pode ocorrer no mundo real ou mundo imaginário. Nesse nível, as camadas relevantes são definidas segundo as categorias semânticas que designam. Estão estruturadas com as seguintes variáveis:

Figura 8: Nível representacional

Fonte: (HENGEVEL & MACKENZIE 2008 p. 142) Em que:

p Conteúdo proposicional (Propositional Content): constructo mental que não pode ser localizado no tempo, nem no espaço, que pode ser factual, correspondente a conhecimentos ou crenças sobre o mundo real, ou não factual, correspondente a desejos ou expectativas em relação a um mundo imaginário;

ep Episódio (Episode): unidade semântica formada por um conjunto de proposições, quer dizer, conjunto de estados de coisa tematicamente coerente, que demonstram unidade ou continuidade de tempo (t), localização (l), e indivíduo (x);

e Estado de coisa (State-of-Affairs): unidade que inclui eventos e estados, compreendido como algo que pode ocorrer no mundo real ou mundo imaginário, localizados em tempo relativo;

f Propriedade configuracional (Configurational Property): inventário que não tem existência independente e só pode ser avaliada em termos de sua aplicabilidade a outros tipos de entidade, é construída usando categorias semânticas que estabelecem uma relação não hierárquica entre si, que pode ter tipologia variada, incluindo indivíduos (x); e

x Indivíduo (Individual): entidade existente em um mundo real ou imaginário, que pode ser localizado em um espaço.

Exemplificamos essa estrutura organizacional com um enunciado retirado de um texto jornalístico sobre a estiagem que atingiu o Sistema Cantareira em São Paulo, em 2014, recolhido em nosso corpus:

(2) A estiagem secou a represa. (G1.globo)

(ei: [(fi: secarv (fi): (xi:estiagemN (xi))Ag) (xj:represaN (xj))pac] (ei))

A representação inclui os lexemas secar, estiagem e represa, em que ocorre uma combinação de categorias semânticas, entre colchetes, que fornece a descrição composicional de um estado de coisa (ei), incluindo os nomes que designam uma

propriedade (fi), que fornecem a descrição lexical de dois indivíduos (xi) e (xj). As letras

subscritas i e j são co-indexações para a aplicação da variável (f). Em vista disso, percebemos que o modelo prevê que o processo de formulação é formado a partir de um conjunto primitivo originado por meio de combinações de categorias semânticas que são organizadas em esquemas representacionais. Ainda quanto às variáveis que compõem a arquitetura da GDF, registramos que, além de (t) tempo e (l) lugar, o sistema inclui (m) modo, (r) razão e (q) quantidade, que podem se agregar ainda às variaveis (f) propriedade e (x) indivíduo.

Seguindo o sistema topdown, a GDF inclui a codificação morfossintática que representa a “conversão” da configuração dos níveis interpessoal e representacional, registrados no nível morfossintático. Assim sendo, o nível morfossintático processa os aspectos estruturais de uma unidade linguística, que, em conjunto com o nível fonológico, atua na codificação das distinções interpessoais e representacionais. Portanto, alguns fenômenos que ocorrem no nível morfológico são funcionalmente motivados. Por exemplo,

no modelo da GDF, princípios de ordenação de constituintes são motivados por iconicidade; princípios de integridade de domínio, por preservação das relações de escopo. Destacamos que os autores da GDF registram que o modelo “does not make a distinction between a syntactic and a morphological level of analysis, as the principles used in the formation of words are the same as those used in the formation of phrases and clauses14”,

(HENGEVELD e MACKENZIE, 2010, p. 17).

No nível morfossintático, o conjunto de primitivos usados na codificação morfossintática fornece os padrões estruturais, templates, morfemas gramaticais e operadores morfossintáticos apropriados, como se estrururam nesse nível. Do mesmo modo, no nível fonológico, as estruturas dos níveis interpessoal, representacional e morfossintático são codificadas em estrutura fonológica, mantendo a articulação entre os níveis. As regras de expressão apóiam-se em um conjunto de primitivos que contém sons, prosódia, morfemas presos e operadores fonológicossecundários, que alimentam o sistema para a produção de enunciados, seguindo o sistema hierárquico da GDF, segundo Hengeveld e Mackenzie (2010, p. 20).

Assim sendo, apresentamos princípios básicos da GDF que darão suporte ao próximo tópico, que tem por finalidade expor os aspectos contextuais dentro do componente contextual previsto pelo modelo, os quais fornecem elementos para o componente gramatical e, assim, ativam as regras que regem a codificação e a formulação dos enunciados, que são do interesse desta pesquisa.